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Os centros culturais como infraestrutura social da comunidade e o desafio da gentrificação

Criar centros culturais críticos, emancipatórios e transformativos exige repensar profundamente o papel da cultura na cidade contemporânea. Em vez de compreender a cultura como instrumento de marketing urbano ou catalisador de valorização imobiliária, é necessário reposicioná-la como infraestrutura social essencial para a coesão territorial, o exercício da cidadania e a produção de imaginação coletiva.

Criar centros culturais críticos, emancipatórios e transformativos exige repensar profundamente o papel da cultura na cidade contemporânea. Em vez de compreender a cultura como instrumento de marketing urbano ou catalisador de valorização imobiliária, é necessário reposicioná-la como infraestrutura social essencial para a coesão territorial, o exercício da cidadania e a produção de imaginação coletiva.

Em Alcântara, a partir dos anos 1980 e intensificando-se nos 1990, grandes complexos industriais desativados tornaram-se espaços propícios para ocupações informais e usos alternativos (fotografia cortesia de Rodrigo Ramos via Unsplash)

A literatura sobre gentrificação identifica, desde os anos 1960 e 1970, o papel central desempenhado pelos artistas na transformação urbana precoce de bairros desinvestidos. Smith (1979), Zukin (1982) e Ley (2003) caracterizam estes agentes como “marginal gentrifiers”: indivíduos com baixo rendimento, mas capital cultural elevado, que procuram as áreas degradadas e desinvestidas das cidades por razões económicas, estéticas e simbólicas. Nas grandes metrópoles do capitalismo tardio (Nova Iorque, Berlim Ocidental, Londres ou Amesterdão), estes artistas ocupam edifícios industriais abandonados, armazéns desativados e habitações antigas em mau estado, originando formas de gentrificação embrionária que precedem a chegada de classes médias mais estáveis.

Nos Estados Unidos, o exemplo paradigmático é o SoHo, em Manhattan. A partir dos anos 1960, artistas visuais, performers e músicos começaram a ocupar os lofts industriais devido às rendas extremamente baixas, à disponibilidade de grandes espaços abertos e à ausência de fiscalização urbanística rígida. A combinação de espaço físico generoso e barato, flexibilidade de uso e uma estética pós-industrial favoreceu a formação de comunidades artísticas que produziram valor simbólico, aliás, uma nova narrativa cultural do bairro, e que surge antes de qualquer valorização económica formal. Situação semelhante ocorreu no East Village e em partes de Brooklyn, que desde então se tornaram estudos clássicos de como a presença artística acelera processos de revalorização urbana.

Em Londres, casos como Camden Town ou Shoreditch seguem dinâmicas semelhantes: edifícios industriais obsoletos, escassamente regulados e de custo reduzido tornaram-se polos de contracultura, música alternativa e ateliers, antecipando a apropriação subsequente por capitais imobiliários. Em Berlim Ocidental, no pós-guerra, bairros como Kreuzberg acolheram comunidades boémias e migrantes, criando ecossistemas culturais intensos sob condições materiais precárias.

Lisboa nos anos 1980–90: um desfasamento temporal

Em Lisboa, estas dinâmicas surgem mais tardiamente, sobretudo nos anos 1980 e 1990, refletindo os ritmos distintos de urbanização do capitalismo português e a maior rigidez do mercado de arrendamento antes da liberalização dos anos 1980/90. Bairros como o Bairro Alto e Alfama tornaram-se destinos de artistas, estudantes, jornalistas e trabalhadores culturais precisamente porque apresentavam características típicas das “áreas de oportunidade” identificadas pela teoria da gentrificação.

Primeiro, o desinvestimento prolongado, já que durante décadas, o congelamento das rendas produziu edifícios degradados, baixa reabilitação urbana e pouca presença de classes médias. Isto gerou uma combinação de baixa renda locativa e elevada disponibilidade de espaço (ainda que muitas vezes em más condições) que se ajustava às possibilidades económicas dos artistas.

