As estações da rede GIRA estão sem funcionar na freguesia de Santa Clara há vários meses, após actos de vandalismo; e a EMEL não tem data de reabertura.

A rede GIRA continua encerrada na freguesia de Santa Clara e a EMEL não tem solução à vista. As três estações que empresa de mobilidade de Lisboa abriu naquela freguesia entre Fevereiro e Abril de 2025 estão sem funcionar desde Outubro depois de alguns actos de vandalismo, que envolveram, por exemplo, bicicletas atiradas à água no Parque Oeste.
À Antena 1, no início deste ano, a EMEL indicou que tinham sido “registados pelo menos 12 atos de vandalismo em três estações entre os meses de Abril e Setembro de 2025, a que se soma à vandalização de mais de 100 bicicletas”. A empresa municipal formalizou queixas junto da PSP, anexando “vídeos remetidos por residentes e utilizadores que testemunharam os incidentes”.
Sem previsão de reabertura
Por agora, não há qualquer data para uma eventual reabertura das estações GIRA em Santa Clara, mas a EMEL disse, à rádio pública, querer trabalhar com associações locais com esse fim em vista. “A EMEL mantém todo o interesse em reabrir estas estações, no entanto é sua obrigação assegurar a salvaguarda do interesse público, nomeadamente a segurança e sustentabilidade dos equipamentos, garantindo uma correcta utilização pela comunidade”, indicou à Antena 1, dizendo que a “persistência e recorrência” dos comportamentos de vandalismo obriga “uma reavaliação dos moldes em que a operação se pode continuar a realizar”.

A EMEL chegou a reparar as estações GIRA em Santa Clara e a recolocá-las em funcionamento uma ou duas vezes, mas, dada a insistência no mau uso, encerrou-as sem previsão de reabertura no passado mês de Outubro. Agora, diz que ”não é ainda possível indicar, uma data concreta para a reabertura das estações”. Segundo ainda a EMEL, está a ser preparado “um trabalho de proximidade com associações locais” para “incentivar condutas mais responsáveis” e abrir caminho a um regresso da GIRA à freguesia de Santa Clara.
Carlos Castro (PS), Presidente da Junta de Freguesia de Santa Clara, concorda com esse plano, conforme contou à Antena 1. O autarca disse conhecer os episódios de vandalismo das estações e bicicletas GIRA na freguesia. “ Naturalmente que isso tem de ser condenado, não pode ser tolerado e aquilo que queremos é ter as condições de ter as docas e as bicicletas a funcionar”, disse Carlos Castro à rádio pública, pensando não só nos residentes de Santa Clara, como em todas as pessoas que querem usar este modo na cidade.
Estações de pouca dura

Em Fevereiro de 2025, a EMEL anunciava a abertura da primeira estação GIRA (nº 580) na freguesia de Santa Clara, mais concretamente na Azinhaga da Cidade, junto à estação de metro Ameixoeira. Com essa inauguração, ficou a faltar apenas uma freguesia (a da Ajuda) para a rede de bicicletas partilhadas estar em todas as freguesias da cidade – um marco que o Executivo de Carlos Moedas queria atingir até ao final do seu primeiro mandato. Em Abril, mais duas estações (nº 565 e 573) abriram em Santa Clara, na zona da Alta de Lisboa e do Parque Oeste.
Na freguesia, existem mais duas estações instaladas mas que nunca chegaram: uma (nº 571) que está mapeada digitalmente e que se encontra na Alta de Lisboa; e outra que fica no núcleo mais antigo da freguesia. Contas feitas, Santa Clara já poderia ter cinco estações GIRA em funcionamento e mais de uma centena de docas disponíveis.
O tema do não funcionamento da GIRA em Santa Clara passou pela reunião pública da Câmara de Lisboa desta quarta-feira, 25 de Fevereiro. Rodrigo Leitão, munícipe de 21 anos, acusou a autarquia de mentir em relação à presença da GIRA em todas as freguesias da cidade e pediu explicações aos eleitos. “Que soluções têm para combater o vandalismo que tem assolado Santa Clara e outras zonas da cidade e, já que se tem falado tanto em videovigilância, pergunto se será oportuno instalar câmaras nas estações GIRA?”, perguntou o jovem, questionando o Executivo de Carlos Moedas (PSD) sobre as fragilidades da rede não só em Santa Clara, como na freguesia da Ajuda (onde, disse, a utilização tem sido “residual”) e noutras partes da cidade.
“No passado domingo, na minha freguesia de Carnide, das 157 docas instaladas, cerca de 100 estavam inutilizadas, o que dá uma disponibilidade de 37%”, referiu, dizendo que em algumas estações há “apenas um ou duas docas a funcionar”. “Em vez de se focar em resolver estes problemas, este Executivo tem-se focado em cumprir metas como a chegada da GIRA a todas as freguesias, que é mentira. A freguesia de Santa Clara está mais ou menos desde o Verão sem estações abertas”, lamentou o jovem utilizador da GIRA. “Foi feita campanha para as eleições com este tema [da GIRA em todas as freguesias].”

