Desde o início das tempestades que assolaram o território português, o concelho de Almada tem registado vários deslizamentos de terras nas arribas da Costa da Caparica e de Porto Brandão, obrigando à evacuação de casas. A Presidente da Câmara, Inês de Medeiros, avisa que muitas das pessoas que tiveram de sair das habitações não conseguirão regressar às casas.

É sexta-feira, 13 de Fevereiro. Numa corrida contra o tempo, de lágrimas nos olhos e uma incerteza no coração, os moradores da Azinhaga dos Formozinhos, em Porto Brandão, Almada, procuram retirar os seus bens, antes que a terra deslize e lhes leve toda uma vida.
Pelo terceiro dia consecutivo, estes moradores fazem uma romaria àquela que foi a sua morada durante décadas para, com a ajuda de amigos e familiares, levarem tudo o que podem. E nesta azafama há sempre um que carrega a mobília do outro ou dá um abraço de conforto mesmo quando também é visível o seu sofrimento e desespero face à força da natureza.
“É toda uma vida que está ali”, disse Teresa Carvalho, uma das moradoras do bairro, em declarações à agência Lusa, enquanto uma afilhada a abraça e lhe diz “este é só mais um obstáculo na vida, já tiveste tantos”.
A Azinhaga dos Formozinhos fica nas arribas entre o Monte da Caparica e Porto Brandão, no concelho de Almada. Tem o Tejo ao seu lado e o acesso faz-se por um caminho de terra batida que “desagua” num largo onde nesta sexta-feira há um corrupio de carros e carrinhas de caixa aberta para carregar o máximo que podem porque, um pouco mais à frente, na rua das suas casas, o chão já deixou de ser seguro e desliza encosta abaixo como se estivesse a derreter.

Um elemento da Proteção Civil consola uma mulher forçada a retirar os bens da sua casa (fotografia de António Pedro Santos/Lusa) 
Um popular retira os bens da sua casa na Azinhaga do Formozinho (fotografia de António Pedro Santos/Lusa) 
Com a ajuda de amigos e familiares, os moradores levam tudo o que podem (fotografia de António Pedro Santos/Lusa) 
Duas mulheres reagem após terem sido forçadas a retirar os bens das suas casas na Azinhaga do Formozinho (fotografia de António Pedro Santos/Lusa)
Teresa Carvalho mora naquele bairro há 48 anos. Natural de Castelo Branco, casou com 19, e o seu filho, Carlos Carvalho, também morador na Azinhaga dos Formozinhos, cresceu já neste território de Almada. “É aqui que temos a nossa vida e, de um momento para o outro…”, disse com a voz embargada por uma profunda tristeza que não a deixou terminar a frase.
Teresa e Carlos, além de moradores, são também proprietários de outras tantas casas que têm arrendadas e, apesar do desespero sobre o seu próprio futuro, ambos emocionam-se de preocupação com os seus inquilinos.
“São 48 anos de investimento, tudo o que ganhei está aqui. Investi aqui para ter um futuro na minha velhice. E os meus inquilinos, preocupo-me tanto com eles. Tenho ali quatro inquilinos, um deles uma senhora com 70 e tal anos que paga 108 euros de renda, onde é que esta pessoa vai arranjar onde viver?”, sublinhou Teresa Carvalho. Carlos Carvalho, por seu turno, confidencia que nos últimos dias a sua maior preocupação foi ajudar os vizinhos e os inquilinos a levar os seus pertences porque naquele bairro “são todos família”.
A uns escassos quilómetros da entrada para a Azinhaga dos Formozinhos, quase ao pé da Faculdade Egas Moniz, estavam outros quantos vizinhos de Teresa e Carlos, alguns até seus inquilinos, a aguardar que as autoridades permitissem descer ao bairro para resgatarem as suas coisas. Maria Júlia, 69 anos, que há 30 anos mora no bairro onde o marido nasceu e cresceu, assegura que nunca tal aconteceu.
Com ordem para sair, diz que agora a sua maior angustia é saber onde vai viver e pede que as autoridades não se esqueçam desta população, alguns já de muita idade. “Os meus filhos nasceram aqui. É toda uma vida e agora temos as nossas coisas destroçadas”, disse em declarações à agência Lusa. Na verdade não é uma vida, são muitas vidas vividas naquele território, algumas de várias gerações e que agora dizem ter o seu futuro em suspenso.
Teresa Carvalho encontrou acolhimento junto de familiares, mas Maria Júlia, o marido e o pai, de 91 anos, foram acolhidos temporariamente pela autarquia de Almada no INATEL, na Costa da Caparica. A incerteza da palavra “temporário” assusta-os e o que agora pedem é que ninguém se esqueça que há gente nos Formozinhos, na terra com vista para o Tejo, que precisa de um lar para que as intempéries não levem mesmo tudo.
Deslizamentos têm sido preocupação em Almada

