O relatório preliminar do GPIAAF sobre o descarrilamento do Elevador da Glória diz que o cabo que cedeu não respeitava as especificações da Carris nem estava certificado para transporte de pessoas. A transportadora já respondeu e anunciou um despedimento. Que outras novas informações existem sobre este tema?

O trágico descarrilamento do Elevador da Glória conheceu novos desenvolvimentos nesta segunda-feira, 20 de Outubro, com a divulgação do relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF).
O documento, que sucede à nota informativa que tinha sido divulgada poucos dias depois do acidente de 3 de Setembro, apresenta as primeiras grandes conclusões da investigação que está a ser realizada pelo GPIAAF ao descarrilamento que causou 16 mortos e cerca de duas dezenas de feridos, entre portugueses e estrangeiros de várias nacionalidades.

O relatório agora conhecido indica o seguinte:
- O cabo que cedeu no elevador da Glória “não estava conforme” as especificações da Carris nem “estava certificado para utilização em instalações para o transporte de pessoas”. O cabo também “não era indicado para ser instalado com destorcedores nas suas extremidades”, como é o caso do sistema do Elevador da Glória;
- A utilização de cabos “desconformes” resultaram de falhas no processo de aquisição do cabo pela Carris e nos “mecanismos organizacionais de controlo interno”, que, por sua vez, “não foram suficientes ou adequados para prevenir e detetar tais falhas”. E a empresa de manutenção, a MAIN, poderá não ter cumprido devidamente o contrato;
- Cabos iguais ao que estava em uso no dia do acidente estiveram em utilização durante 601 dias no Elevador da Glória e 606 dias no Lavra, sem incidentes. Por isso, ”não é possível neste momento afirmar se as desconformidades na utilização do cabo são ou não relevantes para o acidente” que aconteceu no passado dia 3 de Setembro, após 337 dias de utilização. É certo para a investigação que “houve outros factores que tiveram forçosamente de intervir”;
- “Entre diversos técnicos e trabalhadores” da Carris “ligados aos ascensores”, “havia a perceção de que a segurança do sistema dependia inteiramente do cabo e que o sistema de freio não era eficaz para imobilizar as cabinas sem o cabo. Por este motivo havia um elevado cuidado no controlo do cabo”;
- A zona onde o cabo rompeu não podia ser inspecionada visualmente sem desmontagem da zona de fixação desse cabo. E “uma análise macroscópica das extremidades dos cordões rompidos evidencia roturas progressivas, portanto, ocorrendo gradualmente ao longo do tempo, e de diversos tipos”;
- No dia do acidente, tinham sido realizadas 53 viagens no Elevador da Glória com uma ocupação média de 22 passageiros na primeira cabina e de 17 passageiros na segunda cabina, sendo que a lotação máxima de 42 passageiros foi atingida em duas viagens na primeira cabina e em uma viagem da segunda cabine;
- O primeiro embate ocorreu a cerca de 41-49 km/h, 33 segundos após a preparação da viagem e 20 segundos após o início do movimento;
- O Elevador da Glória está excluído da aplicação do Regulamento europeu nº 2016/424 e do Decreto-Lei nacional nº 34/2020, “resultando assim em continuarem a não estar sob a supervisão do IMT”.
O relatório preliminar do GPIAAF tem 35 páginas e pode ser lido em baixo. A versão final do documento só será divulgada dentro de um ano. Além da investigação do GPIAAF, decorre uma investigação paralela e independente, pedida pela Carris.
As reacções
A Carris que, em comunicado, reagiu ao documento do GPIAAF:
- “Não é possível, neste momento, afirmar se as desconformidades na utilização do cabo são ou não relevantes para o acidente”;
- O processo de aquisição dos cabos, “com alegadas inconformidades, que condicionaram todo o processo de substituição dos cabos, ocorreu em mandato anterior ao do presente Conselho de Administração” (*);
- A manutenção é assegurada há mais de 20 anos por um prestador contratado, a MAIN, que é “reconhecida pela DGEG (Direção-Geral de Energia e Geologia), o que significa que fez prova de todos os requisitos de capacidade e habilitação constantes do regime legal aplicável”;
