Uma vez por mês, a Junta de Freguesia de Arroios fecha uma rua aos carros e abre-a às crianças e famílias. A ideia inspirou um grupo de vizinhos a fazer o mesmo em Alcântara. No Areeiro, com a iniciativa “Brinca Bairro”, são também os moradores a dedicar mensalmente uma rua à brincadeira, ao convívio e ao comércio local.

“As ruas não são apenas vias de passagem. São lugares onde a vida acontece.” É com esta visão que a Junta de Arroios tem, desde o início deste ano, interrompido temporariamente a circulação automóvel em várias ruas da freguesia, abrindo espaço para que os vizinhos se encontrem e as crianças brinquem. A iniciativa chama-se Ruas Abertas e repete-se no último fim-de-semana de cada mês: a partir de propostas da população, é escolhido um troço de uma rua para abrir durante uma tarde, deixando o espaço público ser usado como bem se entender.
As Ruas Abertas de Arroios têm sido um sucesso mês após mês, com uma adesão substancial de famílias e crianças – não só dos bairros da freguesia como de territórios vizinhos – que fazem questão de aproveitar as ruas sem carros. A Junta de Freguesia, com o apoio de associações locais e de alguns comerciantes (que também fazem questão de participar), coloca à disposição de todos jogos e outros materiais. As pessoas também trazem os seus brinquedos. Skates, patins, bicicletas, carrinhos de brincar, bolas, gizes para colorir o alcatrão, cordas e arcos para saltar, mesas de ping-pong, almofadas e tapetes coloridos onde sentar… enfim, tudo o que possa contribuir para tardes bem passadas, não só pelos mais novos, mas também pelos mais graúdos que querem matar saudades do brincar, do conviver, do estar na rua.
Durante várias horas, não se houve motores ou buzinas, mas antes pessoas a conversar, crianças a serem crianças… Não há música alta ou actividades ruidosas, nem iniciativas com logística pesada como palcos ou outras grandes estruturas. O objectivo é ter a rua aberta no seu estado mais puro e estimular naturalmente a apropriação do espaço, quando a função circulatória da rua é interrompida. Apesar de não existir, de uma forma geral, uma programação definida, o Ruas Abertas já serviu para lançamentos de livros, para workshops ou até para uma sessão da Assembleia das Crianças de Arroios, que procura estimular a participação cívica crianças da freguesia. Tudo isto sem muito barulho para não incomodar a vizinhança.
Fazer “com conta, peso e medida”

Fotografias cortesia de Sofia Ferraz/JFA 
Fotografias cortesia de Sofia Ferraz/JFA 
Fotografias cortesia de Sofia Ferraz/JFA 
Fotografias cortesia de Sofia Ferraz/JFA 
Fotografias cortesia de Sofia Ferraz/JFA 
Fotografias cortesia de Sofia Ferraz/JFA 
Fotografias cortesia de Sofia Ferraz/JFA 
Fotografias cortesia de Sofia Ferraz/JFA
“As crianças merecem que as ruas possam ter um momento de diversão, de corrida, de brincadeira. E pôr as crianças a brincar no tempo da tecnologia, da inteligência artificial, é algo fantástico”, dizia o Presidente da Junta de Arroios, João Jaime Pires (independente eleito pela coligação PS+Livre+BE), num vídeo divulgado em Fevereiro. A iniciativa começou em Janeiro de 2026 na Rua Maria, no mês seguinte foi para a Rua Ângela Pinto, na envolvente do Mercado de Arroios; em Março passou pela Rua dos Anjos, em Abril pela Rua Palmira, e em Maio esteve na Rua Cidade da Horta. Durante o Verão, as Ruas Abertas fazem uma pequena pausa. A população pode usar o formulário da Junta para propor a rua a abrir em Setembro (ou noutro mês qualquer).
As Ruas Abertas não contam com o apoio oficial da Câmara Municipal de Lisboa, mas já chamou à atenção de Gonçalo Reis. O Vice-Presidente da autarquia passou num dos eventos e, através de um vídeo partilhado na sua conta de Instagram, considerou o projecto “bastante interessante” porque “incentiva o pedonal e o convívio em paralelo com a circulação automóvel” (uma vez que são encerrados apenas troços das ruas de forma temporária), deixando elogios à iniciativa por ser comunitária, partilhada e experimental, e por estar a ser feita “com conta, peso e medida”.
Arroios tem inspirado iniciativas semelhantes noutras freguesias. Nos comentários às publicações da Junta de Freguesia, aliás, multiplicam-se os pedidos para que outras autarquias da cidade replicam a ideia. São Vicente (PS) foi a primeira a fazê-lo. Num domingo de Abril, entre as 12 e as 19 horas, uma parte substancial da Rua da Graça – entre a Rua da Senhora do Monte e a Rua Angelina Vidal – ficou sem carros e foi transformada num espaço de brincadeira e convívio para todas as famílias. A Junta de São Vicente promoveu a iniciativa Rua da Graça Sem Carros para testar uma vida diferente para este arruamento, que costuma estar muitas vezes congestionado e que tem sido uma zona de atropelamentos. Mas foi um projecto de uma só edição.
Cidadãos dinamizam “ruas abertas” no Areeiro e Alcântara
Quanto as juntas de freguesia não avançam, avançam os cidadãos. Em Alcântara, um grupo de vizinhos mobilizou-se no passado dia 30 de Maio, um sábado, para promover a “abertura temporária de uma parte da Rua dos Lusíadas para utilização comunitária”, explica Sara Dourado ao LPP. Das 9 às 18 horas, aquela rua encheu-se de adultos e crianças que puderam aproveitar de forma livre e em segurança o espaço público sem trânsito. Sara diz que o exemplo de Arroios inspirou-a a avançar com uma ideia semelhante no seu bairro.