O Presidente da Câmara, Carlos Moedas, reconheceu que “ainda há bastantes problemas a resolver” e agradeceu a participação do munícipe. Por seu lado, Gonçalo Reis, Vice-Presidente da autarquia, que tem o pelouro da Mobilidade e da GIRA, indicou que “temos de passar de uma perspectiva não quantitativa para uma perspectiva também qualitativa, e acho que nisso o Rodrigo tem toda a razão”. Segundo Gonçalo Reis, o vandalismo “é um tema sério”, realmente “em Santa Clara temos três estações que foram sistematicamente vandalizadas, com um custo de reparação enorme”. “Também temos de zelar pelo bem público”, assegurou o Vice-Presidente, respondendo que “algum tipo de videovigilância é um ponto que podemos estudar”.
Na mesma reunião, Ana Jara, vereadora do PCP, em substituição de João Ferreira, salientou haver pessoas que se preocupam com a GIRA e lembrou um requerimento que o gabinete comunista apresentou na Câmara de Lisboa no final de Janeiro “e que está por responder”. “Parece que o vandalismo é desculpa para tudo. Quantos actos de vandalismo? O que são estes actos? Quantas situações de vandalismo são reportadas à Câmara de Lisboa? Precisamos de saber isto para falar destas coisas com o rigor que se exige.”, exigiu a vereadora Ana Jara.
O PCP apresentou, no final de Janeiro, um requerimento a pedir dados concretos sobre a GIRA que permitissem ao partido ter um ponto de situação do serviço e da rede. “A opção de encerramento das estações, por questões de vandalismo, não vai ao encontro do objetivo determinado pela EMEL, de uma visão ‘centrada nas pessoas’, pelo contrário. Numa freguesia em que parte da população já se sente esquecida, negar o acesso a este serviço não é salvaguardar o interesse público, mas sim penalizar toda a população”, indicam os comunistas no documento. “Embora seja do nosso conhecimento a existência de atos de vandalismo no uso das bicicletas GIRA, os mesmos não são exclusivos desta freguesia, nem são os responsáveis pelo mau funcionamento desta rede, o que torna desadequada esta medida”, acrescentam.
A rede GIRA conta actualmente com cerca de 200 estações disponíveis em 23 freguesias. Recentemente, foi disponibilizada uma nova estação em Campo de Ourique, na renovada Praça Afonso do Paço, e outras duas na freguesia dos Olivais, mais concretamente no bairro da Encarnação. A Câmara de Lisboa e a EMEL planeiam abrir 20 estações por ano, o que significa chegar ao final deste ano com 220 e ao final do actual mandato autárquico com 260 estações. Uma nova app da GIRA está em desenvolvimento para lançamento na primeira metade deste ano, resolvendo os constrangimentos existentes no serviço.