- O alegado não cumprimento do contrato pela MAIN “nunca foi reportado pela Direção de Manutenção do Modo Elétrico, nem pelo Gestor do Contrato”, acrescentando que “de momento estão a ser apuradas as respetivas responsabilidades, sendo que o Diretor de Manutenção do Modo Elétrico foi, entretanto, demitido”;
- Salienta que este relatório é ainda preliminar, devendo “ficar bem claro que este documento apresenta informação ainda incompleta”, e por isso aguarda o relatório final. A empresa compromete-se a analisar e implementar formalmente quaisquer recomendações do GPIAAF;
- Sublinha que “o GPIAAF reitera que o nosso guarda-freio André Marques fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar o acidente”;
- Sobre a questão do IMT, a Carris diz que, “enquanto mero operador”, “não aceita que se encontra na sua exclusiva responsabilidade os aspectos relativos à segurança da operação dos ascensores”. A transportadora entende que a “regulação técnica e respectiva supervisão do Ascensor da Glória deve incumbir muito claramente à entidade da administração indirecta do Estado com vastas e históricas atribuições nesta matéria”, que é o actualmente o IMT, e que já assume essas competências no Elevador de Santa Justa e no Ascensor da Bica.
- Lembra que “tem em curso uma auditoria externa independente às causas do acidente, cujas conclusões serão relevantes para uma apreciação mais detalhada da presente investigação do GPIAAF”.
(*) o processo de aquisição do cabo foi iniciado em Março de 2022, o actual Conselho de Administração da empresa, liderado por Pedro Bogas, foi viabilizado pela Câmara de Lisboa em Maio desse ano. Os cabos desconformes começaram a ser utilizados em Dezembro de 2022.
Carlos Moedas, Presidente da Câmara de Lisboa, reeleito no passado dia 12 de Outubro, comentou à SIC que “ao contrário da politização que alguns fizeram durante a campanha”, o relatório do GPIAAF “reafirma que a infeliz tragédia do elevador da Glória foi derivada de causas técnicas e não políticas”.
Já os vereadores do PS na Câmara de Lisboa escrevem, num comunicado, que “não é admissível” que as consequências de um acidente com vítimas mortais e feridos num equipamento público ”se limitem a sanções intermédias ou a um mero passa-culpas”. “Depois de a empresa ter garantido publicamente que todos os procedimentos de manutenção tinham sido cumpridos, o relatório vem agora revelar falhas e negligência inaceitáveis num equipamento público sob responsabilidade municipal”, indicam os socialistas. “Perante a gravidade dos factos apurados, o PS exige que sejam assumidas as devidas responsabilidades, sem exceções nem encobrimentos.”
Os socialistas querem a demissão de Pedro Bogas: “Se o presidente do Conselho de Administração não apresentar a sua demissão, cabe ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa tomar essa decisão, assumindo a responsabilidade política que lhe compete enquanto tutela da empresa”.
Por sua vez, o BE, através da sua vereadora na Câmara de Lisboa, Beatriz Gomes Dias, apresentou um requerimento “exigindo esclarecimentos e acções imediatas” na sequência do relatório preliminar do GPIAAF. “O relatório revela falhas gravíssimas na manutenção, supervisão e segurança do sistema, incluindo a utilização de cabos não certificados, métodos empíricos de fixação sem controlo de qualidade, ausência de supervisão técnica independente e atuação ineficaz dos sistemas de travagem”, argumentam.
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O último mês
Uma reportagem da RTP, emitida no programa A Prova dos Factos a 3 de Outubro – um mês após o descarrilamento –, revelou falhas da Câmara de Lisboa e da Carris no apoio a vítimas e familiares do acidente. A denúncia contrasta com a versão de Carlos Moedas, que no mesmo dia, durante uma acção de campanha eleitoral, afirmou aos jornalistas que a sua equipa tinha contactado “todas as famílias”. Horas depois dessas declarações, o Departamento de Comunicação da Câmara esclareceu à RTP que “todos os familiares das vítimas do acidente da Glória que pediram para ser recebidos” assim o foram quer em reuniões na Câmara, quer através de “contactos directos”.


