Pescadores da Caparica dizem ter cada vez menos praia para trabalhar

Antes senhores da praia, os pescadores da Caparica, em Almada, têm cada vez menos espaço para trabalhar, entre escassez de areia, concessões de bares e restaurantes, escolas de surf e outros eventos a que são alheios.

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Antes senhores da praia, os pescadores da Caparica, em Almada, têm cada vez menos espaço para trabalhar, entre escassez de areia, concessões de bares e restaurantes, escolas de surf e outros eventos a que são alheios.

Todos os anos os pescadores da Costa da Caparica veem sair areia da praia, à medida que os esporões vão ficando danificados (fotografia de Carlos M. Almeida/Lusa)

“Antes tínhamos uma praia mais livre para fazermos a nossa atividade, agora temos muita regra e a regra também veio prejudicar a gente”, contou António Martins, conhecido por Calita. Pescador desde os 13/14 anos, mestre de duas embarcações emblemáticas do areal da Costa da Caparica, o “O Rei dos Mares” e “A Rainha dos Mares”, Calita assistiu à evolução do uso da praia e às restrições impostas aos pescadores, ao longo dos anos.

“Há muito evento, muito evento. Mas têm de se lembrar dos que cá estão”, advertiu. “Meteram muita regra aqui, é concessões, antes não havia, é escolas de surf, é tudo. Podem abrir tudo, mas depois esquecem-se que tem de haver uma área para os pescadores. Se não houver água e areia para a gente trabalhar, temos de parar”, argumentou.

O arrais António Martins, conhecido por Calita, pescador desde os 13/14 anos, mestre de duas embarcações emblemáticas do areal da Costa da Caparica, o “O Rei dos Mares” e “A Rainha dos Mares”, Calita assistiu à evolução do uso da praia e às restrições impostas aos pescadores, ao longo dos anos (fotografia de Carlos M. Almeida/Lusa)

Calita disse que os pescadores já fizeram uma prova, contabilizando as áreas destinadas aos espaços concessionados para restaurantes, esplanadas, atividades de surf, banhistas e faixas de segurança. Se vierem todos ao mesmo tempo para a praia, não há praia para eles todos, quanto mais para a gente trabalhar. Trabalhamos onde”, questionou.

“A gente já cá estava, tínhamos de estar incluídos em primeiro lugar, como em algumas praias aí para o norte, tipo Mira, em que o pescador tem 75% das praias para pescar”, sublinhou. “A gente não tem um por cento para pescar legalmente. Temos de parar, têm desistido muitos pescadores, porque depois é multas, não se ganha, porque não deixam trabalhar”, desabafou.

As atividades na praia intensificam-se, à medida que o areal diminui de ano para ano, com a subida do nível do mar e a erosão, agravada por tempestades mais frequentes e intensas. No entanto, Calita encara com ceticismo as causas atribuídas a alterações climáticas.

“Temos de andar uns anos para trás e ver o que se passava ali entre o esporão grande e o Búgio. Havia ali uma língua de areia, que até se chamava a Coroa de Fora e isto não acontecia, estas faltas de areia na Costa, porque aqui a areia vai toda para dentro do rio. A força da água leva a areia da borda de água sempre para dentro do rio [Tejo]. Quando havia aquela língua ali, a areia estancava ali”, recordou.

“Desde que aquela língua saiu dali, que a gente sabe até porque foi, foi para fazer obras da EXPO, praias de Oeiras, mexeram na natureza e o mar acabou por tirar dali. Aquilo parava a força da água, parando a força da água, a areia também já não vai”, sustentou, destacando que a situação atual teve mão humana: “Mexe na natureza, dá buraco! Depois para repor é um caso sério”.

A escassez de areia tem também impacto na arte xávega, uma técnica de pesca artesanal, que na Caparica está classificada como património cultural imaterial.

O arrais Lídio Galinho observa que menos areal significa menos espaço para trabalhar. “Já temos as concessões, que é normal no verão, e a praia ficando mais curta, menos espaço temos para trabalhar (..) em algumas praias ficamos muito mais limitados pela falta de areia”, indica (fotografia de Carlos M. Almeida/Lusa)

Lídio Galinho, outro dos líderes das companhas (grupos de pescadores) da Costa, observou que menos areal significa menos espaço para trabalhar. “Já temos as concessões, que é normal no verão, e a praia ficando mais curta, menos espaço temos para trabalhar (..) em algumas praias ficamos muito mais limitados pela falta de areia”, indicou. Mesmo noutros tipos de pesca, a redução do areal acaba por interferir com a necessidade de espaço para varar as embarcações. “Em termos de segurança, faz muita diferença”, explicou.

