Viver em Lisboa tornou-se mais difícil nos últimos anos. Com o aumento dos preços das habitações, a Câmara Municipal de Lisboa lançou vários programas para promover arrendamentos mais acessíveis. Pedro Santos e Soraia Martins, agora a olhar o futuro com vista para o rio, são dois dos rostos deste programa, que já apoiou perto de duas mil famílias.

“Desesperadora”. É esta a palavra que Pedro Santos e Soraia Martins, de 27 e 33 anos, evocam para caracterizar a sua experiência na procura de casa em Lisboa. Quer seja para arrendamento ou para compra, o que encontravam estava fora dos seus limites financeiros. “A gente se quisesse algo com condições (…) dentro de Lisboa ou deixava de comer para viver ou tinha de ir para fora de Lisboa. E eu sou de Lisboa, nascido e criado”, conta Pedro, de olhos azuis e camisola preta, na mesa da sua nova sala de estar, situada em Marvila. Ao seu lado está Soraia, a sua companheira, de cabelos compridos encaracolados. Ambos são de Lisboa: Pedro nasceu e viveu na Quinta do Loureiro e Soraia em Alcântara. “A gente é daqui, a gente tem de morar aqui.”
A inconformidade em abandonar a cidade levaram o casal a procurar soluções. “Decidimos juntar-nos, mas as rendas fora são absurdas, muito caras” e comprar casa era “muito caro, mesmo assim. Nós ganhamos o ordenado mínimo”, explica Soraia. A história deste casal começa numa das ocasiões mais efusivas da cidade: as marchas populares. A bicampeã marcha de Alcântara, a “marcha do coração”, foi o ponto de encontro para os dois. Soraia é quase uma veterana: está na marcha desde os 11 anos e “os meus pais, primos, tios, família quase toda está na marcha”. Em 2015, Pedro ingressa nesta tradição. “Já nos conhecíamos há alguns anos”, relembra Soraia, mas só quando se tornaram par fixo, com uma “convivência mais completa”, é que a relação se tornou mais séria. Em 2023, o par da marcha de Alcântara começou a partilhar mais do que uma tradição lisboeta. Tornaram-se um casal.
Pedro é eletricista na E-redes, um trabalho que lhe preenche muitas horas e oferece o ordenado mínimo: “Eu mesmo sendo eletricista ganho o ordenado mínimo, a eletricidade em Portugal não é bem paga”, esclarece. “Há muita gente que tem a ideia disto errada, mas não é bem paga. Quem consegue ganhar dinheiro dentro da eletricidade é quem trabalha para os privados.” Soraia, por outro lado, é assistente veterinária numa clínica no Campo de Ourique e ganha, também ela, o ordenado mínimo.
Decidiram que estava na altura de criarem o seu próprio lar e arregaçaram as mangas para procurar casa. Mas como em tantos casos, a desilusão era constante. Pedro teve conhecimento de um concurso do Programa de Renda Acessível (PRA) da Câmara Municipal de Lisboa (CML) através de um amigo; falou com Soraia e “decidimos concorrer”.
Programas como o PRA têm como objetivo proporcionar condições de habitação condignas, através de arrendamento acessível na cidade de Lisboa. As primeiras candidaturas iniciaram-se em 2020. Ao todo, existem três programas de arrendamento municipal: além do Programa de Renda Acessível, há o Programa de Arrendamento Apoiado e o Subsídio Municipal ao Arrendamento Acessível. Todas estas iniciativas são regidas pelo Regulamento Municipal do Direito à Habitação de Lisboa, aprovado em 2019, e estão integradas na plataforma online Habitar Lisboa, que serve como uma espécie de guarda-chuva destes programas.



