Reflexão

Sejamos lisboetas, de Mafra a Setúbal

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Não há muitas regiões no continente europeu (e de certa forma no mundo) que tenham sido abençoadas à nascença com o potencial geográfico que a área metropolitana de Lisboa tem. Na Península Ibérica, certamente que nenhuma lhe chega perto.

Vista do rio Tejo a partir de Almada (fotografia LPP)

Lisboa, ao contrário daquilo que costumamos lamuriar, não é apenas uma “ponta da Europa” no sentido literal ou político. Lisboa é um dos mais felizes acidentes geográficos do velho continente, que se não fosse por via de uma crónica falta de planeamento e visão política que marcaram muitos dos seus séculos de história, seria hoje, por natureza, uma das maiores metrópoles da Europa e quiçá do hemisfério.

Toda esta conversa parece meio absurda num país que está habituado a ver-se como pequeno ou periférico, mas esta minha arrojada tese está plenamente respaldada na realidade do território.

Por alguma razão os Fenícios, os Romanos, os povos Árabes e o que viriam a ser os Portugueses habitaram, com particular intensidade, esta região por milhares de anos. Começou com o fantástico porto natural que o estuário do Tejo criou, evoluiu para um grande interposto comercial cujo relevo tornava muito fácil de defender, e acabou a evoluir para uma espécie de grande plataforma de lançamento intercontinental.

Lisboa é por natureza um hub. De rotas, comércio, culturas, pessoas e capital. Sem este grande achado geográfico que é a região de Lisboa, bem, Portugal talvez existisse na mesma, mas não tenhamos duvidas que o seu papel na história europeia e do mundo, seria muito diferente.

Lisboa foi uma peça chave no nascimento da globalização. A primeira grande demonstração de que o poder económico, político e cultural não é uma mera consequência de uma grande escala territorial ou populacional mas sim produto de estar no sítio certo, com as condições certas e a com as políticas certas. Tanto é que no mundo contemporâneo surgiram Lisboas por outras geografias, metrópoles que não nasceram de nenhuma grande potência mas sim do seu correto encaixe nas engrenagens da economia mundial. Singapura sendo o exemplo mais descarado disto.

Neste mundo contemporâneo, algumas das vantagens geográficas que Lisboa tem mudaram a sua utilidade para a região de maneira muito interessante. Não entendem onde quero chegar? Ora vejamos…

O relevo acidentado junto à orla costeira que antes servia como fortaleza natural para proteger o porto, passou (felizmente) de instrumento bélico a paisagem natural de elevado valor. Uma Arrábida populada por pequenos fortes e baterias, tornou-se um ativo ecológico e turístico praticamente inigualado em qualquer capital europeia. As Serras da zona de Mafra que serviam como defesa natural ao norte tornaram-se uma das zonas de maior aproveitamento eólico do país. A orla costeira entre Cascais e Lisboa onde apenas encontrávamos fortalezas tornou-se, quiçá, um dos corredores urbanos mais cobiçados da Europa, oferecendo uma qualidade de vida e uma capacidade de atração de investimento sem paralelo em Portugal. As praias que serviam apenas para pescadores concertarem redes, não só se transformaram em enormes infraestruturas de lazer como ainda em locais de amarração da gigantesca rede de cabos submarinos intercontinentais que sustenta o mundo moderno.

A eternamente esquecida margem sul, passou de zona agrícola e piscatória que abastecia a cidade para ser, primeiro, uma cintura industrial tremenda e mais tarde para uma área de expansão urbana hiper facilitada, onde além de se instalar a unidade produtora mais importante do país temos agora espaço para instalar grandes infraestruturas como uma grande plataforma logística ou um novo aeroporto para a região. O estuário do Sado, outrora centro piscatório de grande importância, transformou-se num escoamento logístico crítico e usou o seu valor ecológico e paisagístico para converter um banco de areia irrelevante num dos destinos turísticos mais cobiçados do país. Banco de areia esse que se prolonga eternamente por uma suave costa até uma humilde vila onde, nem por acaso, nasceu o mais importante terminal portuário do país, ainda a uma distância razoável para abastecer a região de forma eficiente. E isto tudo tendo tendo sempre na vizinhança uma das regiões mais produtivas do país a nível agropecuário, a Lezíria.

A nossa posição em latitude abençoou-nos com um clima ameno, sem invernos rigorosos e com verões eternamente moderados pelo oceano. Mesmo estando de cara para esse supramencionado oceano, por obra divina, a gente arranjou um anticiclone para nos proteger de fenómenos extremos regulares. E nem o ocasional sismo conseguiu demover este povo teimoso de aqui viver (como não demoveu nas diversas megalópoles do anel de fogo do Pacífico que levam com catástrofes mais regularmente).

Ou seja, Lisboa tem uma posição continental hiper privilegiada… tem condições naturais para sustentar grandes hubs de comércio e transporte… uma diversidade territorial hiper valorizada e com enorme valor por via de aproveitamento produtivo, ecológico e turístico… tem um clima ameno raro e estranhamente pobre em eventos meteorológicos extremos… e como se tudo isto não bastasse, uma riqueza histórica tremenda e uma tradição milenar na mistura de culturas e capacidade de adaptação a novas realidades… também não fossem os lusitanos os inventores do desenrascar.

O facto de não ter nascido aqui uma megalópole é um “acidente” humano de proporções raras na história mundial. O que é difícil é explicar como é que uma região de um potencial tão grande, nem três milhões de habitantes tem. O que é difícil de explicar é como é que o berço da globalização descambou progressivamente para uma capital europeia de segunda linha.

