As vilas operárias da Graça têm estado expostas aos processos de turistificação e valorização imobiliária que atravessam Lisboa. Um pequeno filme da arquitecta e investigadora Fabiana Pavel procura contar a vida comunitária que ainda resiste nestes espaços.

As vilas operárias marcam profundamente a história e a paisagem urbana do bairro da Graça, em Lisboa. Construídas a partir da segunda metade do século XIX para responder ao crescimento demográfico impulsionado pela industrialização da cidade, caracterizam-se por formas de habitar assentes na proximidade, na partilha e na vida coletiva. Apesar de terem surgido, muitas vezes, associadas a condições de precariedade e sobrelotação, corredores, escadas e pátios comuns constituem a gramática arquitectónica de uma organização espacial que favorece a convivência e sustenta práticas quotidianas de vizinhança.
Hoje, estes espaços encontram-se particularmente expostos aos processos de turistificação que atravessam Lisboa. A sua escala íntima e a imagem de autenticidade que evocam são frequentemente apropriadas pelas estratégias de marketing urbano. Apartamentos e, por vezes, vilas inteiras são convertidos em alojamento de curta duração para fins turísticos. Esta transformação está associada à saída de moradores de longa duração e à consequente erosão ou reconfiguração das redes de vizinhança, das rotinas partilhadas e das formas de presença no território.
É a partir desta tensão entre permanência e transformação que surgiu A Vida Que Existe e Resiste na Graça, um filme sobre o passado e futuro das vilas operárias. O trabalho de pouco mais de 20 minutos procura dar visibilidade às memórias, relações e práticas que continuam a dar vida às vilas operárias da Graça, interrogando o seu lugar entre o passado, o presente e o futuro. O filme é da autoria da arquitecta e investigadora Fabiana Pavel. Italiana, vive em Lisboa há quase 20-30 anos e, além do trabalho profissional e académico, tem sido ativista pelos direitos à habitação e à cidade. Uma residência artística promovida pela cooperativa Criar Cidade com o mote “Vida Com Graça” foi o gatilho para realizar este documentário.

“Como arquitecta, sempre tive um fascínio particular por pátios e vilas operárias de Lisboa. Existem diversas tipologias, com histórias e características próprias, mas todas partilham uma escala humana e uma organização espacial muito particular”, conta num conversa escrita com o LPP. “As vilas operárias são lugares onde se cruzam diferentes temporalidades da cidade: a memória das populações trabalhadoras que as habitaram e das que lá nasceram, as transformações associadas ao turismo e à crise da habitação, mas também formas de vizinhança e de convivência que continuam presentes.”
A Vida Que Existe e Resiste na Graça percorre os antigos cantos operários da Graça, como a Vila Cândida, a Vila Luz Pereira, a Vila Berta e o Bairro Estrela d’Ouro, Fabiana fala com moradores de diferentes idades e nacionalidades, e destaca a vida que ainda existe nessas vilas. O intuito foi partir de uma perspectiva positiva e do presente, usando-o para falar do passado e do futuro. “Mais do que falar sobre o desaparecimento de um modo de vida, interessava-me perceber o que ainda permanece: que formas de vizinhança, de cuidado e de vida comunitária continuam a existir nestes espaços apesar das mudanças em curso e qual pode ser o futuro destes espaços”, conta a arquitecta e activista. “Não queria fazer um trabalho centrado apenas na perda ou na nostalgia, mas queria perceber de que forma a vida comunitária continua a existir e a adaptar-se num contexto de transformação urbana acelerada. E queria investigar se é ainda possível trazer uma mensagem positiva para cima da mesa.”
Fabiana Pavel diz que o filme tem três dimensões: “a das entrevistas, que relata a vivência das pessoas; a dos planos parados, que representa o meu olhar de arquiteta na atenção aos pormenores destes espaços; a dos planos em movimento, que procuram transmitir a experiência de percorrer e habitar estes lugares”, explica. “Os planos parados e os planos em movimento cumprem funções diferentes. Uns convidam à observação atenta dos detalhes, enquanto os outros aproximam-se da experiência de atravessar estes espaços. Em conjunto, procuram mostrar as vilas não como objetos arquitectónicos isolados, mas como espaços vividos num bairro em transformação.”
Passar algum tempo nas vilas foi fundamental para o processo criativo. “Desde o início, não queria chegar a estes lugares apenas para recolher testemunhos. Sabia que era uma observadora externa e que precisava primeiro de criar alguma proximidade com as pessoas e com o espaço. Por isso, a parte mais importante do processo não foi a gravação, mas o tempo passado no local.” Por isso, o filme não tem um guião prévio, foi-se estruturando em função do que Fabiana encontrou. “Houve uma fase de conversas informais, de estar presente, de ouvir e de conhecer as pessoas. Fui abordando alguns moradores, conversando com eles sobre o bairro, as mudanças que têm observado e as suas experiências quotidianas. Foi a partir dessas conversas que surgiram as entrevistas que integram o filme.”
O filme é um trabalho muito simples no que toca a produção – o importante são as várias mensagens que transmite. “O centro do filme não está na sofisticação técnica, mas nas vozes, nos gestos quotidianos, na relação entre as pessoas e os espaços que habitam, e, sobretudo, na mensagem final”, refere Fabiana. “Interessava-me que a presença da câmara fosse o menos intrusiva possível. Em muitos momentos utilizei um equipamento pequeno e discreto para filmar sem alterar demasiado a dinâmica dos espaços e das pessoas.” O pouco tempo disponível para concretizar o trabalho no contexto da residência artística da Criar Cidade também teve como resultado a simplicidade na produção deste documentário.
A Vida Que Existe e Resiste na Graça vai ter um primeiro visionamento neste sábado, 27 de Junho, às 15h30, no espaço Hangar (Rua Damasceno Monteiro, 12). Além de falar da vida que existe e resiste na Graça, o filme mostra também o que acontece quando uma cooperativa consegue disponibilizar meios e recursos para colocar a cidade a falar sobre mesma, sobre o seu passado, o presente e o futuro. “Por último, o filme transmite a mensagem de que nem tudo está perdido. Enquanto existirem pessoas dispostas a cuidar umas das outras e a defender direitos para si e para as demais, continuará a existir espaço para a vida comunitária”, nota Fabiana.
























