Demasiados carros e tuk-tuks, e passeios estreitos onde as pessoas tentam caminhar em segurança. A Rua da Graça pode ser diferente e, para o mostrar, a Junta de Freguesia de São Vicente fechou-a ao trânsito durante uma tarde de domingo.

No espaço de pouco mais de um mês ocorreram três acidentes na freguesia. A 3 de março, uma mulher de 75 anos foi mortalmente atropelada ao atravessar uma passadeira na Rua da Graça. No dia 25, um turista foi hospitalizado na sequência de um acidente com um tuk-tuk na Calçada de São Vicente. E a 8 de abril, registou-se um novo atropelamento na Rua da Graça. Foram um alerta para o problema da mobilidade no bairro, que persiste há alguns anos.
“A Rua da Graça tem muito tráfego de atravessamento, onde passam sobretudo carros de outras zonas, e passeios muito estreitos. Muitas vezes, as pessoas têm de atravessar para a estrada e sentem-se inseguras”, relata André Biveti (PS), presidente da Junta de Freguesia de São Vicente desde outubro, sublinhando que a situação é “caótica”.
Uma experiência de um dia
Não se viram carros a passar, não se ouviram buzinadelas, nem se teve de olhar duas vezes antes de atravessar a estrada. Assim foi a tarde do passado domingo, 12 de abril, no troço da Rua da Graça entre as ruas da Senhora do Monte e Angelina Vidal. Durante essa tarde, a estrada foi transformada num lugar seguro e lúdico para todos. Não é a primeira vez que isto acontece em Lisboa. Noutras freguesias, iniciativas semelhantes já ganharam raízes – no Areeiro, por vontade dos moradores; em Arroios, através de um programa mensal da Junta. Agora chegou a vez de São Vicente.
Foram disponibilizadas bicicletas, giz para pinturas no chão e brinquedos, e dinamizados workshops e atividades artísticas. Além do lazer, a mobilidade e segurança foram também centrais. Os cidadãos foram convidados a participar num inquérito sobre o tema, realizado entre março e abril pela autarquia local. No final do dia, ficou a certeza de que há vontade de ver as ruas sem carros mais vezes e que há ainda muito por resolver no que toca à mobilidade segura no bairro.
“Parece a Avenida da Liberdade”
Dezenas de pessoas saíram à rua para usufruir da Rua da Graça sem carros. Elena Castilla foi uma delas. Considera que esta artéria é “extremamente perigosa”. “Somos mães de crianças. Elas passam aqui todos os dias, vão sozinhas para a escola, e eu fico em pânico. Levam instrumentos e mochila, andam carregadíssimas de coisas…Isto é um perigo”, denuncia a moradora do bairro.
Joana Martins, que também vive na zona há vários anos, fala na sobrecarga de veículos que circulam nas estradas, que piorou significativamente nos últimos tempos. “São elétricos, autocarros, TVDEs, tuk-tuks, visitas de grupo em bicicleta, segways…”, enumera. “Isto é uma zona de escolas. Não há só uma escola, há várias, e o trânsito fica um caos.”
Igualmente desagradado, Micael Lourenço diz que “a Graça parece a Avenida da Liberdade no início e fim do dia”. “Há um trânsito descomunal para atravessar o bairro. É uma artéria por onde toda a gente passa, então nota-se perfeitamente o tráfego elevado. Moro do outro lado do bairro e dou por mim a tentar evitar esta rua, porque é uma confusão”, explica.

Já Michael Dickinson, outro residente da freguesia para quem o problema é “uma preocupação constante”, propõe até soluções: “Gostava que fosse possível fechar umas ruas ou pôr umas lombas – faria muita diferença. Há passadeiras na Graça que, mesmo tendo muita atenção a atravessar com os miúdos, nunca se tem bem a certeza [se é seguro passar].”
Os resultados do inquérito realizado pela Junta de São Vicente, que contou com 417 respostas, vão de encontro às preocupações destes locais. A velocidade excessiva dos veículos é considerada o principal risco para a segurança pedonal na freguesia, reportam 65,5% dos inquiridos. Já 45,8% sentem-se inseguros ou muito inseguros ao atravessar a rua na passadeira, devido, principalmente, à velocidade excessiva dos veículos, ao desrespeito pelo peão e à fraca visibilidade.
