Almada tem vivido uma grave crise de água e está em “situação de alerta” enquanto tenta restabelecer os níveis de reserva. A Câmara fala num aumento do consumo e da população. Mas esta crise, que também se tornou política, revelou várias fragilidades no sistema de abastecimento do concelho, desde elevadas perdas de água a uma dependência do Seixal. A longo prazo, a solução pode passar por retomar uma proposta antiga.

6 de Julho de 2026. Almada atravessava uma crise de água sem precedentes. As torneiras deitavam pouco ou nada durante horas a fio, em dias consecutivos e em várias partes do concelho. A situação era mais grave na zona sul do território. Apesar de as falhas pontuais no abastecimento de água – principalmente no Verão – não serem propriamente uma novidade, desta vez as interrupções estavam a ser mais prolongadas, como Isaac e Catarina testemunharam nesse dia 6. Da varanda de um sétimo andar na Costa da Caparica, o casal via bem o mar lá ao fundo; mas, no seu apartamento, que gentilmente abriu ao LPP, a falta de água era uma constante desde o final de Junho: os cortes aconteciam sucessivamente, sem avisos prévios, e já se prolongavam há mais de uma semana. “Tem sido uma grande incógnita”, dizia Isaac.
O final de Junho e início de Julho foi bastante atribulado para Isaac, Catarina e para muitos residentes do concelho de Almada. E não só: também para o comércio, para escolas e faculdades, para unidades de saúde e residências séniores… enfim, a falta de água desregulou as rotinas de todos os que de uma forma ou outra fazem vida naquele concelho da Margem Sul.

Isaac e Catarina viram-se obrigados a mudar hábitos e a aproveitar todos os momentos em que a água lhes chegava a casa – o que acontecia sobretudo de madrugada. “Ela acorda sempre mais que cedo que eu e enche logo os garrafões”, contava Isaac. Na cozinha que se mistura com a sala, o casal armazenava vários garrafões cheios por precaução, para usar em banhos, para a sanita e para lavar a loiça. “Imagina viver sem água durante uma semana, e só teres quando estás a dormir…”, dizia Catarina. “Das três às nove da manhã temos água…”
Nesse dia 6, por acaso, o casal teve água em casa durante o dia, fugindo ao padrão dos últimos dias. “Tivemos água esta manhã, mas pelas 9h45 já estava a fraquejar. Pensávamos que ia ser como os outros dias, ou seja, só à noite é que íamos ter. Mas afinal não”, relatou Isaac, ligeiramente aliviado. Os cortes estavam a acontecer várias vezes, em dias diferentes e sempre sem aviso. Ou seja, o casal nunca sabia quando ia ter água, nem quando é que a torneira “secava”. “Está a ser muito imprevisível”, referia Catarina no início do mês.

Hoje, o problema já está mais estabilizado não só na Costa da Caparica como pelo concelho de Almada, com as reservas hídricas a recuperar, graças a um menor consumo e a uma maior captação de água. Mas a crise ainda não passou e o território continua em “situação de alerta” com medidas excepcionais, como cortes temporários e programados em várias freguesias e zonas do concelho. Vale a pena olhar para este tema com profundidade, para o que aconteceu e para o que pode ser o futuro da água em Almada e na restante Península de Setúbal.
Água insuficiente para todo o consumo

