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Projecto-piloto na vila de Sintra é uma boa ideia, pouco conseguida

Durante a Páscoa, a Câmara de Sintra implementou um projecto-piloto de mobilidade na histórica vila de Sintra para tentar reduzir o trânsito e a pressão do turismo. Fomos ver o que mudou. A resposta curta: quase nada.

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Durante a Páscoa, a Câmara de Sintra implementou um projecto-piloto de mobilidade na histórica vila de Sintra para tentar reduzir o trânsito e a pressão do turismo. Fomos ver o que mudou. A resposta curta: quase nada.

Na vila de Sintra, foi activado um novo parque dissuasor com autocarros para o centro histórico durante a época da Páscoa (fotografia LPP)

Um parque de estacionamento gratuito na periferia de Sintra, com autocarros eléctricos a cada 20 minutos para o centro histórico, foi a grande promessa do projecto-piloto que a Câmara de Sintra introduziu no fim-de-semana de Páscoa para “garantir uma experiência segura, organizada e com melhor fluidez de mobilidade”. Uma boa ideia, que prometia retirar trânsito e pressão do centro da vila – mas pouco conseguida. A autarquia liderada por Marco Almeida tem muito trabalho para fazer se quiser efectivamente tornar a vila de Sintra num espaço mais agradável e silencioso para visitar e caminhar.

Tudo (quase) na mesma

O projecto-piloto de mobilidade introduzido pela Câmara de Sintra a 19 de Março, com duração até 6 de Abril, prometia melhorar a “mobilidade, segurança e acessos à Vila de Sintra”. Foi criado um panfleto e uma página no site da autarquia para comunicar um conjunto de medidas, que incluíam condicionamentos de trânsito em “áreas críticas” com a colocação de ”sinalização temporária”, a instalação de “diversos pontos de controlo de acesso” para regular a entrada de veículos em pontos estratégicos, e ainda a recomendação de uso de “parques periféricos” de estacionamento para “facilitar o acesso ao centro histórico e reduzir congestionamentos”, acompanhada pela promoção dos transportes públicos.

A azul, o percurso da carreira 434 especial, desde o Parque de Estacionamento do Lourel até ao Palácio da Pena, assinalado a amarelo; na estação de comboios de Sintra, era preciso trocar de autocarro (mapa via CMS)

O plano, pensado para testar uma nova abordagem à mobilidade no centro da vila de Sintra e antecipar a Páscoa, juntava várias entidades, da Polícia Municipal de Sintra (PMS) à GNR, da EMES (Empresa Municipal de Estacionamento de Sintra) à Parques de Sintra, que gere os monumentos do concelho.

Comunicação da Câmara de Sintra sobre o piloto (via CMS)

Mas, como o LPP conseguiu constatar numa visita à vila de Sintra no passado sábado, 4 de Abril, em pleno fim-de-semana de Páscoa, ainda há muito trabalho por fazer. Na verdade, nada parece ter mudado no centro histórico. Na concorrida paragem da Volta do Duche, numa das “portas” da vila, autocarros turísticos de grandes dimensões disputavam o espaço exíguo com os autocarros amarelos da Carris Metropolitana e os da Scotturb, que asseguram o transporte público para os Palácios e Castelos. Nem sempre era fácil caber tudo no mesmo sítio — e os passageiros dos diferentes serviços misturavam-se.

No centro da vila, a Polícia Municipal de Sintra ia tentando organizar o trânsito (fotografia LPP)

A presença da Polícia Municipal no local era notória. Os agentes iam ajudando a reduzir conflitos, a optimizar o estacionamento e ajudar na fluidez do trânsito. Ainda assim, não conseguiam travar o fluxo quase ininterrupto de viaturas que continuava a chegar ao centro: autocarros turísticos, transportes públicos, tuk-tuks, TVDE, viaturas de hotéis e automóveis particulares – todos a fazer o mesmo percurso circular de sentido único pela N249, que atravessa o centro histórico, passa pela estação de comboios e dá a volta a São Pedro de Penaferrim.

