Quando a GIRA falha, é a comunidade que avisa

O serviço de bicicletas partilhadas de Lisboa esteve indisponível durante seis horas na tarde de 24 de Junho. Nem a EMEL nem a Câmara de Lisboa comunicaram a falha; foram os utilizadores da aplicação alternativa GIRA+ que detectaram a situação.

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O serviço de bicicletas partilhadas de Lisboa esteve indisponível durante seis horas na tarde de 24 de Junho. Nem a EMEL nem a Câmara de Lisboa comunicaram a falha; foram os utilizadores da aplicação alternativa GIRA+ que detectaram a situação.

O serviço de bicicletas partilhadas de Lisboa esteve indisponível durante seis horas na tarde de 24 de Junho (fotografia LPP)

Na quarta-feira 24 de Junho, o serviço de bicicletas partilhadas de Lisboa esteve em baixo. A interrupção da GIRA surpreendeu todos os que durante a tarde daquele dia tentaram utilizar o sistema. Fosse através da aplicação oficial ou das alternativas, os utilizadores eram sistematicamente confrontados com mensagens de erro genéricas, sem qualquer contexto ou explicação para a indisponibilidade que se verificou durante seis horas.

Nas redes sociais da EMEL, empresa municipal que gere a GIRA, não houve qualquer aviso ou explicação para a indisponibilidade. Nem um post, nem uma story. Nem tão pouco um e-mail enviado aos utilizadores. Também em silêncio esteve a Câmara de Lisboa, que não fez qualquer comunicação acerca desta disrupção. A GIRA esteve indisponível, sem que ninguém se parecesse preocupar. Quem não se antecipou e abriu a aplicação antes de chegar à estação, só nesse momento percebeu que não podia usar o serviço. Havendo informação antecipada, seria possível planear a viagem de outra forma, sem surpresas de última hora e poupar os 5 ou 10 minutos a pé até uma estação GIRA.

A parisiense Velib envia comunicações por e-mail aos utilizadores sobre alterações no serviço – uma ideia que a EMEL poderia seguir (captura de ecrã LPP)

Quando o metro, o comboio ou os autocarros falham, há avisos que, ora são publicados nas redes sociais dos operadores, ora são apresentados também nas aplicações de navegação que os passageiros mais utilizam no dia-a-dia, como o Google Maps, o CityMapper ou o Transit. A Carris Metropolitana é a operação de transportes que melhor comunica com os seus passageiros: em qualquer app, é possível saber se, por uma obra planeada ou um acidente inesperado, a linha que se vai apanhar está com atrasos significativos ou inclusive suspensa.

No caso da GIRA, não haveria forma de saber se a indisponibilidade das bicicletas seria só um problema de um utilizador – por ter algum problema no telefone ou no pacote de dados móveis –, ou um problema geral. Contudo, na ausência de informação oficial, foram os próprios utilizadores que deram a notícia. Não todos os utilizadores, mas os que desenvolvem uma das aplicações não oficiais, a GIRA+. E fizeram-no de forma involuntária.

Para saber que a GIRA estava em baixo foi fácil. Os autores da GIRA+ disponibilizam uma página de estatísticas de utilização da aplicação, que mostrava não haver viagens registadas entre as 14h e as 21h dessa quarta-feira. Havendo também indisponibilidade da app oficial, que apresentava um erro genérico quando se tentava entrar na mesma, foi fácil concluir que todo o sistema de bicicletas de Lisboa estava em baixo.

O serviço GIRA esteve interrompido entre as as 14 e as 21 horas (captura de ecrã LPP)

A GIRA+ não tem mostrado ser mais rápida e fluída que a aplicação da EMEL, como tem funcionalidades que não se encontram na app oficial e que, respeitando a segurança quer dos utilizadores, quer do sistema informático da EMEL, melhoram a utilização global do serviço. A recente adição das classificações de outros utilizadores nas bicicletas quando se selecciona uma estação é apenas mais um exemplo de uma funcionalidade útil desta aplicação alternativa, que ajuda a não haver surpresas com bicicletas defeituosas. Mas a GIRA+ oferece também algo que a EMEL não dá: dados abertos e disponíveis de forma transparente e acessível.

Através do site da GIRA+, é possível saber quantas pessoas já utilizaram esta aplicação (leia-se: em quantos dispositivos foi instalada) e quantas viagens realizaram ao longo do tempo. É possível também ver quantos utilizadores estão activos em cada hora do dia e o número de viagens feitas realizadas ao longo de um dia. Há ainda informação sobre a avaliação atribuída pelos utilizadores às viagens, o que dá uma ideia sobre a qualidade geral do sistema GIRA. Esta informação é recolhida apenas através da GIRA+, ou seja, não representa todos os utilizadores.

Nessa página, a informação é apresentada em gráficos interactivos de fácil consulta, o que permite que qualquer pessoa facilmente visualizar os dados e filtrá-los de acordo com os seus critérios. Não são precisos conhecimentos de programação ou de análise de dados como na plataforma de dados abertos da EMEL (que, há mais dois anos, não tem qualquer informação da utilização da GIRA, apenas dados sobre a dimensão da rede de bicicletas partilhadas).

A interrupção de serviços digitais é comum. Acontece com grandes plataformas como o Facebook, o Google ou a Amazon. Estas tecnológicas disponibilizam sites para saber o “estado da operação”, indicando aos utilizadores se existe alguma falha temporária. Muitas vezes, esses sites até especificam se é um dado serviço dentro da plataforma global que está em baixo, ou se é toda a plataforma (imaginemos: o YouTube pode estar sem funcionar, mas o Gmail, que também pertence à Google, está normal). Existem também diversos sites comunitários do estilo “Is Facebook down” que dão informação sobre o estado das plataformas. 

Exemplo de página de estado do Slack (captura de ecrã LPP)

Seria fácil a EMEL ter uma plataforma oficial com o estado da GIRA e também poder enviar alertas automatizados perante uma interrupção aos utilizadores activos. Mais fácil ainda seria fazer uma story. Mas, enquanto essas ferramentas e essa comunicação não é feita, há uma comunidade que avisa quando a GIRA (e a EMEL) falha.

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