A crise da água em Almada resultou de um problema simples de explicar: consumo de água superior à capacidade de captação. O problema foi transversal ao concelho, afectando sobretudo a zona sul do território. A autarquia atribuiu a causa ao aumento do consumo e da população nos últimos anos, agravado pelo calor (Portugal viveu no início de Julho uma severa onda de calor) e pela sazonalidade (o Verão é sinónimo de mais pessoas em Almada) destes dias.
“Esta situação resulta da conjugação das temperaturas muito elevadas com um aumento muito significativo do consumo de água, que, em determinados períodos do dia, ultrapassa a capacidade de captação actualmente disponível”, escreveu nas redes sociais a Presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros (PS), a 4 de Julho.
O Município publicou alguns dados sobre o aumento do consumo de água, indicando que “nunca se consumiu tanta água em Almada como em 2026”. Segundo a autarquia, registou-se um crescimento de 4,3% no consumo de água no primeiro semestre deste ano face ao mesmo período em 2025, “o que equivale a mais do dobro do crescimento habitual”. Um crescimento que não foi igual em todo o lado: mais 14,2% na Costa da Caparica; mais 15,2% na Charneca da Caparica, 15,2%; mais 15,0% na Sobreda e em Lazarim; mais 5,7% no Feijó, 5,7%; mais 0,7% no Laranjeiro. Houve três descidas: menos 4,6% no Raposo e no Monte da Caparica; menos 3,7% na Cova da Piedade; e menos 1,9% na em Almada, Pragal e Cacilhas.
A Câmara de Almada destacou ainda que a zona da Charneca e da Sobreda é, actualmente, “o novo centro de consumo” de água do concelho, tendo registado mais 370 mil metros cúbicos no primeiro semestre do ano. Esta quantidade “já representa 32% de toda a água consumida em Almada”. Por outro lado, “pela primeira vez”, o consumo do reservatório de água do Cassapo, localizado na Charneca, ultrapassou o dos reservatórios do Pragal e de Brielas – este último responsável pelo abastecimento da Costa da Caparica.
O aumento do consumo de água em Almada é mais assinalável se olharmos para o período da última década (2015-2025): o consumo aumentou 19%; já a população residente cresceu 16%.
Mas se isso é verdade, a explicar a falta de água estará também um investimento em infraestrutura hídrica que não terá acompanhado esse crescimento – quer ao nível da construção de novos furos e reservatórios, permitindo aumentar a capacidade de captação e de armazenamento hídrico, quer no que diz respeito ao melhoramento das canalizações existentes, de forma a que Almada, um dos concelhos que regista mais perdas de água, progrida significativamente esse indicador. Também a dependência de Almada do Seixal ao nível da captação de água e a inexistência de redundâncias (por exemplo, de uma ligação da Margem Sul a Castelo de Bode) são pontos que importam trazer para cima da mesa nesta discussão.
Sem comunicação

A água é indiscutivelmente um bem essencial em todas as casas. Damo-la como garantida e é quando falta que começamos a perceber as muitas actividades em que precisamos dela. É óbvia a importância vital da água, seja para o consumo humano, seja para os animais de estimação – como os dois gatos que convivem com Isaac e Catarina. A água é também fundamental para tomar banho e higiene pessoal, descarga do autoclismo, cozinhar, lavar a roupa e a loiça, regar plantas, limpeza e, em situações de emergência, para o combate a incêndios domésticos.
Quando a água começou a faltar repetidamente nas torneiras de Isaac e Catarina no final de Junho, os dois não perceberam logo a dimensão do problema. Para Isaac, aliás, era estranho a sensação de que ninguém estava a falar do assunto. Vivendo há um ano na Costa da Caparica, já tinham tido falhas pontuais no passado, nomeadamente no Verão. “No ano passado já aconteceu. Mas não aconteceu o que a gravidade está a acontecer agora”, contou Isaac ao LPP no dia 6. “Este ano tem sido muito mais; antes era um dia ou outro”, explicava Catarina, dizendo que aceitava, de certo modo, essas disrupções temporárias.



Neste ano, tal como no ano passado, nunca houve um diálogo antecipado com a população sobre os constrangimentos que poderiam acontecer, os motivos e a duração. “Avisam quando os cortes já estão feitos”, lamentava o casal ao LPP, explicando que na porta do prédio ou em algum outro lugar público e acessível houve a afixação de qualquer papel. “Eu acho que nem eles sabem o que vão fazer”, desabafou Isaac.
Para o jovem, era estranho não se estar a falar muito do tema – principalmente perante uma falha prolongada. Seria só na sua casa? Na sua rua? Na sua zona? Foi então que fez um primeiro vídeo que lançou no TikTok e Instagram. “Eu fiquei com noção da gravidade da situação depois de ter desabafado nesse vídeo”, contou. Recebeu milhares de visualizações e muitos comentários. “Não tinha quase nenhuns seguidores, mas o vídeo teve um boom gigante, porque desabafei aquilo que as pessoas queriam desabafar. Senti que falei por muita gente.”
O primeiro vídeo que partilhou chegou antes de haver qualquer comunicação oficial por parte da Câmara de Almada e dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada. O Município foi, aliás, criticado por responder tarde ao problema.
As primeiras medidas
As primeiras explicações e medidas dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada, chegaram só a 3 de Julho, vários dias depois de a população estar a experienciar falta de água nas torneiras. Nas redes sociais, o serviço municipal responsável pela água no concelho anunciava as primeiras “acções de mitigação” para “garantir que a água chega a todas as casas”. A primeira medida consistia na redução da pressão em todo o concelho entre a meia-noite e as seis da manhã com o objectivo de “permitir, durante a noite, a recuperação das reservas nos depósitos”. A segunda prendia-se com um reforço da fiscalização “por todo o território” para “identificar e eliminar consumos indevidos e desnecessários”.

