Uma “rave” de leitura com os telemóveis desligados? Aconteceu em Lisboa

Uma hora sem telemóvel, à beira rio, com um livro na mão. Foi o que cerca de 150 pessoas fizeram no passado domingo na Ribeira das Naus – uma iniciativa do The Offline Club, que organiza vários eventos por mês em Lisboa para quem quer reduzir o tempo de ecrã.

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Uma hora sem telemóvel, à beira rio, com um livro na mão. Foi o que cerca de 150 pessoas fizeram no passado domingo na Ribeira das Naus – uma iniciativa do The Offline Club, que organiza vários eventos por mês em Lisboa para quem quer reduzir o tempo de ecrã.

Consegues imaginar uma hora de telemóvel? Totalmente desligados. Sentados ou deitados à beira rio. Com um livro na mão. Concentrados nas suas páginas, sem a tentação de irmos espreitar o feed do Instagram ou responder no WhatsApp. Consegues imaginar? Foi isso mesmo que aconteceu na Ribeira das Naus, em Lisboa, no passado domingo de tarde. Cerca de uma centena e meia de pessoas estendeu a toalha na relva e durante uma hora esteve de livro aberto, a ler – sem scroll nem notificações a distrair.

A iniciativa foi promovida pelo The Offline Club, um movimento global e informal que começou há cerca de dois anos em Amesterdão e que hoje está presente em duas dezenas de cidades europeias “e até em Bali”. Aterrou em Lisboa em Setembro de 2025. “A resposta tem sido incrível. A comunidade em Lisboa tem crescimento de forma muito orgânica e rápida”, explicam Joëlle Hartog e Lilly Parla, uma neerlandesa e uma norte-americana que fundaram o The Offline Club Lisboa.

The Offline Club (captura de ecrã LPP)

“No essencial, o Offline Club é sobre inspirar as pessoas a viver de forma mais intencional, longe dos ecrãs. Fazemo-lo criando espaços sem telemóvel em Lisboa onde é possível desligar, abrandar e reconectar – consigo próprias e com os outros”, explicam ao LPP.

A “rave” de leitura na Ribeira das Naus, que teve neste domingo a segunda edição, é apenas um dos eventos organizados pelo The Offline Club em Lisboa. Joëlle e Lilly chamam-lhe ”activações públicas de maior escala”, porque o The Offline Club é sobre eventos pequenos e intimistas.

São promovidos “entre 2 a 7 eventos por mês”, desde simples encontros onde o uso do telemóvel não é permitido (Offline Hangouts) a eventos mais específicos, como ateliês de trabalhos manuais (Craft Clubs), noites de jogos (Game Nights) ou os Offline Dinners/Brunches. “Realizamos estes encontros em cafés acolhedores, restaurantes e espaços ao ar livre por Lisboa – lugares quentinhos e humanos, onde é fácil abrandar, física e mentalmente”, explicam as duas organizadoras.

A “rave” de leitura do passado domingo consistiu numa hora de leitura sem distracções (fotografias cortesia de The Offline Club Lisboa)

“Todos os nossos eventos seguem um ritmo semelhante. À chegada, as pessoas deixam os telemóveis no nosso ‘hotel de telemóveis’. Começamos com um momento de ligação a nós próprios – a ler, a escrever num diário, a desenhar, ou simplesmente a estar, em silêncio partilhado. Depois, passamos à ligação com os outros, através de conversas, jogos ou actividades criativas.” O objectivo destes eventos, referem as duas fundadoras do The Offline Club Lisboa, é convidar as pessoas “a trocar o tempo de ecrã por tempo real”.

As Reading Raves que o The Offline Club tem promovido na Ribeira das Naus — a primeira edição aconteceu em Novembro — consistem numa hora de leitura em silêncio num espaço público, rodeados por muitas outras pessoas a fazer o mesmo. Esse sentimento colectivo de estarmos todos desligados contraria qualquer tentação de nos distrairmos com o telemóvel.

