Na última quarta-feira do mês, a centenária União Setubalense transforma-se numa oficina comunitária de reparação de bicicletas, computadores e pequenos electrodomésticos. Mas não só: também num espaço de discussão e convívio para quem acredita que a tecnologia pode ser de todos, em vez de estar meramente ao serviço de grandes empresas. Nestes dias 9 e 10 de Maio, esse espírito ganha ainda mais espaço e força na 2ª edição do Festival de Tecnologia Popular.

Tecnologia – Derivado do grego tekhne (arte/ofício) e logos (estudo), engloba desde ferramentas simples até sistemas complexos como computadores, inteligência artificial e processos industriais.
Popular – Adjectivo que descreve algo pertencente, relativo ou peculiar ao povo, bem como aquilo que é amplamente conhecido, aceite ou acarinhado pela maioria das pessoas. Pode indicar tradição, baixo custo, ou algo democrático e acessível.
O edifício branco passa despercebido na Avenida Luísa Todi, em Setúbal. A vermelho, pode ler-se “Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense”, fundado em 22 de Março de 1899. As portas estão fechadas. À entrada há um pequeno cartaz a anunciar a segunda edição do Festival de Tecnologia Popular de Setúbal, a 9 e 10 de Maio. Ao lado, outros dois: um sobre um ciclo de cinema de animação, e outro sobre os ensaios do coro da União.
Pelas 18h30, Luís Junqueira aparece de chave na mão. As portas da União Setubalense abrem-se como, aliás, acontece na última quarta-feira do mês por aquela hora. Todos estão convidados a entrar.

A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
A centenária União Setubalense (fotografia de Mário Negrão/LPP)
Com 127 anos de história “a imaginar o mundo colectivamente”, a União Setubalense está a rejuvenescer com o contributo de uma nova geração de associados. É naquele clube histórico da cidade sadina que Luís Junqueira, de 41 anos, e o amigo André Pereira, de 36 anos, decidiram criar um espaço para aprender e pensar em conjunto sobre tecnologia. Chama-se ODET – Oficina de Democracia e Ecologia Tecnológica.

A ODET consiste em encontros mensais, na última quarta de cada mês, para quem quiser “trazer os computadores e a internet de volta para o nosso lado”, como descrevem no site da iniciativa. A ODET é para quem está preocupado com o poder que as grandes tecnológicas – como a Google, Amazon, Meta ou Apple – exercem sobre as ferramentas tecnológicas e a internet de hoje. Nestes encontros, podem participar quem quiser experimentar hardware e software alternativo, que não esteja preso a grandes empresas com fins lucrativos, ou quem precise de reparar algum equipamento – na ODET aprende-se a fazê-lo colaborativamente.
Os encontros decorrem sem expectativas e de forma informal. Não há um programa definido – a ODET funciona à mercê de quem decidir aparecer, das suas vontades e necessidades. “É algo muito informal, é vir, é beber uma mini, é trazer algo para reparar, é falar. Começamos sempre às 18h30 e vamos até às 21h30 ou 22 horas”, explica Luís. “É importante criar o espaço mesmo que as pessoas ainda não comecem a aparecer. É preciso criar também com alguma regularidade”, diz. “Nas primeiras duas sessões não houve ninguém, fui só eu e o André. À terceira já apareceu alguém.”
Aprender a reparar
Hoje, dia 29 de Abril, é o quinto ou sexto encontro. Luís tira da mala o computador e algumas ferramentas de reparação. Também os cartazes do Festival de Tecnologia Popular de Setúbal que se vai realizar nos dias 9 e 10 de Maio. É a segunda edição do festival, depois de uma primeira no ano passado que, no pico, acolheu mais de 100 pessoas. Mas já lá vamos.



“A ODET começa quando eu me associei à União Setubalense e, em conversas, começámos a falar destas questões tecnológicas, da privacidade. Na altura, tinha passado ou estava a transitar para usar Linux no meu computador pessoal, estava a pesquisar e a procurar alternativas, digamos, ao mainstream deste monopólio das grandes tecnológicas”, conta. Estávamos algures entre 2023 e 2024. “Criámos esta ideia da ODET, fizemos algumas sessões, apareceram algumas pessoas, conhecemos algumas pessoas que mais tarde se tornaram importantes na organização do festival, mas não tivemos assim muita actividade inicial.”
Em 2025, organizaram o primeiro grande evento: a primeira edição do Festival de Tecnologia Popular. Um festival que surgiu um pouco por acaso, admite Luís. “O festival nunca fez parte dos nossos objectivos iniciais. A nossa intenção original sempre foi ter algo no âmbito daquilo que estamos a fazer com estes encontros mensais, algo orientado para a comunidade, com continuidade, com uma regularidade”, explica. Esses encontros regulares ganharam a forma desejada no início deste ano, com o impulso da Cicloficina de Setúbal, que se realiza no mesmo espaço e horário que a ODET.

