Não são só os espaços pessoais que estão mais inacessíveis. Também o espaço para criar e fruir cultura está cada vez mais ameaçado.

Se há um par de décadas falássemos de gentrificação, provavelmente pouca gente saberia aquilo de que estávamos a falar. O termo, que serve para descrever um processo de transformação urbana que valoriza – e encarece – espaços históricos ou populares, entrou há pouco tempo no nosso quotidiano, mas depressa se tornou uma palavra-chave nas lutas por cidades como Lisboa.
A crise da habitação, provocada pela subida galopante do preço das casas, é uma das faces mais visíveis do problema. Mas não são só os espaços pessoais que estão mais inacessíveis. Também o espaço para criar e fruir cultura está cada vez mais ameaçado.
Em Lisboa, como noutras capitais europeias, onde a monocultura do turismo e o mercado imobiliário coloniza cada metro quadrado, espaços sem um plano de negócio ou expectativas de retorno financeiro, vão desaparecendo do mapa. A valorização das cidades traduz-se, geralmente, na vocação dos espaços para o consumo. E, com isso, perdem-se os lugares onde as transações económicas não são a principal prioridade.
Os chamados terceiros espaços – onde as pessoas se encontram sem consumo mínimo, e onde estar juntas é um fim em si mesmo – são cada vez mais raros.
Foi num desses locais, o Arroz Estúdios, na zona oriental da cidade de Lisboa, onde escasseiam os transportes públicos e a paisagem urbana é uma mistura estranha entre o devoluto e o gentrificado, que nos juntámos a um grupo de outros agentes culturais interessados em pensar como desenhar centros culturais comuns. Num evento co-organizado pelo Arroz Estúdios e enquadrado num projecto europeu de discussão da sustentabilidade social, participação cultural e recuperação de espaços urbanos subutilizados, partilharam-se testemunhos e estratégias para sair do labirinto kafkiano onde muita da iniciativa se perde e a energia se dissipa.A preocupação de todos é clara: manter os espaços abertos à comunidade.
A primeira a partilhar a sua experiência foi Leonor Bettencourt Loureiro. A realizadora, que na mesma semana estreava C’est Pas La Vie en Rose, um mockumentary sobre a transformação de Lisboa, é a responsável pelo Espaço Arroios. E a sua história ajuda-nos desde logo a situar o comum na hierarquia apertadas da economia do quotidiano.



Leonor fundou o Espaço Arroios porque precisava de um sítio para trabalhar, mas sensível às dinâmicas de privatização das cidades, sempre quis abrir o seu espaço ao público. E um dos maiores desafios, explica, é equilibrar a tensão entre a sua necessidade de ter um espaço onde trabalhar e a sua vontade de prover um espaço onde quase tudo pode acontecer. O equilíbrio nem sempre é óbvio, mas as diferenças são notórias.
“Quando o dinheiro não entra na equação, isso permite-nos ser um pouco mais livres, mais diretos, menos críticos e mais compreensivos” — para Leonor, uma boa palavra para substituir o lucro é cuidado. E na tentativa de ser o mais aberta possível, a opção é por criar o mínimo de barreiras possível, “não intelectualizar demasiado” e “ter uma open call permanentemente aberta”.
A única coisa inegociável, sublinha, são os valores: “É um espaço feminista, antifascista e FLINT. Se não te sentes confortável com isto, talvez este não seja o teu espaço.” É a partir destes valores que se criam e reforçam laços ou se geram diálogos.
As dificuldades de conseguir espaços

O lugar onde nos encontrámos – um amplo pátio ocupado por contentores transformados em ateliers, uma esplanada espaçosa e um grande casarão como salão principal – não é o espaço original do Arroz Estúdios. A associação sem fins lucrativos de promoção cultural começou na outra margem do rio, na zona de Cacilhas.
Quem recorda a história é Vanderley Neves, o actual vice-presidente da associação, que começou a frequentar e a envolver-se com o espaço enquanto membro de um outro colectivo com que organizava festas. A sua relação com a Arroz é um reflexo das dificuldades por que a associação foi passando desde que foi fundada, por um grupo de jovens nos seus vinte e poucos anos como um projecto de paixão.
Apesar de, ao longo de sete anos a associação ter acumulado um total de 100 mil registos (por ser uma associação, cada entrada representa um registo) – um número que é visto por todos como um sinal de sucesso –, o percurso tem sido tudo marcado por uma necessidade constante de adaptar às circunstâncias. Depois de ser obrigada a abandonar Cacilhas, e encontrar o espaço onde agora está, no Beato, as dificuldades não cessaram. Como associação sem fins lucrativos e com a missão de promover eventos culturais, o grupo vive sob a ameaça iminente de ficar sem o espaço que ocupa. Não só o senhorio actual não pretende renovar o contrato, como a sua saída pode ser apressada se aparecer alguém interessado em com mais dinheiro para investir. O que gera uma incerteza difícil de gerir, como conta Vanderley.
À incerteza de ter um espaço nos próximos tempos, que ocupa muito tempo da equipa de gestão na procura por alternativas, somam-se outros desafios que obrigam à tal reinvenção. Apesar de estar numa zona com uma densidade habitacional aparentemente baixa, a associação não conseguiu obter uma licença que lhes permitisse a promoção de eventos noturnos, o que aumenta os desafios de programação.
Neste sentido, a história da Arroz é uma história como tantas outras que temos assistido, onde a vida das associações e espaços de promoção cultural é permanentemente pressionada por forças externas. Conseguir um espaço, tratar do licenciamento, garantir condições justas para todos os participantes. Fazer tudo isto enquanto se respeitam os valores iniciais, se cria espaço para outros agentes culturais sem ter como objectivo o lucro e se compete contra empresas altamente capitalizadas.