O evento é gratuito, ao contrário da generalidade das iniciativas do The Offline Club, e pensado para ser uma “porta de entrada fácil” neste clube. “Queremos inspirar também quem passa e nos vê”, referem Joëlle e Lilly. “Voltámos a escolher a Ribeira das Naus porque é um espaço vibrante e aberto, com muita gente a passar, especialmente aos domingos. A primeira edição foi um grande sucesso, por isso pareceu natural regressar.”

Nestas “raves” de leitura, não há o habitual hotel de telemóveis’. Os participantes ficam com os seus dispositivos mas há uma contagem decrescente para que todos possam desligá-los e iniciar uma hora de leitura em silêncio. Neste encontro, inscreveram-se 200 pessoas e cerca de 150 apareceram. “Estamos sozinhos, mas juntos.”

Joëlle Hartog e Lilly Parla começaram o The Offline Club em Lisboa a partir da sua própria experiência (fotografia cortesia de The Offline Club Lisboa)

Joëlle Hartog e Lilly Parla começaram o The Offline Club em Lisboa a partir da sua própria experiência. “Ambas trabalhamos online, por isso estamos constantemente nos nossos telemóveis e computadores portáteis e, a certa altura, começou a parecer-nos demasiado.”, contam. “E depois começamos a reparar nisso em todo o lado. Pessoas a caminhar pela cidade com os olhos no ecrã. Casais ao jantar, os dois com a cabeça baixa. Amigos juntos, mas com a sua atenção a sempre a dispersar… Não é algo que as pessoas escolham conscientemente, simplesmente tornou-se normal.”

O The Offline Club não é sobre ser contra estar online, mas criar momentos de desconexão e de presença uns com os outros. “Mesmo que seja por pouco tempo, as pessoas relaxam, as conversas parecem mais reais e conectar-se com os outros torna-se muito mais fácil”, referem. “Esses momentos são um lembrete de como, na verdade, devemos conectar-nos enquanto seres humanos.”

O calendário de eventos do The Offline Club Lisboa pode ser consultado aqui. A generalidade dos eventos implica um pagamento para reservar lugar, sendo que em alguns casos, como jantares e brunches, esse bilhete inclui a refeição. Há também iniciativas gratuitas, em que é sugerido um valor de doação, como foi o caso da Reading Rave.

Evento de lançamento do The Offline Club no Jardim da Estrela, em Setembro de 2025 (fotografia cortesia de The Offline Club Lisboa)

Também gratuita será iniciativa que está a ser organizada para o próximo dia 28 de Abril. Vai ser um grande encontro para assinalar o primeiro aniversário do blackout ibérico. “No ano passado, quando tudo ficou de repente sem ligação à Internet, aconteceu algo inesperado. As pessoas saíram à rua, os parques encheram-se e estranhos começaram a conversar. A cidade parecia diferente, mais calma, mais leve, mais conectada. Por isso, este ano, queremos recriar essa sensação, mas de forma deliberada”, explicam as organizadoras.

O The Offline Club de Lisboa vai juntar-se às comunidades semelhantes que existem em Barcelona, Madrid e Valência. “Estamos a convidar as pessoas a desligarem-se ao mesmo tempo”, dizem Joëlle e Lilly. “Em Lisboa, vamos reunir-nos às 19 horas. Não há um programa propriamente dito, apenas um momento partilhado fora da internet, onde as pessoas podem ler, jogar, partilhar comida ou simplesmente estar juntas.” O local será o Jardim do Rio, em Cacilhas, Almada.

“E embora haja uma pequena competição divertida entre as cidades para ver qual delas reúne mais pessoas, o objectivo maior é proporcionar às pessoas uma experiência real de como pode ser estar offline, de forma deliberada.” Dia 28, lá estaremos!

Podes acompanhar o The Offline Club Lisboa no Instagram ou juntar-te à comunidade no WhatsApp. Se preferes o e-mail, o endereço é este: lisbon@theoffline-club.com.

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