Reflexão

Uma história de inquietação pelos jardins de Lisboa em três actos

Assina o LPP e desbloqueia conteúdos exclusivos. Assina aqui.

Numa cidade onde os espaços verdes estão entregues à sua sorte, a população sente que é preciso agir, recuperar, plantar o futuro – mesmo que sem apoio ou compreensão da Câmara de Lisboa.

Acto l

Somos um grupo de voluntários, cidadãos anónimos, sem respaldo partidário. Não somos associação. Somos pessoas preocupadas com os jardins, árvores e espaços verdes da cidade de Lisboa.

Através da minha conta de Instagram, @the_lisboan_gardener, onde promovo acções práticas de renaturalização da cidade, foi anunciada uma chamada de voluntários. Mais uma vez reunimo-nos para devolver verde à comunidade, na tarde de domingo do dia 30 de Novembro.

Onde fomos? Fomos cuidar do espaço verde do separador central da Avenida dos Estados Unidos da América, em Alvalade. Substituir os exemplares que a Câmara Municipal de Lisboa (CML), através da Junta de Freguesia (JF), comprou – lembro que não tiveram proveniência dos viveiros municipais –, plantou e deixou morrer. E que mortos ficaram… até agirmos.

O que plantámos? Recebemos uma doação de sobreiros e plantámos na época correcta para se adaptarem à negligência e desinteresse totais que a JF de Alvalade e CML demonstram com a vegetalização da cidade.

Fizemos a plantação de 700 exemplares em linha, com 10 cms de altura, no exacto local onde os arbustos plantados pela CML se encontravam. Parecem demasiados, mas a taxa de sucesso e sobrevivência é baixa – fruto da falta de manutenção pelos serviços da CML e da JF de Alvalade. Acresce que muito provavelmente quando passarem com as roçadoras no tapete de ervas, irão destruir todos os exemplares plantados. Já é um clássico que, apesar de informados, nem o Município nem a Junta se mostram sensíveis.

Escolhemos sobreiros porque são resilientes, são de crescimento lento – indicados para o local –, são autóctones e são a árvore nacional de Portugal.

Numa cidade onde os espaços verdes estão entregues à sua sorte, a população sente que é preciso agir, recuperar, plantar o futuro – mesmo que sem apoio ou compreensão da CML – até que os seus dirigentes entendam que a vegetalização dos arruamentos é prioritária nas políticas de ambiente de uma cidade europeia evoluída. Lisboa só não o é porque quem nos governa pensa mal o ambiente para Lisboa. Assim, a população trabalha para a sua cidade.

Acto ll

No decorrer da plantação, ocorre um episódio que sabemos ser tão típico da postura da autarquia, sem surpresa somos abordados com um modelo de diálogo próprio de quem tem poder na CML mas não tem visão. Nem sentido de participação, nem de raciocínio colectivo, comunitário, e no limite, confirma não estar interessado em ouvir a população.

Boa tarde, tem autorização para o que estão a fazer? — questionou uma funcionária da CML, que se destacou entre as dezenas de cidadãos a felicitar-nos.

Não, não temos nenhum apoio da CML — respondi eu. Somos todos voluntários que viemos substituir os exemplares mortos que vocês plantaram. Ficou bonito na fotografia, mas naturalmente não fizeram manutenção e, claro, todos morreram. Mais do mesmo, a população, questiona-vos e não há actuação. Zero. Juntámo-nos e com todo o trabalho, plantas e tempo doados estamos a plantar exactamente no mesmo lugar do vosso projecto. Porque a nossa expectativa é, de facto, ter as zonas verdes, com vegetação, não abandonadas assim como a senhora vê.

Então vou ter de participar porque não posso deixar de fazê-lo, como calcula – respondeu prontamente a rematar o assunto de modo policiado.

A sua consciência como cidadã, ao ver todo o trabalho voluntário, também pensa do mesmo modo? Estranho que nem mostre vontade em encontrar uma solução, sendo da CML, para fomentar futuramente e de facto autorizado, todas as nossas preocupações e surja como repressora com personalidade claramente sem vontade de um entendimento, compreensão e até interesse em saber o que se está a passar — disse-lhe.

Já viu o que seria se todos plantassem o que quisessem na cidade? Seria uma anarquia! – respondeu com o chavão que defende a CML de toda a incompetência e desagrado da população, quando confrontados.

É precisamente pela anarquia e ausência de cuidado que a sua CML tem para com os jardins de Lisboa que nós nos voluntariamos para cuidar, agindo! Vocês abandonam, cortam, eliminam, abatem e não cuidam, não replantam, não substituem! — expliquei-lhe.

As plantações foram feitas no corredor verde central da Avenida dos Estados Unidos da América, em Alvalade (fotografia LPP)

Acto lll

E de facto denunciou, em 40 minutos, a Polícia Municipal apareceu. Porém com uma atitude nobre, profissional e humana. O agente, ouviu, perguntou, interessou-se. Reflectiu. Entendeu o cenário, a situação e ditou: realmente… como os jardins se encontram em Lisboa. Vandalizam e nada lhes acontece e agora temos de identificar pessoas por uma denúncia com estes contornos…

E fomos identificados e somos criminosos por plantar no lugar certo, plantas realmente resilientes que substituem as que deixaram morrer. Estamos sujeitos a coimas e sanções por cuidarmos dos espaços verdes.

Foram plantados 700 sobreiros (fotografia LPP)

Moral da história do dia que se repete todos os dias: fizemos a replantação de um espaço que há anos tem perdido dezenas de árvores e que não são substituídas com sucesso. A CML planta sem prever manutenção, investe dinheiro público sem resultados na prática, tudo se perde por mau planeamento.

A CML fez-se representar com autoritarismo vincado na voz e no discurso de uma figura guardiã da moral e bons costumes, que afinal, esconde um currículo que contradiz em absoluto tudo o que praticou.

À luz de quem nos governa na CML, o que fazemos é ilegal, deve ser impedido e penalizado. A opinião da maioria da população é outra, é coincidente com as movimentações de consciencialização ambiental que as pessoas têm levado a cabo e sido apoiadas em toda a Europa civilizada. Lisboa, exceptua-se, ruma noutro sentido.

Somos criminosos. Plantamos e cuidamos dos espaços verdes.

Contribui, se gostaste deste artigo:

No jornalismo, é difícil consolidar e fazer crescer projectos independentes e inovadores como o nosso. O teu donativo pode fazer a diferença.

Em alternativa, transfere para:

MB Way:
933 140 217 (indicar “LPP”)

IBAN:
PT50 0010 0000 5341 9550 0011 3