Noutra publicação, o Presidente dos SMAS, Luís Palma, anunciava paralelamente a activação de dois novos furos de captação de água, um que, segundo o próprio, já estava em “pleno funcionamento” e outro, na Aroeira, que ficaria operacional “até ao final de Julho”. “Temos mais três furos em fase de licenciamento e outros três em projecto. Prevemos aumentar a capacidade de reserva e continuar a reabilitação da rede de abastecimento”, indicava. O responsável anunciava também a redução “ao mínimo” da rega em espaços públicos e a suspensão das lavagens de ruas “não essenciais”. E sublinhava a importância de ajustar a pressão da água que chega às torneiras das casas: “Através do ajuste de pressões, garantimos que a água é partilhada por todas as localidades evitando cortes prolongados nas mesmas zonas.”
Inês de Medeiros emitiu um comunicado também a 3 de Julho, nas redes sociais. “Temos consciência dos transtornos que as interrupções e reduções da pressão da água têm causado a muitos munícipes e lamentamos sinceramente todos os constrangimentos”, disse a Presidente da Câmara, garantindo haver um empenho para normalizar a situação “o mais rapidamente possível” e apelando “à colaboração de todos para uma utilização responsável da água”.
Nos comentários a estas publicações, multiplicavam-se relatos de moradores do concelho sem água durante horas ou dias a fio, criticando a gestão do processo pelos SMAS e pela Câmara, e também as explicações tardias. Na verdade, a postura da Câmara de Almada mudou com a pressão mediática e as primeiras mobilizações da população na rua: só depois de vários dias de silêncio e de seca, é que a os responsáveis começaram a falar do tema, a esclarecer e a tomar medidas para resolver o problema imediato de uma captação insuficiente para todo o consumo.

No dia 6 de Julho, através de um comunicado conjunto da Câmara e dos SMAS, foram adicionadas novas medidas às anunciadas três dias antes, como a criação de um Gabinete de Crise, integrando diferentes serviços municipais, uma maior articulação com as juntas de freguesia, a comunicação antecipada à população de “todas as interrupções programadas no fornecimento de água”, uma “monitorização permanente dos equipamentos mais críticos e sensíveis do concelho”, designadamente unidades de saúde e residências séniores, e também “diligências” junto da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para acelerar o licenciamento de novos furos “por constituírem a solução mais rápida para reforçar a disponibilidade de água”.
No entanto, com estas novas medidas a verificarem-se insuficientes para repor os níveis de reserva, o Município activou a 8 de Julho a “Situação de Alerta”. Este mecanismo permitiu a adopção de medidas excepcionais e mais robustas, nomeadamente “restrições ao consumo de água que permitam preservar este recurso essencial para o abastecimento doméstico e para os serviços indispensáveis à população”. A acção mais substancial foi um plano de cortes de água programados e devidamente comunicados a partir da semana seguinte, alternados entre diferentes zonas do concelho durante a noite, de forma a assegurar que a água chega a todo o território – mesmo que não nas 24 horas do dia – e, ao mesmo tempo, se reforça as reservas de água nos reservatórios do concelho.
“Este é um esforço colectivo. Cada litro de água poupado contribui para proteger o abastecimento de todos.”, sublinhava a autarquia no comunicado sobre a “Situação de Alerta”. Os cortes temporários e planeados no contexto deste regime de excepção ainda decorrem, à medida que as reservas de água se aproximam dos 60%. Só nessa altura será possível o levantamento faseado de algumas restrições. Às 22 horas de dia 17, estavam a 40%, segundo dados dos SMAS; às 22 horas de dia 20, superavam os 55%, como veremos mais adiante.
Perante a falta de água em Almada, os municípios vizinhos mobilizaram-se. O Barreiro foi o primeiro a ajudar, enviando no dia 9 seis reservatórios com seis mil litros de água. No dia 17, o Seixal disse que disponibilizava um dos seus furos de captação, localizado na freguesia de Corroios, “a cerca de 25 metros de uma conduta da rede de abastecimento de Almada”. Também Sesimbra e Torres Vedras enviaram água e reservatórios, aproveitados pelos SMAS de Almada para abastecer sobretudo a instituições mais vulneráveis.
Uma questão política
O abastecimento de água em Almada é uma competência municipal desde 1951, mas não está entregue a uma empresa municipal. Cabe a um Serviço Municipalizado – uma figura da administração pública portuguesa que existe quando um serviço público é explorado directamente por uma câmara municipal, mas com autonomia administrativa e financeira própria. Ou seja, funciona como um departamento do município, só que está sujeito a orçamento e contabilidade próprios; e não como uma empresa municipal separada, que teria personalidade jurídica própria.
A água e o saneamento são, aliás, dos sectores onde mais se recorre a Serviços Municipalizados. Sintra, Oeiras, Amadora e Setúbal, por exemplo, têm-nos também para gerir a água e saneamento. Há serviços municipalizados noutros sectores, como o dos transportes (é o caso de Coimbra).
Os SMAS de Almada são geridos por um Conselho de Administração, designado pela Câmara Municipal, tal como aconteceria se fossem uma empresa municipal. Ao longo da última década, sensivelmente, essa Administração foi composta por elementos de diferentes partidos, do PS ao PSD, passando pela CDU, que, aliás, assume a actual presidência. O facto de pelos SMAS terem passado responsáveis de diferentes partidos ao longo dos anos, distribui a responsabilidade da situação actual por diferentes forças políticas também.

