“O horário é um dos grandes problemas dos mercados”

Mariana Sanchez Salvador mapeou a Paisagem Alimentar de Lisboa: da produção à distribuição, dos mercados às hortas e projectos comunitários. Para a arquitecta e investigadora, a cidade pode melhorar a forma como se abastece e se alimenta. Mas, para isso, é precisa uma estratégia integrada a nível municipal.

Mariana Sanchez Salvador mapeou a Paisagem Alimentar de Lisboa: da produção à distribuição, dos mercados às hortas e projectos comunitários. Para a arquitecta e investigadora, a cidade pode melhorar a forma como se abastece e se alimenta. Mas, para isso, é precisa uma estratégia integrada a nível municipal.

Mariana Sanchez Salvador (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Mariana Sanchez Salvador conhece Lisboa de uma ponta à outra, pelo menos no que diz respeito a alimentação. Arquitecta e investigadora, o seu trabalho centra-se na forma como os espaços que habitamos – territórios, cidades, casas – são transformados pela comida. A tese de doutoramento que concluiu em 2024 é uma radiografia exaustiva daquilo a que chama de Paisagem Alimentar de Lisboa: um mapeamento detalhado de como a cidade produziu, distribuiu e comercializou alimentos ao longo do tempo, e de como o faz hoje. Um trabalho que, por exemplo, mostra que no início do século XX mais de metade da área do concelho estava afecta à produção agrícola; e que hoje essa produção foi relegada para locais distantes, com o tecido comercial a alterar-se profundamente.

À boleia da última edição do Open House Lisboa, da qual foi curadora, conversámos com Mariana Sanchez Salvador, olhando para essa Paisagem. Falámos sobre o regresso das hortas à cidade – entre parques municipais e espaços informais –, sobre a fragmentação municipal que impede uma estratégia alimentar mais integrada na cidade, sobre o declínio dos mercados tradicionais, cujo principal problema não é a concorrência dos supermercados mas o horário de funcionamento, e sobre os projectos de base comunitária que tentam colmatar falhas estruturais do sistema alimentar da cidade.

No teu trabalho, falas em Paisagem Alimentar e como esta inclui três dimensões: produção, distribuição e comercialização. Consegues explicar-nos melhor este conceito?

A utilização do conceito de Paisagem não é de todo inocente. É um conceito que tem cargas muito diferentes consoante a disciplina em que se usa. A história da arte tem uma visão mais representativa, pictórica. Se formos para a geografia ou para a arquitectura paisagista, estamos a falar de questões mais de composição territorial, dos fluxos, dos recursos, das interações. Mas, na verdade, foi o único conceito que eu consegui ir buscar e que permitia trazer simultaneamente uma dimensão muito material e uma dimensão imaterial. É um conceito que consegue acarretar simultaneamente coisas práticas e físicas de relações, espaços, fluxos, de actividades, de relações entre pessoas até, mas depois também evocar toda aquela carga da história, tradição, cultura e identidade.

No meio das várias leituras que podemos fazer sobre o território e em particular sobre a cidade, o foco que me interessa são as actividades alimentares. Isto é, todas as actividades que são necessárias para abastecer uma determinada população, o que vai desde a produção à distribuição, à transformação, passando pelo comércio, pela preparação, pelo consumo e pela gestão de resíduos – porque também é importante, é o que no fundo fecha o ciclo. Todas estas actividades ocupam espaço físico: cozinhas, salas de jantar, mercados, supermercados, fábricas, estações de tratamento de resíduos. Mas a produção pode estar relacionada também com espaços menos óbvios. Não necessariamente com esta ideia bastante romântica de grandes campos cultivados.

Esta entrevista está disponível exclusivamente na 7ª edição do Jornal LPP. Compra aqui em papel ou PDF, e apoia o jornalismo da tua cidade/região.

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