Segundo, o capital simbólico do “vetusto”, uma vez que tanto o Bairro Alto como Alfama ofereciam uma morfologia histórica densa, ruas estreitas e património arquitetónico tradicional que contrastavam com a arquitetura modernista periférica. Este ambiente carregado de memória e autenticidade era valorizado pela sensibilidade estética e cultural dos artistas, funcionando como recurso imaterial de diferenciação.

Terceiro, a presença de infraestruturas culturais informais, como bares alternativos, pequenos estúdios, associações culturais e espaços autogeridos, permitia sociabilidade, experimentação e colaboração. No Bairro Alto, a explosão noturna dos anos 1990 consolidou este ecossistema, atraindo sucessivamente jornalistas, designers, músicos e, mais tarde, investidores imobiliários.

Artistas ocupam edifícios industriais abandonados, armazéns desativados e habitações antigas em mau estado, originando formas de gentrificação embrionária que precedem a chegada de classes médias mais estáveis (fotografia cortesia de Dário Gomes via Unsplash)

Além do Bairro Alto e Alfama, outros territórios lisboetas evidenciaram dinâmicas claras de gentrificação marginal nas últimas décadas do século XX, sobretudo Alcântara e, mais tarde, Marvila. Em ambos os casos, a presença de artistas, coletivos culturais e micro-iniciativas criativas antecedeu a entrada do investimento imobiliário mainstream, reconfigurando simbolicamente zonas marcadas por desindustrialização e abandono.

Em Alcântara, a partir dos anos 1980 e intensificando-se nos 1990, grandes complexos industriais desativados (armazéns, fábricas e docas ferroviárias) tornaram-se espaços propícios para ocupações informais e usos alternativos. O caráter pós-industrial e o baixo custo destes imóveis permitiram a instalação de ateliers, estúdios de design, oficinas de artes performativas e associações culturais. O caso paradigmático é o LX Factory, que antes de ser apropriado por promotores privados funcionou como polo de experimentação artística, atraindo criadores pela disponibilidade de áreas amplas, rendas acessíveis e flexibilidade espacial impossível no centro consolidado. Tal como no SoHo nova-iorquino ou no Kreuzberg berlinense, a paisagem industrial degradada funcionava como recurso estético e económico, produzindo valor simbólico numa zona até então desligada dos circuitos culturais da cidade.

Em Marvila, embora a transformação só se intensifique no início do século XXI, a lógica embrionária já estava presente no final dos anos 1990 e início dos 2000. A vasta frente ribeirinha industrial, com armazéns abandonados e grandes distâncias entre usos, oferecia condições ideais para práticas culturais experimentais: eventos underground, estúdios de artistas, coletivos multidisciplinares e ocupações temporárias. A sensação de “vazio urbano” — um território em suspensão entre a cidade consolidada e a antiga zona logística portuária — favoreceu a apropriação criativa e transformadora. Aqui também o espaço amplo, as rendas baixas e a estética crua do pós-industrial potenciaram novas formas de vida cultural que começaram a redefinir a imagem do bairro. O surgimento de galerias independentes, cervejeiras artesanais e espaços híbridos de coworking a partir de 2010 retoma essa genealogia iniciada pelos marginal gentrifiers.

Em ambos os casos, a presença artística não só alterou materialmente os usos dos edifícios, como reconfigurou a perceção pública destes bairros: de zonas obsoletas passaram a territórios “promissores”, “alternativos”, “criativos”. Esta revalorização simbólica abriu caminho para fases subsequentes de gentrificação mais intensa, seguindo o mesmo padrão identificado noutros contextos metropolitanos internacionais.

Assim, tal como observado nas metrópoles anglo-saxónicas e germânicas, também em Lisboa os artistas atuaram como agentes de revalorização simbólica. Apesar de não deterem capital financeiro, produziam novos discursos, práticas e imagens sobre o território, alterando a perceção pública do Bairro Alto, Alfama, Alcântara e Marvila. Essa fase embrionária ajudou a preparar o terreno para processos posteriores de gentrificação mais intensos, conduzidos por promotores, turismo e políticas urbanas orientadas para a economia cultural.