Quando Inês de Medeiros ganhou a presidência da Câmara de Almada pela primeira vez em Outubro de 2017, assumiu também a presidência do Conselho de Administração dos SMAS durante esse primeiro mandato. Esta prática já acontecia antes: Maria Emília de Sousa, da CDU, acumulou a presidência da Câmara e dos SMAS até às eleições autárquicas de 2017. Nesse primeiro mandato de Medeiros, o PS fez um acordo com o PSD para governar o concelho, pois, tal como tem vindo a acontecer até hoje em Almada, os socialistas não tinham conseguiram maioria. No contexto desse entendimento político, Miguel Salvado, do PSD, teve responsabilidades executivas no SMAS com a ocupação de um cargo de vogal.
Após as autárquicas de 2021, Inês de Medeiros deixou de acumular a presidência dos SMAS, passando a gestão para o vereador José Pedro Ribeiro, do PS. Esta foi a primeira vez em muitos anos que a presidência dos SMAS não coincidiu com a da Câmara. A presidência dos SMAS por José Pedro Ribeiro durou até Dezembro de 2025, com a nomeação de Luís Palma (CDU).
Luís Palma é, desde então, Presidente dos SMAS. Foi nomeado no âmbito do actual acordo político PS/CDU na Câmara de Almada, onde é vereador. O Conselho de Administração dos SMAS integra, além do Presidente, dois vogais executivos: um é Inês de Medeiros (PS), o outro é Nelson Pólvora, também do PS.

