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18 anos de Renovar A Mouraria: “Queremos ajudar a melhorar a vida de quem vive neste bairro”

Em 2008, a Renovar A Mouraria nasceu num dos bairros mais típicos da cidade com a vontade de dinamizar a zona e promover eventos culturais. Volvidos 18 anos, persistem alguns dos mesmos problemas, mas o trabalho da associação, principalmente junto das comunidades imigrantes, continua a dar frutos.

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Em 2008, a Renovar A Mouraria nasceu num dos bairros mais típicos da cidade com a vontade de dinamizar a zona e promover eventos culturais. Volvidos 18 anos, persistem alguns dos mesmos problemas, mas o trabalho da associação, principalmente junto das comunidades imigrantes, continua a dar frutos.

A Renovar A Mouraria completa 18 anos de trabalho no bairro a que foi buscar o nome e na cidade (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Estávamos em 2009 quando foi formalizada a associação Renovar A Mouraria. Na verdade, havia surgido no ano anterior como um movimento de moradores, com o objetivo de dinamizar o território e melhorar a condição de vida dos habitantes da Mouraria. “Era um bairro completamente estigmatizado e uma zona que ninguém conhecia. As pessoas de Lisboa e os turistas não vinham aqui. A Mouraria não estava no mapa e era vista como um sítio perigoso. Era uma aldeia dentro da cidade”, recorda Filipa Bolotinha, coordenadora geral da associação. 18 anos depois, o que é que mudou? Quais são os desafios e o impacto da ação deste coletivo? E o que é ainda preciso mudar?

No dia em que nos encontramos com Filipa Bolotinha, o caminho para chegar à sede da Renovar A Mouraria revela-se mais confuso do que inicialmente prevíamos. Entre subidas e descidas, tentando decifrar o que o GPS nos diz para fazer, percorremos as mesmas ruelas mais do que uma vez. Mas acabamos, finalmente, por chegar ao número 8 do Beco do Rosendo. A associação fica num prédio de dois andares, cuja fachada está coberta, parcialmente, por heras. À sua frente encontramos uma creche, de um lado, um edifício devoluto, do outro, alojamentos locais e um espaço de co-work.

Como tudo começou 

Passando a porta principal, pintada de azul, deparamo-nos com algumas mesas, estantes com livros, uma pequena cozinha ao fundo e, nas paredes, vários cartazes afixados. No final de 2012, quando, depois de um ano de obras, a Renovar A Mouraria abriu este sítio à comunidade – então denominado de “Edifício-Manifesto” –, a sala no rés-do-chão acolhia um bar (que funcionou até 2018). A primeira edição do programa BIP/ZIP financiou parte dos custos da empreitada, enquanto a segunda edição permitiu a Inês Andrade, fundadora da associação, e Filipa Bolotinha criarem o seu posto de trabalho.

“O nosso objetivo em ter um espaço era, precisamente, dar uma resposta mais estruturada na área da promoção cultural, mas também conseguir trabalhar com as comunidades migrantes, porque não havia representatividade nas reuniões, nem nenhuma organização que estivesse especialmente dedicada a esse trabalho”, diz a coordenadora geral, explicando que os primeiros projetos da associação surgiram a convite da Câmara Municipal de Lisboa, que nessa altura havia apresentado uma candidatura ao QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) para a requalificação do bairro.

“Há 18 anos, tinha a sensação de que, com este tipo de intervenção local e trabalhando com a Câmara, era possível criar transformações num território como a Mouraria”, diz. Filipa Bolotinha. “Hoje em dia, o que sentimos é que os problemas são estruturais e, portanto, não se conseguem criar estas transformações”, lamenta a responsável, que, atenta às dinâmicas do bairro há mais de 20 anos, nota que o bairro sofre dos mesmos problemas desde a fundação da associação.

A Mouraria continua a ser um “bairro vazio” 

Há duas décadas que Filipa Bolotinha olha com atenção para a Mouraria (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

“Tínhamos um bairro vazio com poucos habitantes e, agora, temos outra vez um bairro vazio, embora tenha sido requalificado. A grande diferença tem a ver com a especulação imobiliária e com o novo segmento de moradores – alguns turistas – da zona mais alta”, constata. “Toda a requalificação foi feita para o setor do luxo e do médio luxo, portanto há uma enorme desconexão num espaço super pequeno de território. Há realidades completamente antagónicas que não se cruzam.”

