Zona Proibida: um documentário em construção sobre o fecho de espaços culturais em Lisboa

Margarida Valença e um grupo de amigos estão a gravar um documentário sobre o processo de gentrificação na cidade de Lisboa e o seu impacto no encerramento, deslocamento e precarização dos espaços culturais e associativos. Chama-se Zona Proibida.

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Margarida Valença e um grupo de amigos estão a gravar um documentário sobre o processo de gentrificação na cidade de Lisboa e o seu impacto no encerramento, deslocamento e precarização dos espaços culturais e associativos. Chama-se Zona Proibida.

Margarida Valença, 24 anos, é a realizadora de Zona Proibida (fotografia DR)

Zona Proibida é um documentário em desenvolvimento sobre o processo de gentrificação na cidade de Lisboa e o seu impacto no encerramento, deslocamento e precarização dos espaços culturais e associativos. O filme nasceu da vontade de Margarida Valença e um grupo de amigos de pegar em câmaras e microfones para contar essa história.

O projecto foi apresentado a 23 de Maio no festival MIL Cultura e Política, que decorreu na Casa Capitão, com o lançamento de um primeiro teaser. Margarida Valença, 24 anos, explicou que a ideia do documentário surgiu quando viu a Zona Franca dos Anjos fechar a 7 de Outubro de 2025 por despejo. “No dia em que ia pela primeira vez à Zona Franca, aquilo fecha e foi assim uma sensação muito visceral”, explicou a jovem jornalista/realizadora durante a apresentação do projecto. “Inclusive aquela rua [a Rua de Moçambique, onde era a Zona Franca] foi a primeira rua onde eu morei. Uma rua onde andei tantas vezes, que sinto como casa, e ao mesmo tempo parece agora proibida.”

Zona Proibida promete contar a história de uma Lisboa que Margarida e o restante grupo dizem estar cada vez mais proibida a associações e colectividades como a Zona Franca dos Anjos. O documentário está ainda muito no início: o grupo, constituído também por Inês Dust, Rhuana Pimentel, Beatriz Dinis, Iolanda Loba e João Veloso, está a gravar as primeiras entrevistas e reportagens sobre espaços como o Grémio Lisbonense, o Sport Clube Intendente, o Clube Recreativo dos Anjos, a Seara, Os Amigos do Minho, o Banco, o Crew Hassan, o Musicbox, o Lounge, o Bacalhoeiro, o Valsa, o Planeta Manas ou o Núcleo A70.

O primeiro mapa de espaços desaparecidos da cidade de Lisboa (via Zona Proibida)

Estes nomes não são apenas uma lista. Foram espaços que fizeram parte da vida cultural e associativa de Lisboa, e que hoje já não existem – ou já não estão onde estavam inicialmente. Foram lugares de encontro, criação e convivência onde se faziam concertos, ensaios, exposições, conversas, e onde se construía comunidade. O seu desaparecimento ou deslocação faz parte de uma transformação mais profunda de Lisboa: “é um problema social muito grave que estamos a enfrentar”, entende Margarida.

A Zona Proibida quer mostrar como, nos últimos anos, a pressão imobiliária e os processos de gentrificação têm vindo a redesenhar a cidade, enfraquecendo redes culturais, associativas e comunitárias que a sustentavam. Mais do que um documentário: o objectivo é também criar um espaço de pensamento e reflexão sobre o tema da gentrificação e o seu impacto no tecido associativo e cultural da cidade, e sobre o que pode ser feito “ao nível de políticas públicas”, a partir de “exemplos de cidades como Barcelona ou Berlim”. “Acreditamos que não são apenas espaços culturais, são sítios cruciais para a criação de comunidade, de encontro e para a formação de linguagens políticas.”

“Há também toda esta conversa sobre a possibilidade de descentralização destes espaços para não estarem tão concentrados em Lisboa, só que, ainda assim, também acreditamos que Lisboa também merece ter lugares que são de comunidade e que os espaços também não devem estar permanentemente a ser deslocados para conseguirem sobreviver”, entende Margarida.

O logo de Zona Proibida (DR)

À medida que o documentário vai sendo feito, o grupo pretende aprofundar o conhecimento que tem sobre o tema. “Para já, o que temos é um trabalho que é ainda bastante incompleto”, reconhece a realizadora. A construção do documentário está a ser realizada de forma comunitária: o colectivo está a recolher fotografias, vídeos, cartazes, flyers, registos antigos ou qualquer memória destes lugares, e quer também ouvir quem os conheceu de perto – artistas, trabalhadores, vizinhos, público, amigos, todas as pessoas para quem estes espaços tiveram importância. Quem quiser contribuir para a Zona Proibida e para um arquivo colectivo pode fazê-lo através do Instagram @zona_proibida_lisboa ou do e-mail zona.proibida.doc@gmail.com.

As redes sociais, nomeadamente o Instagram, vão ser um ponto de comunicação importante entre o grupo e a audiência que esperam fazer crescer. É aí que o grupo quer publicar conteúdo complementar ao filme final – pequenos vídeos, alguns textos, bastidores do projecto. Além disso, pretende promover conversas e encontros de discussão, como o que aconteceu no festival MIL Cultura e Política, e vai lançar em breve uma campanha de crowdfunding. Nós neste momento tudo o que fizemos foi de forma voluntária, estamos a zero. Na verdade, acho que diria que estamos a negativos porque já gastámos dinheiro em viagens e afins, portanto, o nosso retorno do projecto é esse mesmo – negativo – até agora”, refere Margarida.

A conversa que decorreu no dia 23 de Maio contou com Ana Estevens, geógrafa, investigadora e co-fundadora da cooperativa Criar Cidade, Marco Tomaiuolo, membro da associação cultural Sirigaita, e Muleca XIII, rimadora, compositora e educadora popular. Esta será uma das conversas que a Zona Proibida irá lançar na íntegra quando arrancar o crowdfunding – os apoiantes terão acesso a conteúdos que não estarão disponíveis para o público em geral através do Instagram.

Conversa de apresentação de Zona Proibida no MIL Cultura e Política 2026 (fotografia de Francisco Chaveiro/MIL)
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