Como seria de esperar, Luís Palma e a CDU têm defendido a actual Administração dos SMAS de Almada, referindo que está preparada para investir e fazer o que os outros não investiram nem fizeram, e atirando responsabilidades para as gestões anteriores – ainda que com cautela, dado o entendimento PS/CDU. Na reunião do Executivo Municipal que ocorreu a 6 de Julho, Palma disse: “Assim que esta Administração tomou posse, fizemos uma análise do que era necessário realizar do ponto de vista da intervenção e dos investimentos em várias dimensões dos SMAS.”
Nessa mesma reunião, o Presidente dos SMAS admitiu também que a falta de água não se deve apenas a um aumento do consumo e da população – “resulta de uma necessidade de investimento”, em que não só são necessários novos furos de captação como também aumentar a capacidade de reserva. E disse que têm “de estar todos convocados para a sua resolução”, pedindo “a ajuda de todos os partidos políticos”. “Se houver responsabilidades de quem aqui anteriormente passou a apurar, isso terá o seu tempo”, assegurou. “O que mais nos preocupa é colocar água nas torneiras dos almadenses”, acrescentou.
No jornal AbrilAbril, associado ao PCP – partido que integra a coligação CDU com o PEV –, saiu a 8 de Julho um artigo intitulado “Aumento do consumo e redução drástica do investimento deixam Almada sem água”. Neste texto, é feito um apanhado do investimento dos SMAS na última década. Refere-se, por exemplo, que em 2015, o Município de Almada investiu 7,2 milhões de euros em água e saneamento, o que correspondeu a cerca de 70% do valor inscrito no orçamento desse ano. Em 2016, foram executados perto de 80% do que estava orçamentado, ou seja, cerca de 5,7 milhões. E em 2017, o investimento foi de 6,1 milhões, cerca de 66% do previsto.
Nestes três anos, a Câmara de Almada era de Maria Emília de Sousa (CDU). “Depois de 2018, ano em que uma boa parte do investimento efectuado resultou de projectos do anterior executivo, investimentos previstos e realizados caíram de forma drástica”, pode ler-se no AbrilAbril. “O montante global de investimento previsto para 2019 foi de pouco mais de três milhões de euros, mas nem esse foi executado, tendo sido realizados pouco mais de 2,3 milhões de euros.”
“A partir daí, o Município reforçou a previsão de investimento, mas a execução continuou muito aquém das necessidades, tendo em conta a longevidade das redes e o crescimento da população no concelho de Almada ao longo das últimas décadas. Em 2021, o investimento realizado não chegou aos quatro milhões de euros”, refere o mesmo jornal.
Os dados podem ser comprovados nos relatórios e contas dos SMAS de Almada, disponíveis aqui. O AbrilAbril faz as contas, comprando os últimos três anos do mandato da CDU (2015-2017) – em foram investimentos cerca de 19 milhões de euros –com os últimos três do primeiro mandato do PS (2019-2021) – investiram-se cerca de 8,5 milhões –, e conclui: “percebe-se que o investimento caiu para menos de metade”.
O artigo fala ainda num aumento das tarifas da água em 2021 e num alerta que a CDU lançou em Junho de 2023, através de um comunicado de imprensa, frisando que o investimento que estava a ser realizado pelo PS era “manifestamente insuficiente, particularmente ao nível da renovação das redes de água e do saneamento”. E salientava: “É esta realidade (…) que tem vindo a provocar as variadíssimas roturas um pouco por todo o lado, com o inevitável prejuízo de elevadas perdas de água, e grave penalização para a população e para a sustentabilidade dos próprios SMAS.”
O orçamento dos SMAS para 2026, aprovado em Fevereiro, prevê uma despesa de investimento de perto de oito milhões de euros para 2026. Entre os objectivos para este ano estão a renovação de infraestruturas, a redução das perdas de água, o aumento da resiliência dos sistemas de abastecimento de água e saneamento, e a promoção da reutilização de águas residuais tratadas numa perspectiva de sustentabilidade ambiental. Paralelamente, está adjudicada por 67,8 mil euros a uma consultora a elaboração do Plano Estratégico de Abastecimento de Água do Concelho de Almada; o documento deverá estar pronto até ao final do ano.

