A bordo do único autocarro da AML onde (em teoria) não dá para usar o passe Navegante

Nas novas Linhas do Mar da Carris Metropolitana, o passe Navegante não é aceite... em teoria. Cada viagem pode custar entre 3,10 e 4,50 €, dependendo se for comprada antecipadamente ou não.

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Nas novas Linhas do Mar da Carris Metropolitana, o passe Navegante não é aceite… em teoria. Cada viagem pode custar entre 3,10 e 4,50 €, dependendo se for comprada antecipadamente ou não.

Fotografia de Lisboa Para Pessoas

Quando o tarifário Navegante foi lançado em 2019, a Área Metropolitana de Lisboa (AML) experienciou uma simplificação sem igual ao nível da bilhética – de repente, passou a existir um passe (Navegante Metropolitano) que, por apenas 40 €/mês, permite andar de forma ilimitada em todos os transportes públicos de todos os 18 municípios da AML. Autocarros, metros, barcos e comboios – tudo integrado na mesma mensalidade, sem surpresas. Três anos depois, há agora um autocarro onde o passe não é admitido, podendo abrir precedentes e dúvidas sobre a simplificação tarifária conseguida.

Trata-se da nova linha 4643 da Carris Metropolitana (CM), que liga Montijo e Sesimbra quatro vezes por dia (duas em cada sentido) durante os meses de Verão – existe um autocarro a partir do Montijo às 8h30, outro a sair de Sesimbra às 13h, outro a deixar o Montijo às 14h30 e, por fim, um a sair de Sesimbra às 18h30.

Por ser uma linha que só circula no Verão e que oferece uma ligação de longa distância à praia, a TML chamou-lhe Linha do Mar. Segundo a página de perguntas e respostas da CM, as Linhas do Mar são “linhas intermunicipais, que se destinam exclusivamente a serviços turísticos, para servir as praias da área metropolitana de Lisboa, com percursos iguais ou superiores a 30 km, sem paragens ou viagens intermédias, e normalmente durante o período de Verão”. De momento, e porque a CM ainda só está lançada na Margem Sul, existem apenas duas Linhas do Mar: além da 4643, está prevista a 3650, que ainda não se encontra activa e que irá ligar Moita a Sesimbra.

Segundo a mesma página do site da CM, o passe Navegante – seja na modalidade Municipal (30 €) ou Metropolitana (40 €) – não é válido nas Linhas do Mar; só as crianças até aos 12 anos é que podem utilizar o seu passe gratuito Navegante 12. De resto, aplica-se apenas o tarifário ocasional da Tarifa 3, ou seja, cada viagem numa Linha do Mar (como a 4643) custa 3,10 € se comprada antecipadamente (Navegante Pré-Pago ou zapping) ou 4,50 € se adquirida a bordo, independentemente da distância. Assim, se uma pessoa do Montijo quiser ir a Sesimbra à praia durante uma semana de 4643, irá pagar pelo menos 21,7 € – se tiver um cônjuge e dois filhos, a despesa poderá ficar nos 86,8 € para esses sete dias e só para essa linha de autocarro (a opção familiar do Navegante Metropolitano custa 80 € para um mês inteiro e para toda a AML).

O Lisboa Para Pessoas questionou a TML, responsável tanto pela CM como pelo sistema de bilhética Navegante, sobre se o tarifário das Linhas do Mar era mesmo assim, e a resposta foi que sim. A TML justificou a exclusão das Linhas do Mar do Navegante por se tratarem de “ligações de longa distância à praia de carácter sazonal”, que já tinham anteriormente um “tarifário especial”. Disse ainda a empresa que só é admitido o passe Navegante 12 permitindo que “a viagem em família não seja sobrecarregada monetariamente”. Sobre uma eventual exclusão do passe Navegante também das Linhas Turísticas – neste momento, ainda não existe nenhuma lançada –, a TML disse apenas que “o tarifário a aplicar às Linhas Turísticas, com características também especificas, será dado a conhecer em breve”.

A linha 4643 da Carris Metropolitana não é nova e resulta da antiga carreira 440 da TST, que também só existia durante a época balnear e que ligava o Montijo a Sesimbra. Em 2014, pelo menos, uma viagem de ida e volta nesta linha custava 7,15 € ou 3,60 € se fosse só uma ida. No Lisboa Para Pessoas, decidimos experimentar a 4643 numa manhã de sábado que não convidava muito à praia. Percebemos que a viagem que deveria demorar cerca de 1h45 durou quase duas horas, com a chegada a Sesimbra a acontecer por volta das 9h30. Mas percebemos também que, no que respeita ao tarifário definido para as Linhas do Mar, parece existir uma diferença entre a teoria e a prática.

