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Uma viagem breve com uma família de longa relação

São amarelos como os outros, mas estes autocarros não têm número nem percurso fixo. Respondem ao pedido dos passageiros e levam-nos ao destino. Fomos conhecer o Serviço Especial de Mobilidade Reduzida da Carris e acompanhar uma dessas viagens: curta no tempo, mas feita em família.

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São amarelos como os outros, mas estes autocarros não têm número nem percurso fixo. Respondem ao pedido dos passageiros e levam-nos ao destino. Fomos conhecer o Serviço Especial de Mobilidade Reduzida da Carris e acompanhar uma dessas viagens: curta no tempo, mas feita em família.

“A adoção deste serviço foi algo bastante importante e inteligente para garantir as deslocações de pessoas com 60% de incapacidade ou mais, que seja declarada. A mobilidade tem também de ser pensada para nós”, diz Maia (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Como acontece com boa parte dos jovens da sua idade, Maia vai frequentemente à universidade – a Faculdade de Ciências Sociais e Humanidades da Universidade Nova de Lisboa. Em tempo de aulas a sua rotina é mais exigente, hoje, quase a terminar todos os exames em agenda, está perto de cumprir o seu objetivo: licenciar-se em Ciências Musicais. Normalmente desloca-se “de um lado para outro”, isto é, de casa para a universidade e vice-versa, de autocarro.

Maia parte da zona residencial da Ajuda, em direção à Avenida de Berna, situada no centro de Lisboa.

Nesta viagem que acompanhámos a meio do segundo semestre académico, Maia será a segunda passageira a ser recolhida. Quanto a nós, estamos prestes a ir ao seu encontro. O objetivo é que esteja a equipa toda a bordo.

A manhã solarenga de abril em que esta volta aconteceu já trazia temperaturas e cheiro a verão, ainda que a estação que divide o inverno do verão ainda estivesse a caminho. Era disso que se falava enquanto aguardávamos que o autocarro do Serviço Especial de Mobilidade Reduzida (SEMR) chegasse.

Bruna, 34 anos, a passageira mais antiga desta volta (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Simão Semedo, o motorista da Carris, apareceu à nossa frente à hora marcada. Não se perde tempo para embarcar. Partimos do ponto de encontro marcado, no Palácio da Ajuda, e é para casa de Maia que a viagem prossegue. São várias as zonas por onde este veículo especial, mas amarelo como os outros autocarros, passa ao longo do dia. Neste dia, tinha partido pelas nove da manhã de Telheiras, a primeira paragem antes de nos juntarmos, e feito um longo caminho até à zona de Benfica. Atravessou Monsanto e estava agora na Ajuda.

Bruna, uma jovem de 34 anos, vem com o motorista desde Telheiras. Pronta e entusiasmada para contar a todos como tenciona que o seu dia corra no Centro de Ofícios, um centro ocupacional de diferentes atividades, que fica em Telheiras, recorda-nos que a nossa visita já começou com ela, “a primeira das primeiras”. Juntam-se Bruno e Liliana, representantes do departamento de comunicação da Carris que acompanharam o percurso do início ao fim. É de notar que ao longo desta reportagem, todos os nomes que utilizamos foram apenas referidos com a menção do primeiro apenas, sem sobrenome, com exceção do nome do motorista. Este é um detalhe que desde o início nos é realçado pelos tripulantes: todos os passageiros que se fizeram ouvir ao longo desta viagem assim o pediram. Insistiram. É assim que se tratam e é assim que querem ser tratados.

 “São sempre os mesmos!”

O meio de transporte adaptado funciona nos dias úteis entre as 6h30 e as 21h00 e aos fins de semana e feriados das 8h00 às 12h00 e das 14h00 às 18h00 (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

É ao longo da viagem que se percebe o quão familiar é o ambiente para todos os passageiros que conhecemos. Diversas vezes foram mencionando que “a rota e os tripulantes são sempre os mesmos” e, também por essa razão, este percurso se torna o ponto de encontro daquele grupo de pessoas que assume, desde logo, a sua relação como praticamente familiar, “esta viagem é breve, mas a relação que existe há vários anos é bem mais do que isso. É familiar”, afirma Bruna com emoção.

É assim que cada detalhe do Serviço Especial de Mobilidade Reduzida se faz salientar. Da mesma cor amarela forte que inunda as ruas lisboetas nas mais diversas redes, este serviço de autocarro permite assegurar que todas as pessoas, residentes ou não, têm a sua mobilidade garantida até qualquer ponta da cidade.

Preparada para o transporte de cadeiras de rodas, com cintos de segurança, fixadores e o conhecimento metódico do motorista, o conforto e a qualidade de tempo que ali é empregado durante as viagens soam mais a “pop” do que a “hardcore”, referências usadas por Maia que nos remetem para uma dança mais tranquila e leve do que um “moche no meio de uma plateia, onde os empurrões são mais do que o usufruto do concerto”. É assim que gosta de olhar para estas viagens.