Um dos “micro-mundos” de que fala é a Rua do Benformoso – alvo de uma rusga em Dezembro de 2024. “Sempre vivi na Calçada do Monte e não há nenhum problema em passar pela Rua do Benformoso, principalmente de dia. Mas há, de facto, uma concentração maior de pessoas migrantes, especialmente do Bangladesh, e um maior número de pessoas a viver em condições habitacionais que não são as ideais”, reconhece a responsável. “Há uma crise profunda na habitação. É quase impossível para qualquer pessoa aceder a casas em condições, então para uma pessoa migrante, que está sujeita a vários níveis de exclusão, isso torna-se praticamente impossível.”

Para Filipa Bolotinha, são estas grandes questões, como a da crise na habitação, que estão na base de outros problemas, quer seja o aumento das pessoas em situação de sem-abrigo ou do consumo de drogas. “Costumamos dizer que os problemas do país se vêem todos na Mouraria: o preço das casas, o aumento dos consumos… Estão relacionados com crises económicas e vulnerabilidades cada vez maiores das pessoas, por isso, não há como criar respostas estruturais para o bairro apenas através da ação local”, reitera.

A ação local pode fazer a diferença

A intervenção da Renovar tem ido muito além da Mouraria (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Contudo, o impacto positivo da Renovar a Mouraria sente-se, principalmente ao nível do CLAIM – Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes, que concentra iniciativas relacionadas com atendimento jurídico e social, apoio à empregabilidade, serviço de tradução e mediação intercultural e ensino de português língua não materna para diferentes grupos etários e em diferentes contextos. “O trabalho nas escolas é muito impactante. Por exemplo, todos os agrupamentos escolares têm mediadores interculturais que são 90% de pessoas portuguesas, licenciadas, que não falam a língua [materna], e temos recebido muitos emails sobre isso. Vamos tentar criar uma rede de ajuda”, explica.  

Também no projeto de apoio ao estudo e na relação entre as famílias e as escolas “há resultados espetaculares” e “uma clara noção de que estas iniciativas fazem muita diferença na vida das pessoas”. Já os outros dois eixos de intervenção, ligados à dinamização territorial e comunitária e à produção cultural e artística, que têm sido desenvolvidos desde sempre, tornaram-se ainda mais relevantes nos últimos dois anos. “Normalmente, uma vez por mês, fazemos qualquer coisa neste espaço para chamar mais pessoas. Este beco começou a ser difícil de gerir do ponto de vista da higiene urbana, portanto achamos que é preciso dar-lhe vida outra vez”, diz Filipa Bolotinha.

Um dos pontos altos da programação é o arraial que junta outros coletivos da zona e acontece todos os anos durante os Santos Populares. Não só representa um papel financeiro importante, como serve para transmitir uma mensagem: “Estamos aqui porque queremos ajudar a melhorar a vida de quem vive neste bairro.” Apresentando-se como espaço de resistência, a Renovar A Mouraria tem como uma das suas missões combater a desinformação e o discurso de ódio, que tem vindo a crescer, nomeadamente nas redes sociais da associação. Está, aliás, relacionado com um dos desafios que enfrenta o projeto.

Os desafios e os objetivos para o futuro

“A médio prazo, o que é que vai acontecer politicamente?”, questiona a dirigente. “Não sei como é que nos encaixaremos num futuro ainda mais radical, com políticas mais radicais no que se refere à imigração.” Por outro lado, a sustentabilidade financeira também se revela uma preocupação: “Temos sempre de nos candidatar [a apoios públicos] e já é um processo difícil, mas se o Estado der menos dinheiro para estes fins, não temos como manter esta dimensão.” As soluções teriam de passar por redimensionar a escala de intervenção ou trabalhar mais com voluntários, o que já acontece hoje.

No dia 28 há festa no Largo da Rosa (via Renovar A Mouraria)

Ainda que haja desafios, os objetivos para o futuro são claros: continuar a dar apoio às comunidades imigrantes, criando conhecimento que possa até servir de base a políticas públicas, e trabalhar em prol de um melhor acolhimento destas comunidades nas escolas. “Estamos num mundo que é coletivo e quando ajudamos ou contribuímos para que a vida daquelas pessoas seja melhor, também estamos a contribuir para que a nossa vida seja melhor”, remata Filipa Bolotinha.

Para assinalar os 18 anos da Renovar a Mouraria, no dia 28 de março, há festa no Largo da Rosa. O almoço é feito pela Cooperativa Bandim, ao qual se segue uma oficina de serigrafia comunitária, às 15 horas, liderada pela Bazofo, que faz parte do projeto cultural Dentu Zona. Às 17, o palco é de Daniel Neto e Dynamic Duo, e, a partir das 16 até às 23 horas, há uma série de DJ sets. A entrada é livre e o convite fica feito.

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