O Open House Lisboa regressa a 9 e 10 de Maio com uma edição dedicada à relação entre arquitectura e alimentação. Durante um fim-de-semana, mais de 70 espaços – alguns habitualmente inacessíveis – vão estar de portas abertas para mostrar como a comida organiza não só as nossas casas, como a própria cidade.

Comer não é apenas uma necessidade – é também um acto social. A comida junta-nos à mesa e reorganiza as nossas casas; a cozinha é onde muitos jantares com amigos começam, a sala onde terminam. Mas também as cidades se organizam em torno do alimento – mercados, armazéns, tascas, hortas urbanas. A 15ª edição do Open House Lisboa, a maior festa da arquitectura da cidade, vai explorar essas relações e abrir ao público uma série de espaços que compõem a paisagem alimentar de Lisboa.
O tema desta edição do Open House Lisboa é “arquitectura e comida”, uma edição comissariada pelo historiador Anísio Franco e pela arquitecta Mariana Sanchez Salvador. No fim-de-semana de 9 e 10 de Maio, vais poder descobrir mais de 70 espaços, alguns habitualmente inacessíveis, como cozinhas, infraestruturas, espaços de traseiras, e locais de produção, comércio e gestão de resíduos. Poderás descobrir as dimensões espaciais, sociais e materiais que nutrem o quotidiano urbano, propondo a alimentação como uma lente crítica para ler a cidade – as suas arquitecturas, ritmos, trabalho e dinâmicas.
Do Mercado do Bairro Padre Cruz à Fábrica dos Pastéis de Belém, da Cantina da Cidade Universitária às chaminés industriais do Palácio da Independência passando por lugares que são uma referência na paisagem gastronómica de Lisboa, como o restaurante Galeto, a comida é a protagonista de uma edição que convida a percorrer os circuitos da alimentação e os vários edifícios que esta vai ocupando, desde o momento da sua produção àquele em que chega à mesa.
As propostas são muitas e, como tal, apresentamos-te uma lista com 9 ideias para “saboreares” neste Open House Lisboa.
Banco Alimentar
O Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa, em parceria com instituições de solidariedade social, recolhe e distribui alimentos. As suas principais instalações encontram-se junto à estação de comboios de Alcântara-Terra, na Avenida de Ceuta, num espaço cedido pela Infraestruturas de Portugal (IP). Estes armazéns foram adaptados às necessidades logísticas e incluem agora arcas congeladoras e uma máquina de compostagem. A visita inclui também a estação ferroviária de Alcântara-Terra. O ponto de encontro é o nº 1 da Avenida de Ceuta.
Cantina Universitária
Localizada na Avenida Prof. Gama Pinto e conhecida como Cantina Velha, este ponto nevrálgico da organização social e funcional da Cidade Universitária é lugar de encontro entre os diferentes pólos. Organizada em L, o acesso faz-se por um dos extremos, através da escadaria no largo em frente à Alameda da Universidade. O ângulo côncavo entre as duas alas desenha um jardim e esplanada privados. Do vestíbulo acede-se à área de refeições: um amplo espaço com um altíssimo teto abobadado, sustentado por contrafortes e pilares aparentes. Os paramentos são compostos por blocos vazados de betão. Os interiores, desenhados pelos arquitetos, possuem obras de arte de Domingos Soares Branco, Jorge Vieira, Rolando Sá Nogueira, Teresa Sousa, e Vasco da Conceição.
Casanostra
Fundado por Maria Paola Porru no Bairro Alto, o Casanostra tornou-se num dos restaurantes mais emblemáticos da cidade. Dispõe de duas salas de tempos distintos: a primeira, de cariz original, apresenta uma paleta cromática suave presente no mosaico hidráulico axadrezado do pavimento, no mobiliário caseiro, em pormenores decorativos e em intervenções artísticas; a segunda, resultante da anexação de uma estreita peixaria vizinha, ostenta cores mais escuras e uma atmosfera mais densa. O resultado é um ambiente acolhedor, de inspiração clássica, que remete para uma Itália tradicional, tanto na estética do espaço como na experiência gastronómica. Fica no nº 60 da Travessa do Poço da Cidade.
Centro de Apoio Social de São Bento
Localizado no nº 140 da Rua de São Bento, o Centro de Apoio Social de São Bento (CASSB) é um espaço da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa de apoio à integração de pessoas em situação de exclusão social, como pessoas em situação de sem-abrigo. Está instalado numa antiga Cozinha Económica, iniciativa da Sociedade Protectora das Cozinhas Económicas de Lisboa, uma instituição de filantropia em funcionamento desde 1892 e dissolvida em 1910, tendo passado as Cozinhas para a Misericórdia de Lisboa, em 1911. Tinham o objetivo de “fornecer uma alimentação sã, limpa e abundante, para as classes operárias e menos abastadas”. O CASSB é constituído por um atelier de cozinha e dois de artes plásticas.
