A programação das habituais “Festas de Abril” de Lisboa gerou algumas críticas. Uma petição intitulada “Festas de Abril sem Abril” foi assinada por cerca de 600 agentes culturais da cidade; Moedas fala num ataque político. Afinal, o que vai acontecer em Lisboa neste 25 de Abril?

É uma data histórica e simbólica que não precisa de muita contextualização: o 25 de Abril de 1974 foi a reconquista da Liberdade por Portugal, depois de 48 anos de ditadura. Todos os anos, a Revolução dos Cravos é festejada de norte a sul do país. Em Lisboa, destaca-se o tradicional desfile pela Avenida da Liberdade na tarde de 25. Mas também uma programação cultural ao longo do mês de Abril.
Parte dessa programação, é promovida pela Câmara de Lisboa, através da sua empresa municipal de cultura, a EGEAC/Lisboa Cultura. Chamam-se Festas de Abril mas a edição de 2026 tem estado no centro de uma polémica. Tudo começou com a apresentação do programa de 2026 e com uma petição assinada por cerca de 600 agentes culturais.
“Desvalorização” do 25 de Abril?
Assinada à cabeça por Ana Sofia Paiva, João Monge, Pedro Fernandes Duarte e Tiago Santos, uma petição intitulada “Festas de Abril sem Abril” junta cerca de 600 agentes culturais de Lisboa, criticando o que consideram ser o “esvaziamento” e a “progressiva desvalorização” do 25 de Abril na programação municipal.
Na petição, que conta com o apoio de nomes como André Gago, Carlos Mendes, Cristina Branco e Tiago Torres da Silva – e que qualquer pessoa está convidada a assinar através de um Google Form –, os signatários consideram que ”o 25 de Abril surge esbatido, diluído, quase ausente” das Festas de Abril, que integram a programação da EGEAC/Lisboa Cultura.
“A forma como são apresentadas as chamadas Festas de Abril – celebrando ‘o regresso do sol, das flores, da boa disposição, a vontade de sair de casa e de fazer coisas com os amigos’ – desloca completamente o centro de gravidade daquilo que Abril verdadeiramente representa. Como se a data maior da nossa democracia pudesse ser suavizada até caber numa ideia genérica de festa da primavera”, lê-se na petição, dirigida ao presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas (PSD).

Apontando à ”responsabilidade política do executivo municipal”, os peticionários fazem questão de dizer que a programação desenvolvida pela EGEAC/Lisboa Cultura responde a “uma orientação, uma prioridade, uma escolha sobre o que merece ser celebrado – e como”. Na petição, os signatários insurgem-se com o que entendem ser a redução da “data maior” da Democracia portuguesa a “uma ideia genérica de festa da Primavera”. Denunciando uma “forma velada de diluir o significado de Abril”, os peticionários consideram que, “num tempo em que os valores de Abril enfrentam desafios renovados, esperar-se-ia precisamente o contrário: mais cultura, mais memória, mais participação”.
Em concreto, os signatários assinalam que, “ao contrário do que acontece em tantas cidades do país, pelo segundo ano consecutivo, em Lisboa, não se realiza o tradicional concerto na noite de 24 para 25 de Abril”. Esse momento – notam – ”era mais do que um evento cultural: era encontro, era memória partilhada” e, por isso, “a sua ausência não é neutra”. E recordam que “Lisboa não é uma cidade qualquer no calendário de Abril: foi aqui que a madrugada de 25 de Abril de 1974 ganhou corpo, onde um povo inteiro se reconheceu capaz de derrubar o fascismo e mudar o seu destino”, defendendo que essa “é uma responsabilidade democrática, contínua e exigente”.
Recusando que Abril seja “um adereço sazonal” ou “um pretexto decorativo”, os cerca de 600 agentes culturais prometem “ocupar a cidade com Abril – nas ruas, nas praças, nas vozes das pessoas”, apelando à participação nas comemorações populares da Revolução. “Abril não é uma memória distante. É uma exigência que se cumpre – ou se trai – todos os dias”, reivindicam.
Festas de Abril… ou da Primavera?
No início de Março, na página da EGEAC/Lisboa Cultura, apareciam em destaque as “Festas da Primavera”, em vez das habituais “Festas de Abril” – como é possível confirmar através do Internet Archive, numa captura de ecrã de dia 8 daquele mês. As “Festas da Primavera” estavam identificadas na programação para 2026 como um dos quatro blocos programáticos das Festas da cidade, ao lado das “Festas de Lisboa”, das “Festas na Rua” e as “Festas de Natal”.
Questionada pela Lusa sobre a mudança, a EGEAC confirmou, em e-mail enviado a 17 de Março, que ”inicialmente” ponderou mudar o nome “Festas de Abril” para “Festas da Primavera”, “procurando alinhar a identidade com outras programações em espaço público – como as ‘Festas de Lisboa’, as ‘Festas na Rua’ e as ‘Festas de Natal’ – que não fazem referência directa a meses específicos”.
