Exclusivo para assinantes.

Assina o LPP para desbloquear artigos como este. Paga 3 € por 1 mês.

“O Estado faz-se hiper presente em vigilância, mas hiper ausente no acesso aos direitos”

Ana Rita Alves não ficou indiferente à morte de Odair Moniz em Outubro de 2024. Ninguém ficou. A antropóloga tem vindo a estudar a relação entre racismo, espaço e violência política. Em entrevista ao LPP, diz que não é possível desligar a morte de Odair das políticas públicas de habitação das últimas décadas, nem da criação das Zonas Urbanas Sensíveis que autoriza a polícia a agir de forma diferente.

Ana Rita Alves não ficou indiferente à morte de Odair Moniz em Outubro de 2024. Ninguém ficou. A antropóloga tem vindo a estudar a relação entre racismo, espaço e violência política. Em entrevista ao LPP, diz que não é possível desligar a morte de Odair das políticas públicas de habitação das últimas décadas, nem da criação das Zonas Urbanas Sensíveis que autoriza a polícia a agir de forma diferente.

Ana Rita Alves (fotografia LPP)

Há sensivelmente um ano, a morte de Odair Moniz, na Cova da Moura, desencadeou um debate aceso sobre a actuação policial nos bairros marginalizados da área metropolitana de Lisboa. Odair foi atingido com dois disparos da arma de um agente da PSP, que, por seu lado, começou por dizer que o cabo-verdiano estava munido de uma faca e que, por isso, teria agido face a esse comportamento violento. Hoje, sabe-se que não estava.

A situação deixou os bairros da Cova da Moura e do Zambujal, ambos na Amadora, de luto. E gerou uma onda de revolta noutros bairros da área metropolitana de Lisboa, em zonas muitas vezes categorizadas estereotipadamente como perigosas, sujas e pobres. Houve caixotes do lixo incendiados, autocarros vandalizados e estragos noutras infraestruturas. Os distúrbios passaram num loop de directos e de comentários nos canais de notícias, e evidenciaram frustrações de quem sente que é constantemente marginalizado, seja pela comunicação social, seja pelos políticos e demais decisores, seja pelas forças policiais.

Aos olhos de Ana Rita Alves, que há vários anos trabalha nestes bairros e estuda a relação entre racismo, espaço e violência política, a morte de Odair Moniz é um sintoma de problemas estruturais; não é uma excepção. Ana Rita Alves é antropóloga desde 2008. Estudou na NOVA FCSH, fez um mestrado sobre o Programa Especial de Realojamento (PER), e é doutora em “Direitos Humanos nas Sociedades Contemporâneas” pelo Centro de Estudos Sociais e pelo Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, com a tese “Beyond Loss: Race, Displacement and the Political” (“Além da Perda: Raça, Deslocamento e o Político”).

A este trabalho académico, junta-se um trabalho exaustivo no terreno, em bairros marginalizados da área metropolitana de Lisboa, da Amadora ao Seixal, onde analisa as políticas de habitação e o resultado do Programa Especial de Realojamento (PER), do qual é crítica. Também deu aulas de alfabetização de adultos e português língua não materna. Ana Rita Alves conhece muito bem os chamados “bairros” e apresenta nesta entrevista as suas perspectivas críticas.

A conversa que de seguida reproduzimos, devidamente editada, decorreu em Novembro de 2024.

Como é que se olha para tudo o que aconteceu nos bairros da área metropolitana de Lisboa em Outubro de 2024?

Aquilo que sucedeu ao assassinato do Odair Moniz na madrugada de 21 de Outubro, no bairro do Alto da Cova da Moura, foi um acto imediato de solidariedade à família. Essa solidariedade está acoplada a uma grande dor – a dor da perda de mais um homem negro às mãos da polícia em Portugal, que infelizmente não é uma exceção, principalmente em determinados territórios mais periferizados da área metropolitana de Lisboa, em particular em bairros de autoconstrução ou em bairros de realojamento.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes. Assina a partir de 2 €/mês ou faz login.

Assina para acesso ilimitado

Acede a todos os conteúdos do LPP.

Online

Navega sem paywalls

24

Tem acesso a todos os conteúdos LPP+, episódios de podcast e a todas as edições do nosso Jornal em PDF.

Completa

O LPP digital e em papel

36

Com esta assinatura, tens acesso a todo o LPP, incluindo o Jornal em papel, os artigos exclusivos e os podcasts.

1 mês

Sem compromisso

3

Para quem quiser experimentar os nossos conteúdos exclusivos.