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Uma oportunidade perdida

Opinião.

Na Semana Europeia da Mobilidade, a Câmara de Lisboa encerrou uma artéria tão insignificante da cidade que os resultados estiveram à vista: fraca adesão. Moedas podia ter usado o pretexto desta Semana Europeia para testar um encerramento temporário da Avenida da Liberdade.

Fotografia de Lisboa Para Pessoas

Durante todos os domingos deste Verão, entre Junho e Agosto, a Câmara do Porto encerrou ao trânsito quarto quarteirões da Avenida Rodrigues de Freitas, no Bonfim. Devolveu-se a rua às pessoas, que, em pleno asfalto, puderam nela encontrar actividades lúdicas para preencherem os dias quentes. A iniciativa, intitulada “A Rua é Nossa”, tinha sido lançada pela autarquia portuense durante o Verão de 2020, em plena pandemia, na altura, abrangendo várias ruas da cidade. Neste domingo de Semana Europeia da Mobilidade, o Porto voltou a fechar a Avenida Rodrigues de Freitas aos carros.

Um pouco mais abaixo, em Coimbra, a principal rua de comércio da cidade, a Rua de Sofia, em plena Baixa, ficou sem carros durante este sábado para celebração da Semana Europeia da Mobilidade. Diversas actividades ocuparam os asfalto entre as 9 e as 18 horas; as pessoas aderiram e o comércio também. Note-se que a Rua de Sofia já tinha ficado sem carros durante um dia em Junho, numa iniciativa pedida por uma associação de comerciantes local. Também neste sábado a Ponte de Santa Clara, uma das principais travessias do Mondego, ficou sem carros; e neste domingo foi a central Avenida João das Regras a ficar despedida de veículos e tomada por pessoas.

“A Rua É Sua” na Avenida da Liberdade em 2019 (vídeo de CML, captura de ecrã por Lisboa Para Pessoas)

Noutros tempos, em 2019, a Câmara de Lisboa mostrava ambição e, numa iniciativa inédita a nível nacional, promovia o encerramento ao tráfego automóvel de uma das principais avenidas da cidade no último domingo de cada mês. A Avenida da Liberdade ficava sem carros no eixo central entre a Rua Alexandre Herculano e os Restauradores, sendo permitida a circulação apenas nas laterais. O sucesso da iniciativa foi qual que, sempre que a Avenida ficava sem carros, centenas de pessoas enchiam-na, participando nas diversas actividades recreativas oferecidas. Havia mercados biológicos, feiras de artesanato, insufláveis e outras actividades a pensar nas crianças, desporto, música, bancas de comida… e outras atracções.

O “A Rua É Sua” foi promovido na Avenida da Liberdade entre Maio e Dezembro, sempre no último domingo do mês. O evento era comunicado nos canais da autarquia e também na comunicação social, mas o facto de ter uma regularidade terá sido também uma das chaves do sucesso – as pessoas sabiam que era no último domingo do mês que a Avenida era delas. Outro factor de sucesso foi a iniciativa acontecer numa artéria central, por onde as pessoas passam e que as pessoas sabem onde fica.

Se perguntar ao leitor se sabe onde é a Alameda Edgar Cardoso, provavelmente o leitor não saberá responder. Terei de dar referências como ser ao lado do Parque Eduardo VII e da Estufa Fria, ou ser a alameda que serve o terminal rodoviário do Marquês de Pombal. E, mesmo assim, para o leitor poderá não ser imediato. É uma alameda que passa despercebida e por onde as pessoas geralmente não passam de forma consciente. Mas foi essa alameda insignificante que a Câmara de Lisboa decidiu encerrar neste domingo, a propósito da Semana Europeia da Mobilidade. Os autocarros suburbanos foram desviados e a rua foi ocupada por uma “feira de mobilidade”, com bancas de artesanato, alguma venda de comida de rua e stands da autarquia, das empresas de mobilidade da cidade, como o Metro de Lisboa, a EMEL e a Carris, e de operadores privados de mobilidade suave partilhada, como a Lime e e a Bolt. Em montagens e desmontagens, a realização desta feira custou pelo menos 8,3 mil euros à autarquia – as montagens e desmontagens do “A Rua É Sua” na Avenida da Liberdade custaram entre 9,2 mil euros e 18,2 mil euros por edição.

Fotografia de Lisboa Para Pessoas

Mas faltaram as pessoas. Fotografias partilhadas nas redes sociais e testemunhos de alguns participantes comprovam uma fraca adesão, em comparação com os encerramentos já promovidos da Avenida da Liberdade. Numa Semana Europeia em que se procura sensibilizar a população para a “necessidade da mudança de comportamentos relativamente à mobilidade, em particular no que toca à utilização do automóvel particular”, a autarquia de Carlos Moedas tinha aqui uma oportunidade para mostrar que a polémica da Avenida da Liberdade não é uma questão ideológica e sinalizar um compromisso com as metas modais e climáticas com as quais Lisboa se comprometeu – ser neutra em carbono e reduzir a quota do automóvel em 28% até 2030.

Moedas podia, sob pretexto de uma Semana Europeia de Mobilidade, ter testado o encerramento da Avenida da Liberdade aos domingos antes da aplicação da proposta aprovada no início deste ano pela maioria do executivo camarário; Moedas podia ter mostrado que não é contra o fecho e que tem apenas uma forma diferente de fazer as coisas. Pegando no repto lançado pelo Vereador Miguel Gaspar (PS), o actual Presidente da Câmara poderia activar todos os sensores ao dispor do município, como sensores ambientais, dados de transações Multibanco nas imediações e localização de telemóveis, para fundamentar, com dados concretos, uma eventual abertura da Avenida da Liberdade às pessoas aos domingos (ou, pelo menos, no último domingo de cada mês como se fez em 2019).

Poluição baixava na Avenida da Liberdade nos dias sem carros (via CML)

E não, ninguém quer ir a uma feira de mobilidade numa alameda que não sabe onde fica, sem saber o que lá encontrar. A divulgação desta feira por parte da autarquia foi fraca, o que também terá contribuído para o seu insucesso; mas há um detalhe importante que vale a menção: o “A Rua É Sua” na Avenida da Liberdade resultava porque as pessoas queriam usufruir da Avenida sem carros, porque tinham várias actividades lúdicas lá e não por causa de bancas de empresas de mobilidade (eram um add-on).

O encerramento temporário de avenidas aos domingos não é incomum noutras cidades europeias, onde se procura promover uma diminuição dos índices de poluição atmosférica (há mais de 5000 mortes por ano em Portugal relacionadas com a poluição atmosférica) e uma transição energética e sobretudo modal. Em Lisboa, o regresso da iniciativa “A Rua É Sua” foi aprovada em reunião de Câmara no passado mês de Junho, na sequência de uma proposta – mal amanhada, há que admiti-lo – do Livre, mas que tinha um propósito que não seria bom de descurar. Ainda não sabemos se, como e quando será posta em prática.

Lisboa, que noutros tempos mostrava ambição, fica agora atrás de tudo e de todos. Atrás do Porto, que continuou o seu programa “A Rua É Nossa” com o encerramento de uma avenida durante todo o Verão e também na Semana Europeia da Mobilidade. Atrás de Coimbra, que fechou três artérias centrais e importantes da cidade neste fim-de-semana. Atrás também de Oeiras, que fechou toda a Avenida Marginal neste domingo de manhã aos carros para uma corrida familiar.

P.S. – a Câmara de Lisboa tem um inquérito onde podemos dar a nossa opinião sobre as actividades promovidas pela própria nesta Semana Europeia de Mobilidade.