A enumeração em voz alta dos nomes das pessoas artistas incluídas em Janeiro pelo Teatro do Bairro Alto (TBA) fez-me lembrar o vídeo que circulou, no qual eram ditos nomes de crianças imigrantes na Assembleia da República.

Na Assembleia Municipal de Lisboa de 13 de Janeiro de 2026, a deputada municipal do Chega Margarida Bentes Penedo mostrou ter muitas, mesmo muitas, dúvidas sobre a linha artística do Teatro do Bairro Alto (TBA). Mostrou também simpatizar com apenas um artista em Portugal, que gostaria de ver integrado na agenda cultural da cidade.
Num tom jocoso, enumerou o cartaz de Janeiro do TBA, exigindo aquilo a que chamou uma “cultura de direita”. Cara Margarida Bentes Penedo, lamento informar que às câmaras compete apenas gerir os equipamentos, não a programação artística. Em segundo lugar, os dados que apresentou sobre a lotação das salas do TBA estão errados: todas as pessoas criadoras que referiu esgotam regularmente os espaços por onde passam, porque são excelentes e abordam temas complexos que, infelizmente, ainda não estão resolvidos.
Em terceiro lugar, relativamente ao pedido para que o seu amigo fadista João Braga seja incluído na agenda, devo dizer que há formas mais elegantes de propor alguém. Fazer vexame público de colegas não é, certamente, a melhor estratégia. Bem-vinda ao struggle e ponha-se na fila, por favor. É feio tentar passar à frente.
A enumeração em voz alta dos nomes das pessoas artistas incluídas em Janeiro pelo TBA fez-me lembrar o vídeo que circulou, no qual eram ditos nomes de crianças imigrantes na Assembleia da República. Trata-se, evidentemente, de níveis de violência muito distintos: no primeiro caso instrumentalizam-se menores anónimos; no segundo, vocaliza-se um programa público. Ainda assim, o mecanismo é semelhante: usar profissionais da arte e da cultura como bodes expiatórios, expondo-os e tentando limitar o seu espaço de actuação sob uma narrativa ideológica simplista e persecutória.
A resposta tem de ser inequívoca, por parte de todas as frentes da sociedade. E, para desfazer esse gesto, repito também eu os nomes destas pessoas, mas desta vez para lhes agradecer o trabalho e enviar a minha maior estima e admiração: Marga Alfeirão, Myriam Lucas, Shaka Lion, Puta da Silva, Ana Borralho, Batuqueiras Finka Pé, Aho Ssan, Mohammed Abbasi, Sepideh Khodarahmi, Novelo Vago, Joëlle Léandre e Akira Sakata 4tet. As mais sinceras desculpas por verem os vossos nomes usados de forma tão baixa e inconsequente.
Tudo isto para dizer que é, de facto, na Arte e na Cultura que se tornam visíveis muitos dos sinais da operação política que vivemos. Nos últimos anos, tem sido recorrente presidentes de autarquias assumirem directamente o pelouro da Cultura, precisamente porque é neste campo que se travam batalhas políticas decisivas, e controlar o pelouro permite definir as narrativas sem contestação. Algumas candidaturas sabem-no bem e integram a vida cultural na lógica dos seus mandatos.
Na maioria dos casos, o sector beneficia desta atenção, pois ela traduz-se em desbloqueio de capital, recursos e energia numa área estruturalmente precarizada. Também as configurações do Ministério da Cultura oferecem pistas claras sobre as cores políticas dominantes: é sabido que a sua inexistência correspondeu a lideranças conservadoras. Do mesmo modo, fundi-lo com outros ministérios acaba por produzir o mesmo efeito, apenas com um estilo diferente. Não se enganem: não há almoços grátis. A conta paga-se sempre, a diferença é que, quando vem na factura, vem discriminada, mais tarde já não virá. Cá eu prefiro saber o que pago.
Nota: este artigo foi publicado também aqui.