Estufa Comunitária de Alvalade
Localizada no Parque Hortícola Aquilino Ribeiro Machado, na Rua das Murtas, perto da Avenida do Brasil, a Estufa Comunitária de Alvalade funciona como agregador de dois bairros vizinhos: das Murtas e do Pote d’Água. Reinterpretando sistemas construtivos industriais standard, integra quatro torres rotativas de seis metros, tirando partido da verticalidade como solução técnica e estratégia espacial. Esta opção concentra a produção, mantém a permeabilidade do solo e integra-se na escala do parque. A iniciativa consolida um modelo colaborativo que articula tecnologia, espaço público e governação comunitária. Ao reduzir a distância entre pessoas e alimentos, o projeto vai delineando novos hábitos, mais saudáveis e sustentáveis, fortalecendo relações sociais, revitalizando a vizinhança e transformando o espaço comum em lugar reconhecível de cidadania ativa, partilha e cuidado coletivo.
Fábrica Dois Corvos
Fundada em 2015, a Fábrica Dois Corvos é uma cervejeira artesanal independente instalada em Marvila, num espaço industrial de cerca de 1700 m². Equipada com uma sala de brassagem, tanques de fermentação e áreas de maturação, inclui um programa dedicado ao envelhecimento em barricas. Organizada para produção em escala média, integra também zonas de armazenamento e desenvolvimento, permitindo uma operação contínua e flexível. Focada na qualidade e consistência, a Dois Corvos tem vindo a afirmar-se no contexto da produção de cerveja artesanal (tendo sido distinguida como Melhor Cerveja Craft Nacional por três vezes), contribuindo para a sua diversificação e profissionalização em Portugal. Fica no nº 306 da Avenida Infante Dom Henrique – Armazém 5.
Garagem Liz – Continente
A fachada deste exemplar significativo da arquitectura modernista lisboeta no nº 273 da Rua da Palma, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1983, destaca-se pelas superfícies simples, pela articulação de linhas verticais e horizontais e pela marcante janela bow-window, ladeada por pilares rematados por coruchéus de ferro e vidro. De planta retangular e dois pisos, a Garagem Liz foi construído sobre o antigo Real Colyseu de Lisboa (1887–1925), teatro-circo onde decorreram espetáculos de ópera, teatro e cinema. Sondagens arqueológicas recentes revelaram vestígios desta estrutura, como parte do anel da arena, encaixes para as bancadas, madeira preservada e áreas com estuque pintado. A sua adaptação para funcionar como supermercado da cadeira Continente reabilitou integralmente o imóvel.
Mercado Bairro Padre Cruz
A requalificação do Mercado Bairro Padre Cruz, um edifício dos anos 1960, reorganizou as bancas e lojas, introduziu um piso com galeria comercial ligada a um terraço com hortas urbanas e esplanadas e integrou um átrio coberto para reforçar a ligação com o bairro. A intervenção preservou as paredes principais em pedra e alvenaria (reforçadas e revestidas com materiais tradicionais) e demoliu algumas estruturas mais recentes para recuperar a praça interior original, ampliar o pé-direito e melhorar a entrada de luz e a ventilação. A estratégia construtiva combinou a reabilitação do existente com a introdução de novos elementos leves e sustentáveis em madeira, policarbonato e ripado termotratado, em que a nova cobertura em madeira e metal funciona como elemento agregador do conjunto. Fica no nº 3 da Rua Rio Cávado.
Palácio da Independência
O Palácio da Independência, no Largo de São Domingos, junto ao Rossio, é um dos poucos palácios seiscentistas da cidade que sobreviveu ao terramoto de 1755, com construções que remontam ao século XV. Do séc. XVI, possui várias portadas manuelinas, uma fonte da mesma época, e duas grandes chaminés nas suas cozinhas, únicas em Lisboa – e muito semelhantes às do Palácio Nacional de Sintra. Dos séculos XVII e XVIII, tem vários painéis de azulejos, dos quais se destaca o célebre painel da caça ao javali de Gabriel del Barco e, no seu jardim, os painéis comemorativos da Restauração. Foi o local onde se realizaram as principais reuniões dos Conjurados, no ano de 1640, que conduziram ao golpe do 1º de Dezembro. Tem ainda, no exterior, um troço da antiga cerca construída no reinado de D. Fernando (séc. XIV). O Palácio da Independência é actualmente a sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.