A reportagem da RTP mostrou ainda que o fundo municipal de apoio às vítimas, aprovado em reunião camarária, não tinha ainda sido criado. Este fundo tinha sido uma das medidas propostas por Carlos Moedas na reunião camarária que decorreu a 8 de Setembro e que foram aprovadas pelos vereadores. Além disso, A Prova dos Factos tentou contactar a linha telefónica de apoio às vítimas da Carris várias vezes, encontrando-a sem resposta.
Antecipando esta peça da RTP, a Carris publicou na véspera, dia 2 de Outubro uma nota informativa sobre os contactos feitos com as vítimas e familiares. Esta reportagem levou a um pedido de esclarecimentos do PCP ao Gabinete do Presidente da Câmara, que se publica de seguida juntamente com a resposta recebida e a nota da Carris.
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Uma reportagem da TVI/CNN Portugal emitida a 19 de Setembro revelou que, apesar de a Carris ter começado por negar incidentes anteriores ao do trágico descarrilamento, acabou por admitir dois acidentes técnicos – um 2024 e outro já em Maio de 2025. Nenhum deles causou feridos, mas revelou falhas. Manuel Leal, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes Rodoviários e Urbanos (STRUP), disse ter tido uma reunião com elementos da Carris em Janeiro de 2025 relativa ao acidente do ano passado.

A reportagem de dia 19 seguiu-se a uma de dia 17, em que dois guarda-freios, um no activo e outro que já saiu da Carris, denunciaram falhas na formação, na manutenção e nos sistemas de segurança dos ascensores históricos de Lisboa. “As únicas revisões que eu conheço eram visuais e de boca. Perguntavam ‘está tudo ok?’ e nós respondíamos ‘está’ ou ‘não está’. Depois, lá tomavam as providências que conseguiam, mas nada de mais”, disse uma das testemunhas. A jornalista disse ter encontrado o técnico da MAIN que assinou a manutenção no dia do descarrilamento e que terá problemas de saúde que o impedem de descer à fossa, contrariando o documento dessa inspecção que refere precisamente que foi feita uma inspecção à fossa.

Estas duas reportagens da TVI/CNN Portugal levaram a um requerimento apresentado pelo PS, Livre, BE e Cidadãos Por Lisboa, que se publica de seguida com a resposta recebida do Gabinete do Presidente da Câmara. Nessa resposta, é dito que a reportagem dá a entender que “existiu incúria ou negligência por parte do Conselho de Administração da Carris e da própria Câmara Municipal e transmite a percepção de que, tendo havido conhecimento de problemas com o funcionamento do Ascensor, nada tinha sido feito para evitar o trágico acidente”.
No esclarecimento é referido que o acidente de 2024 decorreu de um “erro de travagem” com poucos danos materiais e que não resultou na aplicação de “qualquer medida disciplinar ao trabalhador”. Já o acidente de Maio de 2025 consistiu “num ligeiro abalroamento da cabine nº 2 por parte de uma viatura de serviço da frota da Carris que se encontrava a operar no local”, resultante de um “erro de condução do veículo automóvel na execução da manobra”. Conclui o Gabinete do Presidente que os incidentes “não tiveram a gravidade induzida pela reportagem televisiva”.
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O Executivo da Câmara de Lisboa, onde estão representados os vereadores de Carlos Moedas e a oposição, reuniu duas vezes para falar do Elevador da Glória. A primeira aconteceu a 8 de Setembro, na semana seguinte ao acidente, onde foram aprovadas propostas do PSD/CDS, do PS e do PCP para responder à emergência, entre as quais o já referido fundo de apoio às vítimas e a criação de um portal da transparência para publicação dos documentos relevantes.
Uma segunda reunião foi agendada por Carlos Moedas para 13 de Outubro, a pedido dos vereadores de PS, Livre, BE e Cidadãos por Lisboa, que queriam ver esclarecidas as informações e omissões que vieram a público através das reportagens mencionadas. O pedido era para uma reunião a 25 de Setembro, mas o Presidente da Câmara decidiu fazer o agendamento para o dia seguinte às eleições autárquicas ”para não partidarizar um tema que deve merecer todos os esclarecimentos técnicos”, o que levantou críticas da oposição.
À margem desse encontro, Filipe Anacoreta Correia, Vice-Presidente da Câmara, esclareceu que o fundo municipal de apoio às vítimas do acidente com o Elevador da Glória não chegou a ser constituído por não existir ainda necessidade, uma vez que as seguradoras estão a suportar todas as despesas. Criado está já uma secção dedicada ao Elevador da Glória no Portal da Transparência da autarquia, onde tem sido publicada documentação relevante sobre o acidente. A Carris tem uma página semelhante no seu site.









