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Piloto na Gare do Oriente ajuda pessoas cegas a encontrar o caminho

Na Gare do Oriente, pessoas cegas ou com baixa visão estão a testar um sistema de orientação que promete facilitar o uso dos transportes públicos. Através do telemóvel, de códigos QR coloridos e de guias tácteis, é possível fazer de forma autónoma o percurso entre paragens da Carris Metropolitana e a estação de metro.

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Na Gare do Oriente, pessoas cegas ou com baixa visão estão a testar um sistema de orientação que promete facilitar o uso dos transportes públicos. Através do telemóvel, de códigos QR coloridos e de guias tácteis, é possível fazer de forma autónoma o percurso entre paragens da Carris Metropolitana e a estação de metro.

Paulo Santos, da ACAP, tem baixa visão e usa o telemóvel para navegar na estação de metro do Oriente (fotografia cortesia de TML)

Chama-se WayFinding, ou seja, “encontrar o caminho”. Trata-se de um projecto-piloto, promovido pela Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML), que está em curso na Gare do Oriente. O intuito é ajudar pessoas cegas ou com baixa visão a deslocarem-se entre as paragens da Carris Metropolitana e a estação do Metro. Tudo com a ajuda de uns códigos QR coloridos, do telemóvel, de instruções áudio e de guias tácteis no pavimento.

De telemóvel na mão, Paulo Santos começa o percurso na paragem 16 do terminal rodoviário da Gare do Oriente. Faz de conta que acabou de sair do 2724, do 2726 ou do 2731 – três linhas da Carris Metropolitana que ligam Lisboa a Loures, e que têm término naquele local. Mas a viagem não aconteceu: Paulo acabou de chegar ali apenas para demonstrar o WayFinding, o sistema piloto de guiamento que segura na sua mão. Estamos a 20 de Outubro, o Dia Nacional da Acessibilidade.

Paulo Santos é presidente da delegação de Lisboa da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO); e foi uma das pessoas convidadas pela TML para mostrar aos jornalistas o WayFinding. O telemóvel de Paulo está com a aplicação NaviLens (iOS e Android) aberta e é através desta, e da câmara do equipamento, que se orienta na Gare do Oriente. Quando a câmara reconhece um dos códigos QR coloridos espalhados pela interface de transportes, a aplicação dá indicações em áudio a Paulo. Foi o que aconteceu naquela paragem: a app depressa lhe disse onde estava e que linhas da Carris Metropolitana podia ali apanhar.

Mas o percurso que queremos fazer é o inverso: ir desta paragem de autocarro para a estação de metro, Oriente, apanhar a Linha Vermelha. Para isso, Paulo só tem de continuar com o telemóvel na mão, com a NaviLens aberta e com a câmara do dispositivo a apontar para fora. A aplicação vai continuar a dar instruções à medida que apanha os códigos QR, espalhados entre as paragens exteriores da Carris Metropolitana e o interior da Gare.

Solução pode ser alargada a mais interfaces

O projecto-piloto pode ser alargado a outras interfaces de transporte da região metropolitana de Lisboa (fotografias cortesia de TML)

O projecto WayFinding tem como objectivo “avaliar a eficácia e aplicabilidade de tecnologias de acessibilidade e navegabilidade em interfaces complexas”, como é o caso da Gare do Oriente. Resulta de uma iniciativa da TML, em parceria com o Metro de Lisboa (ML), a Infraestruturas de Portugal (IP), o Instituto Nacional para a Reabilitação (INR) e a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO). O projecto não se esgota na utilização de códigos coloridos e da aplicação NaviLens – houve obra feita na Gare do Oriente.

Entre a paragem de autocarro e o metro foram instaladas guias tácteis no pavimento, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão possam, com a bengala, detectar obstáculos e identificar o caminho. O piso táctil está por toda a estação de metro do Oriente – que é, assim, a única estação da rede do Metro de Lisboa a oferecer este tipo de apoio. Há guias tácteis junto aos lanços de escadas, na passagem pelas portas de acesso e nos cais de embarque. Quando mais que uma guia se cruza no chão, há códigos QR colado para que a NaviLens nunca deixe de comunicar com o utilizador e lhe diga por onde seguir.

