Está pouco verde? É mesmo assim

Fotografia de Mário Rui André/Lisboa Para Pessoas

O Verão chegou, há mais quente e chove menos. Se passares pelo Parque da Bela Vista, vais notar que está agora mais amarelo, mais seco, e menos verde. Falta de cuidado? Não, é mesmo assim: amarelo no Verão, verde no Outono e Inverno, de várias cores na Primavera. A ideia é poupar água, não por uma questão de forretice mas pelas alterações climáticas.

Quando pensamos num jardim ou num parque, pensamos em verde, em Natureza. Mas, a verdade, é que em muitos parques urbanos a Natureza foi “domesticada” para melhor corresponder aos nossos gostos e necessidades. O que criamos não são espaços verdadeiramente naturais, onde a Natureza pode ser ela mesma, mas áreas ordenadas, onde os ciclos ciclos naturais da vegetação e da água são alterados para que, por exemplo, um relvado esteja verde todo o ano e sempre pronto para o nosso pique-nique.

Na Primavera, essa relva onde nos sabe tão bem estar deveria estar cheia de flores para que abelhas e outros polarizadores não “fiquem sem trabalho”. Sem flores, a sobrevivência destes insectos essenciais ao ecossistema pode estar ameaçada. É, por isso, que por nessa estação do ano já vemos muitas zonas das cidades sem intervenção humana, onde a vegetação cresce à sua vontade e os polinizadores vão aparecendo e desaparecendo, desempenhando os seu trabalhado. Essas zonas são floridas e desenvolvem-se à mercê das regras da Natureza, não das nossas. Parecem-nos áreas descuidadas, vulgo mato – mas chamam-se prados.

O Parque da Bela Vista é um dos parques urbanos onde podemos encontrar um imenso prado de sequeiro, mas existem mais espalhados pela cidade, quer noutros parques urbanos, quer em rotundas ou pequenos canteiros. Quando está verde, tem ovelhas a pastar. Quando tem flores (ou seja, na Primavera), serve para salvaguardar o trabalho dos polarizadores. E quanto é Verão, fica amarelo; o ambiente é mais árido – assim será até às primeiras chuvas.

Fotografia de Mário Rui André/Lisboa Para Pessoas

Porque é que não se rega? Seria demasiado dispendioso, não só em termos de recursos financeiros mas também de recursos aquíferos. Os relvados são mais fáceis de manter em países onde chove com regularidade ao longo do ano. No nosso clima, de tipo mediterrâneo, com uma estação seca e quente, exigem água, um bem precioso e que, com as alterações climáticas e a previsão de Invernos menos chuvosos, poderá tornar-se um bem escasso.

A optimização dos recursos aquáticos é, por isso, fundamental. Um espaço verde não é exactamente o mesmo que um jardim. E os relvados cortados, regados e verdejantes todo o ano podem continuar a existir mas onde faça sentido a sua utilização para pisar, estar, brincar, etc, como é o caso do novo parque urbano na Praça de Espanha. Na Bela Vista, também existe uma área de relvado mas, dada a dimensão deste parque, não faria sentido colocá-lo em toda a sua extensão. A opção por prado de sequeiro, sem rega, é uma solução muito mais natural e que vai mudando ao sabor das estações do ano. Na estação seca, é amarelado, talvez mais triste. Mas os prados não estão sujos nem ao abandono; permitem o funcionamento do sistema biológico, o desenvolvimento do ciclo natural da semente, exigem uma menor necessidade de água e atraem necessários polinizadores e predadores de pragas de árvores.