A oportunidade de criar um novo terminal rodoviário em Lisboa não foi bem aproveitada. E, cinco anos depois, são vários os problemas no Campo Grande. A começar pelo pavimento pedonal, danificado há demasiado tempo sem que ninguém o repare.

Há mais de três anos que os utilizadores do maior terminal de autocarros suburbanos de Lisboa têm de ter cuidado redobrado ao caminhar entre as paragens da Carris Metropolitana e a estação do Metro de Lisboa. O pavimento de lajetas de betão, que deveria ser praticamente liso e confortável, está danificado desde o final de 2022. Apesar de ser uma das zonas com maior tráfego pedonal da cidade, a resolução do problema tem-se arrastado por tempo demais.
A Câmara de Lisboa não respondeu a todas as questões colocadas pelo LPP, mas confirmou, através do seu Departamento de Comunicação, que “a reparação do pavimento em lajetas da interface do Campo Grande deverá ter início ainda no decurso do mês de Março, estando previsto um prazo de execução de 60 dias”. Uma intervenção que vai chegar tarde.
O problema está no troço pedonal da Rua Actor Silva, que liga o terminal rodoviário – servido essencialmente pela Carris Metropolitana – à estação de metro. Neste local, o piso é composto por lajetas desde 2012, ano em que foi construído o edifício-sede da NOS e renovada parte da envolvente da estação do Metro de Lisboa. Já em 2020, foi construído um novo terminal rodoviário, numa intervenção que implicou a relocalização das paragens até então existentes para libertar espaço para uma nova urbanização nos terrenos do antigo Estádio José Alvalade – e as mesmas lajetas foram utilizadas no alargamento dos passeios e na nova interface, criando-se, assim, um espaço público amplo, moderno e confortável no Campo Grande para quem circula a pé entre os autocarros e o metro, mas também para quem circula na zona por outro motivo.
Todavia, logo no ano seguinte, em 2021, o Metro de Lisboa iniciou obras no local para construir os viadutos para a futura Linha Circular e alargar o edifício da estação, o que teve impacto numa área que nem há um ano tinha acabado de ser requalificada. Parte do pavimento novinho em folha foi arrancado, mas o problema que hoje reportamos terá sido causado sobretudo pelos episódios de precipitação intensa na cidade em Dezembro de 2022. As chuvas terão danificado as lajetas que escaparam à área das obras, levantando partes desse pavimento e criando um piso irregular e perigoso para quem ali caminha. Mas imagens do Google Street View de Outubro desse ano mostram que parte o pavimento já tinha cedido antes das cheias de Dezembro.

O estacionamento abusivo constante no local, seja de viaturas da PSP, de veículos de empresas de jardinagem que vão cuidar dos espaços verdes ou de carrinhas de carga e descarga – que o LPP tem testemunhado ao longo do tempo, a diversas horas do dia –, foi contribuindo para agravar os danos, pressionando ainda mais as lajetas, que não estão preparadas para o peso e para as rodas desses veículos. A presença de automóveis e de outras viaturas no passeio para as obras do Metro de Lisboa também não terá em nada ajudado à preservação das lajetas fora do local directamente afectado por essa empreitada.
Com o fim das obras do Metro em meados de 2023, o passeio foi reposto na área ocupada pelo estaleiro, mas não se aproveitou essa intervenção – e a aquisição de paletes de lajetas da mesma – para reparar todo o piso danificado nas imediações, como testemunhou também o LPP.
Assim, o passeio utilizado pelos milhares de passageiros que todos os dias se deslocam entre os autocarros e o metro – muitos deles em passo apressado ou mesmo a correr para não perder a ligação – foi continuando irregular e perigoso, com várias lajetas levantadas, outras partidas, e vários buracos capazes de provocar tropeções e quedas. A situação dura há mais de três anos. No início de 2024, a Câmara de Lisboa chegou a fazer, através de uma contratação pública, uma primeira intervenção de reparação de uma parte do piso, mas não tardou até as novas lajetas ficarem de partidas – o estacionamento abusivo de viaturas, fruto da ausência de pilaretes, voltou a danificar o pavimento pedonal. Outra reparação foi feita num local diferente em Dezembro desse mesmo ano, também sem resultados duradouros.

