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Do papel ao digital: a história e o futuro da informação nos transportes em Portugal

Viajar de transportes públicos na área metropolitana de Lisboa é hoje mais simples do que nunca. São diversas as aplicações que conjugam vários meios e modos de transporte para nos guiar no dia a dia. Mas esta ainda não é a realidade em todo o país. Mesmo por cá, persistem lacunas.

Viajar de transportes públicos na área metropolitana de Lisboa é hoje mais simples do que nunca. São diversas as aplicações que conjugam vários meios e modos de transporte para nos guiar no dia a dia. Mas esta ainda não é a realidade em todo o país. Mesmo por cá, persistem lacunas.

Estação de comboios de Sete Rios (fotografia de Francisco Romão Pereira/LPP)

Utilizar o telemóvel para navegar pela cidade é uma realidade há décadas para os automobilistas. Mas não se pode dizer o mesmo em relação aos utilizadores do transporte público. Apesar de a informação dos transportes da capital ter chegado ao Google Maps em 2008, dois anos antes do lançamento da navegação por GPS em Portugal, os passageiros da área metropolitana de Lisboa tiveram de esperar 16 anos para poderem consultar a oferta completa de todos os modos e operadores de transporte nos seus telemóveis.

A Carris e o Metro de Lisboa foram os primeiros operadores a disponibilizar os horários e percursos no Google Maps, tendo-o feito em 2008. Seguiu-se a Fertagus em 2011, a CP em 2014, a MobiCascais em 2018 e a TTSL no ano seguinte. Os autocarros amarelos da área metropolitana de Lisboa só passaram a ser pesquisáveis na maior aplicação de navegação do mundo em 2023, com a unificação trazida pela marca Carris Metropolitana. Os Transportes Colectivos do Barreiro (TCB) só foram integrados em 2024.

Terminada a integração dos horários planeados na área metropolitana de Lisboa, começou agora um novo desafio: a disponibilização da operação em tempo real, informando os passageiros de atrasos e alterações aos serviços. A informação em tempo real chegou a um ritmo mais lento e só agora está a ser consolidada, com a recente atualização da aplicação Navegante. Ainda assim, está limitada a este ecossistema e espera-se a total integração nos vários planeadores de viagens disponíveis na AML. Pelo resto do país, é praticamente inexistente. Começa então um novo desafio: vamos ter de esperar outra década para a ver cumprida?

Para responder a esta pergunta e compreender como se coordenam os dados dos transportes em Portugal, fomos falar com o responsável pela sua compilação e divulgação no nosso país: o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT). Rui Velasco, Diretor de Serviços de Estudos, Avaliação e Prospectiva à altura desta entrevista, e João Francisco Teixeira, Gestor do Sistema de Informação de Transporte Público de Passageiros (STePP), mostram-se otimistas quando confrontados com a nossa pergunta. Mas antes de lhe responderem, propõe guiar-nos pelos bastidores da regulação dos transportes em Portugal, cuja cronologia começa bastante antes da que desenhámos acima.

Um pouco de história

Do STePP ao NAP, as plataformas do IMT (fotografia LPP)

Quando sucedeu à Direção Geral de Viação, em 2007, o IMT herdou um setor que tinha por base o Regulamento de Transportes em Automóveis, datado de 1948. Nesta altura, “a maior parte dos operadores ainda trabalhava tudo em papel”, partilha Rui Velasco, como ponto de partida para o trabalho que o seu instituto tem vindo a desenvolver na digitalização do sistema de transportes português.

Dois anos depois, em 2009, o IMT lançava o Sistema de Informação Geográfica de Gestão de Carreiras (SIGGESC), uma aplicação informática suportada num sistema de informação geográfica desenvolvida para auxiliar a gestão e sobretudo o planeamento das linhas e redes de transporte em Portugal. Todos os operadores de transporte rodoviário estavam obrigados a reportar os dados relativos à sua oferta nesta plataforma.

O primeiro passo estava dado, e segundo João Francisco Teixeira, foi crucial nos anos que se seguiram. Em 2015, o regulamento do Estado Novo haveria de ser finalmente revogado, com a criação do Regime Jurídico do Serviço Público de Transporte de Passageiros, que veio alterar o paradigma da gestão dos transportes em Portugal e transferir o ónus do seu planeamento, organização e fiscalização para as câmaras municipais. “Passámos de uma autoridade de transportes [o IMT] para mais de 300”, afirma João, realçando a importância que o SIGGESC teve em “dar aos municípios uma ferramenta para saberem que autocarros passavam nos seus territórios, com que frequência, e com base nesses dados permitir a contratualização do Serviços Público de Transporte de Passageiros”.

Apesar de ter perdido o papel de regulador, o IMT continua a ser responsável pela manutenção de um sistema de informação de transportes a nível nacional, que com esta lei passou a alargar o seu âmbito também aos modos ferroviário e fluvial.

O SIGGESC deu então lugar ao STePP (Sistema de Informação de Transporte Público de Passageiros), lançado em 2021. Agora com uma interface pública e aberta, disponível em www.stepp.pt/sigweb, mas sobretudo focada na utilização pelas autoridades de transportes. Rui Velasco dá-nos conta da informação relativa aos “volumes de passageiros, contratos, dados financeiros”, que reconhece ser sobretudo “útil para as autoridades de transportes na sua tarefa de gestão do sistema”, mas que “não é relevante para o público em geral”. Foi para lhe dar resposta que nasceu mais um sistema de informação do IMT.

Vamos para o presente.

