A vida social de uma cidade muito deve ao trabalho das coletividades e das associações. Apostam em áreas como o desporto ou a cultura para mobilizar as pessoas e os territórios onde estão, força essa que fomos testemunhar no primeiro episódio do Ouvir A Cidade.

As mãos do carpinteiro António Lopes carregam experiência na música e nas madeiras espalhadas pela oficina. Diz que está “enferrujado” com o velho acórdão que era do irmão (mas quando começa a tocar, rapidamente ganha ritmo) e tem o trabalho de recuperar três pianos antigos.
“De vez em quando ando aqui com nódoas negras”, conta António, avisando que ”quem trabalha nesta profissão tem de contar que de vez em quando há arestas, há farpazitas que se espetam”.
Mas ao fim de 83 anos as mãos deste carpinteiro não param, ou não fosse ele um dos residentes da Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios (ADAO), no Barreiro. Faz pequenas reparações, ajudando os artistas que ali trabalham – áreas como a escultura, a pintura ou a arte urbana – como também está entretido no arranjo de três pianos.
A situação deles é “complicada”. Um dos exemplares resistiu até a um incêndio. “Quando a gente vê que é um piano bom e que vale a pena, muitas vezes a solução é tirarmos estas cravelhas e colocarmos outras mais grossas”, explica. Logo a seguir, dá uma resposta categórica sobre um dos pianos.
- Gonçalo: E este vale a pena?
- António: (pausa) Já não vale a pena.

António Lopes guarda o acórdeão numa sala à parte do resto da oficina (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Há uma grande caravela de madeira visível na oficina (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Há três pianos à espera de reparação (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Aos 83 anos, é o residente mais velho da ADAO (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Dezenas de artistas convivem diariamente nesta associação do Barreiro (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
O edifício visto de fora (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Luís Guerreiro é um dos fundadores da ADAO (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
O edifício da ADAO já foi um quartel de bombeiros (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
São várias as garagens da ADAO (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Ensaia-se na sala de concertos (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Além das oficinas e da sala de concertos, há uma zona de convívio com bar (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Exposição feita por crianças sobre Luís Vaz de Camões (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Carla Pacheco é a atual presidente da ADAO (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Corredores do primeiro piso da ADAO (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Ricardo Tota é outro dos fundadores da ADAO (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Arte presente nos corredores da ADAO (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Hortas e prédios em redor da associação (fotografia de Mário Rui André/LPP) 
Linha do Sado passa junto à ADAO (fotografia de Mário Rui André/LPP)
Quando o LPP visitou em abril as instalações junto à estação de comboios e ao terminal fluvial, a ADAO tinha cerca de 60 artistas residentes. Ricardo Tota, Luís Guerreiro e João Paulino são os fundadores: “A ideia foi alargar o nosso potencial a nível de condições de trabalho, e depois agregar outras pessoas que estavam no Barreiro escondidas, a trabalhar em garagens ou nos ateliês próprios, às vezes até sozinhos em casa”, detalha Ricardo.
O espaço que era um antigo e devoluto quartel de bombeiros está a fazer 10 anos que reabriu. Para trás ficou a recuperação do espaço, que teve “problemas até de prostituição e de pessoas sem abrigo”, afirma Ricardo. Hoje em dia é um polo cultural e de concertos.
A música começa e a pergunta impõe-se: “Não vão fazer o esquema?”
A juventude desta associação segue a missão de outras já históricas: mobilizar os territórios e as pessoas onde se inserem. Mais a norte, na área metropolitana de Lisboa, no concelho de Odivelas, a Sociedade Musical e Desportiva de Caneças (já com 145 anos) organiza todos os anos uma festa da Páscoa, bem no centro da vila de Caneças.
Os comerciantes queixam-se que a festa já teve outro fulgor, mas a tradição é a mesma, a de juntar música popular, várias diversões, uma quermesse e algumas comidas típicas destes eventos, como farturas. “Eu acho que às vezes os adultos ainda são mais gulosos que as crianças”, diz Rita Vale, que tem uma roulote de farturas.
Na pista de dança, o LPP faz a pergunta que mais importa numa festa popular, quando começa a tocar José Malhoa: não vão fazer o esquema? “Qual esquema?”, pergunta Paula. Spoiler: não sabia fazer (nem quem escreveu este artigo).
Em 2020, havia cerca de 33 mil coletividades e associações espalhadas pelo país, segundo a última conta satélite da Economia Social, publicada pelo Instituto Nacional de Estatística.
Quase todas foram criadas já em democracia e por concelho, em média, existem 108 associações. Mas há sítios do país onde praticamente já não existem locais para as pessoas se encontrarem, avisa o presidente do Conselho Jurisdicional da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto.
“Há sítios onde não há café, onde havia uma estação dos CTT, uma delegação da junta ou um banco mas fecharam, e portanto o único sítio onde as pessoas se podem encontrar e fazer coisas é a própria coletividade”, diz Sérgio Pratas ao LPP, não deixando de sublinhar o papel das coletividades na afirmação da democracia e de fazer chegar o desporto e a cultura a toda a gente.
Ouvir A Cidade é o podcast do Lisboa Para Pessoas que procurou responder à pergunta: como podemos encontrar-nos na cidade? Num território feito de ruas, praças e edifícios, também dele fazem parte os laços, os encontros e as comunidades. Partimos à redescoberta destes espaços como lugares de união. Olhamos para como a Lisboa Metropolitana conecta pessoas e fomenta um sentido de pertença.
Podes ouvir o primeiro episódio aqui no website ou em plataformas que disponibilizam podcasts, como o Spotify, a Apple Podcasts ou o YouTube.


