Toda essa procissão de viaturas continuava a desfilar pela Volta do Duche, a estrada que deveria ser agradável percurso pedonal: dez minutos entre o centro histórico e a estação de comboios, pontuado por esculturas contemporâneas, artistas de rua, vendedores de artesanato, e com passagem pela entrada do Parque da Liberdade e pela encantadora Fonte dos Mouros. O limite de 20 km/h gravado no pavimento só era respeitado quando o congestionamento obrigava as viaturas a abrandar por si. Os passarinhos que o Presidente da Câmara, Marco Almeida, disse que já se ouviam, só eram audíveis por alguns minutos – nos raros momentos em que esse trânsito se acalmava.

Um parque incompleto

O problema de Sintra não é novo nem exclusivo. Vilas históricas com forte pressão turística enfrentam o mesmo problema: muitas pessoas a querer aceder a um espaço pequeno. A resposta conhecida – e comprovada – passa por retirar o automóvel do centro histórico e apostar em parques de estacionamento periféricos. Sintra deu esse passo, mas ficou a meio.

Enquanto automóveis particulares puderem chegar livremente à porta da vila, os visitantes vão continuar a preferir o carro. A conveniência ganha sempre à intenção. Para que os parques periféricos funcionem, é preciso que a alternativa seja genuinamente apelativa – e isso implica duas coisas: que o percurso pedonal entre o parque e o centro seja seguro, confortável e bem sinalizado; e que, quando existe transporte público a fazer essa ligação, esses autocarros sejam frequentes e agradáveis. Os locais de espera também contam. Por outro lado, para os autocarros não ficarem presos no trânsito, também são precisas medidas para os TVDEs e táxis, para os tuk-tuks e para os grandes autocarros turísticos.

O Parque de Estacionamento do Lourel não tem sombras, caixotes do lixo nem casa-de-banho; durante a Páscoa teve autocarros directos para o centro da vila (fotografia LPP)

No projecto-piloto desta Páscoa, a autarquia sintrense activou um novo parque de estacionamento. O Parque de Estacionamento do Lourel, com 300 lugares gratuitos e portões abertos entre as 7h30 e as 19h30, foi inaugurado em Julho de 2025, com o intuito de “reforçar a oferta de estacionamento de apoio à vila de Sintra”. Este relativamente novo parque junta-se aos dois ou três que rodeiam a estação de comboios da Portela de Sintra. Mas o parque do Lourel tem uma diferença: autocarros eléctricos (shuttles) que saem a cada 20 minutos dali até à estação de Sintra, numa viagem que demora cerca de 10 minutos, dependendo das condições de trânsito (pode ser mais rápida ou mais demorada).

A ideia faz sentido: 300 famílias podem deixar o carro num parque periférico e apanhar depois o autocarro. Uma vez na estação de Sintra, têm duas opções: ou trocar para outro autocarro em direcção ao Palácio da Pena; ou seguir a pé até ao centro histórico. Mas há vários problemas, desde logo no conforto do próprio parque de estacionamento: sem sombreamento artificial, nem árvores, o conforto térmico do espaço é inexistente. Em dias de calor mais intenso do que aquele que se verificava no passado sábado, caminhar naquele estacionamento para chegar ao carro será uma experiência desconfortável – até pela extensão do parque. Também junto aos autocarros (shuttles) não há qualquer abrigo ou sombra. A espera, que pode ser de até 20 minutos, tem de ser feita ao sol.

Dois a três autocarros médios faziam de shuttle entre o Lourel e o centro da vila de Sintra (fotografia LPP)

Também não há qualquer caixote do lixo, nem casa-de-banho pública. Ou seja, o espaço onde passageiros e motoristas têm de fazer tempo não tem, para já, qualquer infraestrutura de apoio (dizem-nos que está prevista). Notámos também a ausência de informação para os automobilistas e passageiros; se o parque está indicado, em lado nenhum surge informação de que se trata de um serviço de estacionamento com transporte rodoviário. Não há horários de partida dos autocarros, nem informação do percurso. Muito menos essa informação aparece digitalmente em plataformas como o Google Maps.