Se a Arroz Estúdios está hoje activa, nem sempre foi assim. E muitas vezes estes colectivos vêm-se obrigados a fazer cortes no seu orçamento ou mesmo pausas na sua actividade. Como o Planeta Manas, um local que rapidamente se tornou numa espécie de sítio de culto da inclusão da liberdade, que no ano de 2025, ao fim de quatros anos num espaço no Prior Velho, se viu obrigada a fechar portas. Por razões que deixam bem explicitas numa entrevista à Time Out Lisboa: “Rendas altas, uma Lisboa gentrificada e saturada pelos detentores de meios e capital, públicos fragmentados por propostas comerciais, as consequências da mercantilização da cultura e, por, a repressão e violência policial.”
O espaço no Prior Velho – um armazém que se tornou num dos principais lugares para sair à noite em Lisboa, mas onde também eram dinamizados workshops e exposições – era conhecido pelas suas políticas inclusivas e por ser um espaço seguro para a comunidade LGBTQI+, gerido pela associação cultural Planeta Manas. Questionada especificamente sobre este tema, o gabinete da então Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, alegou, como principal motivação para as sucessivas intervenções policiais no espaço, a falta de uma adaptação do antigo armazém industrial para as suas novas funções. Mas a simplicidade da resposta e a descrição alínea por alínea contrasta com a carga burocrática e a dureza do processo.
Com pouco dinheiro, estas iniciativas vêm-se obrigadas a procurar espaços inutilizados, mas se isto faz baixar as rendas faz aumentar as despesas sucedâneas, a complexidade burocrática e a probabilidade de incorrer em contra-ordenações. Uma triangulação que vai apertando até que deixa de haver espaço de manobra.
Na cidade de Lisboa, histórias como a do Planetas Manas são, mais do que histórias sobre espaços e organizações, histórias sobre pessoas que os vivem intensamente e, muitas vezes, à custa de sacrifícios pessoais.
Kevin Guieu, a viver há 11 anos em Lisboa, é uma dessas pessoas. A sua história mostra como os problemas são transversais aos diferentes planetas que orbitam no mesmo universo. Para si, “os clubes são como pequenos mundos que nos tiram do mundo pré-definido” e foi isso que o levou a assumir como projecto pessoal a fundação do Outra Cena.

A história de Kevin é, no fundo, uma história de teimosia. Depois de anos a ver portas fechadas em instituições públicas que nunca tinham espaço disponível, encontrou um armazém em ruínas em Marvila – sem electricidade, sem água, sem nada – e decidiu que era ali. Com poupanças, crédito de amigos e a ajuda de um estúdio de design de luz de Milão, transformou aquele espaço em ruínas num clube com carácter próprio, pensado ao pormenor para ser um lugar onde as pessoas pudessem reinventar-se.
Mas a Outra Cena não escapou às pressões que afectam todos os espaços desta natureza. O público – jovem e cada vez mais espremido pelo custo de vida em Lisboa – foi escasseando, à medida que o aumento do custo de vida obrigava a uma maior economia de opções. Com isso, a curadoria puramente artística teve de ceder a escolhas mais pragmáticas que se tornassem o espaço mais apelativo. E, por fim, processos administrativos de licenciamento que não dependiam de Kevin levaram a visitas constantes da Polícia Municipal e a coimas sucessivas, que obrigaram a alterações na agenda do espaço – que, por enquanto, está obrigado a fechar até às 23.
Um canário numa mina de carvão
“A cultura de clube é um canário numa mina de carvão. Quando as coisas ficam piores política, económica, social e culturalmente, a pressão vai ser feita neste tipo específico de encontro comunitário.”
A frase é de Manique Hendricks, quando à margem do festival MIL, refletia sobre o papel político da noite. As partilhas deste encontro corroboram essa ideia. E reflectem uma cidade onde a diversidade parece ir perdendo algum do seu espaço – quer por pressão do capital, quer por força de decisões políticas ou interpretações subjectivas dos regulamentos. Subjacente a todas estas lutas está a questão do espaço. E, por isso, se a discussão se apontava para as boas práticas, as dificuldades em suportar as rendas ou em arranjar locais apropriados dominou a agenda.