O Programa de Renda Acessível contempla imóveis reabilitados ou novas construções, financiadas ora pelo Município de Lisboa, com investimento próprio, ora pelo Programa 1º Direito ou por verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) da União Europeia. Neste concurso são estipulados limites mínimos e máximos do valor do rendimento total do agregado habitacional e a taxa de esforço de referência não ultrapassa os 30%. Desta forma, o valor da renda é calculado em função da remuneração mensal de cada agregado habitacional. Após abertura do concurso e consequentes candidaturas, é realizado um sorteio de forma informática para atribuir as habitações.
“Concorremos três vezes [ao Programa de Renda Acessível] e à quarta ganhamos”, riem-se Soraia e Pedro. Desde a primeira candidatura até ao último sorteio, esperaram um ano e sete meses. Neste período não baixaram os braços. “A gente sabia que podia demorar, mas mesmo assim continuávamos à procura. Ou de um lado ou de outro, nós queríamos juntar-nos”, relembra Soraia. Em março de 2025, a notícia finalmente chegou: o sorteio determinou um T2 num dos novos edifícios do Vale Formoso, em Marvila, perto do Bairro dos Alfinetes.
Com vista para o Vale de Chelas e para Marvila, estes novos edifícios construídos para arrendamento acessível recordam as caravelas portuguesas de outrora. As formas triangulares e o branco e cinzento das construções contrastam com a paisagem intermitente dos prédios. No horizonte, é o rio que compõe o cenário. Aqui, no Vale Formoso, na varanda daquele que é agora o lar de Pedro e Soraia, consegue-se vislumbrar o mural dedicado à fadista Sara Correia no Vale de Chelas. O sol da varanda espaçosa aquece Lord e Simba, os dois gatos do casal, que já se habituaram – e não dispensam – a sua visita diária àquele espaço. Em junho deste ano, Pedro e Soraia vão celebrar três anos de namoro e o futuro tem vista para o rio.
A urgência de um problema chamado habitação
A escalada de preços no setor imobiliário tem sido preocupante na última década na União Europeia. Portugal surge entre os três países com maior aumento nos preços das habitações no terceiro trimestre de 2025, quando comparado com o mesmo em 2024, segundo dados do Eurostat. A Comissão Europeia estima que a sobrevalorização média dos preços em Portugal posiciona-se nos 25%, ultrapassando países como a Suécia, Áustria ou Letónia, o que coloca o país com a percentagem mais elevada da Europa, lê-se no Plano Europeu de Habitação a Preços Acessíveis (PEH), divulgado no final de 2025.
Uma das missões da Comissão Europeia é a de mitigar este problema e, pela primeira vez, foi nomeado um comissário europeu para os setores da Energia e da Habitação, “um sinal do quão sério levamos estes problemas”, aponta Dan Jørgensen, destacado para o cargo no final de 2024. O investimento na habitação por parte da Comissão Europeia totaliza 43 mil milhões de euros e deste valor, cerca de 56 milhões de euros foram mobilizados para Lisboa, uma das cidades com o montante mais alto para este setor. “A execução que temos deste programa é muito elevada, quase 80%, e pretendemos chegar aos 90%, mas obviamente a partir de junho [de 2026] nós vamos precisar de continuar a precisar da Europa”, afirma Carlos Moedas, Presidente da CML, na apresentação do PEH em janeiro deste ano, que contou com a presença do Comissário Europeu para a Energia e Habitação.
Após o término do PRR, resta apenas a muitos municípios o “apoio nacional ou o capital próprio, mas [os municípios] não têm capacidade para valores tão grandes”, refere o edil. Em Lisboa, acrescenta, existe ainda espaço e oportunidade para construir cinco mil habitações, “mas não temos capital para o efeito”. Por essa razão, sugere ao comissário europeu a criação de um PRR para a Habitação.
Até junho de 2025, este financiamento será aplicado nos crescentes desafios na habitação em Lisboa. “Tivemos rendas que aumentaram 64% nos últimos 10 anos, quando o rendimento das pessoas aumentava apenas 22%”, afirma Carlos Moedas. Aponta ainda que “construir demora tempo, reabilitar demora tempo e nós em Lisboa podemos dizer que já ajudamos 1.872 famílias a pagar a renda”. Refere ainda que desde 2021 até ao início de 2026 foram entregues 3.200 casas e que destas, duas mil foram reabilitadas e mil estão em construção. A entrega destas chaves, nomeadamente da chave três mil, teve um rosto muito familiar.