O Parque de Estacionamento do Lourel estará ainda em construção. Enquanto não há um edifício de apoio, há um autocarro a servir de ponto de informações e de bilheteira. Os bilhetes custam 10,96 € por pessoa e permitem a utilização ilimitada destes shuttles, bem como dos autocarros que servem o Palácio da Pena. Não existem bilhetes de grupo, o que significa que uma família de quatro pessoas terá de gastar quase 50 € só em mobilidade na vila de Sintra – um táxi ou TVDE ficará não só mais barato, como mais confortável, uma vez que os autocarros para o Palácio da Pena costumam circular lotados (apesar da elevada frequência).

O passe Navegante – seja o Municipal de Sintra ou o Metropolitano – é válido em todos os autocarros da vila, incluindo no shuttle e no autocarro para a Pena, ambos operados pela Scotturb. Ainda assim, a empresa pode dificultar a sua utilização, invocando a ausência de mecanismos de validação a funcionar e exigindo a apresentação de um comprovativo de carregamento. A responsabilidade de ter esses mecanismos de validação activos é da operadora, não do passageiro, mas o comprovativo pode ser obtido facilmente na app do Navegante, por quem utilize esse método para carregar o passe mensalmente.

Seja como for, importa notar que, com o passe de 30 € ou 40 € mensais, é possível utilizar os transportes públicos no dia-a-dia de deslocações para o trabalho ou escola, bem como para visitar a vila de Sintra no fim-de-semana.

Com a entrada em funcionamento da Carris Metropolitana em Janeiro de 2023, a Scotturb ficou apenas com duas carreira activa na vila de Sintra, a 434 e 435, ambas com término na estação de comboios. A carreira 434 é a mais frequente e permite chegar ao Palácio da Pena, passando pelo Palácio de Sintra, no centro da vila (o shuttle também tem a designação 434). Já carreira 435 liga quatro palácios da vila: o Palácio de Sintra, a Quinta da Regaleira, o Palácio de Seteais e o Palácio de Monserrate. Por seu lado, a Carris Metropolitana opera, na vila de Sintra, duas linhas: a 1253 é a mais relevante, uma vez que liga o centro histórico às duas estações de comboio, a de Sintra e a da Portela de Sintra. Toda a informação da Carris Metropolitana está digitalmente acessível em aplicações como o Google Maps, o Apple Maps, o CityMapper ou o Transit, onde é possível consultar horários, percursos e ver a localização dos autocarros em tempo real. O mesmo não acontece com os serviços da Scotturb, inexistentes digitalmente.

Os autocarros também ficam presos no trânsito da vila de Sintra (fotografia LPP)

Para quem opta por deixar o carro e usar transporte público, a informação disponível online é determinante. Tanto mais quando, no terreno, não existe sinalização ou painéis informativos. A Câmara de Sintra optou por divulgar mapas através do Google My Maps – um serviço que permite a qualquer utilizador criar o seu próprio mapa –, mas esta solução é pouco prática de consultar e, sobretudo, não fica integrada no Google Maps, a ferramenta que a maioria dos visitantes usará para se orientar, até porque é transfronteiriça. Mesmo com pesquisa prévia feita antes de sair de casa, foi difícil perceber como funcionava o parque periférico do Lourel e os respectivos shuttles. Dúvidas sobre frequência, tarifário e percurso só ficaram esclarecidas no local, junto ao ponto de apoio.

No sábado, o Parque de Estacionamento do Lourel estava ocupado a apenas 3% da sua capacidade, e os shuttles para a estação de comboios de Sintra circulavam praticamente vazios. A procura, segundo nos foi dito, é maior de manhã e ao final do dia – a nossa visita foi à hora de almoço –, mas o serviço foi também descrito como um fiasco. Uma das razões poderá estar na localização: antes de chegar ao Lourel, os automobilistas passam por dois ou três parques na Portela de Sintra, que não têm serviço de shuttle. Fica a dúvida se não faria sentido que os autocarros do Lourel – que passam mesmo à frente desses parques – fizessem paragens intermédias, aumentando a utilidade do serviço.