Entre as duas comunidades – a de tecnologia e a da bicicleta – há um casamento natural. Quer seja uma bicicleta a precisar de reparações ou melhorias, um computador ou pequeno electrodoméstico avariado, ou o desejo de ter um uso mais privado e seguro dos dispositivos digitais, a União Setubalense é o ponto de encontro certo na última quarta-feira do mês. “Nem sempre é possível arranjar as coisas, porque há coisas que estão fora do limite desta recuperação mais amadora, digamos assim, que nós fazemos. Eu tenho alguns conhecimentos, mas não sou um especialista em electrónica. Não sou capaz de arranjar todas as coisas num computador, por exemplo”, refere Luís Junqueira. Mas aquilo que não souber, pode ser um conhecimento que alguém que decida aparecer na ODET saiba. “A lógica aqui é comunitária e colaborativa. É um processo de aprendizagem mútua.”
Essa aprendizagem mútua existe também entre a Cicloficina e a ODET. Luís não anda de bicicleta nem tão pouco percebe de mecânica, mas espreita o que a comunidade das bicicletas está a fazer nas cicloficinas, e Andreia Bernardo vai deitando um olho no trabalho da ODET.
Reparar computadores… e bicicletas
Andreia tem 29 anos e, com o namorado, José Eduardo, de 34, quis criar um espaço para reparar as bicicletas que, no seu caso, usam sobretudo para passeios. Vivem em Setúbal e são professores do 1º Ciclo numa escola na Moita; gostam de andar de bicicleta, mas o dia-a-dia é feito sob carris. José vai aprendendo a mecânica da bicicleta com o pai, que também participa nestas cicloficinas. A primeira decorreu num jardim próximo, mas depressa descobriram que podiam fazê-las ali na União – até porque o Inverno foi bastante chuvoso. Aos poucos e poucos, têm ganho “clientes” – assim entre aspas, porque as cicloficinas não são pagas, nem tão pouco um serviço comercial. O modelo é o mesmo da ODET: aparecer, aprender, ajudar quem sabe menos.

“Uma vez, eu e o Zé fizemos uma viagem de bicicleta. Mas antes disso, ele fez um upgrade à bicicleta dele e aprendeu imenso com o pai, que tem imensas ferramentas e muito jeito para mecânica. Quando voltámos desta viagem, viemos viver para Setúbal e decidimos que era giro fazermos uma cicloficina em Setúbal. Então, fizemos. Depois as pessoas foram-se juntando, foram aparecendo amigos também a ajudar”, conta Andreia. A primeira cicloficina foi em Maio do ano passado no Largo Zeca Afonso. Desde que estão na União Setubalense, cada vez mais pessoas têm-se juntado à cicloficina, diz Andreia.
“Quando nos juntámos aqui ao Luís e passámos a fazer a Cicloficina com a ODET, houve mais pessoal a aderir. Pessoas a quem possivelmente nós não iríamos chegar se não fosse esta junção”, aponta José.

Cicloficina de Setúbal (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
Cicloficina de Setúbal (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
Cicloficina de Setúbal (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
Cicloficina de Setúbal (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
Cicloficina de Setúbal (fotografia de Mário Negrão/LPP) 
Cicloficina de Setúbal (fotografia de Mário Negrão/LPP)
A bicicleta não tem um uso no dia-a-dia de Setúbal tão presente como em Lisboa, por exemplo. Há muitos “ciclistas de desporto que gostam de ir para a Serra da Arrábida fazer BTT”, mas esses são os clientes das lojas de bicicletas, “que oferecem outro tipo de serviços e reparos”. Andreia e José querem chegar às pessoas que usam a bicicleta de forma mais utilitária, seja para um passeio descontraído, seja para deslocações diárias. “Queremos que as pessoas sejam capazes de manter a sua própria bicicleta sem ter que gastar um dinheirão em produtos novos, porque dá para reparar facilmente sozinho”, descreve o jovem.
Oficinas comunitárias de reparação de bicicletas e de computadores são comuns noutras cidades, como Lisboa. A sua existência depende apenas da vontade das pessoas que decidem tirar tempo para organizar estes eventos.
Novas vidas para a União



Na última quarta-feira de cada mês, há assim duas oficinas regulares e unidas em Setúbal: uma de reparação de bicicletas e de tudo o que pedala; e outra de computadores, telemóveis e tudo o que corra a bits. São dois grupos que se entrecruzam, não só porque um nasceu do outro, mas também porque a curiosidade de um se alarga à do outro. Estas duas iniciativas estão a ajudar a revitalizar a centenária União Setubalense: não se pretende que o espaço deixe de ser um lugar para os mais velhos confraternizar, mas que possa também acolher as gerações mais novas.
“Acho que é importante que estes espaços não se percam e acho que podem ser usados para ter outro tipo de actividades, obviamente respeitando o que estas instituições são e a sua história. Mas podemos trazer coisas novas e dar-lhes vidas novas, porque acho que não se podem perder estes espaços para a especulação imobiliária”, nota Luís Junqueira. “Em Lisboa há muitos espaços destes que têm desaparecido e em Setúbal, felizmente, ainda há muitos que subsistem.”
Há cerca de cinco décadas estabelecida naquele edifício na Avenida Luísa Todi, a actividade mais marcante da União é o coro, heterogéneo – com participantes dos 29 aos 87 anos, passando por todas as idades. Canta temas de autoria própria e músicas conhecidas, mais alinhadas à esquerda. Tanto Andreia como Luís pertencem ao coro, que vai actuando em vários espaços da cidade. Mas o futuro da União não passará apenas por aqui; as obras realizadas no piso superior permitirão que este espaço possa acolher concertos dos mais variados géneros e estilos. Mas falta ainda quem possa assegurar uma programação regular. Por enquanto, a União vai ganhando nova vida com as bicicletas e a tecnologia popular. E com um festival anual.
O Festival de Tecnologia Popular de Setúbal