O meio de transporte adaptado funciona nos dias úteis entre as 6h30 e as 21h00 e aos fins-de-semana e feriados das 8h00 às 12h00 e das 14h00 às 18h00. “É algo bastante importante e inteligente para garantir as deslocações de pessoas com 60% incapacidade declarada ou mais, que não reúnam condições para a utilização do serviço público regular”, avança a jovem enquanto o rádio se sintoniza e a música Thriller, “do icónico Mickael Jackson”, contamina a conversa levando à participação de cinco pessoas que viajam consigo na carreira e que já se juntaram a meio caminho.

O Serviço Especial de Mobilidade Reduzida tem quatro percursos regulares (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Dentro da cidade de Lisboa a sua movimentação é garantida. E, neste momento, já se juntaram a nós mais duas pessoas. O Nuno e o Jorge. Simão já lhes tinha dado o “toque” e avisado a hora ao certo a que os iria buscar, isto porque os passageiros não têm paragens específicas para onde se deslocar, mas sim pontos de encontro que, normalmente, ficam em frente às suas casas. Cada horário é definido com o senhor Carlos, que se encontra na central, senhor este que acompanha este serviço há mais de 30 anos, “o que também nos permite evidenciar algumas características… como dizer? Peculiares!”, partilha Bruna, com riso tímido.

Por vezes as “máquinas falham”, acrescenta Maia e confirma Nuno. “Os autocarros avariam, ou por vezes, as máquinas de validar não funcionam muito bem e não picam o passe. Mas são máquinas feitas por humanos. Também cometem erros”, avança Nuno.

De acordo com a informação avançada pela Carris, de um modo geral, as carreiras de serviço regular estão equipadas com as condições totais de acessibilidade para passageiros de mobilidade reduzida, “dispondo de espaço para cadeira de rodas e espaldares”, lê-se no regulamento público. Ainda assim, apesar de 100% dos autocarros terem piso rebaixado, apenas 80% está equipado com rampas de acesso. São percentagens que aos olhos dos passageiros são consideradas “promissoras”, no entanto, a possibilidade e o acesso ao serviço especial faz com que se sintam mais seguros. Também por essa razão o serviço assume-se “porta a porta”.

A promoção da acessibilidade constitui um elemento fundamental na qualidade de vida das pessoas e, tal como o Decreto-Lei n.º 163/2006, recorda existe um planeamento focado na mobilidade que dá prioridade à eficiência do sistema de transportes. É nesta medida que Rita Castello-Branco acrescenta ainda que a Carris apresenta “uma grande consciência e, por sua vez, importância em garantir aos cidadãos oportunidades iguais para aceder ao transporte público, reforçando a coesão territorial através de medidas de apoio baseadas na implementação do transporte flexível”, realça enquanto aguardamos num semáforo vermelho, quase a chegar ao destino de Maia.

Nesta breve viagem, a relação que Simão, o motorista, tem com os passageiros é “clara” e “essencial”, tal como refere. Foi desenvolvendo sempre diferentes serviços dentro da Carris, mas desde 2020 que foi alocado a este. “Dantes trabalhava com a Carristour, que tem os seus próprios motoristas, com trabalhos destacados, mas, com a pandemia, o turismo diminuiu bastante, então muitos de nós foram convidados a reforçar a Carris”, explica.

Depois da pandemia, Simão poderia voltar à Carristour, mas escolheu não o fazer e preferiu manter-se neste mesmo serviço: “Este é um serviço que gosto e, um pouco da essência daqui, é a relação com as pessoas. Mesmo que tenham as suas limitações motoras ou psicológicas nós tentamos ajudar e sentimo-nos úteis.”

“É diferente de uma carreira normal, é melhor”

Com piquete destacado para este serviço três vezes ao longo da semana, os turnos vão rodando com outros colegas. Foi neste exato momento que o senhor Jorge Matos chegou, levando Simão a sair da carreira para o ajudar. Mas a nossa conversa não ficou por aqui. Juntou-se novamente Bruna para nos recordar que é a mais crescida destas voltas. “Eu sou a madrinha! Já conheci muitos trabalhadores aqui, muitos motoristas, muitas dificuldades às vezes”, conta. A Bruna faz estes caminhos desde 2008.

Simão Semedo, motorista do Serviço Especial de Mobilidade Reduzida desde 2020 (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Utilizados como refúgio do sol, da chuva e do vento, enquanto se espera pelo transporte, foram vários os abrigos de transporte público instalados na cidade em que Bruna esperou até conseguir ter acesso a este serviço. “São também obstáculos à mobilidade pedonal e foi uma longa luta para que nem tudo fosse um obstáculo à circulação a pé e em cadeira de rodas”, isto porque antes, o serviço destas carreiras tinha alguma dificuldade na reação de resposta imediata e, por isso, Bruna fazia as pequenas deslocações que conseguia até chegar a ela. “Mas ainda bem que já não é assim e que tudo melhorou”, recorda.