Na prática, o passe funciona

Conseguimos apanhar a 4643 numa paragem onde a mesma já deveria ter passado dois ou três minutos antes – tivémos sorte. O autocarro vinha vazio, o que nos levou a confirmar junto do motorista se se tratava mesmo da Linha do Mar (tínhamos imaginado um ambiente mais cheio e festivo). Vazio seguiu viagem ao longo do Montijo até sairmos para a auto-estrada e voltarmos a entrar na urbanização; houve um passageiro que entrou na Quinta da Fonte e que usou o autocarro para fazer apenas algumas paragens. Na mesma zona, um casal apanhou a linha para de facto ir à praia (o guarda-sol e o vestuário balnear denunciou-o).

Só não muito longe de Sesimbra, em Santana, é que o autocarro encheu relativamente; ainda assim, não chegámos a ser mais de 10 passageiros no “pico” de procura. Todos terão passado o passe Navegante e seguido viagem. Quem tentou comprar bilhete a bordo, desistiu ao saber que custaria 4,50 €; uma senhora mais idosa pediu ao motorista para sair na paragem a seguir porque achava que a 4643 era uma carreira local e, por isso, com um tarifário mais acessível (terá apanhado o primeiro autocarro que lhe apareceu à frente).

Fotografia de Lisboa Para Pessoas

Em resumo, houve passageiros que poderiam ter usado a 4643 e que não usaram por causa do tarifário, e o passe Navegante funciona quando não deveria ser aceite. Também nós conseguimos usar o passe (a modalidade Navegante Metropolitano) nesta Linha do Mar. Quando questionado por nós no início da nossa viagem se o passe era aceite, o motorista mostrou desconhecer o que dizia o site da Carris Metropolitana sobre a tarifa específica da linha que estava a operacionalizar, referindo-nos que para ele só interessava o que o validador indicava – se dava um sinal sonoro de estar tudo bem, então é porque estava. A única informação que tinha é que a tarifa de bordo ali custava os 4,50 € – era isso que tinha para dizer às pessoas; e dizia, recomendando-lhes ao mesmo tempo o passe.

No final da viagem, já chegados a Sesimbra, voltámos a interpelar o motorista para saber se era normal a aparente baixa procura da linha 4643; responde-nos que o dia não estava de praia e que não tem grande conhecimento de causa, mas que tinha feito a mesma linha no dia anterior e que tinha tido um pouco mais de passageiros. “No final, há de haver alguém a pagar a gasolina”, diz-nos, como quem sugere que que só está ali mesmo para conduzir o autocarro e não se preocupar com mais nada.

Há mais linhas da CM a chegar a praias (nomeadamente Linhas Próximas e Longas); e o critério para chamar “Linha do Mar” a uma determinada carreira e aplicar-lhe um tarifário distinto terá a ver com a longa distância que percorre; o intuito das Linhas do Mar é mesmo aproximar do mar populações que estão longe deste. Mas ao mesmo tempo que estas linhas procuram ter um lado de serviço público, a TML parece querer conferir-lhes ao mesmo tempo um carácter turístico. E este dilema será difícil de resolver. Há na AML diversos serviços turísticos, desde os autocarros Sightseeing ao teleférico do Parque das Nações, sem esquecer o eléctrico turístico de Sintra entre a vila e a Praia das Maçãs. Em todos eles, o Navegante não é válido, até porque muitos deles são operadores privados.

Fotografia de Lisboa Para Pessoas

Mas a 4643 é diferente. A Carris Metropolitana é um operador público que nasce para prestar um serviço público de transporte rodoviário na AML, oferecendo uma solução de mobilidade às populações residentes nos 18 concelhos. Mesmo podendo as Linhas do Mar ter uma componente turística, elas podem servir as pessoas dos territórios por onde passam, até porque quem espera numa paragem quer ir rapidamente de A para B e, em última análise, com um passe mensal não deveria importar se o autocarro que vão apanhar é uma Linha Próxima ou uma Linha do Mar, isto é, se tem um tarifário mais acessível ou mais caro. Por outro lado, existem linhas da própria Carris Metropolitana que, não sendo turísticas, têm tido uma enorme procura junto de turistas, como a que permite chegar ao Cristo Rei. Também ao fim-de-semana a Fertagus se enche de pessoas que de Lisboa querem chegar às praias de Setúbal, num percurso de mais de 40 km. Ou em Lisboa o eléctrico 28 ou o Elevador da Glória tornaram-se nos últimos anos atracções turísticas, servindo ao mesmo tempo a população local.

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