Autarquia gastou dinheiro a pintar o alcatrão duas vezes. Obra retiraria quatro lugares de estacionamento. Mini-ciclovia durou menos de um dia.

Foi a Câmara de Lisboa que anunciou as medidas e que lançou o concurso público para as implementar. A obra saiu para a rua e envolvia, entre outras coisas, a pintura de dois troços de ciclovia em contra-mão, para melhorar o acesso a estações GIRA. Uma dessas pinturas foi feita, mas no dia seguinte foi apagada para repor os cinco lugares de estacionamento removidos.
O insólito incidente aconteceu na Rua Marques da Silva, em Arroios. Foi um leitor atento que partilhou com o LPP uma fotografia de uma área de estacionamento que tinha sido anulada e pintada de verde. No entanto, quando o LPP passou no local, um dia depois, já o verde tinha desaparecido: o pavimento foi pintado de preto e os lugares de estacionamento remarcados.


A situação inesperada sucedeu no início de Outubro, antes das eleições autárquicas – ou seja, durante ainda o primeiro mandato de Carlos Moedas na Câmara de Lisboa e na recta final da liderança da Junta de Freguesia de Arroios por Madalena Natividade, do CDS (a Junta passou, entretanto, para as mãos do independente João Jaime Pires, eleito pela coligação encabeçada pelo PS). A proximidade eleitoral poderá ter ditado este desfecho, uma vez que a criação do pequeno troço ciclável tinha impactos na oferta de estacionamento automóvel.
A mini-ciclovia estava de acordo com o projecto divulgado pela própria Câmara de Lisboa em Novembro de 2024, no âmbito de um plano de “medidas mitigadores” da ciclovia da Almirante Reis. Ali seria criado uma pequena ciclovia em contra-sentido para melhorar a acessibilidade à estação GIRA nº 314 Ou seja, como a Rua Marquês da Silva é de sentido único, aquele contra-sentido permitiria aos ciclistas terem dois sentidos para acederem à estação GIRA. O plano tinha sido divulgado também pela Junta de Arroios liderada por Madalena Natividade.


Noutra rua paralela, a Rua Francisco Foreiro, também estava previsto um contra-sentido do mesmo género, mas o mesmo não chegou a ser implementado. O LPP questionou a Câmara de Lisboa e a Junta de Freguesia de Arroios (o Executivo de Madalena, em funções na altura deste acontecimento) sobre o cancelamento repentino destas duas ciclovias, mas nenhuma das autarquias mostrou disponibilidade de resposta. No entanto, parece evidente que a preservação do estacionamento automóvel gritou mais alto, apesar de estarmos a falar de apenas quatro lugares.



Certo é que, segundo o plano de “mitigação” da Câmara de Lisboa, os “canais para velocípedes em contra-sentido na Rua Marques da Silva e na Rua Francisco Foreiro” visavam “garantir ligações directas e seguras” entre as estações GIRA dessas duas ruas e a ciclovia da Almirante Reis. “A par da elaboração do Projecto Integrado de Requalificação do Eixo da Almirante Reis, a CML pretende implementar uma série de medidas mitigadoras que melhorem, a curto prazo, o espaço publico do eixo da Almirante Reis, nos domínios da mobilidade, da acessibilidade pedonal, do ambiente e da segurança”, podia ler-se no referido plano.

A contratação das pinturas tinha sido feita em Abril deste ano, através de um pacote no valor de 129,5 mil euros. Além dos canais cicláveis, estavam previstas pinturas do betuminoso existente com tinta branca, em vários pontos da Avenida Almirante Reis, para converter o espaço automóvel acessório em pedonal – esta obra foi executada, ainda que parcialmente.
Outras medidas de “mitigação” não foram implementadas de todo, como é o caso dos bike boxes nos cruzamentos para ajudar os ciclistas a virar à direita. Também a requalificação dos canteiros ficou a meio gás, tendo sido feita apenas uma limpeza das ervas daninhas mas não houve novas plantações. Além disso,estavam propostos 32 novos bancos com costas para descanso e estadia – chegaram a ser colocados, mas como a ciclovia foram removidos. No entanto, os novos vidrões e estacionamentos para bicicletas ao longo da avenida foram instalados e mantidos.