Da revalorização simbólica à estratégia urbana: municipalização da estética artística e aceleração da gentrificação “hard”

A presença artística não só alterou materialmente os usos dos edifícios, como reconfigurou a perceção pública destes bairros: de zonas obsoletas passaram a territórios “promissores”, “alternativos”, “criativos” (fotografia cortesia de Marina Mole/Arroz Estúdios)

A revalorização simbólica promovida pelos artistas nas fases iniciais da gentrificação não permanece apenas no domínio cultural; ela é rapidamente apropriada pelo poder público como recurso estratégico. A partir dos anos 1980 e sobretudo nos anos 1990 e 2000, muitas câmaras municipais em cidades europeias passaram a mobilizar a presença de comunidades artísticas e a atmosfera cultural dos bairros históricos como instrumentos para inverter tendências de despovoamento, degradação construtiva e perda de competitividade urbana. Esta apropriação traduz-se em políticas de “revitalização” que se baseiam em narrativas de autenticidade, criatividade e inovação; elementos que os próprios artistas, muitas vezes involuntariamente, ajudaram a sedimentar.

O discurso municipal tende a transformar a “boémia artística” e a “vitalidade cultural espontânea” em marcas identitárias, ativos importantes para um marketing territorial. Bairros outrora estigmatizados passam a ser descritos como “dinâmicos”, “emergentes”, “criativos”, prontos a acolher novos empreendedores e residentes de classe média. Este processo de municipalização da estética artística opera como mecanismo de legitimação para investimentos em reabilitação urbana, remodelação de espaços públicos e criação de equipamentos culturais, geralmente orientados para públicos mais solventes. Na prática, a narrativa cultural produzida organicamente pelos primeiros ocupantes converte-se em marketing urbano, transformando o capital simbólico em capital económico.

Contudo, à medida que o valor simbólico se cristaliza em valor imobiliário, ocorre uma mudança na composição dos atores envolvidos. Se nas fases iniciais predominavam artistas, estudantes e trabalhadores culturais com baixo rendimento, nas fases seguintes entram em cena outros players: promotores imobiliários, fundos de investimento, proprietários ausentes, alojamento local e capital financeiro transnacional. Estes atores dispõem de recursos muito superiores e são capazes de transformar rapidamente edifícios degradados em ativos lucrativos. A combinação de políticas municipais de revitalização com a crescente financeirização do imobiliário urbano resulta na aceleração de uma gentrificação “hard”, marcada por processos de substituição social mais intensos e pela elevação abrupta das rendas.

Este fenómeno observa-se claramente em Lisboa nas primeiras décadas do século XXI. O Bairro Alto, inicialmente revitalizado pela sua vida cultural e noturna, torna-se progressivamente alvo de investimentos dirigidos ao turismo e à classe média global. Alfama, por sua vez, transforma a sua autenticidade histórica — parte dela amplificada pela presença artística e por projetos culturais — num bem escasso e cobiçado no mercado imobiliário. As câmaras municipais, ao procurarem travar a decadência urbana, acabam por incentivar condições que aceleram a mercantilização e financeirização do espaço. Programas de reabilitação urbana, isenções fiscais, licenciamento simplificado e promoção turística reforçam ainda mais o interesse de capitais externos.

Esta transição tem consequências paradoxais: os mesmos artistas que contribuíram para revalorizar simbolicamente o território tornam-se frequentemente vítimas do processo subsequente. Com a subida das rendas e a conversão de edifícios em alojamento turístico ou habitação de luxo, muitos são desalojados ou forçados a deslocar-se para periferias urbanas menos valorizadas. O “marginal gentrifier”, inicialmente precursor e motor do renascimento cultural, acaba expulso pela própria dinâmica que ajudou a iniciar.

Tal como nos bairros históricos consolidados, também em Alcântara e Marvila a revalorização simbólica inicialmente promovida por artistas e coletivos independentes foi rapidamente apropriada pelo poder público como estratégia de revitalização urbana. Contudo, nestas zonas pós-industriais a instrumentalização municipal adquiriu especificidades: a narrativa oficial centrou-se na transformação das antigas áreas fabris em “novas centralidades criativas”, capazes de atrair investimento e recentrar Lisboa num mapa global de cidades inovadoras. Esta municipalização da estética pós-industrial — traduzida em slogans de “renovação ribeirinha”, “criatividade urbana” ou “bairro em reinvenção” — converteu a ocupação artística informal num argumento de legitimidade política e económica.

