O congestionamento de automóveis junto às praias é um problema recorrente todos os Verões na área metropolitana de Lisboa. Este ano, vários municípios reforçam alternativas ao carro, de Sintra a Setúbal, passando por Almada e Sesimbra.

Todos os Verões, o acesso às praias na área metropolitana de Lisboa fica congestionado devido à preferência que milhares de pessoas têm pelo automóvel. As filas na Ponte 25 de Abril ao fim-de-semana já são um clássico, e o estacionamento em redor das praias costuma estar também bastante pressionado. Este ano, há mudanças na mobilidade em torno das praias: menos carros, mais transporte público, mais espaço para o peão e bicicleta.
Fomos à descoberta das novidades, de Sintra a Setúbal – passando por Almada e também Sesimbra – para perceber o que mudou e também o que ainda pode mudar. Este artigo é também um guia prático para saberes como podes aproveitar o Verão sem carro e sem confusões.
Praias de Sintra com estacionamento pago, apesar da contestação

Começamos esta rota nas praias de Sintra, em Colares. O estacionamento das praias Grande e das Maçãs passou a ser tarifado durante a época balnear, entre 1 de Junho e 30 de Setembro. Parquear o carro junto ao mar passou a ter um custo de 1 €/hora até um máximo de quatro horas, sendo que o estacionamento pago vigora entre as oito e as 20 horas. Residentes, comerciantes e concessionários podem requerer um dístico para continuar a estacionar gratuitamente junto à praia; pessoas com mobilidade reduzida, motos e bicicletas também não pagam.
O objectivo é “disciplinar o estacionamento desordenado e abusivo”, aponta a Empresa Municipal de Estacionamento de Sintra (EMES). A medida foi proposta pelo Presidente da Câmara de Sintra, Marco Almeida (PSD), tendo sido aprovada em Março com os votos a favor do PSD, dos dois vereadores do Chega e da ex-vereadora da IL (que é independente depois de ter perdido a confiança do partido), e com os votos contra dos vereadores do PS.
Apesar de terem sido introduzidas novas zonas tarifadas, continua a ser gratuito estacionar no parque no lado oposto ao Hotel Arribas, com 160 lugares, bem como nos espaços em terra batida. No entanto, a EMES e a Câmara de Sintra pretende incentivar às deslocações em transporte público. A ideia é que a estação de comboios da Portela de Sintra seja o grande ponto de acesso às praias do concelho. Aqui, não só existem 450 lugares de estacionamento gratuitos, como três linhas da Carris Metropolitana que podem levar as pessoas à praia: a 1248, que serve a Praia das Maçãs; a 1250, que passa pela Praia Grande; e a 1254, que serve tanto a Praia Grande, como as praias Maçãs como do Magoito.

A introdução de parquímetros nas praias de Sintra gerou contestação, principalmente na Assembleia de Freguesia de Colares, onde PS, Chega, CDU e IL apresentaram moções contra a medida, argumentando desde a penalização das famílias que procuram nas praias um refúgio acessível, constituindo, dizem, o estacionamento pago um entrave ao direito ao lazer, até ao prejuízo para o comércio local, que, segundo os diferentes partidos, seria afastado de potenciais clientes. Há também uma petição pública que reúne mais de 2100 assinaturas contra o estacionamento pago nas praias.
Apesar da contestação, o estacionamento pago foi para a frente. Questionada sobre as moções, a EMES defendeu, junto da agência Lusa, que a introdução dos parquímetros “promove a rotatividade do estacionamento para proteger os interesses dos sintrenses e melhorar as condições de mobilidade no concelho”.
Certo é que, além de haver autocarros frequentes para as praias Grande e das Maçãs com as linhas 1248, 1250 e 1254 da Carris Metropolitana, há também rede ciclável a servir estas zonas balneares. É possível ir de bicicleta até à Praia Grande a partir da vila de Colares ou da aldeia de Almoçageme em percursos maioritariamente segregados.
Costa da Caparica e Fonte da Telha com ciclovia em toda a extensão