Liliana, também membro da equipa de comunicação da Carris, lembra-nos que esta é a oportunidade de fazer cumprir as boas práticas presentes no Manual de Espaço Público da Câmara Municipal de Lisboa, que ilustra também situações a evitar existentes no espaço público de Lisboa e, por sua vez, que tem vindo a ser articulado com os serviços de mobilidade, como é o caso da Carris.

Estes são sinais de outros tempos? “Sim”, diz. “Pelo menos, por agora, a cidade está só à distância de uma viagem de autocarro”, mas a mudança vai-se fazendo… passo a passo.

Desde 2009 que esta “ambição mais que justa”, sublinha a passageira Bruna, foi iniciada “a partir de uma sensibilização” da Carris para o problema. O panorama só viria a alterar-se na totalidade no ano de 2017, com a municipalização da empresa. Foram feitos estudos de qual seria o melhor percurso, mas todo o processo demoraria ainda quatro anos, até se chegar a esta solução da carreira mais rápida, cómoda e ativa.

Já no caso do Navegante, o passe começou há alguns meses a cobrir as deslocações do Serviço Especial de Mobilidade Reduzida. Tal como evidenciam os passageiros ao longo da viagem foi algo instituído há pouco tempo.

Para Bruna e Maia foi essencial tendo em conta o valor que tinham de pagar por todas as viagens que fazia semanalmente. “Foi aplicado há meses, mas eu acredito que foi uma bela posição e iniciativa, porque pagar 2,20€ [valor do bilhete] todos os dias, todas as semanas e todos os meses, tornava-se muito difícil… não considero que fosse justo”, explica Bruna. Com a inserção do serviço no passe geral, o valor diminuiu significativamente.

No momento em que o motorista para, o rádio começa a tocar uma música que era muito badalada pelos passageiros que se encontravam dentro da carreira. Era Ninguém de Bluay, curiosamente, música que Maia integrou enquanto pianista e que passou pelo palco do Festival da Canção. “Basta meter um bocadinho mais alto que o Nuno canta. Ele sabe esta!”, confirma Maia.

Simão ajuda Maia a sair do autocarro e leva-a até à porta de entrada da universidade. Descreve-lhe meticulosamente onde a vai deixar, onde vai entrar e como seguirá. É algo que já fazia com Sílvia, professora da jovem que lhe dava apoio a Braille e que, por sua vez, também ajudou Simão a intervir de forma mais intuitiva e autónoma.

Nesta breve viagem, a relação que Simão, o motorista, tem com os passageiros é clara e “essencial” (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Já perto do fim da viagem, segue-se Jorge, Bruna e Nuno. Jorge fica perto do Centro de Ofícios, mas desta vez não seguirá para lá, mas sim para a GAP, local onde é orientado por terapia ocupacional e onde faz consultas regulares. Veste o seu casaco que tem tom grisalho, tal com o seu cabelo. O espaço é junto a uma mercearia, aquele a que vai sempre todas as semanas, depois da sua esposa ter falecido.

Na sua ideia, vê nas lojas de roupas, cafés e restaurantes o centro de memórias dela. “São esses estabelecimentos que funcionam e dão vida aos lugares, que sentam as pessoas na rua, que dão lucro aos comerciantes”, explica há medida que recorda uma e outra nota do tempo que passam juntos nesses locais. “A cabeça já não é o que era”, lamenta. Sai. Mas nós permanecemos ali até que ele entre.

Segue-se caminho para a paragem final: deixar Bruna e Nuno, no tal edifício vermelho, comprido que reveste cada um dos seus cantos com grandes árvores e flores de jardim. Uma senhora, cujo nome preferiu não dizer, puxa da voz e põe-se a cantar fado para os comensais da esplanada na rua em frente. A atenção de cada um de nós descose-se para o outro lado da rua. É então que, novamente, Bruna desvia o nosso olhar recordando-nos naqueles breves segundos de esquecimento que “não tem tempo a perder e que tem de terminar as suas lãs flutuantes”.

A primeira a entrar e a última a sair, pede a Simão que feche a porta e a leve à entrada. O silêncio instaura-se. Nem a voz da fadista nem de Bruna ou de Nuno se ouvem mais. Chegamos à última paragem.

Este é um conteúdo patrocinado e produzido em parceria entre o LPP e a Câmara Municipal de Lisboa, e insere-se numa nova rubrica intitulada Bastidores da Cidade. Apesar de patrocinado, o conteúdo foi elaborado pelo LPP com autonomia.

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