Novamente os tuk-tuks
No que toca ao trânsito motorizado, mais de 60% dos inquiridos consideram que os veículos de animação turística são a principal causa de congestionamentos – que dizem ocorrer diariamente. Segundo as respostas, a obstrução da circulação, estacionamento indevido, ruído e excesso de velocidade são os principais problemas provocados pelos tuk-tuks, que, um ano depois da implementação de regras de circulação em Lisboa, continuam a causar estes e outros constrangimentos na freguesia de São Vicente.
“Todas as cidades europeias caminham para uma mobilidade cada vez mais segura, mais pedonal e, sobretudo, mais regulada. Aqui, parece que estamos a fazer apenas operações de cosmética, em que dizemos que há uma regulação dos tuk-tuks, mas, na verdade, qualquer pessoa que vá ao Miradouro da Nossa Senhora do Monte ou à Igreja de São Vicente num dia de maior movimento – principalmente no verão – percebe que não há regulação de nada”, afirma o autarca, mencionando que muitos tuk-tuks descem o miradouro “a alta velocidade” e que os condutores costumam pedir às pessoas para gritar.
“Tenho um filho que anda numa escola perto do Panteão e aquilo é de chorar. Não sei onde é que estão as autoridades que devem fiscalizar. A escola fica numa rua muito íngreme, que tem umas vistas incríveis para o Panteão. Normalmente, os condutores dos tuk-tuks saem, deixam os turistas dentro do tuk-tuk no meio da rua – onde fica a entrada da escola –, e vão tirar-lhes uma foto. Empata tudo. É impossível”, conta Elena Castilla.
“Estamos a criar um conflito entre a população e os tuk-tuks que não é benéfico para ninguém”, acredita André Biveti, que insiste na importância da regulação e de pensar em melhores locais de estacionamento para estes veículos. “Podemos ter os tuk-tuks a parar no Mercado dos Sapadores ou a ter um espaço específico a partir de onde os turistas possam ir a pé até à Nossa Senhora do Monte. Até conseguimos integrar o comércio local e a vivência das pessoas no percurso”, propõe, frisando que “importa restringir um bocado os tuk-tuks”.
Há soluções?
E é preciso também restringir o tráfego aos restantes veículos, já que “as estruturas e infraestruturas desta parte da cidade não o comportam atualmente”, afirma. O dirigente dá o exemplo da cidade de Londres, onde em determinadas zonas é necessário pagar uma taxa para circular com o carro.
“Temos de ter uma mobilidade sustentável, em que não haja nada que seja dominante a todas as outras formas de nos movermos no espaço público. Só se consegue criar essa consciência ao incentivar uma maior mobilidade suave, com ciclovias, e tendo esta perspetiva holística na construção de políticas públicas de mobilidade”, continua, reforçando que esta questão tem de ser pensada rigorosamente ao nível da cidade inteira e tendo em conta um fator importante: os transportes públicos.
“Todas as medidas de restrição de transportes individuais têm de ser acompanhadas com medidas positivas de aumento de transportes públicos. Uma das coisas que propus à Câmara Municipal de Lisboa foi, por exemplo, ter um autocarro que faça o mesmo percurso do elétrico 28 – que é muito utilizado por turistas – e que possa ser usado pela população”, explica.
Terminado o inquérito sobre mobilidade e segurança realizado junto da população residente do bairro, será elaborado um diagnóstico, que será enviado à Câmara. “Continuamos a não ambicionar ser uma cidade europeia como qualquer outra que existe hoje. O que falta na Câmara Municipal de Lisboa, no que toca à mobilidade, é ambição e pensar numa cidade do futuro. Mais do que haver ou não vontade – não consigo dizer pelo tempo que sou presidente –, falta ambição nas propostas de mobilidade, na forma como se pensa nestas políticas públicas, e falta arriscar”, considera André Biveti.
Agora, o objetivo da freguesia de São Vicente é tornar a “rua sem carros” algo mensal, ou então bimestral. A ideia é que venha a percorrer outras áreas, além da Graça. Para alguns moradores, como Joana Martins, este tipo de iniciativas são essenciais “para criar um espaço de convívio que junte a comunidade”. Michael Dickinson concorda: “É uma oportunidade de aproveitar o bairro, fazer atividades com os miúdos e poder ter a vida de rua, que muitas vezes é difícil ter na cidade.”



































