A Câmara de Cascais vai investir 30,2 milhões de euros na compra dos 450 mil metros quadrados de terrenos no final da A5, retirando-os da especulação imobiliária. Vai nascer o maior parque verde urbano do concelho e nova habitação pública municipal.

Os 450 mil metros quadrados de terrenos no final da A5 – localizados entre a Aldeia de Juso, Birre e os limites da Areia, na União das Freguesias de Cascais e Estoril – vão ser convertidos, em parte, no “maior parque verde urbano” do concelho de Cascais, que será cinco vezes maior do que o Parque Marechal Carmona – anunciou a autarquia no final do ano passado.
A Câmara de Cascais decidiu comprar o terreno, colocando um ponto final numa situação de especulação imobiliária que se prolongava há vários anos. O investimento municipal será de 30,2 milhões de euros, garantindo a preservação de 434,6 dos 450 mil metros quadrados, que serão mantidos como espaços naturais acessíveis a todos.
Câmara vai contrair empréstimo para investir
A aquisição dos terrenos foi proposta pelo Presidente da Câmara de Cascais, Nuno Piteira Lopes, em reunião camarária no final de 2025, onde foi aprovada e submetida de seguida à Assembleia Municipal, garantindo-se a sua aprovação também. De acordo com a documentação, a que o LPP teve acesso, o Município pretende adquirir terrenos através do exercício do direito de preferência, no valor de 30.234.000,00 € à actual proprietária, a Lusofundo – Fundo de Investimento Imobiliário Fechado, que se encontra em liquidação. O financiamento da compra “será assegurado por empréstimo”, indica o Município, referindo que “dispõe de capacidade de endividamento para contrair o referido empréstimo”.

O objectivo principal é, segundo a proposta, a “criação de um parque urbano de grande dimensão, devidamente infraestruturado e equipado, privilegiando áreas verdes, espaços de lazer, equipamentos desportivos e de recreio de utilização colectiva”, numa área aproximada de 434.607,80 m², situados entre a Aldeia de Juso, Birre e limites da Areia, e que constitui “uma das últimas zonas verdes contínuas de grande dimensão nesta área do concelho, actualmente sujeita a acentuada pressão urbanística”.
A Câmara de Cascais indica que os terrenos têm “elevado valor ecológico e paisagístico” e identifica uma “oportunidade de reforçar o contínuo natural e a conectividade de habitats, essenciais para a resiliência ambiental e mitigação das alterações climáticas”. O nome do futuro parque de 32,2 hectares “será concretizado num processo de participação pública no âmbito da Capital Europeia da Democracia”, sendo que o mesmo terá um parque infantil, um skate park, campos desportivos, percursos pedonais e de BTT, zonas de estadia, e ainda um pólo de empreendedorismo agrícola com hortas e pomares comunitários dentro da marca Terras de Cascais. No fundo, a autarquia prevê “um modelo contemporâneo de parque urbano que alia sustentabilidade, inclusão e produção local”.
Criar habitação pública e “terminar” a A5

Uma pequena parte do terreno dispõe de “capacidade construtiva” e será, por isso, “destinada à construção de edifícios de propriedade municipal destinados exclusivamente a renda acessível, prosseguindo assim o esforço municipal de combate às dificuldades no acesso a habitação com qualidade, no âmbito da Estratégia Local de Habitação do Concelho de Cascais” – um investimento que será feito entre o Município e o IHRU, no âmbito do programa 1º Direito.
Além da criação do parque verde urbano e da construção de habitação pública municipal, o projecto permitirá completar a ligação viária entre o final da A5 e as localidades da Aldeia de Juso e Areia, criando uma nova via estruturante.
Em comunicado, Nuno Piteira Lopes, fala num “final feliz”. “Depois de tantos anos, a Câmara Municipal de Cascais pode finalmente adquirir estes 450 mil metros quadrados, pôr fim à especulação imobiliária e preservar um espaço natural com enorme valor para Cascais e para os cascalenses”, sublinhou o presidente da autarquia, reforçando a ambição de Cascais ser a “capital da qualidade de vida em Portugal”.
As dúvidas da oposição

A proposta foi aprovada por maioria a 11 de Novembro de 2025, em reunião do executivo municipal, com votos favoráveis da coligação Viva Cascais (PSD/CDS), que governa o concelho e que é liderada por Nuno Piteira Lopes; também com os votos também a favor do PS e do Chega; e com os votos contra dos dois eleitos do movimento Cascais Para Viver, de João Maria Jonet.
Já na Assembleia Municipal, a aprovação deu-se a 24 de Novembro com os votos favoráveis do PSD, PS, Chega, CDS e Nova Direita, os votos contra do movimento Cascais Para Viver, Livre e PCP, e a abstenção da IL.
Para o Cascais Para Viver, movimento independente de João Maria Jonet, há várias questões que estão por esclarecer, como a dimensão e localização da habitação municipal, ou a a dimensão e localização do pavilhão multiusos, considerando o movimento que este deveria ser deslocalizado para outro local, numa freguesia do interior. O Cascais Para Viver concorda com o “objectivo central genericamente anunciado de criar um parque urbano e habitação acessível”, mas discorda da “condução política do processo”, uma vez que em 2015 se desperdiçou, refere, a revisão do PDM para “blindar estes terrenos à construção” e “salvaguardar” a área natural como tinha a autarquia, no início dos anos 2000, decidido.

Como os terrenos valorizaram entretanto devido a essa classificação do PDM, o movimento de Jonet entende que “o Município pagará demasiado por terrenos que deveriam valer substancialmente menos, caso o executivo tivesse actuado de forma adequada no planeamento estratégico deste território”.
Na Assembleia Municipal, o deputado socialista Miguel Costa Matos disse, citado pelo jornal Público, que esta é uma “oportunidade histórica” para o concelho e que se vai poder construir no local menos do que há uns anos. “O seu uso principal, que é ser o maior parque urbano do concelho, é desde logo um dado adquirido. É perplexo ser contra”, afirmou o deputado do PS, que ficou em terceiro lugar nas eleições de Outubro de 2021, antes do movimento de João Maria Jonet. “Ser oposição no concelho tem sido defender que existam mais parques urbanos e espaços verdes.”
Certo é que à volta dos terrenos que a Câmara vai agora comprar a pressão urbanística vai-se fazendo sentir com muita construção a avançar.