Inês de Medeiros contraria esta narrativa pessimista de que não tem havido investimento na água e saneamento do concelho. Em entrevista à SIC Notícias, no dia 9, referiu que “o orçamento dos SMAS é de cerca de 40 milhões. A maior despesa é a manutenção. Nos últimos anos, os investimentos e a manutenção rondam os 50 milhões de euros”, assegurou. “Não é verdade que só agora que os SMAS começaram a reagir, isso é injusto. Não é verdade que só acordámos agora”, referiu a Presidente da Câmara de Almada, referindo que “este ano”, o aumento do consumo de água no concelho acontece “muito cedo, foi constante, desde Fevereiro”.
“Hoje em dia, o consumo médio nacional de litros de água por pessoa, diariamente, é de 180 litros. Em Almada é de 300 litros. O tempo normal de recuperação dos reservatórios não aconteceu. Em certas zonas, chegamos a ter cerca de 500 litros de água por pessoa por dia. É um evento extremo, que nos surpreende a todos”, destacou a autarca.
Os furos, o Seixal e as perdas
Mais que números e planos, há obras na rua. No site do SMAS é possível consultar alguns desses investimentos em curso e os projectos já concluídos. Entre substituição de condutas e intervenções em ETARs, destaca-se a construção de dois furos de captação de água subterrânea na zona do Aroeira, na freguesia da Charneca da Caparica. Muito próximo da fronteira com o concelho do Seixal. Um desses furos começou a ser construído em 2024 e ficou pronto no ano seguinte com a construção de uma conduta que o ligou à rede de distribuição da Aroeira, “reduzindo a dependência do reservatório do Cassapo e aumentando a capacidade de resposta do sistema em períodos de maior consumo”, explica-se no site dos SMAS.
Entretanto, em Fevereiro deste ano, foi iniciada a construção de um segundo furo, cuja entrada em funcionamento foi antecipada em plena crise de água (foi o tal furo que Luís Palma disse que ia entrar em funcionamento até ao final do mês). Esta empreitada custou 145,7 mil euros de acordo com a informação do portal Base. “A antecipação da entrada em funcionamento do novo furo contribui para aumentar a resiliência do sistema, aumentando a capacidade de produção em mais 60 m³/h”, indicam os SMAS num comunicado publicado no dia 12. “A entrada em operação desta nova infraestrutura resulta de um esforço técnico e operacional excecional, que mobilizou equipas de diferentes áreas dos SMAS e de empresas parceiras”, indicava-se.


A antecipação do funcionamento deste furo pode ter sido uma jogada de PR, mas não reduz a importância desta infraestrutura. A freguesia da Charneca da Caparica e da Sobreda foi a que registou o maior aumento populacional na última década, analisando os dados dos Census de 2011 e 2021 – um crescimento de 8,5% para 48,7 mil residentes. Era preciso reforçar a capacidade de captação hídrica neste local.
Mas era também preciso investir na autonomização de Almada em relação ao Seixal. Uma dependência que remonta à história administrativa dos dois concelhos: parte do actual território do Seixal já pertenceu a Almada, e é lá, hoje em território alheio, que Almada vai buscar grande parte da sua água. Segundo dados oficiais, 93% dos furos de Almada são em território do concelho do Seixal (um total de 28). As duas autarquias têm um acordo para a captação e distribuição de água – mas essa dependência tem gerado tensões políticas. “Almada captura grande parte da água que consome no concelho do Seixal, mais precisamente na freguesia de Corroios, e isso inibe-nos de fazermos mais furos na freguesia”, disse Paulo Silva, Presidente da Câmara do Seixal, recentemente à Lusa, referindo estar disponível para trabalhar em conjunto, mas que o seu Município tem de ser financeiramente ressarcido. Inês de Medeiros discorda: “Almada não tem de pagar a água porque a água não é o Seixal. A água que está no Seixal não lhe pertence, é um bem público”, disse na SIC Notícias. “Até agora, em 60 anos nunca se levantou essa questão.”
Na Aroeira, as fronteiras com o Seixal esbatem-se facilmente. Entre as moradias – algumas construídas nos últimos anos –, avista-se uma torre alta e branca: é a estação elevatória do Centro de Distribuição de Água de Belverde, uma infraestrutura do concelho vizinho que passou a marcar a paisagem a partir destes últimos anos. Foi em Junho de 2023 que a Câmara do Seixal anunciou um grande investimento neste centro de distribuição, com o intuito de “expandir e melhorar o abastecimento de água (…), nas condições desejáveis de caudal e pressão, tendo em conta os consumos previstos num horizonte de 20 anos”, explicava a autarquia num comunicado. Paulo Silva (CDU), Presidente da Câmara, acrescentava que o reforço visava resolver “condições de insuficiência de caudal e pressão, nomeadamente no Verão”.

