À medida que os bairros se transformam, que os pequenos negócios e espaços culturais desaparecem e que cada vez mais pessoas deixam de conseguir viver na cidade, Lisboa vai perdendo aquilo que a distingue.

Uma cidade não se mede apenas pelos edifícios que constrói. Mede-se pelos espaços onde as pessoas se encontram. Pelos cafés onde começam conversas, pelas associações onde nascem amizades, pelos clubes, coletividades e espaços culturais onde se experimentam ideias e projetos, se dança, se debate, se organiza e se imagina outra forma de viver em conjunto. É aí que nasce aquilo a que chamamos comunidade.
Hoje, muitos desses lugares estão a desaparecer.
Nos últimos anos, Lisboa perdeu dezenas de espaços culturais e comunitários: Grupo Excursionista e Recreativo Amigos do Minho, Lounge, MusicBox, Bacalhoeiro, Núcleo A70, Grémio Lisbonense, Sport Clube Intendente, Valsa, Crew Hassan, In Bloom, Seara, Clube Recreativo dos Anjos, Planeta Manas, Baclhoeiro, Banco, Sabotage, Primeiro Andar, Quintal, Útero, Logradouro da Bem Postinha, Santiago Alquimista… Alguns encerraram porque deixaram de conseguir suportar o aumento das rendas. Outros foram despejados. Outros continuam ativos, mas em risco de desaparecer, como a Sirigaita, o Arroz Estúdios ou a Sociedade Musical Ordem e Progresso.
Em muitos casos, os edifícios onde existiam deram lugar a hotéis, alojamentos turísticos ou foram alvo de investimento imobiliário. E muitos deles continuam sem qualquer utilização. Paralelamente, vários projetos culturais têm enfrentado fiscalizações e operações policiais consideradas desproporcionais pelos seus promotores, criando obstáculos à sua continuidade. Ao mesmo tempo, a expulsão de milhares de pessoas da cidade alterou profundamente quem a habita e, com isso, também a forma como estes espaços são vividos. Os públicos dispersaram-se, os coletivos enfraqueceram e as redes de proximidade tornaram-se mais frágeis. Mas esta história é muito mais profunda do que um conjunto de tetos e paredes que deixaram de ser o que eram.
“Aqui ao lado está à venda por não sei quantos milhões. Ali foi vendido por não sei quantos milhões. Aqui ao lado foi vendido por não sei quantos milhões. E está tudo parado. Todos os sítios estão ou acabados de comprar ou vendidos, e está tudo parado. Não há nada. Não há ecossistema. Acabou o ecossistema. Temos uma ilha outra vez.”
É assim que Patrícia Craveiro Lopes, sócia da Casa Independente, descreve à Zona Proibida o Largo do Intendente, onde aquele espaço viveu durante catorze anos. Um espaço cultural que ajudou a transformar o Intendente quando este era conhecido sobretudo pela toxicodependência, juntamente com muitos outros projetos culturais e comunitários que devolveram vida àquela zona da cidade. Hoje, sem conseguir encontrar outro lugar para onde se mudar numa Lisboa onde os preços se tornaram incomportáveis, a Casa Independente tem os dias contados. Vai fechar em dezembro deste ano. E com ela perde-se muito mais do que um espaço. Perde-se uma parte da vida daquele largo, das pessoas que o habitavam e das relações que ali foram sendo construídas ao longo de mais de uma década.
A crise da habitação chegou há muito ao limite do tolerável. Os despejos, o aumento da pobreza, o crescimento do número de pessoas em situação de sem-abrigo e a expulsão de milhares de pessoas das cidades são as suas consequências mais visíveis e graves. O encerramento dos espaços culturais e comunitários é uma consequência menos discutida, mas igualmente importante. À medida que as pessoas são empurradas para fora da cidade, desaparecem também os lugares onde se construía vida em comum. Perde-se a possibilidade de criar pertença e de fazer da cidade um lugar que se habita, e não apenas um lugar por onde se passa. Este é um problema que afeta muitos lugares no país, para além da cidade de Lisboa.
Perdem-se também os circuitos onde a criação artística acontece. São estes espaços que acolhem os primeiros concertos, os microfones abertos, as sessões de poesia, os ensaios, as exposições e os projetos que ainda estão a nascer. É aqui que muitos músicos experimentam as suas primeiras canções, que coletivos encontram um lugar para trabalhar e que novas linguagens artísticas se cruzam e se transformam. Ao mesmo tempo, ensaiar, gravar, alugar um estúdio ou encontrar um espaço de trabalho tornou-se cada vez mais caro para muitos artistas. Sem espaço para experimentar, errar, ensaiar e crescer, torna-se muito mais difícil que surjam novas vozes e novas formas de expressão.