Porém, “tendo em conta as iniciativas que vão integrar o programa deste ano, a decorrer entre 11 e 25 de Abril, e o reconhecimento já consolidado do nome ‘Festas de Abril’”, optou por manter a designação actual, “reforçando a ligação entre o nome e o período em que o evento acontece”. Questionada posteriormente sobre o lançamento da petição pela Lusa, a EGEAC respondeu não ter “nada a acrescentar para além do que foi já respondido”.
Celebrar “a primavera, a liberdade e o património”, sem Festival Política
Mas, afinal, há ou não há Abril nas Festas de Abril deste ano da EGEAC/Lisboa Cultura? Um espetáculo para celebrar a diversidade da língua portuguesa, um concerto dos Vizinhos e uma atuação do humorista Herman José são três dos seis eventos integrados na programação deste ano.

No site da EGEAC/Lisboa Cultura, é dito que as Festas de Abril “convidam o público a assistir a espetáculos musicais em vários locais da cidade e a visitar diferentes espaços culturais para celebrar a primavera, a liberdade e o património”. “Entre tradição e novas sonoridades, este mês volta a ser tempo de encontros com a música, mas também com o humor, o teatro, a leitura e as visitas, assinalando o regresso do sol e das andorinhas”, pode ler-se.
De acordo com o programa divulgado a 6 de Abril, as Festas de Abril começaram no dia 11 no Terreiro do Paço, com “um grande momento artístico” de “música, arte equestre e tradição militar” com “uma das mais emblemáticas formações da GNR”, a Charanga a Cavalo da Guarda Nacional Republicana.
A autarquia dava conta de outros cinco eventos generalistas na cidade, entre música, humor e visitas guiadas, com destaque para o espetáculo “Por Um Mundu Nôbu”, que “celebra a língua portuguesa e a sua diversidade” no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi nesse palco que, no dia 15, estiveram Calema, Carolina Deslandes, Dino D’Santiago, Jota Pê, Koffy, Soraia Morais e a Orquestra Sem Fronteiras, com direção do maestro Martim Sousa Tavares. Na zona oriental da cidade, no Beato Innovation District, a 17 de Abril, o humorista Herman José “revisita personagens e músicas intemporais”e no dia seguinte apresentou-se os Vizinhos, uma banda eborense de sucesso.
O Cinema São Jorge será a casa, nos dias 23 e 24, de um ciclo de concertos programados pelo Hot Clube de Portugal, com as presenças de LEIDA, Ricardo Toscano Trio, Trevo e Mário Laginha. Este ano, as Festas de Abril não contam com o Festival Política, que costumava realizar-se neste espaço, por decisão comunicada à organização pela EGEAC/Lisboa Cultura. À Lusa, fonte da empresa municipal justificou a decisão de pôr um fim à parceria com o Festival Política por entender que “era o momento de apoiar novos projectos”, mencionando em concreto a iniciativa do Hot Clube de Portugal no São Jorge.
Em declarações à agência Lusa, Bárbara Rosa, co-fundadora do Festival Política, sublinhou que a decisão lhes foi comunicada “já muito em cima da hora”, o que “impossibilitou” à organização “tentar arranjar outras parcerias para não sair da cidade de Lisboa”. O Festival Política foi criado em 2017, em co-produção com a EGEAC/Lisboa Cultura, e inseria-se desde a sua primeira edição no programa das comemorações da Revolução de Abril da autarquia lisboeta. Desde cedo, o Festival Política foi-se realizando noutros concelhos, contado com edições próprias em Braga desde 2019, em Loulé desde 2022 e em Coimbra desde 2023. Em 2025, o festival passou também a ter edição em Aveiro.
Voltando às Festas de Abril de Lisboa e à programação para 2026, a autarquia refere a valorização da “memória coletiva com propostas diversas”, com destaque para duas visitas à Fábrica de Moagem, integrada no complexo industrial da antiga Manutenção Militar, no Beato – uma já aconteceu no dia 17, estando prevista outra visita no dia 25.
Nos equipamentos culturais tutelados pela EGEAC, há alguma programação que celebra a Liberdade e a Revolução dos Cravos, nomeadamente o Museu do Aljube que, no dia 11, organizou o itinerário ao ar livre “A Revolução está na rua!”. “A ditadura, a censura, a resistência, as prisões políticas, a Revolução e as disputas da memória são alguns dos temas abordados neste passeio pelas ruas de Lisboa”, lê-se na página oficial do museu. Já o Lu.Ca – Teatro Luís de Camões acolhe, no dia 26, “Palavras de Revolução”, uma sessão de leituras para os mais novos pela contadora de histórias Bru Junça.
Ataque político?
Carlos Moedas (PSD) respondeu nesta terça-feira, 21 de Abril, na Assembleia Municipal de Lisboa à petição “Festas de Abril sem Abril” O presidente da Câmara de Lisboa considerou que a petição contra a alegada“progressiva desvalorização” do 25 de Abril na programação municipal é um ataque político e uma tentativa de o diabolizar que não fazem sentido.