A importância dos dados no ecossistema tecnológico

Rui Velasco vê na infraestrutura de dados para a qual o IMT tem contribuído com os seus vários sistemas como “fundamentais para a forma como nós nos vamos movimentar no futuro”. Dos automóveis autónomos que necessitam de saber “onde está o trânsito ou comunicar com os semáforos”, aos passageiros do transporte público, que querem consultar “qual a melhor combinação de transportes para as suas deslocações”, ou mesmo aos utilizadores dos serviços de mobilidade suave partilhada, que “querem saber onde está a bicicleta ou trotinete mais próxima”.

O responsável realça que todas estas várias vertentes da mobilidade inteligente assentam em algo comum, que é uma infraestrutura de dados robusta, dando conta, no entanto, do desafio que representam atualmente: “Temos muitos dados, mas muitas vezes não são disponibilizados de forma aberta e quando o são, nem sempre são interoperáveis.”

Rui Velasco refere-se à dificuldade que as aplicações que integram dados de transportes – como o Google Maps, o CityMapper, o Moovit ou o mais recente Transit – e que hoje damos como garantidos, tinham em obter a informação dos horários dos transportes. “Até há poucos anos, podiam ser programadores fantásticos, mas depois de fazerem um ótimo planeador de viagens, tinham de ir negociar a obtenção da informação junto de 150 entidades diferentes.”

Foi para responder a este problema que o IMT criou o Ponto Nacional de Acesso à Informação de Transportes (NAP). Implementado no âmbito de várias diretivas e regulamentos da União Europeia, o NAP centraliza, assim, a informação do sistema de transportes português. É lá que os vários operadores devem disponibilizar de forma aberta e idealmente em formatos estandardizados os dados que tenham em formato digital. Das linhas de transporte público, às obras na rede viária ou lugares de estacionamento, uma vez neste sistema, podem ser facilmente integrados por qualquer aplicação digital de mobilidade.

Ponto Nacional de Acesso à Informação de Transportes (captura de ecrã por LPP)

O carácter facultativo da contribuição para a plataforma não desmotiva o Instituto, que tem planos para a tornar mais completa no futuro: “O que acontece noutros países é que cada operador envia os dados, quando os tem, em formatos diferentes, e portanto é muito difícil normalizar (…), mas nós fizémos um bom trabalho em Portugal”, afirma João Francisco Teixeira, complementado por Rui Velasco que diz ser “relativamente incomum, a nível europeu, existir um sistema central de transporte público que tenham a amplitude de informação que o STePP tem”. Os representantes do IMT referem-se à lei que instituiu a obrigação dos operadores providenciarem informação normalizada às autoridades de transportes através do STePP, que hoje conta com “cerca de 90 a 95% dos operadores de transporte regular de passageiros, do pequeno que opera uma linha de autocarros, aos grandes operadores com cobertura nacional”, esclarecem.

Com estes dados, o IMT está agora a trabalhar no desenvolvimento de um conversor que crie a ponte entre as duas plataformas e permita a sincronização automática desta base de dados com o NAP, prometendo convertê-lo em breve numa base de dados universal. Estará então desbloqueada a criação de planeadores de transportes de âmbito nacional.

O futuro da mobilidade

Quando questionado sobre o futuro, Rui Velasco responde de forma otimista com uma analogia: “pôr de pé estes projetos, no fundo, é uma ligação Lisboa-Porto em autoestrada, mas falta o resto do território”, cujos troços diz estarem agora a ser construídos, para alcançar uma “nova rede de dados que vai sustentar uma forma mais eficiente e inteligente de mobilidade”.

Uma construção, acredita o diretor, que será fomentada pela quantidade de dados abertos disponíveis atualmente e alavancada pela “inovação pública e privada” que deles vai tirar partido e que se vai “multiplicar nos próximos anos”. Por isso, Rui Velasco não considera relevante que o IMT disponibilize a sua própria aplicação de planeamento de viagens. Prefere dedicar-se em resolver as lacunas que ainda persistem nos dados. Atualmente o foco é na bilhética.

O instituto público supervisiona o 1bilhete.pt, um projeto que procura “unificar a bilhética a nível nacional”, descreve Rui. Do bilhete ocasional, ao cartão do passe ou ao pagamento contactless, atualmente cada operador ou região tem o seu próprio sistema, fechado e incompatível com os restantes. Esta iniciativa procura contrariar este princípio, criando documentação técnica partilhada sobre “os elementos de interoperabilidade, disponível a todos os operadores do país”. Com esta base, todas as autoridades de transporte, “mesmo as mais pequenas e que têm menos recursos e menos capacidade técnica”, podem aceder a conhecimento que as permite atualizar os seus sistemas tecnológicos ao futuro da mobilidade.

O funcionamento do 1bilhete.pt (via IMT)

O projeto tem ainda associado financiamento até 85% do Fundo dos Transportes, para fomentar a sua implementação. Rui realça o “benefício intangível” da dinâmica que o projeto fomenta: “pôr as pessoas a debater o que é que querem em termos de bilhética” tem levado a uma mudança de mentalidade, do “sempre funcionou assim”, para o “como é que eu quero que funcione no futuro”.

E esse momento está cada vez mais perto. Todo o know how acumulado desta partilha tem sido já incorporado nos concursos públicos mais recentes para a operação dos transportes públicos das várias autoridades de transportes pelo país, refere Rui Velasco. Os que não o tiveram ainda em conta, serão revistos nos próximos anos.

A nossa conversa ficou por aqui, mas Rui e João não têm dúvidas quanto ao que está para vir: o futuro dos transportes em Portugal será intermodal, aberto e sustentável. E o IMT fará parte disso.

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