Em Alcântara, a partir dos anos 1990, os primeiros ateliers e espaços culturais instalados nos antigos complexos industriais serviram de catalisadores para uma narrativa de renascimento urbano que a Câmara Municipal de Lisboa rapidamente integrou nos seus programas de reabilitação urbana e redesenvolvimento urbano. Equipamentos culturais emblemáticos, como a transformação de armazéns em espaços de eventos ou centros criativos, reforçaram a imagem do bairro como território emergente. A retórica municipal valorizava o caráter alternativo e criativo, mas simultaneamente promovia intervenções urbanísticas (ex. requalificação do espaço público, modernização das infraestruturas, incentivos à reabilitação) que aumentaram a atratividade para investidores privados. A partir deste momento, o capital simbólico cultural acumulado começou a converter-se em capital imobiliário. Promotores e fundos de investimento surgiram como novos protagonistas, adquirindo edifícios industriais para reconversão em escritórios, habitação de luxo e empreendimentos turísticos. A subida das rendas resultante deste processo levou a um afastamento progressivo dos pioneiros culturais, cuja permanência passou a ser economicamente insustentável.

O discurso institucional sobre Marvila enquanto “bairro criativo” ou “hub de inovação” funcionou como poderoso motor de valorização territorial (fotografia de Mário Rui André/LPP)

Em Marvila, esta dinâmica torna-se ainda mais evidente após 2010, quando as iniciativas artísticas e culturais instaladas em armazéns abandonados (galerias independentes, espaços de coworking, laboratórios criativos, microcervejeiras) começam a ser incorporadas na narrativa municipal do “Eixo Oriental” como zona estratégica para a expansão e reequilíbrio da cidade. O discurso institucional sobre Marvila enquanto “bairro criativo” ou “hub de inovação” funcionou como poderoso motor de valorização territorial, preparando o terreno para intervenções públicas e privadas de grande escala. Planos de regeneração urbana, abertura de novos equipamentos, incentivos à reabilitação e uma forte presença de marketing urbano reforçaram a ideia de que Marvila estava diante de um novo ciclo histórico.

Tal como em Alcântara, esta revalorização simbólica rapidamente atraiu capitais financeiros. Grandes promotores internacionais adquiriram terrenos e armazéns, delineando projetos residenciais de gama média-alta e empreendimentos direcionados para um público globalizado, uma elite transnacional. A conversão de edifícios industriais em lofts, o aumento do alojamento turístico e a subida acelerada das rendas formaram o núcleo da gentrificação “hard”. O resultado foi a deslocação progressiva de artistas, associações e espaços independentes que haviam reanimado o bairro. O que inicialmente era uma economia cultural espontânea tornou-se infraestrutura cultural institucionalizada, frequentemente dissociada das práticas que lhe deram origem.

Assim, em Alcântara e Marvila verifica-se um ciclo semelhante ao dos centros históricos, mas com especificidades pós-industriais: a estética do abandono fabril e a vitalidade criativa são convertidas em instrumentos de política urbana, servindo para atrair capital e justificar intervenções orientadas para públicos de maior poder económico. Este processo evidencia como a municipalização da cultura pode simultaneamente revitalizar e expulsar, transformando margens industriais em espaços seletivos dentro da lógica da neoliberalização urbana.

Assim, a gentrificação embrionária, baseada em capital simbólico, converte-se em gentrificação estrutural madura (ou supergentrificação, como Loretta Lees lhe chama), orientada pelo capital financeiro. O Estado local desempenha aqui um papel ambivalente: ao tentar revitalizar, intensifica desigualdades territoriais e acelera a transformação dos centros históricos em espaços altamente seletivos.

