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Uma casa-de-banho ambulante para alertar para a falta de sanitários públicos em Lisboa

Preocupados com a falta de casas-de-banho públicas e gratuitas em Lisboa, Marta e Francisco criaram um sanitário portátil e disponibilizaram-no em várias praças da cidade de Lisboa. “A situação dos sanitários públicos em Lisboa está mesmo grave. Isto é um problema de salubridade do espaço público. A cidade cheira a mijo”, alertam.

Fotografia LPP

Em Setembro, Marta e Francisco encheram a Praça Paiva Couceiro, na Penha de França, em Lisboa, com várias cadeiras, com o intuito de destacar a carência de espaços para sentar sem a obrigação de consumo. Em particular, manifestaram a sua insatisfação quanto à remoção de mesas e cadeiras pela Junta de Freguesia durante a pandemia de Covid-19. O protesto, pelo seu carácter invulgar, captou a atenção da imprensa, das autoridades (que o interromperam) e também das entidades municipais, como a Câmara e a Junta. Dias depois, o mobiliário em falta na Paiva Couceiro foi reposto. Mas Marta e Francisco não se sentaram à espera. 

A sua preocupação não se limita à escassez de lugares para sentar e estar; alarga-se a toda  a falta de infraestrutura pública, de acesso e utilização livre, nas cidades. Assim, decidiram olhar agora para a problemática das casas-de-banho públicas. “A situação dos sanitários públicos em Lisboa está mesmo grave”, diz Marta. “Isto é um problema de salubridade do espaço público. A cidade cheira a mijo, remata.

Em digressão pela cidade, em protesto

A casa-de-banho que os dois jovens criaram é constituída por uma estrutura em madeira, forrada com um pano, que confere a privacidade necessária. No cimo, há um “telhado” vermelho e, nas “paredes” exteriores, encontramos dois poemas e dois conjuntos de “azulejos”. No interior, há uma cadeira com uma tampa de sanita e as necessidades são feitas para um balde onde encontramos um composto natural. “Queríamos que esta casa-de-banho funcionasse mesmo e fomos buscar inspiração às casas-de-banho que se usam em campismo. Desenhámos uma sanita com um balde e pesquisámos que composto usar para tratar os dejectos”, explica Francisco. “Estamos a usar folhas de eucalipto, terra, ramos e serradura”, acrescenta Marta. “Também tivemos conversas com muita malta das obras que nos ensinou as estratégias que eles têm.” 

O que é certo é que a casa-de-banho construída por Marta e Francisco funciona para as necessidades fisiológicas. “Cheira bem, limpa bem, é higiénico. Insalubre não é isto, é as autarquias não darem casas-de-banho. E é funcional: as pessoas estão a usá-la porque precisam, por isso resulta”, explica Francisco. “Mas isto não é nenhum modelo para se replicar. Isto é uma irritação, é um protesto.” Depois de fazerem as suas necessidades, os utilizadores deste WC “pop-up” tinham lá fora sabão, água e uma toalha para lavar e secar convenientemente as suas mãos. “A casa de banho é, ao mesmo tempo, um chafariz e um sítio para lavar as mãos. Onde é que se lavam mãos no espaço público? Muitas vezes até tens casas-de-banho e chafarizes, mas não tens a cena básica que é sabão.”

O grupo, que no Instagram assina como @infraestruturapublica, andou com a casa-de-banho que construiu de um lado para o outro na semana passada. Primeiro, na Paiva Couceiro, onde só existe casa-de-banho no quiosque, sendo necessário consumir neste local. Depois, na Alameda, junto à Fonte Luminosa – aqui existiam dois sanitários públicos, mas resta apenas um, que encerra às 16 horas. E, por fim, no Martim Moniz, no Rossio e na Praça do Comércio. Um sanitário ambulante para “apelar a que haja casas-de-banho públicas, abertas todos os dias da semana, com horário que seja bem pensado e regular”, diz Francisco. “Viemos hoje para a Alameda fazer serviço público das quatro até às seis, porque o sanitário que aqui existe fecha às quatro.” Para a dupla, este horário não faz sentido. “Às 16 ainda estás no trabalho. E quando podes ir para a rua, conviver, passear, estar com amigos, já tens a infraestrutura fechada. As casas de banho fazem com que o espaço público seja usado. Quando tens uma casa-de-banho podes estar aqui a frequentar, não é? Não é um espaço meramente de passagem”, explica Marta. “Se estiveres num café ou num hotel, tens uma casa-de-banho. Mas não há uma casa-de-banho só para um cidadão que queira estar no espaço público.

Levantamento histórico

Fotografia LPP

“Se queremos falar sobre este tema, temos de o compreender e saber qual é o estado actual, não é?”, explica Marta, aludindo ao trabalho invisível deste grupo. Ao longo de vários meses, os dois activistas fizeram um levantamento dos sanitários públicos existentes em Lisboa, com foco especial em seis das freguesias centrais da cidade. O resultado é um documento que resume donos, preçários, horários e condições e que dá uma ideia geral do panorama sanitário em Lisboa. “Percebemos que existem disparidades de umas freguesias para outras. Nuns lados é 10 cêntimos, noutros é 50, noutros é gratuito. Quem é que põe esses preços? Quem é que são as entidades que decidem”, questiona Francisco. “E há ainda a dificuldade de conseguir um recibo numa casa-de-banho destas. Damos o dinheiro e não sabemos para onde é que ele vai parar. Conseguimos um recibo num WC no Cais do Sodré, em que é uma concessão, uma empresa chamada Controlo de Passagem. Dão-te o recibo dos 50 cêntimos, mas se formos a uma outra casa-de-banho não te dão. Não há.”