De Sintra vamos até à Costa da Caparica. Uma nova ciclovia segregada e contínua garante, a partir deste Verão, acesso a pé ou de bicicleta às praias mais a sul da Costa da Caparica, nomeadamente às praias do Rei, da Morena, da Sereia, do Infante, da Nova Vaga e da Bela Vista. A nova ciclovia percorre a designada Estrada das Praias, que até aqui era uma via de terra batida, dando continuidade ao troço já existente na Estrada Florestal.
Por outras palavras, com a construção da ciclovia na Estrada das Praias, passou a ser possível chegar de bicicleta, trotineta ou a pé a todas as praias situadas entre o centro urbano da Costa da Caparica e a Fonte da Telha. “Esta obra é uma resposta decisiva a décadas de ocupação desordenada do território, regulariza o estacionamento e cria condições para a circulação em modos suaves, num espaço até aqui dominado pelo automóvel e pela informalidade”, indica a Câmara de Almada em comunicado. Segundo o Município, a construção da nova infraestrutura ciclável e pedonal pretende ajudar a reduzir tanto as ”filas quilométricas de entrada e saída” das praias, bem como o “estacionamento informal que, ao longo dos anos, foi invadindo as zonas de mata protegida”.






É que, além da construção da ciclovia na Estrada das Praias, foi feito um ordenamento de toda essa estrada, com a colocação de pilaretes para o bloqueio do estacionamento abusivo e a criação de parques de estacionamento bem delimitados. Além disso, a ciclovia funciona – como já acontecia na Estrada Florestal – como um canal de acesso para veículos de emergência, nomeadamente bombeiros, uma vez que “o território da Costa de Caparica está classificado com perigosidade e risco de incêndio alto e muito alto”.
“O estacionamento abusivo e o congestionamento das vias impediam, em situações de emergência, o acesso rápido dos meios de combate a incêndios”, indica a Câmara de Almada, que, ao mesmo tempo, espera já neste Verão “uma melhoria visível nas condições de utilização” das praias da Fonte da Telha; “mas a obra não se fica por aqui: está previsto o seu prolongamento às restantes praias a sul, incluindo os respectivos parques de estacionamento”, refere ainda a autarquia. Isto é, o percurso ciclável irá continuar e ligar à Avenida do Mar, que conecta com a Aroeira e com o concelho de Sesimbra.
Apesar da requalificação, o estacionamento abusivo permanece, desta vez ocupando a ciclovia e canal de emergência, como mostra este vídeo partilhado por um utilizador no Instagram.

A bicicleta é hoje uma das melhores formas de chegar às praias da Costa da Caparica. A partir de Lisboa, é possível apanhar o barco de Belém para a Trafaria e percorrer toda a frente atlântica a pedalar. Da capital, há também autocarros directos a partir do Areeiro, Praça de Espanha, Campolide, Amoreiras ou Alcântara, através das linhas 3709 e 3710 da Carris Metropolitana. E durante a época balnear, há ainda autocarros especiais que partem dos concelhos de Loures, Odivelas ou Vila Franca de Xira.
Além destas opções, podes sempre conjugar o barco para Cacilhas ou o comboio para o Pragal com um autocarro ou com a bicicleta ou trotineta eléctrica. O melhor é pesquisares numa aplicação como o Google Maps o melhor trajecto e horário a partir da tua zona.
Almada quer ir mais longe

