Não são só as ruas que precisam de limpeza. Também nas margens do Tejo se acumulam plásticos, garrafas e outros resíduos, mas os operacionais de higiene urbana da Junta de Freguesia do Parque das Nações estão atentos: todas as quartas-feiras retiram o lixo do rio e do espaço envolvente. Acompanhámo-los numa dessas investidas, onde por mais que recolham, o Tejo acaba sempre por trazer mais.

Os operacionais e varredores não estão com as suas pernas imersas em água, mas preparam-se para limpar e recolher o que restou da tempestade Martinho, em pleno mês de março. A equipa composta por quatro trabalhadores, responsáveis pela higienização urbana do posto de limpeza urbana da Câmara Municipal de Lisboa, destacado à Junta de Freguesia do Parque das Nações, encontra-se no cais dos Argonautas, na Alameda dos Oceanos, bem perto do Oceanário, para mais uma quarta-feira de limpeza das margens do rio Tejo.
A manhã quieta e solarenga não deixa que qualquer rasto de névoa esconda o rio, ou aquilo que se consegue ver dele, mas o que alerta os operacionais dentro do seu campo de visão são os locais onde se encontram pequenas caravelas portuguesas, colhidas pela corrente, já sem vida, e um pequeno ninho de melros pretos que se erguiam nos cantos rasos, já sem água, e que levantaram voo no momento em ouviram o entoar do pequeno barco responsável pela recolha do lixo.
Na chegada, já se ouvia os trabalhadores comentarem sobre uma das últimas histórias que envolveram mais uma tentativa de vandalismo do meio utilizado para fazer a limpeza do rio. Mas não passou disso, uma tentativa. O barco é comandado há mais de 11 anos por Gil, um trabalhador que conhece os rios e os mares como poucos. Apresentou-se com um único nome e, de pouca fala, foi navegando e contornando os obstáculos, fazendo círculos ao longo do percurso, enquanto alertava para o lixo e mais uns quantos animais já defuntos naquela zona do rio. A limpeza do Tejo é feita uma vez por semana, às quartas-feiras, de forma alternada.
Hugo Dias, de 38 anos, acompanha Gil menos vezes do que gostaria, mas não deixa de partilhar o seu contentamento com a freguesia onde trabalha: “Desde que cá cheguei que conseguimos perceber o quão a freguesia e este trabalho dá estabilidade às pessoas. Claro que depende de trabalho para trabalho e de como as pessoas também o recebem e executam, mas, aqui, fazemos um bocado de tudo”, avança.

As equipas distribuem-se de norte a sul da freguesia. Evitam atrasos, mas só quando chega o barco é que o processo de limpeza se vai retomando para que todo o lixo lá estendido seja recolhido. A partir de quem está em terra, Hugo e Fábio Silva, vê-se uma plataforma semissubmersível, que aponta na direção do mar. Na verdade, não é uma “plataforma”, mas um grande gancho de recolha, o que só chegou a ser esclarecido no final da ‘pequena-longa’ viagem. Há menos pedaços de plástico entre os juncos. Mas os que se veem, ainda estão, em grande parte, enterrados na lama. “Esta é uma freguesia exigente, não só pela relação com o turismo como com a população que aqui vive, daí também termos um grau de qualificação maior”, reconhece o operacional Hugo, enquanto cruza o olhar com o que vai vendo no chão, o que resistiu e o que deixou rasto.
O Tejo, em Lisboa, desagua no Atlântico. Este é um facto relevante a mencionar, mesmo não sendo novidade, leva consigo um carregamento diário de poucos resíduos, o que há parcamente menos de uma década se tornou essencial para a sobrevivência das espécies e do rio. É, desta forma, que o trabalho de manutenção, recuperação e limpeza dos espaços públicos da freguesia se vai distribuído por equipas que, normalmente, assumem números pares. Estes quatro trabalhadores presentes cumpriram com a regra.
Durante o serviço diário, há três turnos: um das 7 horas às 13h30, outro das 13h30 às 19 horas e, o último das 16 às 11 horas, parte destes fixos. É um trabalho exigente, tal como Fábio aponta, mas “vai-se fazendo”.
Já Hugo trabalha enquanto funcionário de Limpeza e Higiene Urbana há pouco mais de um ano e oito meses, mas este posto de limpeza já existe há mais de uma década. Os anos de experiência do operacional não são muitos, mas a dedicação a que se propõe não deixa dúvidas de que o pretende fazer bem. Este posto em que trabalham cobre parte dos territórios de Santa Maria dos Olivais, Lisboa, Sacavém, Moscavide e Loures. “Estamos numa zona onde há muitos eventos, e há alturas em que cá ficamos, na limpeza, até às duas horas”, reconhece.