Para fazer este levantamento, exploraram arquivos de fotografias antigas para perceberem de onde desapareceram sanitários. “Havia na Praça do Comércio, temos fotografias de casas-de-banho antigas. Já não existem. Havia no Jardim Cesário Verde, em Arroios, já não existem. Havia no Rossio, já não existem.” O caso do Rossio é interessante. “Nós demorámos muito tempo a tentar perceber onde é que elas existiam, porque não há quase nenhuma documentação. Até que encontrámos umas fotos onde se consegue ver que eram casas de banho subterrâneas e em conversa com trabalhadores até nos disseram que elas foram só tapadas. Ou seja, a infraestrutura ainda existe, mas elas foram só tapadas a cimento”, conta Francisco.

Parte do levantamento feito pelos jovens (fotografia LPP)

Ao levantamento histórico, juntaram várias fotografias suas a documentar o estado de muitas das infraestruturas que ainda existem. “Temos fotografias das condições destas casas-de-banho. Às vezes até existem sanitários, mas não estão em boas condições. Estão com bolor, estão com humidade, chove lá dentro, os autoclismos estão avariados…” E mais: “Chegamos a ver casas de banho que cheiram mal e que tu assumes logo que cheiram mal porque não estão limpas, mas percebemos a falar com os funcionários que cheiram mal por as condições de esgoto serem tão antigas e precárias. A casa de banho está limpíssima, mas a senhora da limpeza não consegue metê-la a cheirar melhor”, conta Marta. 

Aproveitando este processo de visitas aos espaços, também aproveitaram para falar com trabalhadores destes sanitários públicos. “Percebes que têm de estar lá o dia todo sem condições. Muitos deles trazem as suas próprias cadeiras porque as cadeiras que lhes dão não são confortáveis, estão partidas ou são de plástico. Têm quase sempre um rádio ou um livro, porque é um trabalho que exige tempo.” “Percebes que é um trabalho muito pouco valorizado, porque, para além destas condições, estão a recibos verdes não há um ano, mas há 10, 15, 20 anos”, complementa Francisco.

Sanitários dignos e bonitos

A dupla contesta a existência de sanitários públicos como um equipamento associado ao consumo ou a uma concessão publicitária. Na Alameda, por exemplo, está a ser montado um novo WC público pela JCDecaux, a empresa que ganhou o concurso público para explorar os espaços publicitários em toda a cidade de Lisboa – que inclui 75 sanitários públicos, que são também outdoors, e que serão de acesso pago (10 cêntimos). “Esses WCs da JCDecaux são contentores, nem sempre são inclusivos (a cadeira-de-rodas da minha avó não vai lá dentro) e alguns estão sempre postos assim em sítios que ninguém quer usar”, diz Marta. “Vão ver fotografias de casas-de-banho de Belém, por exemplo; das casas de banho feitas antigamente de tijolo, cimento e pedra. Eram feitas para durar. Faziam parte dos edifícios. Estamos também a lutar por infraestruturas bonitas, bem desenhadas, bem pensadas.”

No sanitário que construíram, Marte e Francisco tentaram replicar essa exigência. “A nossa casa-de-banho tem mesmo a forma de casa, com telhado do tipo vermelho de tijolo, para lembrar que antigamente as casas-de-banho antigamente eram construídas como uma preocupação e não como uma despreocupação”, aponta. “Estes contentores são espaços onde não nos sentimos com vontade de entrar. Temos histórias de pessoas que ficaram presas ou que se magoaram. Ainda ontem houve uma senhora que nos contou que uma amiga tinha ido à casa-de-banho da Paiva Couceiro, que é assim em contentor; essa amiga entrou mas depois não conseguia sair e esteve lá umas várias horas. Não sei como é que isso é possível sequer…”

Áreas públicas como a Paiva Couceiro ou a Alameda reúnem diariamente muitas pessoas mais velhas que ali se encontram para jogar às cartas. Sentam-se nas mesas que a cidade lhes disponibiliza, mas não têm uma resposta pública e gratuita para as suas necessidades fisiológicas. Ontem, na Paiva Couceiro, falámos alguns destes velhotes que nos contaram que a casa-de-banho está lá mas muitas vezes está avariada, que põem os 10 cêntimos mas a máquina come aquilo. E vão fazer as necessidades atrás das árvores, o que não é nada bom para a higiene do espaço”, refere Marta. “Não é caridade, nem luxo ou dar um sanitário público aos cidadãos. Isto é uma obrigação dos municípios, das freguesias, das empresas de transporte.”

Fotografia LPP

Se formos a um grande terminal de transportes – por exemplo, ao Campo Grande ou o de Sete Rios – o cheiro a urina é frequente em muitos cantos e recantos por falta de WCs adequados na zona. Motoristas de autocarros e taxistas também têm necessidades fisiológicas, lembram os dois jovens. “Se vais a um centro comercial, ninguém te põe em questão o uso das casas-de-banho. Já és cliente. Mas se estás no Metro e já és cliente, porque é que não tens uma casa-de-banho? Como é que o Metro não te dá esse serviço visto que pagas?”, questiona Francisco. “As estações de Metro têm sanitários, mas ou estão simplesmente fechados ou têm lá a dizer que estão encerradas temporariamente.”

Marta e Francisco esperam que este sanitário ambulante ajude a despertar os governos locais para esta problemática, e também a consciência da população em geral. Através da página de Instagram @infraestruturapublica querem continuar a chamar à atenção para a importância de equipamentos públicos. “As autarquias não precisam de vir com investimentos malucos em termos de dinheiro, de tecnologia smart e de sensores. Pedimos infraestruturas normais, básicas, que funcionem.”