Saiu-nos nas rifas um carro de F1 geográfico e nós arranjámos, sabe Deus como, uma forma de ele se locomover a pedais.

Como resultado desse falhanço coletivo no aproveitamento da região, Lisboa vive hoje um conjunto de graves crises que comprometem de forma severa o seu desenvolvimento sustentável no longo prazo. Apesar do nível populacional ser muito modesto para a área ocupada pela metrópole, a sensação generalizada dos seus habitantes é de que a região está saturada e a atingir um ponto de rutura em diversas frentes.

Quero deixar aqui um ponto claríssimo: a percepção de saturação que se tem vivido na área metropolitana de Lisboa não deriva de nenhum incontornável esgotamento físico ou espacial da região mas sim das suas severas lacunas a nível das infraestruturas (primordialmente de habitação e transportes) bem como das dificuldades na gestão dos serviços públicos indispensáveis à vida urbana contemporânea.

Lisboa não está “cheia”. Não está a “rebentar pelas costuras”. A questão é que Lisboa não se preparou corretamente para a evolução da população e da sua procura externa, e agora sofre as naturais consequências dessa tremenda falta de capacidade instalada.

A solução para os problemas de Lisboa não passa por ideias malucas de engenharia social com a promoção de um mega êxodo de volta ao mundo rural apoiado pela mítica entidade milagreira que é o trabalho remoto. A solução para os problemas de Lisboa não passa por adesões a discursos de xenofobia e alusão a uma economia cavernícola e mirabolante onde o país só precisa de portugueses para trabalhar. A solução para os problemas de Lisboa não passa por transformar as nossas frustrações com a gestão do turismo numa demolição completa de um setor que, para o bem e para o mal, contribui de forma decisiva para a prosperidade da região.

Se Lisboa tem carências severas de infraestruturas e serviços, então o que temos de fazer é resolvê-los. Não é inventar soluções esdruxulas que de forma quixotesca tentam remar contra as mais básicas necessidades da vida urbana moderna. Se temos falta de casas, precisamos de fazer mais casas, não é de mandar as pessoas ir viver para outro sítio. Se temos falta de transportes públicos, temos de aumentar a rede estruturante e melhorar o nível de serviço, não é mandar as pessoas ir viver numa qualquer utopia rural só porque nem concebemos uma vida que não seja hiper baseada no automóvel. Se temos falta de capacidade nos hospitais e nas escolas, então é preciso fazer mais hospitais e mais escolas.

E antes que alguém me venha acusar de estar a defender alguma espécie de ciclo vicioso “centralista” (o que quer que essa palavra ainda signifique) em que Lisboa é algum monstro insaciável que pede sempre mais e mais, vou deixar um ponto assente: nenhuma região vê os seus problemas resolvidos por via do seu esvaziamento populacional e económico. Da mesma forma que ninguém defende a continuidade do desaproveitamento do interior, os milhões de portugueses que habitam a região mais populosa do país também estão no seu pleno direito de querer viver ali e de ter uma vida que se possa chamar digna. Tratar Lisboa como se fosse alguma espelunca onde uma elite obriga milhões de pessoas a viver é um exercício da mais pura ignorância histórica e de quem, no mínimo, não faz a menor ideia de como funciona a geografia humana e as dinâmicas socioeconómicas que levam boa parte da população mundial a escolher viver em grandes meios metropolitanos.

Lisboa, por via das suas características geográficas primitivas esteve sempre “destinada” a ser uma zona de forte concentração populacional no contexto ibérico. E a sua prosperidade enquanto região não tem de ser feita à base do desvio de recursos de outras regiões necessitadas, isto não é um jogo de soma nula em que todos nos gladiamos de forma selvagem pelas fatias de um bolo que nunca cresce. E o país só tem a ganhar com o correto aproveitamento de um dos seus maiores ativos geográficos, que em última instância, tenderá sempre a ser um contribuinte ativo para a prosperidade económica de outras zonas menos populosas. Deixemo-nos de bairrismos bacocos e torçamos pelo sucesso uns dos outros.

Temos de ter a ambição de, num horizonte temporal mensurável e vivível, desenvolver a AML para um novo patamar em que ela se afirme como uma metrópole de importância continental e mundial, tirando máximo proveito das suas potencialidades e resolvendo os grandes entraves ao seu desenvolvimento e à prosperidade daqueles que nela escolhem viver.

Uma Lisboa de 2 margens e 4 a 5 milhões de habitantes, alicerçada numa exploração total do seu potencial enquanto plataforma intercontinental. Uma metrópole que consiga conjugar uma elevada qualidade de vida com um forte output económico diversificado e de elevado valor acrescentado. Uma Lisboa que através de forte infraestruturação consiga suportar um tecido social e económico muito mais produtivo e resiliente, que sirva como motor para a contínua atração de capital estrangeiro e de diferentes culturas, produzindo resultados benéficos tangíveis para quem aqui vive.

Lisboa precisa de atrair investimento produtivo e multiplicador. Precisa de atrair empresas, indústrias de alto valor acrescentado, agentes que venham pagar bem e consistentemente. Precisa de captar investimento para poder reinvestir rapidamente sob a forma de habitação, infraestruturas e serviços públicos sem os quais, nenhuma grande metrópole vai funcionar. Precisa de largar utopias em que o desenvolvimento acontece só à base da ação pública ou privada e explorar, como fez em tempos nada longínquos, os mecanismos de parceria entre os dois setores que conduzem a resultados finais que todos desejamos.

Sejamos lisboetas. De Mafra a Setúbal, de Vila Franca a Cascais.


Artigo originalmente publicado aqui.

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