No primeiro ano de funcionamento, em 2012, a Junta de Freguesia do Parque das Nações recebeu do Município um orçamento de 2,5 milhões de euros tal como anunciou o autarca de outros tempos, António Costa. Este dado é relevante porque, antes disso, a Câmara de Lisboa já assumia a gestão urbana daquele espaço. “E, desde então, a autarquia responsabilizou-se por garantir a recolha e o transporte do lixo, a manutenção e limpeza do espaço público, dos jardins e dos parques infantis, a fiscalização da ocupação do espaço público, a iluminação nas ruas, a monitorização ambiental e ainda o ordenamento do trânsito”, explica Paulo Lopes, o chefe de divisão do espaço público da CML, funções que desempenha desde 2006 e que lhe permitiu continuar relacionado com a mudança da Expo’98 para o Parque das Nações.
Ao longo dos últimos anos, foi-se despoluindo um dos maiores rios portugueses, anteriormente considerado o mais poluído da Europa.
“Desde que aqui estou que gosto do trabalho que aqui faço. É digno”

A meio da manhã o que restava por limpar começa a desaparecer. Enquanto o operacional Fábio caminha ao longo do cais e dos pequenos jardins que se vão desbravando junto a uma enorme quantidade de bancos de pedra, que àquela hora permaneciam vazios, recorda como nos últimos quatro anos de trabalho a sua vida e a do posto de limpeza foram mudando. “Na altura em que entrei, éramos cerca de 12 pessoas; hoje somos quase cem. Nestes últimos dois anos a freguesia aumentou substancialmente e, também por isso, os recursos começaram a ser mais necessários”, explica.
Para além do número de trabalhadores ter sofrido um aumento, as juntas de freguesia, juntamente com a Câmara de Lisboa, determinaram mudanças significativas para o trabalho da Higiene Urbana: “Se anteriormente as juntas trabalhavam com outras empresas do setor privado para fazer este tipo de limpezas, agora, nós, ‘atacamos tudo’”, reconhece Fábio, entusiasmado.
O jovem explicou que o posto de limpeza abriu mais 50 postos de trabalho: desde a Jardinagem aos postos de Manutenção e de Higiene Urbana.
“Eu era montador de pladur, trabalhei dez anos como no ramo e nunca consegui conciliar aquele trabalho com a minha vida familiar. Agora, com os turnos da manhã, consigo ir buscar os meus filhos à escola, consigo ir à cresce… tudo isto ajuda na dinâmica e na vontade de trabalhar”, conta Hugo enquanto Fábio termina de desamanhar um conjunto de cordas que deram à margem do cais e que o mesmo notou mal chegamos de novo ao local.
“Mesmo a nível de acessibilidade, todos os chefes são muito compreensíveis”, avança Fábio, ainda envolvido no arremesso que não quer ceder por nada. Em simultâneo vai-nos contando como tem sido o processo de conciliação também com a família e a recém-chegada da filha.