Fruto de um investimento de 2,9 milhões de euros, o Centro de Distribuição de Água de Belverde passou a oferecer, a partir de Abril deste ano, o triplo da capacidade de fornecimento de água, permitindo o abastecimento a mais de seis mil habitantes das “zonas da Quinta do Pinhão, Quinta de Valadares, Quinta da Queimada e áreas adjacentes, melhorando a capacidade de resposta e a fiabilidade da rede, nomeadamente em Vale de Milhaços”. Tal como no lado de Almada, em Charneca da Caparica, também no lado do Seixal – freguesia de Corroios – a população tem vindo a crescer substancialmente. A construção em Belverde, com novos condomínios de luxo, não tem parado: havendo mais casas, há mais população, e é precisa mais água.
Voltando a Almada, o Município parece estar concentrado em captar a sua água. “Os furos não foram pensados ontem”, defendeu Inês de Medeiros na mesma entrevista televisiva. Há mais furos que vão ser feitos no concelho. Na reunião camarária de dia 6, Luís Palma falou em três furos prontos até “ao primeiro trimestre de 2027”. Dias antes, o Presidente dos SMAS tinha mencionado seis furos previstos – três furos em fase de licenciamento e outros três em projecto. Já Inês de Medeiros, referiu na SIC Notícias que tem mais dois furos que vão “entrar agora para licenciamento”, fruto de uma agilização com o Ministério do Ambiente, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR). “Vamos acabar este período muito difícil com quatro novos furos”, disse a Presidente da Câmara.

A dependência do Seixal não é a única fragilidade do sistema de água almadense. Há as perdas de água que ocorrem já depois de esta entrar em distribuição. “Almada é talvez o município com maiores perdas de água, tem muito acima da média, mais de 35%”, comentou a Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, no início deste mês os jornalistas. Por outras palavras: mais de 35% da água distribuída perdida antes de chegar à casa dos almadenses. “Há uma necessidade de manutenção e de investimento que é importante fazer”, acrescentou a governante, referindo que “tem havido financiamentos nos fundos europeus”.
Segundo o regulador, a ERSAR, nos ramais entre a rua e as casas das pessoas perdem-se 284 litros por dia e por ligação. É o nono concelho a nível nacional onde mais água se perde pelo caminho, por fugas ou problemas nos canos; e o terceiro na área metropolitana de Lisboa, a seguir a Loures (490 litros por dia e por ligação) e Setúbal (336 litros). Em 2024, Portugal perdeu cerca de 187,3 milhões de metros cúbicos de água – são 8,7 piscinas olímpicas desperdiçadas por hora.
O Expresso, por seu lado, noticia que a rede de abastecimento de Almada perdeu, em 2024, cerca de 4,7 mil milhões de litros de água, um volume que daria para abastecer a Costa da Caparica durante seis anos e meio. O dado foi dado ao jornal por Diogo Faria de Oliveira, membro do Conselho Nacional da Água e Presidente do Conselho Consultivo da ERSAR. Também morador na Costa da Caparica, Diogo aponta o dedo “ao desperdício, à má gestão e à ineficiência dos sistemas de abastecimento” que, diz, “não podem ser encarados como inevitáveis”.

Num comunicado a 6 de Julho, a Câmara e os SMAS explicavam que, “desde o início do mandato [Outubro de 2025] têm vindo a ser desenvolvidas diversas medidas para reforçar a resiliência da rede, reduzir perdas e aumentar a capacidade de resposta dos serviços”. “Nos primeiros seis meses de mandato foi possível reduzir para cerca de metade as perdas de água provocadas por rupturas, apesar da elevada antiguidade de uma parte significativa das infraestruturas”, acrescentam, falando ainda num reforço da monitorização da rede através de “inspecção interna das condutas, drones e análise de dados de satélite”.
Mais recentemente, a 19, os SMAS anunciaram que, fruto de acções de fiscalização nos últimos dias, identificaram “diversos pontos com perdas significativas de água” e que, por outro lado, desencadearam ainda “intervenções imediatas, que permitiram detetar e eliminar ligações irregulares à rede pública, algumas destinadas à alimentação de sistemas de rega”. Foram igualmente “fiscalizados grandes consumidores, com inspeções a caixas técnicas, válvulas e pontos de ligação à rede pública”, permitindo “identificar situações que potenciavam consumos não contabilizados”.
Sobre a disponibilização de fundos europeus para melhorar a eficiência das tubagens, Inês de Medeiros disse que, ao contrário do que referiu a Ministra, “o PRR não tinha fundos para a água, tinha era apenas para o Algarve e Alentejo” e que o novo PTRR de Montenegro tem “zero previsto para a água”, afirmou a autarca. Uma situação que o seu colega do Barreiro confirma. Frederico Rosa, que acumula a presidência da Câmara do Barreiro com a da recém-formada Comunidade Intermunicipal (CIM) da Península de Setúbal, disse na Rádio Observador que “esta questão do abastecimento de água é muitas vezes é tratada como um filho de um Deus menor”. “No Portugal 2030, na repartição de incentivos a fundo perdido, sabe quanto é que a região de Lisboa, onde a Península de Setúbal está inserida, tem para abastecimento de água, infraestrutura e armazenamento? Tem zero euros”, lamentou o autarca.
“A renovação das infraestruturas de subsolo tem de ser uma prioridade”, referiu, até porque a população da Península de Setúbal não tem parado de crescer. Já está “acima dos 900 mil, já quase um milhão de habitantes”, notou Frederico Rosa, explicando que é preciso olhar para o abastecimento e consumo de água na região como “uma questão estrutural”, sendo necessários incentivos financeiros a nível nacional e europeu para a renovação das infraestruturas hídrica.
“Se eu no Barreiro sei que vou ter a Terceira Travessia do Tejo, a Alta Velocidade a passar pela Terceira Travessia e um Aeroporto na minha península, temos de, com os instrumentos do território, adaptar as cidades para podermos ter esse crescimento”, disse o líder da CIM Península de Setúbal. “E uma cidade não é só feita de habitação, também é feita de serviços, de comércio, de pequena indústria e de zonas industriais mais pesadas. E é neste equilíbrio planeado, onde as infraestruturas têm de acompanhar o crescimento, que conseguimos alcançar um ponto de equilíbrio para uma cidade e para um ecossistema saudável.”
Uma população em protesto e um amargo regresso à normalidade