A Câmara de Almada pretende restringir o acesso automóvel à Fonte da Telha. O plano da autarquia integra a conjugação de parques de estacionamento dissuasores com um shuttle em autocarro até às praias. “Estão previstos dois parques de estacionamento na envolvente da Avenida do Mar, em localizações estrategicamente definidas para servir de alternativa ao acesso automóvel à Fonte da Telha”, refere o Município ao LPP, indicando que “a capacidade final dos parques encontra-se em fase de consolidação técnica, mas estima-se que seja superior a três centenas de veículos”.
Por outro lado, será criado “um serviço de transporte colectivo de ligação entre os parques de estacionamento e a zona balnear da Fonte da Telha, permitindo assegurar uma alternativa cómoda ao acesso automóvel directo”. “Os detalhes operacionais relativos à frequência, horários, percurso e entidade responsável encontram-se actualmente em fase de definição, no âmbito do trabalho conjunto desenvolvido entre os serviços municipais, a TML (Transportes Metropolitanos de Lisboa) e a WeMob.”
Este “novo modelo de gestão de acessos à Fonte da Telha” está ainda “em desenvolvimento” e “dependente da boa concretização de procedimentos de contratação pública, em curso, e das deliberações administrativas necessárias”. Mas a Câmara de Almada está segura do objectivo: “garantir uma oferta complementar de estacionamento que permita reduzir significativamente a pressão automóvel sobre a frente de praia e assegurar uma utilização mais equilibrada e sustentável do território”.
Por agora, existe um único autocarro a servir as praias a sul da Costa da Caparica: a linha 3030 liga com o metro no Monte da Caparica, passa pela Trafaria e termina o trajecto na Fonte da Telha, percorrendo toda a Estrada Floresta e fazendo paragem no início da Estrada das Praias. Mas a frequência desta linha é bastante reduzida, mesmo ao fim-de-semana.
Para já, a nova infraestrutura ciclável – que, além de canal de emergência, é também um espaço pedonal – melhora a acessibilidade de quem mora na zona às praias, uma vez que passa a poder ir de bicicleta ou a pé à praia, em qualquer altura do ano.

Setúbal fortalece “Arrábida Sem Carros”

O programa Arrábida Sem Carros não é propriamente novidade, mas as tempestades deste Inverno obrigaram a Câmara de Setúbal a fortalecer esta iniciativa, reforçando as restrições de circulação e de estacionamento, em paralelo com a promoção do transporte público. Este ano, não é possível chegar de carro à Praia da Figueirinha, ao contrário do que aconteceu nos Verões anteriores; nem tão pouco ao Parque de Merendas da Comenda.
“Os danos causados pelo comboio de tempestades ocorrido no início do ano, nomeadamente, a tempestade Kristin, implicam a realização de reparações críticas e a consequente supressão de uma das vias nos acessos às praias de Albarquel e da Figueirinha”, justifica a Câmara de Setúbal em comunicado. “Esta necessidade inviabiliza a coexistência entre o serviço de transportes públicos, a utilização de viaturas individuais e o estacionamento nas bermas, obrigando à implementação de medidas excepcionais, assentes na promoção do transporte colectivo como principal meio de acesso a este território tão fragilizado.”
O modelo de mobilidade e acesso às praias da Arrábida está em vigor ao longo de toda a época balnear, entre 4 de Junho a 15 de Setembro, e “tem como princípio orientador a segurança de pessoas e bens, a sustentabilidade ambiental e a promoção do transporte público”, segundo a autarquia na mesma nota de imprensa.

Os autocarros da Carris Metropolitana são a estrela principal do programa Arrábida Sem Carros, em particular a linha 4474, que faz a ligação entre a estação de comboios de Setúbal, o centro da cidade e a Praia da Figueirinha. Ao fim-de-semana, a linha 4474 circula com frequências de 10 minutos nas horas de ponta e de 15 minutos nos restantes períodos. Estão ainda em funcionamento a linha 4470, que liga Setúbal e Azeitão à Praia do Creiro, a linha 4471, que circula entre o centro de Setúbal e a Praia de Albarquel, e a linha 4477, que permite o acesso às praias do Portinho da Arrábida, dos Galapos e dos Galapinhos a partir da Praia do Creiro. O passe Navegante funciona em qualquer uma destas linhas.
O Arrábida Sem Carros funciona com o ecossistema de parques de estacionamento gratuitos e ligados aos autocarros. Em Setúbal, o parque do centro comercial Alegro permite apanhar a linha 4474 para a Figueirinha; no terminal rodoviário da Várzea há estacionamento com ligação às linhas 4474 e 4470; e no Mercado Mensal de Azeitão é possível deixar o carro, também de forma gratuita, e apanhar a linha 4470 para a Praia do Creiro.