Estes dois operacionais entraram para os “quadros”. Tal como avançam, entraram no total cerca de 12 para os quadros pertencentes àquele Pólo. É nesse sentido, que relatam a sua experiência como “bastante diferente” do que tinha vivido antes: “desde que aqui estou que gosto do trabalho que aqui faço. É digno”, reconhece Hugo.
Para ambos é claro que “ajudam a população a melhorar”. São recebidos por pessoas na rua que param e lhes agradecem pelo trabalho que fazem, mas não deixam de partilhar que estes atos têm também um outro lado da moeda: “Há pessoas que veem e não querem saber do nosso trabalho, colocam as coisas fora dos locais destinados, atiram garrafas para o rio…há de tudo”, termina.
Estes longos anos de parceria entre as unidades de Higiene Urbana (mediadas pela Câmara Municipal de Lisboa) e os postos de limpeza (cujas responsabilidades são das juntas de freguesia) permitiram retirar todos os resíduos que permaneciam no leito e margens.
E que resíduos eram esses?
Pneus, materiais de grande volume e plásticos de pequena dimensão que permaneceram na vegetação, ano após ano, depois das cheias. Quem nos atenta a estes detalhes é Ângelo Dias, também trabalhador integrante deste turno e que acompanha Gil no barco. É colega de trabalho e irmão de Hugo Dias.
Se na última década se tentou colmatar qualquer dificuldade que existisse para manter os rios e as ruas limpas na zona do Parque das Nações, em paralelo, efetuou-se a “inventariação, georreferenciação e investigação de todas as captações de água e tubos que podiam libertar poluentes nas linhas de água a coberto da vegetação para que se evitasse futuros episódios de poluição”, acrescentou Paulo Lopes, numa visita posterior, feita no mesmo dia.
Ainda assim, a quantidade de plástico produzida, quer em Portugal quer a nível global não diminuiu e, dessa forma, as entidades também se viram obrigadas a não poupar esforços nem recursos.
Em todo o mundo, estima-se que 80% do plástico oceânico provenha da terra como “lixo mal administrado”. O irmão mais novo e funcionário do departamento, fez-se acompanhar de memórias, experiências e informação que, no último ano, foram fulcrais para que os trabalhadores empregados pela autarquia conseguissem garantir as mais diversas funções respetivas à higiene da cidade. “São mais os dias em que carregamos carrinhos de mão com muito lixo. Nos eventos mais procurados e que reúnem uma grande quantidade de gente nada disto chega. É um esforço constante”, diz.
Por mais lixo que tirem, o rio traz sempre mais. “Mas a culpa não é do rio”, arranca Gil, um dos maiores conhecedores do Tejo, dos poucos que navega e segura a roda do leme do barco. Há mais de 30 anos que o faz. Em tempos foi pescador e, também por isso, sabe “muito bem a influência que o ser-humano tem na defesa dos mares”. Destes 30, 11 continuam a ser dedicados à limpeza e higiene urbana.
“Ainda sou do tempo em que a figura do pescador era incontornável, fato de trabalho cinzento, barcos em madeira… ainda nos imagino entretidos a ‘tapar os buracos’ dos que pouco ou nada apareciam, enquanto outros se abriam às dezenas no dia seguinte”, partilha o responsável pelo barco.
À medida que vai falando connosco, agora dentro do barco e de olhares atentos, Gil incomoda-se com algumas dificuldades nos turnos que envolvem a população. Comenta com o colega, Ângelo, que se mantém concentrado no rio de forma a garantir que tudo o que é excesso saí, a necessidade de combater a falta de civismo. A isso, junta ainda importância do que considera ser a cidadania.
“O estado do rio, por vezes, é deplorável. A quantidade de plástico é sempre o que nos choca mais. São precisas políticas públicas para que as pessoas alterem os seus comportamentos, faltam políticas que sensibilizem para a produção de menos lixo”, defende trazendo a título de exemplo o facto de a separação do lixo ainda ser uma questão de discussão.
Ângelo pede a que Gil que pare junto da ponte principal. Vê aquilo que parece ser lixo arremessado em demasiadas algas e plantas para que se possa determinar ao certo o que é. Também se identificam uma série de paus flutuantes presos na curva da biocerca. A superfície parece sólida, mas a água ondula contra o casco do barco amarrado ao lado da margem. No momento em que por lá continuamos a navegar, não havia muita coisa em torno do rio e da ponte, mas o lixo voltará, como sempre, com as chuvas. “Quando está cheio quase que podemos caminhar sobre ele”, afima Gil.
“A responsabilidade é das instituições, mas as pessoas podiam ser mais sensíveis”, continua. Até porque a distribuição de ecopontos pelo território de Lisboa parece ser equitativa. No caso das zonas sem ecoponto, há recolhas porta-a-porta, mas há ainda zonas que conjugam os dois: ecopontos e recolha porta-a-porta. “Dessa forma, tudo contribuiria para uma melhoria na limpeza generalizada e que tivesse ainda mais impacto nos rios.”