Diz o provérbio que a sorte é como um raio: nunca se sabe onde vai cair. Soraia confidencia que Pedro é mais otimista do que ela, e que continuou a acreditar que nada estava perdido depois da falta de sorte nos primeiros três sorteios. “Eu disse[-lhe] para ficar descansada que desta vez a gente ganhava”, sorri Pedro ao relembrar. E à quarta, o raio atingiu o jovem casal. E a sorte não se ficou apenas pelo sorteio de um imóvel: Pedro é o rosto da entrega da chave três mil.
O edifício onde agora habitam foi inaugurado em dezembro de 2025 e as chaves foram entregues por Carlos Moedas a 12 de dezembro. Pedro solta um grande sorriso quando relembra o episódio: “Eles [CML] reuniram os moradores que ganharam a chave. No caso, calhei ser eu [a chave] três mil.” Pedro ainda guarda a chave transparente, do tamanho da sua mão, como recordação daquele dia.
Com o novo ano à espreita, o casal fez jus ao adágio: ano novo, vida (e casa) nova. Mudaram-se a 4 de janeiro e juntos pagam uma renda de quase 600 euros. Durante cinco anos, podem habitar no T2 e após este período, renovar o contrato se assim desejarem. Para eles, o futuro passa por Marvila. “Ainda não conseguimos ver tudo, mas [o edifício] tem tudo à volta, é um sítio bem localizado”, afirma Soraia. “Eu vou de transportes para o trabalho, tenho o autocarro aqui à porta, o metro ali em cima, mesmo indo a pé são 10 minutinhos, tenho tudo à porta.”
E como é que os programas de arrendamento municipal mudam verdadeiramente as suas vidas? “Primeiro porque passa por ser o nosso espaço, a nossa privacidade, e é um passo muito importante para a vida de um casal ir viver juntos”, começa por responder Pedro. “Hoje cada vez mais os jovens saem mais tarde de casa” e “está cada vez difícil e por acaso este concurso do Habitar Lisboa acho que veio ajudar os jovens nisso e também as pessoas mais velhas que querem melhores condições” porque “não são só os mais jovens que concorrem, também [são] as pessoas mais velhas”, refere. A casa de Pedro, Soraia, de Lord e Simba, é “quente” e “acolhedora”, descrevem, e ao seu ritmo, estão a transformá-la no seu lar.
“Acho que se as pessoas têm direito a concorrer, acho que devem concorrer”, afirma Pedro. “Não custa nada”, continua Soraia. O sorteio é sempre uma sorte, mas “é sempre melhor do que as rendas cá fora, porque… nós estivemos a ver e era um ordenado [para pagar a renda] e depois não tínhamos dinheiro. Era pagar as contas, a renda e depois não tínhamos mais nada”, reflete Soraia.
A urgência e a crise na habitação um pouco por toda a Europa levou a Comissão Europeia a tomar medidas. Uma das suas missões foi a elaboração do primeiro Plano Europeu de Habitação a Preços Acessíveis (PEH) que uniu esforços e contributos do Parlamento Europeu e do Housing Advisory Board, com Carlos Moedas na vice-presidência, o único português a integrar este grupo. “Ter uma casa é um direito humano. Ter um lar é mais do que apenas um telhado sobre a cabeça. Ele é base da vida, é o que te dá um futuro”, reflete o comissário europeu para a Energia e Habitação na apresentação do PEH em Lisboa. Este plano assenta em quatro pilares principais: impulsionar a oferta de habitação, mobilizar o investimento, possibilitar o apoio imediato ao mesmo ritmo das reformas habitacionais e por último, facilitar e apoiar pessoas em situações vulneráveis e de estudantes em mobilidade. Carlos Moedas afirma que o plano de ação dos últimos quatro anos em Lisboa “assenta exatamente sobre estes pilares deste Plano Europeu”. E os projetos da CML querem continuar a devolver a cidade aos seus cidadãos.

“Um conselho que eu dou às pessoas é que não parem de concorrer”
Ao entrar no edifício no Vale Formoso, com Pedro na dianteira a mostrar-nos o caminho, o silêncio não é ensurdecedor, é sim de contemplação da própria estrutura. O som da porta do elevador a abrir-se revela que chegamos ao piso da sua casa. Ao percorrer o corredor, contam-se as portas brancas que acolhem os seus vizinhos. É Soraia que nos recebe e logo de seguida, ainda que a estranhar, Lord, o gato mais velho de Soraia. A timidez logo desaparece e dá lugar a pedidos de confraternização. Na sala, quase que à nossa espera, está o Simba, também ele a estranhar aquelas visitas. Poucos minutos separam a estranheza da confiança. Sentamo-nos à mesa; o sol vai alto e as janelas generosas permitem que a casa seja bem iluminada. As paredes branco-pérola dão um toque de conforto e não se esperará muito até Lord e Simba pedirem para ir à espaçosa varanda.
O casal está feliz com esta conquista. A cozinha veio equipada com exaustor, uma placa e um cilindro e ainda têm direito a um lugar de estacionamento na garagem do prédio. Pedro não hesita: “Um conselho que eu dou às pessoas é que não parem de concorrer, porque se pararem é que não ganham mesmo.” “Percam cinco minutos no telemóvel ou no computador e inscrevam-se no Habitar Lisboa, acho que é uma boa ideia” porque “o Habitar Lisboa durante o ano faz sete, oito concursos mais ou menos, com várias casas. Umas são remodeladas, outras são construções novas – como é o caso desta – e todas têm bom aspeto”.


Os planos para o futuro da habitação em Lisboa contemplam, entre outros, dois grandes projetos: o Vale de Santo António e o Vale de Chelas, que totalizam 240 hectares. O desenvolvimento destas zonas passa pela construção de cinco mil casas “mas precisamos também da ajuda dos privados, precisamos da ajuda de todos”, reconhece Carlos Moedas em conferência de imprensa. A adicionar, a CML vai colocar em ação o programa De Volta Ao Bairro destinado a jovens e com o objetivo de reabilitar bairros históricos através da disponibilização de 700 habitações.
Pedro Santos e Soraia Martins são um dos vários exemplos bem sucedidos do Programa de Renda Acessível, destinado não apenas a jovens, mas também a famílias com dificuldades financeiras. Para já, o objetivo deste casal está cumprido: não sair da cidade que os viu nascer. E quando confrontados com a possibilidade de representar o seu “novo” bairro nas marchas populares, a resposta é dada em uníssono: “Não, não, a gente só veste uma camisola!”.
Reportagem com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa no contexto da rubrica “Bastidores da Cidade”; apesar de pago, o conteúdo foi desenvolvido com espaço e liberdade criativas.