Nos corrimãos de escada, por sua vez, foram colocadas marcações em braille com indicação do destino – ora “São Sebastião”, ora “Aeroporto”, ora “Metro”, ora “Carris Metropolitana” –, criando redundância à aplicação e permitindo aos passageiros saberem se estão na direcção certa. Foi ainda desenvolvido um mapa de alto contraste de toda a Gare do Oriente.

Planta de Alto Contraste da Gare do Oriente, desenvolvida no âmbito do projecto WayFinding (via TML)

Sem visão, andar de transportes é um desafio

Paulo Santos diz que os transportes públicos em Lisboa não estão preparados para pessoas cegas ou com deficiência visual (fotografia LPP)

O WayFinding é um projecto de carácter experimental para avaliar a viabilidade e impacto real destas soluções no terreno, antes de uma eventual expansão a outras interfaces de transporte da área metropolitana de Lisboa. “Queremos garantir que cada passo no sentido da acessibilidade e navegabilidade é dado com base em evidência e na experiência direta das pessoas que dela necessitam”, sublinha Faustino Gomes, Presidente da TML.

Aos jornalistas, em Outubro, Paulo Santos disse que esta iniciativa pode trazer “bastantes melhorias e autonomia às pessoas com deficiência visual”. “Este era um espaço em que havia muita dificuldade, porque não havia pontos de localização. Hoje, com este projeto aqui implementado, apesar de ser só entre a carreira metropolitana e o metropolitano de Lisboa, uma pessoa cega ou com baixa visão consegue-se deslocar autonomamente sem os perigos de barreiras arquitetónicas ou estruturais”, realçou o responsável da ACAPO, que teve um papel activo na construção e teste da solução.

Paulo Santos disse que há muito por melhorar nos transportes públicos em Lisboa para os tornar acessíveis a pessoas com deficiência visual, dando como exemplo que o sistema de avisos áudio dos autocarros, sobretudo da Carris, que é “desligado pelos motoristas (…) porque aquilo parece que incomoda”. O dirigente da ACAPO espera que o piloto em curso no Oriente venha a ser implementado noutros locais da cidade e região de Lisboa, notando que a legislação sobre acessibilidades não só está desactualizada, como não é cumprida.

Sónia Páscoa, administradora do Metro de Lisboa, disse, por seu lado, que o Metro pretende “implementar, de forma progressiva, um sistema de acessibilidade universal e intemporal, alinhado com as melhores práticas e com medidas já em curso, como a sinalização táctil, a informação sonora, os sistemas digitais, e a colaboração com entidades especializadas”. Em várias redes europeias de metro, é comum haver pavimento táctil nas estações, algo que nas estações de Lisboa não existe – só mesmo agora na estação do Oriente.

TML convida pessoas com deficiência visual a testar o piloto

O WayFinding está disponível na Gare do Oriente e pode ser experimentado livremente (fotografia cortesia de TML)

A TML diz que os resultados do WayFinding “irão servir de base à avaliação técnica e funcional destas soluções, contribuindo para definir futuras estratégias de investimento em acessibilidade e mobilidade inclusiva na rede metropolitana”. A empresa intermunicipal – que coordena o Navegante e a Carris Metropolitana – está a convidar pessoas com deficiência visual a testar novo percurso acessível na Gare do Oriente e a deixar sugestões de melhoria.

Para tal, estão disponíveis visitas acompanhadas por técnicos especializados, sendo que as inscrições podem ser feitas através de um formulário online. Quem preferir pode também explorar o percurso de forma autónoma, recorrendo a um guia de apoio (disponível em baixo, em PDF) e à planta de alto contraste (disponível em cima, em PDF também). Após a experiência, a TML convida os participantes a responder a um formulário de avaliação, ou a enviar contributos para transportes@tmlmobilidade.pt.

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