Embora haja um caderno de encargos comum, Lisboa tem 25 sistemas de limpeza urbana diferentes, um por cada junta de freguesia. De acordo com a Câmara de Lisboa, “a inauguração das três novas unidades de higiene urbana, assim como a criação de 21 novos circuitos do lixo foram fundamentais para um trabalho mais imediato”, escreve-nos o departamento de comunicação.
É certo que a contratação de mais 475 cantoneiros e motoristas e a aquisição de 83 viaturas (desde 2021) para a área de higiene urbana permitiu aumentar a recolha de lixo nas ruas da cidade. Só em 2024 foram recolhidas 319 mil toneladas de resíduos (mais 9 mil toneladas face ao período anterior homólogo). As equipas da Higiene Urbana da Câmara de Lisboa realizaram mais de 110 mil recolhas de monos, quase 10 mil toneladas, parte deles deixados ao abandono nas ruas. Estes dados não deixam de estar relacionados com a mudança característica que as Juntas registaram desde 2020. É que os contratos de delegação de competências relativos à Higiene Urbana estavam caducados desde setembro de 2020. Com o tempo de espera para a sua renovação, as juntas viram-se obrigadas a interromper funções nessa altura.
Depois de aprovada por maioria na CML em maio de 2020, determinou-se o pagamento às freguesias de 7,9 milhões de euros para o ano de 2021 (que o anterior executivo não pagou) referentes ao custo da limpeza, que foi calculado de acordo com a pegada turística de cada freguesia. Desde então, todas as intervenções têm-se mostrado bem-sucedidas
Do privado ao público: um contributo da junta de freguesia do Parque das Nações para o país
O centro da freguesia do Parque das Nações fica no final da calçada que passa por intermináveis renques de palmeiras, canteiros e pequenos chafarizes, todos estes circuitos a poucos quilómetros da fronteira da zona Norte com o Passeio Tágides. Além das grandes casas e edifícios que rondam a área, situados nunca na margem do Tejo, o rio vira à direita para um beco que vai até ao Atlântico, mesmo que “mais protegido e resguardado”.
Embora a freguesia, habitada por dezenas de milhares de pessoas, esteja mais afastada do movimentado centro da capital, tem um movimento diário significativo, devido a ser também um ponto de passagem de muitas pessoas todos os dias e um local de concentração de empregos e de grandes empresas; por isso, a exigência quanto ao lixo e à limpeza vai sendo cada vez maior. Fora e dentro do rio.
Hoje, a maior parte dos trabalhadores junta, em sacos, grandes quantidades de lixo para serem transportados de volta ao pólo, ao centro de reciclagem. Lá, o vidro e o plástico limpos serão separados, e tudo o resto, compactado em combustível para os fornos de incineração. Os trabalhadores que se concentram no cais explicam-nos que, anteriormente, seria gerada uma fogueira de madeira encharcada e detritos não identificáveis, era dessa forma que se queimava quando não havia alternativa. O mesmo com os animais que desaguavam no rio, já mortos.

Atualmente, a freguesia do Parque das Nações tem um dos sistemas de recolha de resíduos, que é o único no país. Tal como Paulo explica é por vácuo: “Os resíduos não por condutas para duas centrais – uma localizada na zona norte e outra na zona sul –, onde são concentrados, separados e de onde são levados para destino final”, explica.
Mas tal como os operacionais foram destacando ao longo da sua manhã de trabalho, há uma sensação estabelecida de que os moradores não reconhecem estes feitos. “Ou não estão a par da forma como funciona e, em vez de tirar todo o proveito do sistema, optam por colocar o lixo na rua, quando não tem essa necessidade, ou porque efetivamente não querem”, comenta.
Este desconhecimento torna-se como um grande obstáculo para a comunidade, tal como os representantes da Junta de Freguesia e da CML lamentam.
“Tudo o que são resíduos abandonados na via pública, a junta de freguesia tem o dever e a obrigação de os recolher. Numa situação normal, não deveriam estar lá porque têm um sistema próprio que os encaminharia para o local correto”, algo que para a equipa se tornou ainda mais difícil depois da pandemia, em 2020, dado o excesso de volume de pessoas em casa, que adotaram teletrabalho e que o mantiveram desde então.
“Os hábitos adaptam-se, mas todos nós somos resistentes à mudança”, completa Filipa Pereira, funcionária da CML desde 1998 e interveniente da junta de freguesia desde 2014. Ainda assim, a evolução é uma coisa que todo e qualquer habitante pretende, o que no seu ponto de vista resume muito bem a última década: “Somos uma freguesia com muito dinâmica, com muitos visitantes, com famílias, amigos, pessoas agentes no combate e na defesa dos ecossistemas. Se à resistência à mudança, que não haja à evolução.”


















Este é um conteúdo patrocinado e produzido em parceria entre o LPP e a Câmara Municipal de Lisboa, e insere-se numa nova rubrica intitulada Bastidores da Cidade. Apesar de patrocinado, o conteúdo foi elaborado pelo LPP com autonomia.