A petição é “algo que eu penso que é um ataque político e tentar diabolizar o presidente da câmara, porque nós estamos a fazer e a investir, em 2026, 250 mil euros em 30 iniciativas na Lisboa Cultura e, na Câmara Municipal, são mais 30 iniciativas”, afirmou Moedas na reunião da Assembleia Municipal de Lisboa.
O autarca tinha sido questionado pela deputada municipal do PCP Natacha Amaro. Carlos Moedas lembrou que as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, em 2024, representaram um investimento de quase um milhão de euros em cerca de 100 iniciativas promovidas naquele ano. “Nós investimos mais do que todos os outros, e naqueles que não são anos redondos investe-se aquilo que sempre se investiu, que é um montante obviamente inferior”, realçou o edil.
Carlos Moedas rejeitou lições sobre o 25 de Abril, lembrando que o seu pai foi um jornalista perseguido pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). “O 25 de Abril para mim é fundamental, é parte da minha vida, eu não estaria aqui sem o 25 de Abril”, vincou Moedas, garantindo nunca ter interferido nas decisões das entidades responsáveis pela programação para assinalar a data.
Onde vai haver Abril em Lisboa?
Independentemente da programação municipal, Lisboa não vai deixar de celebrar a Revolução de Abril de 1974. A revista Time Out, por exemplo, publicou um guia completo de coisas para fazer nos dias 24 e 25 na capital e na região metropolitana. Deixamos alguns destaques:
- Desfile pela Avenida: dia 25, o desfile popular pela Avenida da Liberdade vai começar pelas 15 horas no Marquês de Pombal. É uma iniciativa livre e aberta a todos o que nela queiram participar, costumando juntar milhares de pessoas, associações, colectivos e partidos políticos;
- Arraial dos Cravos: o Arraial dos Cravos, organizado por várias associações e colectivos da cidade, vai regressar ao Largo do Carmo, no dia 24 de Abril. A partir das 18 horas, vai haver comes, bebes, muita música e uma feira. Podes contar com a presença da SOS Racismo, Vida Justa, Climáximo, Espaço com Calma e Mosca, ADR Relâmpago, Assembleia Parar o Quartel da Graça e Coletivo 1.º Esquerdo, entre outros. E vamos cantar com as atuaçoes de Columbina Clandestina, Copo3, Aniana, Fella Ayala, Largo de Cumbia, DJ Manifesta, Coro da Achada, Puta da Silva e DJ Kaktos. Este arraial conta com o apoio da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior;
- 24 de Abril na Paiva Couceiro: quase ao mesmo tempo, haverá festa na Praça Paiva Couceiro, na freguesia da Penha de França. A festa arranca às 19 horas de dia 24 e é organizada pela Comissão Promotora das Comemorações do 25 de Abril na Zona Oriental de Lisboa, com o apoio da Junta de Freguesia da Penha de França. Esperam-se actuações do Coro Infantil d’ A Voz do Operário, do Clube Musical União, do Coro da Casa da Achada, do grupo de dança tradicional palestiana Handala Dabke e do projecto “Cantos de (para) Liberdade”, com Nani Medeiros, João Pita e Fernando Baggio Hélder Moutinho. Há muitas iguarias para provar;
- Zeca na Casa Capitão: B Fachada vai tocar um disco que nunca saiu, uma espécie de cancioneiro de Zeca Afonso. Talvez um dia exista um disco em que “B Fachada canta José Afonso”; enquanto ele não chega, restam-nos as apresentações ao vivo. Sempre únicas e inesquecíveis. O concerto será na noite de dia 24, às 22 horas, no Rés-do-Chão da sala lisboeta onde agora tudo acontece, a Casa Capitão, no Beato. Os bilhetes custam 20 €.
- Palácio de Belém e Assembleia da República de Portas Abertas: cumprindo a tradição, o Palácio de Belém e a Assembleia da República vão estão de portas abertas no dia 25 à tarde. O Presidente da República, António José Seguro, vai oferecer música e poesia a partir das 15 horas, com destaque para um encontro entre Agir e Paulo de Carvalho; às 17, participa numa conversa sobre “Liberdade, Democracia e Futuro” com 25 jovens. Já na Assembleia da República workshops manuais, espectáculos de música e dança, a pintura de um mural, exposições e até uma caça ao tesouro para os mais novos, assim como visitas livres à “Casa da Democracia”;
- Almada e Seixal: em Almada, na noite de 24 de Abril, vai haver um concerto de Capicua na Praça da Liberdade, seguido pelo tradicional fogo de artifício à meia-noite e de um um encontro entre a electrónica e o cante, com os Karetos e o Grupo Coral e Etnográfico Amigos do Alentejo do Feijó. No Seixal, está previsto o habitual espectáculo comemorativo na noite de 24 para 25 no Parque da Quinta dos Franceses, com o músico Vitorino e os Cantadores do Redondo, seguindo-se, logo após o fogo de artifício à meia-noite, a banda Bateu Matou. A entrada é livre.
Texto de Sofia Branco, da Lusa, editado por Mário Rui André, do LPP.

