O Público escreve, numa reportagem realizada em Janeiro deste ano, que as quedas no local são constantes. “Todos os dias, há aí quedas. Então, a partir das 16h30, com as pessoas a saírem do metro e a correrem para o autocarro, nem imagina”, contou um varredor da Junta de Freguesia do Lumiar ao jornal. “Só no outro dia, assisti a duas quedas”, referiu a mesma testemunha. Uma funcionária de uma farmácia confirmou a recorrência dos acidentes. “Está sempre a acontecer. Ainda ontem caiu aí uma senhora. Nós damos assistência a muitas dessas pessoas e chamamos a ambulância para os casos mais graves”, disse. “Já fizemos várias reclamações. Isto até já foi arranjado, mas voltou ao mesmo”, relatou ao Público.
Para além dos problemas no pavimento pedonal, existem também áreas com pinturas temporárias de ciclovias que nunca chegaram a ser removidas; há sinalização vertical que permanece no local apesar de já não ser necessária; há um troço de ciclovia com balizadores por recolocar (nem a obra de manutenção dessa ciclovia, realizada no final de 2025, resolveu o problema); e há guias tácteis junto a passadeiras que continuam por reparar. Pequenos problemas, numa área renovada há muito pouco tempo e que se juntam a outros mais críticos.
Abrigo danificado desde 2023 e contentores que cheiram mal
Uma cobertura de uma paragem de autocarro está partida e em risco de queda desde um acidente entre dois veículos da Carris Metropolitana, em Agosto de 2023. Nunca foi reparada e cria perigo para os passageiros das paragens em redor e que nunca deixaram de se sentar no local, onde existem poucos lugares sentados.
Há ainda cinco contentores temporários a funcionar como bilheteiras – que estão quase sempre fechadas – e como casas-de-banho para motoristas, apesar de um sanitário da JCDecaux instalado há dois anos nunca ter entrado em funcionamento. O mau cheiro nessa zona é uma constante, pois há passageiros e outros transeuntes a urinar junto a essas estruturas dada a ausência de sanitários públicos e abertos no local (tirando no centro comercial Alvaláxia, que ainda é relativamente longe e implica subir uma escadaria). Note-se que os sanitários da estação do Metro também estão encerradas há vários anos, sem previsão de reabertura.
Além de os contentores bloquearem o caminho – principalmente o acesso ao Estádio José Alvalade em dias de jogo –, dão um aspecto degradado a uma das portas da cidade. Não só no Campo Grande chegam várias linhas da Carris Metropolitana com início nos concelhos de Loures, Odivelas e Mafra, como ali terminam carreiras de fora da área metropolitana de Lisboa, por exemplo, da região Oeste. Além do mais, é local visitado por adeptos de clubes de várias partes do país e da Europa, devido à presença do estádio do Sporting Clube de Portugal. (Também em dias de jogo as lajetas danificadas impactam a mobilidade dos mais de 30 ou 40 mil adeptos que costumam marcar presença nas bancadas do Estádio José Alvalade.)
A Câmara de Lisboa explicou ao LPP que “a remoção dos contentores em causa acontecerá quando estiver concluído o edifício definitivo destinado a acolher o serviço de bilheteiras e outros serviços de apoio ao terminal”, não adiantando mais detalhes sobre este projecto. Quanto aos abrigos e outras infraestruturas danificadas no terminal rodoviário, a autarquia limitou-se a referir que se encontra “a avaliar as medidas a adotar face às necessidades de funcionamento” dessa mesma interface. O LPP questionou também Sporting Clube de Portugal, sobre o qual recaem os direitos de superfície do passeio danificado e da envolvente da estação de metro do Campo Grande, mas não recebeu qualquer resposta à data deste artigo.
Enquanto os problemas de fundo no Campo Grande não são resolvidos, os milhares de passageiros que todos os dias usam o maior terminal de autocarros suburbanos de Lisboa – pelo elevado número de carreiras que aqui passam – vão continuar a encontrar um espaço público sujo e mal cuidado. Quanto ao passeio danificado, fica a expectativa de a situação começar a ficar resolvida ainda neste mês, com efeitos práticos a partir de Maio. Será que uma das principais interfaces de transporte da área metropolitana de Lisboa vai passar a ser uma prioridade?
Em 2023, a EMEL – empresa de mobilidade de Lisboa – realizou um trabalho sobre o Campo Grande e outras interfaces da cidade, ouvindo as preocupações dos utilizadores destes espaços e propondo soluções para serem implementadas no futuro. Mas esse trabalho, que envolvia a publicação de um Guia de Design de Interfaces Multimodais, parece ter ficado a meio.





