À medida que as pessoas são empurradas para fora da cidade, também se desfazem os laços que davam vida aos bairros. As relações tornam-se mais frágeis quando os vizinhos mudam constantemente, quando os edifícios deixam de ser habitados por quem ali constrói uma vida e passam a ser ocupados por pessoas que chegam e partem constantemente. Há menos encontros inesperados, menos reconhecimento entre quem partilha a mesma rua, menos memória coletiva, menos comunidade.
Vivemos cada vez mais fechados sobre nós próprios. Entre jornadas de trabalho longas, um custo de vida que não para de aumentar e uma realidade cada vez mais mediada por ecrãs, sobra pouco tempo e pouca disponibilidade para a vida em coletivo. O mundo individual torna-se mais estreito, movido ao sabor dos algoritmos que habitam os nossos ecrãs.
Não é por acaso que a solidão se tornou um dos grandes problemas do nosso tempo, nem que os diagnósticos de ansiedade e depressão continuem a aumentar. Somos mamíferos. Somos seres sociais. Precisamos uns dos outros para viver, para pensar e para criar. Precisamos de espaços coletivos onde possamos construir relações e encontrar um sentido para a vida.
É por isso que a cultura não pode ser pensada como um luxo ou um simples entretenimento. É uma parte integrante das nossas vidas e daquilo que dá identidade a uma cidade. Essa identidade não é fixa: constrói-se todos os dias, através das pessoas que a habitam, das relações que criam e das práticas culturais que desenvolvem em comum.
Mas esta história não é feita apenas de perdas. Há também quem continue a resistir e é aqui que encontramos um dos grandes paradoxos de Lisboa. A cidade chegou às bocas do mundo e o turismo cresceu. Mas o modelo de desenvolvimento que acompanhou esse sucesso está, hoje, a descaracterizá-la. À medida que os bairros se transformam, que os pequenos negócios e espaços culturais desaparecem e que cada vez mais pessoas deixam de conseguir viver na cidade, Lisboa vai perdendo aquilo que a distingue.
Foi desta inquietação que nasceu a Zona Proibida. Estamos a filmar um documentário sobre o impacto da gentrificação nos espaços culturais e comunitários de Lisboa. Mas queremos fazer mais do que documentar esta transformação. Queremos construir um arquivo de memória, organizar rodas de conversa, criar espaços de encontro entre artistas, investigadores, trabalhadores da cultura e habitantes da cidade e contribuir para uma mudança. Acreditamos que contar uma história é também participar nela.
Existem caminhos para contrariar este processo. A cidade pode proteger os seus espaços culturais e comunitários através de uma gestão diferente do património e dos recursos públicos, da disponibilização de edifícios devolutos, do reconhecimento do seu valor social e cultural e da construção de uma estratégia cultural que não se limite à programação de eventos. A Zona Proibida quer contribuir para colocar estas possibilidades no centro do debate público e aproximar pessoas que já trabalham sobre estas questões. Este projeto será bem-sucedido se ajudar a proteger espaços existentes, e reforçar o direito de quem vive na cidade a criar, encontrar-se e participar na sua vida cultural.
Mas esta história não é feita apenas de perdas. Há também quem continue a resistir e a imaginar outras formas de viver na cidade. Movimentos como o Parar o Hotel no Quartel da Graça, coletivos como a Sirigaita – que continua a defender o seu espaço enquanto enfrenta um processo de despejo em tribunal – e muitas associações, coletividades e espaços culturais que permanecem ativos mostram que este processo está longe de ser inevitável. Acreditamos que o nosso papel é juntar-nos a essa rede de iniciativas, dar visibilidade a quem já resiste e contribuir para fortalecer um movimento que continua a defender uma Lisboa onde a cultura, o encontro e a vida em comunidade tenham lugar. Este projeto será bem-sucedido se ajudar a proteger os espaços que ainda existem e a reforçar o direito de quem vive na cidade a criar, encontrar-se e participar na sua vida cultural.
Somos um coletivo de jovens que, entre outros trabalhos, tem dedicado centenas de horas voluntárias a este projeto. Queremos candidatar-nos a bolsas e procurar outras formas de financiamento, mas ativamos um crowdfunding, que é o primeiro passo para dar estabilidade ao trabalho que já desenvolvemos e permitir-nos continuar a filmar, investigar e criar espaços de encontro e conversa sobre este tema. Temos mais perguntas do que respostas. Mas partimos de uma convicção simples: estamos a perder aquilo que faz de nós uma cidade.
E acreditamos que ainda vamos a tempo de sonhar – e de construir – uma cidade com mais convívio, mais comunidade e mais cultura. Precisamos de resgatar todas essas coisas bonitas que nos fazem humanos: a poesia, a beleza, o encontro e a possibilidade de existir em comum. E lutar por elas afincadamente.
Se também acreditas nisto, considera apoiar-nos até dia 3 de agosto. Este projeto está a ser construído por muitas mãos. A tua pode ser uma delas.