Centros culturais críticos e emancipatórios: estratégias para uma cidade cosmopolita com mitigação da gentrificação

Criar centros culturais críticos, emancipatórios e transformativos exige repensar profundamente o papel da cultura na cidade contemporânea. Em vez de compreender a cultura como instrumento de marketing urbano ou catalisador de valorização imobiliária, é necessário reposicioná-la como infraestrutura social essencial para a coesão territorial, o exercício da cidadania e a produção de imaginação coletiva. Para tal, a chave reside em modelos de governança e planeamento cultural colaborativo, que deslocam o poder decisório para os atores que vivem e dão vida cultural ao território.

Uma abordagem emancipatória pressupõe que centros culturais não sejam concebidos como equipamentos isolados, mas como nodos de redes comunitárias densas, articulando associações locais, coletivos artísticos, escolas, movimentos cívicos e moradores. A co-governança — através de conselhos comunitários, processos deliberativos e mecanismos de orçamento participativo cultural — permite que estes espaços se tornem plataformas de redistribuição simbólica e material. Quando os territórios participam na definição da programação, da missão e até dos modelos de financiamento, reduz-se o risco de captura institucional por agendas externas e aumenta-se a capacidade de resistência aos processos especulativos.

A sustentabilidade dos ecossistemas culturais é outra componente fundamental. Ecossistemas resilientes dependem de condições estruturais: estabilidade contratual para associações, contratos de arrendamento protegidos, fundos de apoio plurianuais, reconhecimento legal do “interesse comunitário” de certos equipamentos e políticas urbanas que preservem a diversidade funcional dos bairros. Um exemplo ilustrativo é o ecossistema cultural de Arroios, caracterizado por uma densa rede de coletivos independentes, associações migrantes, espaços híbridos e iniciativas de base comunitária. A vitalidade desta rede deriva da sua diversidade interna e da presença de infraestruturas sociais capazes de apoiar mobilizações culturais, relações de vizinhança e formas de solidariedade. Estes ecossistemas funcionam como amortecedores sociais, capazes de absorver transformações urbanas sem perder identidade.

Contudo, para que os centros culturais contribuam para uma cidade cosmopolita sem desencadear gentrificação, é necessário aplicar instrumentos de justiça socioespacial. Isto inclui políticas de solo que reservem espaços para usos culturais comunitários, limites à conversão de edifícios para alojamento turístico, quotas de arrendamento acessível e mecanismos anti-despejo para equipamentos culturais. A interligação entre políticas culturais, urbanísticas e sociais é indispensável para impedir que a valorização simbólica se traduza automaticamente em valorização imobiliária.

Criar centros culturais críticos, emancipatórios e transformativos exige repensar profundamente o papel da cultura na cidade contemporânea (fotografia de Mário Rui André/LPP)

Os centros culturais emancipatórios assumem também um papel transformativo ao promover cosmopolitismo enraizado: uma abertura à diversidade cultural que não apaga as identidades locais, mas as convoca para uma convivência plural. A programação artística e educativa deve ser cocriada com comunidades racializadas, migrantes, jovens, idosos e grupos sub-representados e invisibilizados da maioria social, de forma a que o espaço se torne verdadeiramente inclusivo. Quando estas vozes são incorporadas na governação e na curadoria, o centro cultural passa a ser motor de justiça cultural, em vez de mera vitrina para consumo simbólico.

Finalmente, estes centros só podem evitar os ciclos de gentrificação se forem concebidos como parte de um tecido associativo vivo, capaz de gerar capital social, fortalecer laços comunitários e criar sentido de pertença. Em vez de atuarem como âncoras de revalorização imobiliária, devem ser âncoras de direitos urbanos, defendendo o acesso à cidade e produzindo coesão social. A cultura, nestas condições, transforma-se não num gatilho de exclusão, mas numa força estruturante de inclusão e emancipação urbana.

O papel da Câmara no apoio a centros culturais emancipatórios: instrumentos urbanísticos, jurídicos e financeiros

A consolidação de centros culturais críticos e transformativos exige não apenas vontade comunitária, mas também o compromisso ativo do poder local. A Câmara Municipal de Lisboa (CML) tem um papel central na criação de condições estruturais que permitam a sustentabilidade destes espaços, sobretudo num contexto de forte pressão imobiliária e financeirização da cidade. Para isso, é necessário articular instrumentos de política urbana, cultural, social e turística de forma coerente, protegendo o tecido cultural e associativo como componente essencial do interesse público.