Por falar em Creiro, esta é a única praia que continua com acesso disponível de carro, nomeadamente com cerca de 140 lugares tarifados num parque gerido pela Associação Baía de Setúbal. O estacionamento da Figueirinha está disponível apenas para os funcionários das concessões balneares, motas, bicicletas e e viaturas com dístico de mobilidade condicionada. A atribuição de cartão de circulação ou de estacionamento autorizado para cada troço específico deve ser requerida através de formulário disponível no site do autarquia ou por correio electrónico, para praias@mun-setubal.pt.
Câmara de Setúbal quer barcos para as praias
Em 2027, a Câmara Municipal de Setúbal pretende criar ligações marítimas às praias da Arrábida, com “preços idênticos aos dos transportes públicos abrangidos pelo passe Navegante”, revelou a Vice-Presidente do Município, Maria do Carmo Tiago, à agência Lusa. “É um projecto para desenvolver para o próximo ano”, afirmou a autarca à agência Lusa, Indicando que o objectivo da Câmara de Setúbal é reduzir a pressão automóvel nos acessos rodoviários e garantir uma alternativa sustentável aos banhistas.
O Município já iniciou contactos com operadores privados que manifestaram disponibilidade para assegurar o serviço, mas a concretização deste projecto depende ainda de articulação com outras entidades, como a Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML). A implementação de um transporte público marítimo vai exigir ainda a construção de infraestruturas de apoio à atracação e desembarque de passageiros junto das praias, razão pela qual a solução não poderá avançar já nesta época balnear.

A reparação do talude que abateu junto aos acessos à Praia de Albarquel, uma das obras mais urgentes, tem um custo de cerca de 6,9 milhões de euros, segundo a última estimativa da Câmara de Setúbal fornecida à agência Lusa.
Para a Câmara de Setúbal é também necessária a resolução do problema de um maciço rochoso com cerca de duas mil toneladas que estará em risco de derrocada, entre as praias da Figueirinha e de Galapos. Esta intervenção é mais grave e a autarquia já apresentou ao Governo e à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT) uma estimativa global de cerca de 50 milhões de euros para a recuperação dos estragos provocados pelas intempéries de janeiro e fevereiro em todo o concelho.
Sesimbra aposta em “vaivém”


Por seu lado, a Câmara Municipal de Sesimbra também quer menos carros no centro da vila, junto à praia. Não há restrições à circulação automóvel no casco histórico de Sesimbra, mas a autarquia tem novamente em funcionamento o vaivém gratuito entre a rotunda da Moagem de Sampaio e o Terminal Rodoviário de Sesimbra. A ideia é que as pessoas possam deixar o carro no parque de estacionamento da Moagem (um parque em terra batida) e apanhar o vaivém – um autocarro da Carris Metropolitana – para o centro de Sesimbra e para a praia.
O autocarro, que corresponde à linha 3223, está disponível entre as oito e as 20 horas entre 13 de Junho e 13 de Setembro com 32 horários por dia; de 1 de Julho a 31 de Agosto há um reforço dos horários, com 48 circulações por dia, funcionando o vaivém até à meia-noite e meia. Os encargos financeiros da operação são suportados pelo Município de Sesimbra, que conta com o apoio da Carris Metropolitana na cedência de veículos e motoristas.
O objectivo desta iniciativa é “tornar mais prática, cómoda e amiga do ambiente a deslocação até à vila na época balnear e minimizar as dificuldades de estacionamento que se verificam em Sesimbra nesta época do ano”, indica a Câmara de Sesimbra. Como o parque disponibilizado na Moagem é de terra batida, muitas pessoas que querem apanhar a linha 3223 optam por estacionar o seu carro no parque do supermercado Aldi.
A oferta habitual de transportes públicos
Para as praias, continua a haver a oferta habitual de metro, comboio, autocarros e barcos. A Carris Metropolitana tem linhas especiais que só funcionam no Verão – são as Linhas Mar, que oferecem ligações às praias da Costa da Caparica e de Sesimbra. A Carris Metropolitana tem também autocarros para mais de 50 praias da região metropolitana de Lisboa.











