A primeira longa-metragem de Leonor Bettencourt Loureiro apresenta-nos um olhar provocador sobre a Lisboa actual e sobre o falso glamour em torno da fama. É um mockumentary que, através do humor, fala de assuntos sérios, da gentrificação ao queerbaiting.

Uma banda mundialmente conhecida muda-se para Lisboa. Começa a interagir com os seus habitantes — ao mesmo tempo que a cidade enfrenta uma crescente pressão de investimento externo que transforma bairros e expulsa quem neles sempre viveu. A reacção dos locais oscila entre a reverência e o ressentimento. É este o enredo-chave de C’est Pas la Vie en Rose, a primeira longa-metragem de Leonor Bettencourt Loureiro, inspirada no caso real da passagem de Madonna por Lisboa por volta de 2017/18. Depois de uma antestreia em Março no Auditório Camões, o filme vai ter estreia comercial no Cinema City Alvalade já no próximo mês de Maio.
C’est Pas la Vie en Rose é um mockumentary (falso documentário) que, através de um registo trágico-cómico, apresenta um olhar provocador sobre a Lisboa actual e sobre o falso glamour em torno da fama. Os protagonistas são Nicole e Charles (Laetitia Duveau e Philippe Duval), uma banda alternativa de sucesso mundial, que trazem à capital tanto de efervescência como de intriga: de início parecem cool, mas o lado poser e snob vai-se evidenciando nas relações que estabelecem com figuras portuguesas do meio — sejam designers, assistentes pessoais, agentes de relações públicas ou outros artistas.
O filme vai-se desenrolando de uma perspectiva voyeur sobre o duo, alternando entre essa abordagem mais episódica e outra mais documental, numa assumida vertente de entrevista a várias pessoas da comunidade das artes na capital. Tudo isto no referido registo bem-humorado de mockumentary. No elenco, há convidados como Horácio Frutuoso, Ness, Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), Herlander, Carina Caldeira, Elda Joaquim, Austeja Sciavinskaite, Antónia Rosa, Eduarda Abbondanza, João Magalhães ou Inês Mendes da Silva. A produção é luso-francesa, assinada por Leonor Bettencourt Loureiro, pela produtora Maria & Mayer e pela banda FreeFreeDomDom.
“O espírito do tempo lisboeta: gentrificação, absurdo e um toque de distopia. Uma cidade saqueada, transformada, e cada vez menos para os seus. O turismo, o imobiliário e o lucro tomam conta, enquanto os lisboetas assistem de lado – se é que ainda conseguem ficar”, pode ler-se na sinopse de C’est Pas la Vie en Rose. “Isto é um falso documentário, uma sátira, uma forma de rir do que também nos dá vontade de chorar (muito). É português, mas podia ser em qualquer lado. É cinema, mas é muito 2025. Os géneros esbatem-se, as línguas misturam-se, e a mensagem é clara: estamos fodidos!”

Nicole e Charles são a “metáfora perfeita para o que aconteceu a uma Lisboa transformada pelo turismo”, refere Leonor Bettencourt Loureiro: “tudo é glamour e fascínio, dos cocktail bars aos novos clubes de pilates, para os chamados expats. Do outro lado do espectro, para os locais é impossível viver com conforto numa cidade mergulhada numa crise da habitação e onde todos parecem querer ser the next big thing”. Há uma crítica firme aos meandros da fama, e a como somos seduzidos pela sua áurea quase intocável. Com este retrato cinematográfico, carregado de sátira e pensado de um ponto de vista documental, a realizadora quer mostrar a Lisboa de hoje: envolta numa distopia, gentrificada, mergulhada numa espécie de absurdo permanente.

Leonor Bettencourt Loureiro, 33 anos, nasceu no Porto e trabalha há 14 anos em cinema, publicidade, televisão, videoclipes e campanhas de moda. Realizadora freelancer, colaborou com a RTP, criou filmes de moda premiados e dirigiu projectos publicitários. Vive hoje em Lisboa e fundou o Espaço Arroios, uma iniciativa cultural no seu bairro. Adopta uma ética DIY no seu trabalho e acredita que tudo é político, mantendo o sentido de humor e uma estética muito própria. C’est Pas la Vie en Rose é a sua primeira longa-metragem.
“Talvez se lembrem de quando a Madonna se mudou para Portugal? Bem, criou-se um movimento na cena cultural lisboeta, no mínimo memorável. Muita gente cedeu, ofereceu, quis fazer parte, mas poucos receberam o reconhecimento que procuravam”, recorda a realizadora, que recuperou a história da passagem da estrela pop por Lisboa em 2017/18, quando a cidade começava a acusar os primeiros sinais de cansaço do turismo e das suas consequências negativas, como a gentrificação. O filme foi rodado entre 2021 e 2022 e, apesar dos anos passados, mantém-se actual. Fala-se também de inteligência artificial, especulação imobiliária, gentrificação, cancel culture, transfobia, feminismo, activismo performativo e queerbaiting.
“É um filme sobre assuntos muito pesados”, descreveu Leonor durante a antestreia, a 20 de Março no Auditório Camões. “Tenho descoberto que a tragédia pode ser transmitida através da comédia”, explicou. A realizadora escreveu o filme com Rita Vieira, a quem chamou “o grande cérebro e coração que acompanhou o nascimento deste projecto”. Apesar de guionado, o filme foi também sendo construído com os actores, e por vezes em situações e eventos reais. Nem sempre é fácil distinguir a realidade da ficção – e não é por acaso, refere a realizadora.


O filme explora as tensões na relação entre Nicole e Charles: ela quer abandonar a música, mas ele procura cumprir o contrato com a editora, que os obriga a lançar mais dois álbuns. Enquanto seguimos a banda, vamos ouvindo testemunhos de todos os lisboetas que foram interagindo com o duo. O falso documentário dá-nos humor e frases como “Lisboa é uma guerra entre americanos e franceses, e nenhum dos lados se mistura com os portugueses”.
O filme retrata a ingratidão e o aproveitamento do talento de figuras portuguesas pela banda, a arrogância e a falta de respeito – sobretudo de Nicole, que acredita estar a ajudar os portugueses comprando-lhes arte, enquanto tenta a todo o custo despejar uma mãe e filha apenas porque tem dinheiro para comprar a sua casa. Uma “merda legal”, nas palavras de um dos intervenientes no filme. “São uns grandes filhos da puta” ou “estão numa bolha em que acham que são óptimas pessoas” são outras frases que se ouvem nas entrevistas deste mockumentary.

Com 75 minutos de duração, o mockumentary conta com uma longa lista de convidados, que desfilam pelo filme nas várias entrevistas documentais, explorando as supostas interacções que tiveram com Nicole e Charles. “Conseguimos bastante pessoas. Foi muito a base de simpatia, algumas trocas de favores”, destacou Leonor, sublinhando que o filme só existiu graças a uma grande entreajuda e esperando que, numa próxima, a ajuda possa ser estatal.
C’est Pas la Vie en Rose vai estar em exibição de 21 a 24 de Maio no Cinema City Alvalade, com possibilidade de prolongar a exibição e chegar a mais salas.