Um dos instrumentos mais relevantes é a disponibilização de edifícios camarários devolutos para uso cultural e comunitário. A CML poderia expandir programas de cedência de uso, permitindo que associações, coletivos artísticos, cooperativas e entidades sem fins lucrativos utilizem imóveis municipais por períodos prolongados (10, 20 ou mais anos), garantindo estabilidade e permitindo planeamento cultural a longo prazo. Estas cedências devem ser acompanhadas de critérios transparentes, concursos públicos acessíveis e modelos de co-governação que envolvam as comunidades locais, de modo a evitar exclusões e a promover a gestão participada dos espaços.

Para além da cedência simples, um instrumento poderoso seria o direito de superfície, que permite transferir para entidades culturais o uso e construção sobre terrenos ou edifícios municipais por várias décadas, mantendo o município a propriedade plena. Este mecanismo, amplamente utilizado em políticas de habitação acessível em várias cidades europeias, pode ser adaptado ao setor cultural, garantindo que os espaços permanecem dedicados à função social e cultural, fora da lógica de mercado e protegidos da especulação. O direito de superfície oferece segurança jurídica aos coletivos, possibilitando que estes realizem obras, candidaturas a financiamento europeu e investimentos na reabilitação com estabilidade temporal.

Quando a cidade protege a cultura como bem comum, a criatividade deixa de ser matéria-prima da especulação para transformar-se em energia regeneradora, capaz de produzir não só justiça social e pertença, mas também um valor económico mais duradouro (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

No entanto, o apoio municipal não deve limitar-se ao plano patrimonial. É crucial que a cedência de espaços seja acompanhada de apoio técnico (arquitetura, licenciamento, acessibilidade, planeamento de segurança, gestão de obras) e de apoio financeiro contínuo, através de fundos plurianuais, bolsas de criação, linhas de financiamento para reabilitação urbana e programas de formação em gestão cultural. O financiamento recorrente é essencial para evitar situações em que centros culturais dependem exclusivamente de voluntariado ou trabalho precarizado, reproduzindo desigualdades internas.

Além disso, a política cultural municipal deve estar articulada com o planeamento urbano. Isto implica integrar os centros culturais – a par de associações, coletividades, grupos desportivos de bairro – como infraestruturas essenciais nos Planos Diretores Municipais, proteger edifícios com funções socioculturais através de servidões urbanísticas, criar zonas de “reserva cultural” e impedir mudanças abusivas de uso que convertam estes espaços em alojamento turístico ou escritórios de luxo. A política turística é igualmente relevante: uma estratégia orientada para a sustentabilidade deve reconhecer a cultura comunitária como valor público, limitando impactos negativos do turismo massificado e canalizando receitas turísticas para fundos de apoio cultural.

Finalmente, a CML deve assumir uma abordagem de governança cultural cooperativa, apoiando e estimulando conselhos locais de cultura, mesas/assembleais de bairro, fóruns participativos e mecanismos de monitorização da pressão imobiliária sobre o setor cultural. Estes instrumentos permitem que os centros culturais sejam reconhecidos como parte do bem comum da cidade, promovendo coesão territorial e justiça socioespacial.

Assim, ao combinar instrumentos jurídicos inovadores, políticas urbanas regulatórias e apoio financeiro continuado, a Câmara Municipal de Lisboa pode criar condições reais para o florescimento de centros culturais emancipatórios, garantindo que a cultura permanece um direito urbano e não um vetor de expulsão social e exclusão territorial.

E assim, quando a cidade protege a cultura como bem comum, a criatividade deixa de ser matéria-prima da especulação para transformar-se em energia regeneradora, capaz de produzir não só justiça social e pertença, mas também um valor económico mais duradouro, aquele que nasce quando a cidade cresce, não porque se vende, mas porque se (re)inventa.


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