Desde o início das tempestades que assolaram o território português, o concelho de Almada tem registado vários deslizamentos de terras nas arribas da Costa da Caparica e de Porto Brandão. Segundo a Presidente da Câmara, a 13 de Fevereiro, sexta-feira, pelo menos 160 pessoas já foram acolhidas pela autarquia, só de Porto Brandão.
Foi dias antes, a 11 de Fevereiro, que se iniciou o processo de evacuação total de Porto Brandão, devido ao agravamento do risco de deslizamento de terras nas arribas, que poderia não só colocar em risco habitações, pessoas e bens, como isolar a localidade, uma vez que esta tem apenas uma estrada de acesso.
“O que está em curso é, de facto, um processo de evacuação do Porto Brandão, porque aí é que se teme uma derrocada maior que pode cortar os acessos” à localidade, explicava Inês de Medeiros à agência Lusa, nessa quarta-feira. “A área e o perímetro em risco têm vindo a aumentar porque o problema está na parte superior, na Azinhaga dos Formosinhos. Temos vindo a avaliar paulatinamente com os nossos técnicos a área que está em risco”, dizia, por seu turno, Francisca Parreira, Vereadora da Proteção Civil, à RTP, segundo citação do jornal local Almadense.
Nesse dia 11 ainda não era conhecido o número exacto de pessoas afetadas pela evacuação. Dois dias depois, na sexta-feira, o balanço tornava-se claro: cerca de 500 pessoas retiradas, sem previsão de regresso, uma vez que o risco de derrocadas não diminuiu, pelo contrário, agravou-se. Foi também evacuada uma empresa de abastecimento de navios, a ETC – Terminais Marítimos.
A TTSL ajudou na operação. Apesar de a Estação Fluvial de Porto Brandão ter sido encerrada, a transportadora fluvial disponibilizou um ferry para ajudar as pessoas a sair de Porto Brandão e retirar os automóveis. A ligação fluvial entre Lisboa (Belém) e a Trafaria continua a fazer-se hoje sem a habitual passagem por Porto Brandão, não havendo previsão de restituição da mesma.
As derrocadas na Costa da Caparica
Não tem sido só em Porto Brandão que as derrocadas têm preocupado tudo e todos. Na Costa da Caparica, mais concretamente em São João da Caparica, um desabamento a 4 de Fevereiro expôs a vulnerabilidade das habitações localizadas junto à encosta. Uma moradora contava ao Almadense, que estes desabamentos não são inéditos. “É recorrente, mas ninguém faz nada”, lamentava Sandra Pina, que acordou sobressaltada na madrugada desse dia. “Às 5h da manhã começou a cair”, relatou ao mesmo jornal, falando na apreensão ao ver a arriba fóssil a desmoronar-se a uns escassos 10 metros da sua casa.
Alguns dias depois, a 7 de Fevereiro, um novo deslizamento de terras em São João da Caparica obrigou à retirada, por precaução, de 35 pessoas de três edifícios que ficam junto à arriba fóssil. À comunicação social, Inês de Medeiros explicou que as terras entraram num dos apartamentos, tendo as pessoas sido retiradas de imediato, sem registo de feridos.
“Estamos a avaliar a questão estrutural do edifício e a tentar desviar a água do cimo da arriba para evitar que mais terra caia e deixe de fazer pressão sobre um muro de betão que conseguiu reter parte das terras. Só depois dessa avaliação é que as pessoas saberão se podem ou não regressar a casa”, dizia nesse dia. Começou a ser feita a avaliação não só do edifício que foi atingido como também de outros que estão perto.
Na semana seguinte, no dia 11, um novo deslizamento de terras obrigou à retirada de mais 31 pessoas. A ocorrência foi registada na madrugada, quando uma pedra de grandes dimensões se desprendeu da arriba e atingiu um prédio. “A arriba que está junto destes prédios está a ter movimentos e, cerca das 3h38, uma pedra de dimensões significativas deslizou e atingiu o número três da Rua João Azevedo. Esta situação obrigou à retirada de 31 pessoas, que foram entretanto encaminhadas para equipamentos da autarquia e para casa de familiares”, adiantava o Comando Sub-Regional da Proteção Civil da Península de Setúbal, citado pela agência Lusa.