O Festival de Tecnologia Popular de Setúbal “está a crescer lentamente”, mas o sucesso da primeira edição fez a ODET avançar para uma segunda edição, com uma escala maior. Desta vez, o evento vai decorrer além da União Setubalense. “A ideia é mais ou menos a mesma do ano passado, mas um pouco maior porque tivemos à volta de, não sei, talvez 100 pessoas no pico, e achámos que este ano corríamos o risco de não conseguir comportar todo o público na União. Então, decidimos expandir para o Mercado do Livramento.” Com o apoio da Câmara Municipal de Setúbal, o auditório e algumas salas do Mercado, situado a poucos metros da União, vão acolher “as actividades de natureza mais formal, aquelas conversas que têm uma lógica mais palestra em que alguém vai falar ou conversar sobre um determinado tema” e também “algumas oficinas mais contidas, que requerem, digamos, um espaço em que não haja barulho”.
Para a União Setubalense, ficam reservadas as “actividades de natureza mais social”. O bar vai estar disponível com um menu especial que incluirá almoço nos dois dias. Também neste espaço vão decorrer as oficinas permanentes, onde qualquer pessoa poderá trazer equipamentos electrónicos para reparar ou um computador para aprender a instalar software livre, isto é, software gratuito que não está preso a nenhuma empresa. A Cicloficina de Setúbal estará presente, por isso, as bicicletas também serão bem-vindas. Já no piso superior, no salão, “vamos ter também algumas conversas mais pequenas”, indica Luís Junqueira.
O programa do Festival de Tecnologia Popular de Setúbal diz muito sobre o que a ODET entende por tecnologia popular. Esta ideia de uma tecnologia que pertence ao povo, que é democrática e acessível. É um programa vasto e diverso, que foi construído não só com os parceiros – como a Wiki Editoras – mas também com a ajuda de uma open call que teve “muita adesão, mais do que estávamos à espera”. Há, claro, oficinas de instalação de Linux, de small web ou de introdução ao livecoding. Mas há também rádio-astronomia amadora, energia solar fotovoltaica, uma conversa sobre os ganhos dos estafetas nas plataformas digitais, outra sobre direitos laborais na era das big tech, um debate sobre o Litoral Alentejano, outro sobre a eventual obrigação de verificação de idade para aceder às plataformas digitais em Portugal, uma apresentação do investigador António Brito Guterres sobre mapeamentos sociais e territoriais – e ainda vai haver ainda um concerto.
No fundo, é um festival de tecnologia e de muito mais do que isso. Todo o programa é de acesso livre e gratuito, sem necessidade de inscrições. Na página de apresentação do festival, é dito que o encontro é para todas as pessoas: “novas e velhas, nabos e experts”. Essa diversidade já existiu no ano passado e Luís espera encontrá-la no evento deste ano. “Nem sempre é fácil sair da bolha, mas tentamos. Obviamente que vem muita gente da área, muitos nerds, muita gente desta comunidade ligada ao software livre. Mas já no ano passado o público do festival foi muito diverso. Veio muita gente que não tem ligação a esta esfera da tecnologia. Veio gente de todas as idades e géneros. Não foram só homens, não foram só jovens”, conta o responsável.

Estabelecer encontros regulares de tecnologia e fazer um festival anual em Setúbal é um posicionamento, “sem dúvida”, assegura. Nem Luís, nem André são setubalenses, mas é na cidade sadina que residem actualmente. E é por isso que também sentem esta ansiedade de puxar pela cidade. Mesmo que seja difícil, ao início, conseguir massa crítica. “Estes temas não podem ser só falados e debatidos em Lisboa ou no Porto, onde estão os centros de conhecimento, onde estão as principais dinâmicas sociais e políticas do país. É importante também sair dessa bolha e fazer coisas fora do contexto destas cidades”, refere Luís. Ao mesmo tempo, reconhece que a proximidade a Lisboa é uma vantagem.
Dias 9 e 10 de Maio, Setúbal vai ser o centro da tecnologia popular. E na última quarta-feira de cada mês continuará a ser um ponto de encontro para quem, como Luís e André, partilha o gosto por uma tecnologia que não está ao serviço de grandes empresas ou de estados autoritários, mas que pode voltar a ser usada para partilhar conhecimento de forma mais livre.