Lídio pesca entre a Costa da Caparica e a Fonte da Telha, desde que começou a enrolar a corda no barco do pai. Aos 14 ficou encartado. As memórias que tem da praia são de um areal muito mais vasto. “A falta de areia já se nota há muitos anos, estivemos muitos anos sem areia, há anos em que veio mais, outros menos. Este ano, como houve o comboio de tempestades, a areia de repente desapareceu”, constatou o arrais [designação usada na Caparica para os mestres das embarcações].

Além da proliferação de atividades na praia, os pescadores têm este ano de se adaptar também aos trabalhos de reposição de um milhão de metros cúbicos de areia nas praias da Caparica, contornando os locais da empreitada e as zonas onde operam as dragas.

Os episódios de erosão na Costa estão documentados desde o século passado, em notícias de jornais e na memória coletiva. “Lembro-me das histórias do meu avô materno, de já ter trabalhado há muitos anos com o Exército português, há cerca de 80 ou 90 anos, a fazer os primeiros pontões com argila e acácias, porque já nessa altura os bares tinham sido levados por uma tempestade e o areal tem encolhido daí para cá”, constatou.

Depois dos festivais, nem tudo o que vem à rede é peixe

Operação de reposição de areia nas praias da Costa da Caparica (fotografia de Carlos M. Almeida/Lusa)

Os pescadores da Caparica estão a recolher mais lixo nas redes depois dos festivais de música no passeio marítimo de Algés, Oeiras, entre copos, garrafas e outros detritos que destoam das campanhas de sustentabilidade. “Quando há os grandes festivais, que são muito sustentáveis, ao fim de uma semana, duas, nós vamos apanhar os copos e tudo o que esse festival fez”, disse Lídio Galinho que trabalha sazonalmente no Tejo na apanha da corvina.

O rio Tejo apresenta já algum plástico, segundo o pescador, mas é a seguir aos festivais que as redes carregam mais detritos. “Desde óculos de sol com o nome desse festival, copos referentes a esses festivais” a outros objetos, tudo é recolhido pelos pescadores. “Acho que deviam ter mais cuidado com isso, porque eles levam o selo da sustentabilidade, mas depois a sustentabilidade vem parar ao rio Tejo”, lamentou.

Nas águas por onde os pescadores da Caparica navegam começam também a surgir mais animais de grande porte, como golfinhos e baleias que podem vir a ingerir os objetos que o Tejo leva para o mar, assim como os microplásticos decompostos podem entrar na cadeia alimentar dos peixes mais pequenos, destinados a consumo humano. “Uma vez quantifiquei e pesei cerca de três a quatro quilos de plásticos por cada captura de peixe, por dia”, acrescentou o arrais (mestre).

O peixe, dizem, “cada vez vem mais tarde”, o que atribuem a alterações no clima; aágua está cada vez mais quente, o que atrai também outras espécies (fotografia de Carlos M. Almeida/Lusa)

Os pescadores têm observado mais orcas e golfinhos, com predominância para os roazes, que estão a atacar as redes, com mais perspicácia, segundo António Martins, conhecido por Calita, mestre de duas embarcações. Já capturou um tubarão frade, “uma coisa muito grande”, contou. Mas o que o preocupa mais é a proliferação da comunidade de golfinhos e a acutilância dos ataques às redes para comerem os chocos emalhados.

“Havia a ideia de que para se ver golfinhos roazes, tinha de se ir ao Sado e agora aqui já estão e muitos. Até já estão a incomodar a gente, porque eles dão cabo das redes todas”, queixou-se. “Já é muito mesmo e aquilo não se pode apanhar, é proibido, não se pode fazer nada àquilo”, acrescentou. Em dias de calmaria no mar, garantiu, avistam-se centenas de golfinhos juntos num raio de três a quatro milhas. “Há muito agora, não sei o que vão fazer, é uma espécie que está a aumentar muito mesmo”, garantiu o pescador.

Os prejuízos quantificam-se nos estragos nas redes de pesca e na perda do pescado. “O roaz só come a cabeça do choco, dá uma dentada e arranca, senão morre. O golfinho morre se comer aquela casca que se tira do choco”, revelou Calita, que há três anos perdeu cerca de 20 redes novas que acabara de lançar para a pesca da azevia. “Levaram a rede toda, arrancaram tudo, só veio a corda da cortiça e do chumbo e uns bocadinhos de rede. Tive de fazer novas”, disse, conformado.

Os pescadores, explicou, trabalham com redes de um pano e de três panos. “As que têm três panos, eles arrancam assim, as que têm só um pano, eles mesmo só com a velocidade levam tudo à frente. Foi um prejuízo grande”, garantiu. “Acho é que até os animais devem já andar na escola, que são mais inteligentes. Antes não se mandavam à rede para comer o choco e agora já arrancam o choco da rede, acho que até os animais já evoluíram”, brincou o mestre de “O Rei dos Mares” e a “A Rainha dos Mares” da Caparica.

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