A iniciativa, baptizada de Rurruas, teve o apoio da Junta de Freguesia de Alcântara (PS) e juntou parceiros como a Biblioteca de Alcântara, que disponibilizou livros, e a cooperativa Bicicultura, que criou uma biblioteca em cima de uma bicicleta de carga. Já o clube Boa Hora FC deu aulas de andebol, colectivo Um Cavalo Disse Mãe dinamizou um teatro infantil, o Café Orioli esteve de portas abertas a oferecer café na compra de qualquer produto da sua pastelaria, e a OuiOui Galette deu a provar os seus crepes inspirados na gastronomia francesa. Houve ainda uma aula aberta de yoga, uma exposição de fotografia, e rastreios e avaliações gratuitas de saúde.
Mas a Rua dos Lusíadas nesse dia 30 de Maio não se fez só de actividades planeadas; como em Arroios, foram disponibilizados jogos e materiais diversos no local para promover a brincadeira, a exploração livre da rua e o convívio entre vizinhos. O objectivo, explica Sara, foi “deixar espaço à liberdade e imaginação”. Por agora, ainda não há nova edição do Rurruas, mas os vizinhos de Alcântara querem continuar a dinamizar iniciativas deste género que possam “criar um espaço inclusivo para as crianças brincarem em segurança”, “promover encontro entre vizinhos” e potenciar “novas ligações e espaços de partilha”, e, ao mesmo tempo, reforçar a ligação entre o comércio local, as associações da freguesia e a comunidade.
Colocar o bairro a brincar
Também no Areeiro tem havido ruas abertas à brincadeira pela mão de um grupo de vizinhos, entre os quais Marta Cerqueira. “Mudei-me para o Bairro dos Atores e pouco depois engravidei, ainda em Covid. A vontade de conhecer a vizinhança era grande e sempre fui muito apologista do viver em comunidade. Apercebi-me que era uma zona cheia de famílias e a cada ida ao parque ia angariando novos números para o grupo de WhatsApp de vizinhos que temos até hoje, e sempre a crescer”, conta ao LPP.
Foi nesse grupo que nasceu o Brinca Bairro: a ideia é colocar o bairro a brincar uma vez por mês, numa rua da freguesia que seria encerrada temporariamente ao trânsito rodoviário. “Uma vez por mês, fechamos um pequeno troço de uma rua ao trânsito durante uma manhã. Não há insufláveis, palcos nem animação organizada. Há giz, bicicletas, trotinetas, bolas, cordas para saltar e tudo aquilo que cada família quiser trazer. O mais importante é que haja espaço para brincar, conversar e ocupar a rua de forma espontânea”, conta.


O Brinca Bairro tem o apoio da Junta de Freguesia do Areeiro (PSD), que ajuda o grupo de vizinhos a encontrar uma rua possível para fechar aos carros, prestando todo o apoio logístico nesse sentido. A primeira edição decorreu na Rua Capitão Henrique Galvão, uma rua central do Bairro dos Actores, mas, por ter sido invocada pela Junta a dificuldade em retirar todos os carros estacionados nesse arruamento de modo a “reunir as condições ideais para ocupar o espaço de forma plena e segura”, o evento foi movido para outros locais, como a Rua José Acúrcio das Neves, junto às escadinhas que a ligam à Rua Garrido. Nas últimas edições têm sido exploradas zonas adjacentes, como a MiniFloresta do Areeiro ou no logradouro da Avenida de Madrid.
As próximas duas edições – já este domingo, dia 28 de Junho, e depois em Julho – o Brinca Bairro vai acontecer na MiniFloresta do Areeiro “para aproveitar as sombras que escasseiam no bairro”. “O Brinca Bairro nunca foi uma iniciativa contra os carros. É uma iniciativa a favor das pessoas. É um convite para imaginarmos como seria a cidade se, de vez em quando, déssemos prioridade ao encontro, à brincadeira e à vida de bairro”, salienta Marta. “Nessas manhãs de domingo temos crianças felizes, e também adultos a conhecerem finalmente os vizinhos.”
Marta acredita que “gestos pequenos” são importantes para melhorar os bairros, as freguesias e as cidades. “Fechar uma rua durante três horas não transforma uma cidade de um dia para o outro, mas pode transformar a forma como olhamos para o lugar onde vivemos. E quando as pessoas experimentam essa possibilidade, começam naturalmente a imaginar que outra cidade é possível”, diz, explicando que a ideia para o Brinca Bairro foi inspirada em iniciativas como o Brincapé e os vários exemplos internacionais de playstreets.
Este domingo, o Areeiro vai voltar a brincar. Arroios voltará a abrir ruas em Setembro. Quanto a Alcântara, São Vicente e a outras freguesias da cidade, é esperar por novas iniciativas.











