O cineasta Basil da Cunha, com a ajuda do investigador António Brito Guterres, orientou a produção de seis pequenos documentários que oferecem retratos da “cidade invisível” em redor de Lisboa.

Vários trabalhos cinematográficos têm sido realizados nos bairros periféricos de Lisboa, mas o grande desafio continua a ser como abordar esses lugares sem reforçar estereótipos ou cair em generalizações. Como representar estes territórios, tantas vezes marginalizados, sem reduzir a sua complexidade mas também sem romantizá-los? A dificuldade é ainda maior quando quem filma não vive nesses lugares. Ainda assim, um grupo de estudantes de cinema da Suíça conseguiu recentemente superar com distinção esse desafio.
A Cidade Invisível é o nome dado ao conjunto de seis curtas documentais que 12 estudantes da escola suíça HEAD produziram no contexto de um ateliê de cinema documental, de três semanas, orientado pelo realizador luso-suíço Basil da Cunha no final do ano passado, em colaboração com a Escola de Cinema da Universidade Lusófona. Os mini-documentários foram apresentados no passado dia 28 de Novembro no Cinema Ideal, em Lisboa, numa sessão à margem do Doclisboa e que contou com a presença de muitos dos seus protagonistas.

As curta-metragens falam de seis bairros sem falar desses bairros. Os lugares são reconhecíeis por quem os conhece – apenas o Bairro Fim do Mundo, em Cascais, é mencionado com estas exactas palavras –, e são segundo plano nos filmes, que se focam em contar seis histórias reais. E através dessas histórias e dos seus protagonistas, mergulhamos em realidades que nos podem ser mais ou menos próximas. Nos filmes, falamos de sonhos, de dinheiro, de música, de negócios criados com o apoio das redes sociais, de beleza e de empoderamento feminino – e também de violência policial e do assassinato de Odair Moniz, que teve teve um impacto profundo nos autores, nos protagonistas e nos filmes.
Trabalhando em pares, os estudantes de cinema criaram um retrato documental de residentes locais, moldando uma cartografia sensível dos bairros periféricos da cidade. O projecto começou sob o impulso de António Brito Guterres, investigador e “dinamizador urbano”, cujo trabalho ilumina as zonas sombrias da “cidade branca”, abrindo uma reflexão crucial sobre a invisibilização desses territórios. Os primeiros encontros com os protagonistas tiveram lugar em vários bairros da Grande Lisboa, guiados pela artista visual e produtora Maíra Zenun. Esta primeira fase alternou entre a procura de locais, escrita e as primeiras filmagens, complementadas por um workshop de câmara do director de fotografia Rui Xavier. Nas semanas seguintes, sob a supervisão da realizadora Cláudia Varejão, os alunos continuaram a escrever e a filmar, com o apoio de Basil da Cunha, Pedro Diniz e Eliana Rosa – colaboradores de longa data enraizados nessas comunidades.
Entre Cães e Lobos, de Khalissa Akadi e Mathilde Sauvère, fala-nos de dinheiro, dos “ordenados de merda” e também dos polícias que “têm o poder para mater os pretos” – é a curta, das seis, que mais directamente aborda esta questão, seguindo Leo, que se recusa a permanecer em silêncio perante a morte de Odair. Leo quer compreender, agir, transformar, mas como pode fazer ouvir a sua voz? Já em Solo de Vidro, de Achiraf Djakpa e Jonathan Leggett, estamos entre a Reboleira e a Cova da Moura para abordar sonhos: os sonhos que os jovens têm mas que muitas vezes os seus contextos dificultam – da dança ao futebol. Vemos Kleyton, que encontra na dança a sua forma de se expressar, e Junior, quer ser jogador de futebol para ajudar a mãe.

A terceira curta, Com O Mar, de Selam Tesfu Michael e Gabriel Berrada, é sobre família. Reencontramos Álvaro, no Bairro do Fim do Mundo. Um jovem da comunidade cigana que vai ser pai ser pai pela primeira vez; e é esse seu processo – muito dele mental – que seguimos, através de diálogos com amigos e a família. “Se tiveres oportunidade sai desse meio pra que o teu filho não seja mais uma pessoa criada num ambiente onde só existem problemas”, diz-lhe o pai, numa conversa à beira mar. “Um bairro social é provisório porque não tens possibilidades de comprar a tua casa.” Nesta curta, entramos em ambientes da comunidade cigana, que ainda enfrenta isolamento político, preconceito e estigmas profundamente enraizados.
No quarto filme, No Mundo, de Sirak Ghere e Luca Quiero, conhecemos os Ovos do Melo, um negócio de entrega de ovos ao domicílio, que se alimenta do Instagram para captar clientes. Aqui não estamos num bairro, mas seguimos um negócio que nasceu numa periferia de Lisboa e que faz entregas entre a Amadora e Oeiras. É uma das curtas mais bem dispostas da série, apesar de em todas haver momentos e frases que provocam riso, mostrando que este projecto toca na realidade mas também tem toques de humor. Neste filme, descobrimos um homem, Tiago Melo, com um passado conturbado que encontrou o seu caminho de volta.

