Passar sinais vermelhos é uma parte integral de garantir a minha segurança enquanto ciclista. Perante a falta de ciclovias, a minha estratégia de sobrevivência na bicicleta tem de ser mais criativa.

A minha primeira prioridade quando ando de bicicleta é conseguir andar em segurança, para mim e para os outros. Fazendo mais de três mil quilómetros em Lisboa por ano, já aprendi uma coisa ou outra sobre o assunto. Passar sinais vermelhos é uma parte integral de garantir a minha segurança enquanto ciclista. Perante a falta de ciclovias (não há um metro de ciclovia entre a minha casa e o meu trabalho), a minha estratégia de sobrevivência na bicicleta tem de ser mais criativa.
Quando eu arranco no verde ao mesmo tempo que os carros e motas, o que inevitavelmente acontece é sentir uma pressão destes veículos, que se traduz em andarem em cima de mim, ameaçarem passar-me por cima (mais frequente do que possam achar), passarem-me a menos de um metro e meio, etc. Tudo isso é muito perigoso porque, por exemplo, um buraco na estrada para uma bicicleta – e Lisboa não tem falta deles – requer um desvio rápido. Quando a margem de erro é menos de um metro com um carro a 50km/h ao meu lado, isso torna-se num perigo real para mim.
Alternativamente, se eu fizer uma avaliação na situação em sinais que conheço e perceber, como um peão percebe (quem nunca passou um vermelho como peão que faça o primeiro comentário) que estou em segurança, ganho o tempo entre sinais (que à partida não é muito porque é esse o desenho da cidade) para avançar sem o perigo dos carros e motas em cima de mim. Em Londres e noutras cidades europeias o sinal fica verde para ciclistas antes de ficar para carros exatamente por isto. E em cinco anos a andar de bicicleta em Londres, senti todos os dias a segurança que isso me trazia.
As pessoas esquecem-se que um ciclista está incrivelmente vulnerável na estrada. Um carro acerta-me e eu fico todo partido, se não morrer. Portanto a primeira pessoa interessada na minha própria segurança, sou eu.
Em segundo lugar, os semáforos foram inventados principalmente para lidar com um problema: demasiados carros. Os sinais nunca foram pensados para bicicletas, que são um meio de transporte radicalmente diferente: andam a 20km/h em média, ocupam muito menos espaço, permitem contacto direto com os outros utilizadores da estrada, etc.
Um carro é, como muitos automobilistas fazem questão de me lembrar semanalmente, uma arma. Lembram-se daquele ataque terrorista em França em que um ciclista atropelou 20 pessoas? Nem eu. Portanto, usar esse sistema para bicicletas não faz sentido por uma série de razões. Até numa questão de política, o sistema devia ser facilitado para encorajar as pessoas a andar de bicicleta tornando os trajetos mais rápidos em tudo o que é artificial (ou seja, tempo parado em sinais, permitir fazer ruas em contra-mão dentro de limites claro) para ciclistas, já que andar de bicicleta é mais benéfico para literalmente toda a gente.
Claro que há várias formas de passar um vermelho e há ciclistas malucos. Mas também não é por um TVDE maluco me ter ameaçado na estrada na terça feira passada que eu eu acho que todos os TVDEs são passados da cabeça. Se virem um ciclista passar um vermelho, em vez de terem a reação instintiva de ficarem revoltados e apontarem o dedo, lembrem-se desta perspetiva. Melhor ainda, andem de bicicleta um dia e vão perceber isto melhor do que qualquer texto possa explicar.