Para reflectir sobre as experiências que se foram partilhando ao longo da tarde, para o final ficou o investigador Luís Mendes. Especialista em gentrificação, afiliado ao Instituto de Greografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa Mendes é também um cidadão engajado com uma ampla experiência no associativismo. E foi a partir desse lugar híbrido que orientou a sua intervenção.
Primeiro, enquadrando a gentrificação: “A gentrificação é uma palavra feia – e não deve ser confundida com regeneração urbana ou reabilitação urbana. Não tem nada a ver com isso. É uma palavra tabu há mais de 60 anos nos estudos urbanos, e não se trata apenas de teoria – está aqui, neste preciso momento. Pode ser a causa do teu despejo deste local e de tantos obstáculos na procura de um bom espaço.”.
E depois com uma provocação incontornável: “Como podemos ser marginais e emancipatórios e ao mesmo tempo financeiramente sustentáveis? Obter o dinheiro de que precisamos sem trabalhar para a máquina capitalista que nos usa?”
Luís Mendes não partiu do seu lugar de especialista para nenhum discurso apologético ou de comiseração. Antes pelo contrário, com uma energia que contagiou todos os presentes, abordou de frente os problemas em torno dos modelos de produção e desenvolvimento das cidades contemporâneas, e perante a falta de alternativa – a dificuldade em encontrar os limites do capitalismo no mapa das cidades contemporâneas – desafiou os agentes culturais a forjar alianças locais, a abraçar as contradições – “Eu vou à Iniciativa Liberal e digo: vocês defendem a eficiência económica, mas não promovem a reutilização de edifícios abandonados. Porquê?” – e a não ter medo de fazer barulho e ganhar visibilidade:
“Juntem-se à vossa comunidade. Juntem-se aos vossos colegas agentes culturais. Trabalhem em colaboração. Organizem reuniões com as comunidades à vossa volta – as outras associações tradicionais. Promovam movimentos sem fins lucrativos. Mas, acima de tudo: consigam terrenos. Têm de conseguir terrenos. E ganhem visibilidade nos meios de comunicação. Se não tiverem visibilidade nos meios de comunicação, não serão conhecidos neste tipo de sistema.”
Apesar de os espaços culturais e emancipatórios não prometerem o mesmo retorno sobre capitais, Luís Mendes parte da sua experiência para nos explicar que é errado partir de uma lógica de desvalorização. Desde logo porque nem todos os retornos do capital são imediatos e porque, no final de contas, a homogeneização capitalista não é bom nem para os promotores imobiliários que correm o risco de acabar com portfólios de imóveis absolutamente iguais em locais completamente diferentes.
Para demonstrar o poder destes argumentos partilhou um exemplo pessoal – uma reportagem de um canal catalão em que participou e que acabou por contribuir para uma desaceleração da política de turismo do executivo municipal anterior. Nessa entrevista, Mendes foi conciso ao dizer que a política de turismo em vigor acabaria por matar a “galinha dos ovos de ouro” da cidade, ao terraplanar todas as especificidades locais. A expressão rapidamente chegou aos jornais portugueses e despertou os políticos locais. Mas claro, nem tudo se resolve com palavras. E Mendes diz-nos que é preciso não ter medo das ações, porque muitas vezes são estas que obrigam aos compromissos ao expôr a imoralidade das situações:
“Porque não ocupar ilegalmente um local e depois chamar as câmaras dos meios de comunicação nacionais para mostrar isso? «Este local está vazio, não tem qualquer função cultural, não tem qualquer função habitacional — por que razão está aqui vazio, sem qualquer função?» Os espaços vazios no centro da cidade representam cerca de um terço — é imoral. Devemos denunciar essa imoralidade.”
Como mostra a recente ocupação terminada em poucos dias na cidade de Lisboa, estas estratégias não são uma bala de prata, nem vão funcionar sempre. Mas quando funcionam podem gerar mudanças estruturais e duradouras, mesmo que edificadas sobre impasses burocráticos ou acordos circunstanciais. De resto, como explica, é preciso dominar o léxico e muitas vezes aprender a dizer o que os outros intervenientes querem ouvir, mais do que aquilo que queremos dizer de forma espontânea.
Afinal de contas, esta disputa pelo espaço convoca muitos interesses e para os contrariar é preciso criar redes densas, com laços fortes e raízes profundas. Mais do que fintar despejos, é preciso criar valor para a comunidade – num sentido lato – que os torne impossíveis. Se tantas vezes ouvimos falar de empresas grandes demais para falhar, o mote é para que criemos comunidades grandes demais para serem expulsas.
Este artigo foi desenvolvido no contexto de um evento de um evento sobre como desenhar centros culturais comuns – uma iniciativa enquadrada no projecto TY-CO, co-financiado pela União Europeia. O autor deste artigo foi convidado a moderar um painel de discussão durante este encontro, tendo desenvolvido este texto com total liberdade editorial e criativa.