No Verão de 2024, alguns moradores da vila de Sintra e de localidades próximas criticaram a pressão turística e automóvel na zona, pedindo a acção da Câmara para resolver o problema. A autarquia que nas eleições de Outubro desse mesmo ano ganhou um novo rumo com a vitória de Marco Almeida (coligação PSD/IL/PAN) lançou este projecto-piloto para dar uma resposta concreta. Merece crédito por isso. Mas não foi uma resposta suficiente: tirando um reforço policial para melhor orientar o trânsito, nada parece ter mudado nesta Páscoa.

A Câmara de Sintra tem ainda muito trabalho para fazer para melhorar a vida na vila de Sintra, mas já deu os primeiros passos (fotografia LPP)

A ideia dos parques dissuasores com shuttles é boa, mas falta tudo o resto: conforto, informação e, sobretudo, coragem política de restringir o acesso de automóveis (e de outros veículos) ao centro histórico, tornando-o num espaço pedonal, ciclável e acessível apenas a transportes públicos e viaturas essenciais, como polícia e emergência. Até lá, a vila de Sintra vai continuar pressionada pelo automóvel, com uma solução que ainda está por implementar.

Como visitar Sintra sem complicações

  • para quem vier de Lisboa ou da Amadora, o comboio é a melhor forma. A estação de Sintra fica praticamente no centro da vila, mas para chegar mesmo ao centro histórico é preciso percorrer a pé a Volta do Duche, uma estrada agradável, pontuada por esculturas contemporâneas, artistas de rua, vendedores de artesanato, e com passagem pela entrada do Parque da Liberdade e pela encantadora Fonte dos Mouros;
  • há comboios directos a partir de várias estações em Lisboa (Oriente, Rossio, Braço de Prata, Roma-Areeiro, Entrecampos, Sete Rios, Campolide e Benfica). Na estação de Benfica há mais oferta, uma vez que se cruzam duas linhas: a com origem no Oriente e a que tem ponto de partida no Rossio). Um bilhete custa 2,05 € por pessoa se for utilizada a modalidade zapping (pré-carregamento de saldo no cartão). Os passes Navegante Metropolitano são válidos no comboio;
  • a partir de Cascais ou de Oeiras, há algumas linhas da Carris Metropolitana que permitem chegar à Linha de Sintra, onde só é preciso trocar para o comboio. Também há ligações directas para a Portela de Sintra, como é o caso das linhas 1620 ou 1623, com início no Terminal Rodoviário de Cascais, ou da linha 1614, com partida de Oeiras;
  • de carro, existem vários parques na periferia da vila, junto à estação da Portela de Sintra. Já o Parque de Estacionamento do Lourel, que oferece 300 lugares gratuitos entre as 7h30 e as 19h00, só é útil quando o shuttle da Scotturb para a estação de comboio de Sintra estiver a funcionar, como aconteceu na época de Páscoa;
  • as linhas 1252 e 1253 da Carris Metropolitana asseguram um percurso entre a estação de comboio Portela de Sintra e a estação de Sintra. São uma óptima alternativa para quem decidir ir visitar a vila de comboio ou deixar o carro na zona da Portela de Sintra, pois poupam no tempo a pé. A linha 1252 pode ser apanhada na Portela de Sintra para a estação de Sintra; já a linha 1253 pode ser apanhada no centro da vila para regressar ou à estação de Sintra ou à da Portela de Sintra. Os horários e a localização em tempo real dos autocarros estão em aplicações como o Google Maps;
  • as carreiras 434 e 435 da Scotturb asseguram o transporte público turístico entre a estação de Sintra e os palácios históricos do concelho, nomeadamente o Palácio da Pena (434) e o Palácio de Monserrate (435). Os horários e a localização em tempo real destes autocarros não estão disponíveis nas plataformas digitais, lamentavelmente, mas há autocarros sempre a sair da estação de comboios, pelo menos da carreira 434;
  • nos autocarros da Scotturb é possível utilizar o passe Navegante (o Municipal de Sintra ou o Metropolitano), sendo que a operadora pode pedir o comprovativo do carregamento (em caso de dificuldade, importa lembrar que a responsabilidade de ter forma de validar digitalmente o passe é da empresa de transportes, não do passageiro). O bilhete simples custa 10,96 € por pessoa, permitindo a utilização ilimitada destes autocarros (434 e 435) durante 24 horas. Não existem opções familiares/de grupo;
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