Mais de 30 pessoas foram retiradas na madrugada de 11 de Fevereiro devido a um deslizamento de terras na arriba, que não causou vítimas (fotografias de Filipe Amorim/Lusa) 
Mais de 30 pessoas foram retiradas na madrugada de 11 de Fevereiro devido a um deslizamento de terras na arriba, que não causou vítimas (fotografias de Filipe Amorim/Lusa)
Entretanto, nesta semana, com o tempo mais calmo, uma nova derrocada em São João da Caparica deixou soterradas três habitações cujos moradores já tinham sido retirados pelas autoridades e levou à retirada preventiva de 20 moradores de edifícios vizinhos. O incidente aconteceu na madrugada desta terça-feira, 17 de Fevereiro, pela 1h15, na Rua Duarte Pacheco Pereira, de acordo com o Comando Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil da Península de Setúbal. O interior das casas ficou danificado.
”Em muitos casos não vai ser possível regressar às habitações”
Na fronteira com o rio Tejo e o Oceano Atlântico, o concelho de Almada divide-se entre uma parte alta e uma parte baixa, separadas por arribas imponentes, marcadas pela sua altura e beleza. As chuvas intensas das últimas semanas saturaram os solos, tornando-os mais vulneráveis a deslizamentos e derrocadas, o que aumenta o risco para quem vive nas zonas mais baixas, nomeadamente as populações de Porto Brandão e da Costa da Caparica.

A presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, já admitiu que em muitos desses locais não seria permitida construção aos dias de hoje e que é preciso repensar a forma de fazermos cidade. Já nesta segunda-feira, dia 16, a autarca disse que muitas das pessoas que tiveram de sair das habitações no concelho devido aos deslizamentos de terras na sequência do mau tempo não conseguirão regressar às casas.
Inês de Medeiros, que falava no início da reunião do executivo camarário, actualizou os números de pessoas alojadas de emergência pelo Município de 160 (avançado na sexta-feira) para 230. Contudo, acrescentou, existem muitas outras que foram acolhidas por familiares, mas que terão de ser contabilizada para a necessidade de casa, “porque em muitos casos não vai ser possível regressar às habitações”. Só de Porto Brandão, onde se tem vivido a situação mais crítica, foram retiradas cerca de 500 pessoas.
De acordo com a autarca, está a ser criada uma ‘task force’ municipal para dar respostas às situações actuais, preparar a reabilitação, bem como o futuro. Equipas da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa, com quem a autarquia tem protocolo, foram também acionadas para a monitorização das arribas, acrescentou, explicando que desde 2023 que a autarquia tem trabalhado com a FCT para avaliar esses locais. Estas equipas, continuou, irão nos próximos dois anos monitorizar a vertente ribeirinha e toda a arriba fóssil.
Por outro lado, a Câmara Municipal de Almada pediu também ajuda ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). “Os nossos serviços estão no máximo das suas capacidades e precisamos, não de um levantamento das ocorrências, mas sim de um apoio claro para estas movimentações de massa e decidir o que se pode fazer. Se se provoca a queda ou se continuamos nesta dura dolorosa espera e em prevenção”, disse Inês de Medeiros.
O LNEC, contou, já esteve na Costa de Caparica na altura do deslizamento de terras junto a umas habitações em São João da Caparica, mas a avaliação que foi feita não é ainda conhecida, nem foi facultada à autarquia, tendo sido dada indicação ao município de que são dados confidenciais. Ainda a propósito do apoio do LNEC, a autarca defendeu que técnicos do laboratório deveriam também avaliar a zona de Porto Brandao e da Azinhaga dos Formozinhos.
Em Portugal, 16 pessoas morreram na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados. A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
Estas tempestades explicam-se, em parte, pela posição do anticiclone dos Açores, que se encontra mais a sol do que é habitual, abrindo caminho a um tempo de chuvas e de ventos, por vezes muito fortes. A região centro, a área metropolitana de Lisboa e o Alentejo foram as mais afectadas.