Xineza, de Clélia Baudrie e Noah Chung, é sobre beleza e e sobre a história de Xineza, uma mulher determinada, poderosa e solteira que corta cabelos no Bairro Padre Cruz, em Lisboa, e que se aventurou numa carreira de cantora. Fala-nos da queimadura que sofreu em pequena e, mais que uma cicatriz, lhe deixou uma marca com a qual aprendeu a lidar ao longo do tempo. “A queimadura queimou a minha alma também. Não queimou só por fora”, diz a certo momento, contando que, quando começou a cantar, as pessoas começaram a conhecê-la pelas músicas e pela cicatriz. Mas que também se sentiu “igual a toda a gente, com a pele igual” porque a música sobressaiu.
Ao longo da curta, Xineza deixa-nos lembretes importantes sobre as nossas inseguranças: “Tu não assumes o teu cabelo, não assumes a ti própria”; “Vou usar aquilo que quero porque também sou filha de Deus”; “O problema não somos nós, são os outros”. Este filme toca também no tema do empoderamento feminino, e das mães solteiras que cuidam de filhos, fazem o jantar, limpam a casa, estendem a roupa…. “Já e um ser frágil por ser mulher, pobre, preta. É um combo que parece coiso…”, ouvimos. E escutamos também: “O filho também tem direito ter uma família e uma figura parental. Mas o pai tem de ser uma figura presente, não pode ser só namorado.” No fundo, este filme retrata a realidade de ser uma mulher negra de origens desfavorecidas, numa experiência moldada pela esperança, pelas dificuldades e pela resiliência.

As seis curtas são pautadas por boas frases, bom humor e também a música é presença – seja tocada, seja através das histórias. É esse o caso também do sexto e último filme. Em Vera, da autoria de Solveig Carnajac e Julien Monges, acompanhamos a história de Vera Semedo – uma mulher negra cantora que se apresenta segundo o nome artístico Verónica Lii, e que se divide entre o trabalho em limpezas e o investimento na sua carreira artística, entre Portugal e França. Vera é o retrato de uma mulher que tenta viver a sua paixão pela música apesar das dificuldades no quotidiana: precariedade, racismo e trabalho exaustivo.

Os seis filmes foram rodadas depois do assassinato de Odair Moniz, pelo que este momento está presente transversalmente às curtas, através de conversas que escutamos e de sons que ouvimos da televisão ou da rádio. “De uma forma ou de outra, esse momento foi integrado” nos filmes, explicou Basil da Cunha durante a estreia no Cinema Ideal. É uma presença muito bem conseguida: subtil mas sem cair em superficialidades.
As curtas não são sobre Odair nem sobre bairros específicos. São “retratos” de uma cidade invisível, a cidade que decorre à volta de Lisboa. Este projecto nasceu de uma ideia antiga de se fazer um workshop de cinema na Reboleira. “Não estava muito confortável com essa ideia, mas depois encontrei pessoas fantásticas, que são estes alunos que conheci no ano passado”, disse, dizendo que o sucesso destas curtas se deve ao facto de terem sido feitas por “gente boa”, com “acompanhamento de valor”. Porque quanto a histórias, “temos muitas” nas periferias de Lisboa. Não é essa a dificuldade, segundo o realizador luso-suíço. Pedro Dinis, produtor audiovisual que assina como Machine (e que conhecemos em Aqui, Ali), foi uma “peça chave” para chegar às histórias e desbloquear contactos, disse Basil. “Ajudou-me a encontrar as pessoas a quem os alunos iam dar voz”, referiu.
Do lado do Doclisboa, a intenção inicial era integrar os filmes no festival “mas chegaram-nos quando o programa já estava fechado, e portanto nós sentimos que fazia sentido expandir o festival”, com a exibição das seis curtas no Cinema Ideal, explicou Cíntia Gil, programadora do Doclisboa. Estes filmes, como outros que o festival costuma apoiar, ajudam a “expandir os mapas das nossas comunidades” e a “compreendemos a nossa comunidade como algo muito mais diverso e rico do que aquilo que muitas vezes imaginamos”, destacou, referindo também que A Cidade Invisível é um conjunto de seis “belíssimos gestos autorais”.
Esperemos que volte a ser possível exibir A Cidade Invisível.









