Desde 2011, o projecto A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria tem gravado artistas de norte a sul do país. Agora, aterrou em Benfica para durante quatro anos trabalhar com os músicos desta freguesia lisboeta e criar um novo Cancioneiro de Benfica.

No meio do bosque do Parque Silva Porto, em Benfica, está uma câmara e um microfone a apontar para uma poetisa. É Leonor Ribeiro, tem 25 anos, vive em Benfica e costuma actuar no Com Calma, um espaço cultural pequeno e independente na freguesia. Nesta quarta-feira, ao final da tarde, vai ser gravada para o projecto A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria (MPAGDP). Por detrás da câmara está um grupo de alunos da EB 2,3 Quinta de Marrocos. “O que é que sabem sobre a Leonor?”, pergunta Tiago Pereira, autor e fundador da MPADP, para estimular a participação dos pequenos aprendizes. “Que vai dizer um poema”, responde Mateus, enquanto prepara a câmara. “Som”, grita o rapaz para saber se está tudo preparado do lado do microfone e se podem começar a gravar. Beatriz, de auscultadores na cabeça e gravador na mão, confirma que está tudo pronto. “Câmara, ‘tá?”, pergunta Tiago para ter a certeza. Mateus acena que sim.
A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria nasceu em 2011 e tem, nestes 14/15 anos, gravado músicos de diferentes géneros e contextos sociais, de norte a sul do país. Desde Março está na freguesia lisboeta de Benfica para criar um arquivo completo da música nascida e criada nesta freguesia de Lisboa – um Cancioneiro de Benfica, que não só está a ser registado em som e imagem, como reinventado através de dois coros. Mas já lá vamos. O trabalho neste final de quarta-feira de Abril está a ser desenvolvido com a ajuda de alunos de escolas do bairro, como a EB 2,3 Quinta de Marrocos, no âmbito de uma oficina de gravação com o intuito de enriquecer os tempos livres destas crianças depois das aulas e, ao mesmo tempo, a estimular a “cabeça deles em termos musicais”, nota Tiago.
Tiago Pereira é o rosto do projecto desde sempre, mas em Benfica está a trabalhar com Francisca Almeida, uma espécie de side-kick que o ajuda em tudo o que é preciso, desde a produção à gravação. É a dupla quem grava a maior parte dos vídeos. “Chegamos a gravar sete músicos por dia”, conta Tiago, sentado na esplanada do Palácio Baldaya. “Benfica sempre foi o sítio onde eu quis estar em Lisboa. Benfica é perfeita a nível da música portuguesa”, explica. “Tem músicos na rua, bandas de garagem… Muitas bandas que começaram aqui. Tem uma cultura musical muito forte, transversal a muitos géneros, muitas influências, a muitas culturas diferentes”, diz, explicando que no bairro se misturam pessoas que fizeram parte das grandes migrações internas do país para “a grande cidade”, comunidades das ex-colónias, e uma “tradição oral e musical popular que acontece de forma espontânea no espaço urbano”.
É toda essa diversidade que a A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria se propõe a registar, arquivar e transformar ao longo dos próximos quatro anos de duração do projecto naquela freguesia. Uma parte do trabalho está a ser feito, como referido, com a participação de alunos das escolas de Benfica, como a Quinta de Marrocos. A ideia é ensinar aos mais novos como se usam câmaras e microfones, dar-lhes a conhecer a música de Benfica e estimular também a sua curiosidade.
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