Na Costa da Caparica, faziam-se, no final da semana passada, limpezas e contas aos prejuízos, após as sucessivas falhas de água que deixaram um impacto ainda por quantificar no comércio local e que levaram muitos turistas a abandonar a cidade. Rosália Medeiros, proprietária de uma mercearia, lida com episódios de falta de água desde o início do ano. “Estamos a pagar por uma coisa que não estamos a utilizar”, lamentava a 11 de Julho à Lusa.
“Os turistas vão embora, o dinheiro vai embora e quem fica aqui a chupar o dedo são os comerciantes e a população, em geral, que tem crianças e idosos, e toda a gente está a sofrer muito com isso”, garantia.“Não acho justo pagar a água, os impostos e tudo isso e ter falta de água, que é um bem essencial (…) sem água o ser humano não sobrevive.”
Segundo a comerciante, gerir um negócio nestas condições não é fácil: “Precisamos de água para tudo, para a casa-de-banho, para limpar o chão, para lavar os utensílios da loja e não temos.” Rosália, que está na cidade há 20 anos e garante que antes não era assim, disse ter vendido toda a água que tinha e só não vendeu mais porque o turismo “foi embora”. “As pessoas estão cansadas de chegar à Costa, uma cidade turística, e não ter água. As pessoas saem a falar horrores da Costa da Caparica, os meus clientes que são turistas saíram a falar horrores, que não vêm mais”, sublinhou.

Na farmácia situada no centro da Costa da Caparica, atendiam-se, naquele dia 11, situações provocadas pelo calor e pela falta de água para a higiene pessoal. “A nível de desidratação não temos tido muitas queixas, porque felizmente as pessoas vão conseguindo comprar água, agora a nível de problemas de não conseguirem fazer a higiene mais corretamente, sim”, disse à Lusa o farmacêutico João Rodrigues. Os problemas mais comuns verificam-se em pessoas com mais idade, que se apresentam “com a pele macerada” e “com assaduras”. “Especialmente os velhotes, por não terem água corrente para conseguirem fazer a higiene. Isso foi o que se verificou nos últimos dias”, contou.
A Costa da Caparica está a tentar regressar à normalidade, numa altura em que a questão hídrica está mais estável. Mas a 8 de Julho, quando cerca de 1500 se juntaram num protesto contra a falta de água, o cenário era bem diferente: a Costa da Caparica era um dos epicentros da crise. Naquele dia, a população tinha convocado iniciativa um cordão humano, mas o protesto acabou por assumir a forma de um desfile entre o Centro Comercial O Pescador e a rotunda de acesso ao IC21, sob vigilância da GNR. “Inês para a rua, Almada não é tua”, foi uma das muitas palavras de ordem dirigidas à Presidente da Câmara de Almada, ouvidas pela agência Lusa.








“Quando as pessoas têm de acordar cedo para ir trabalhar e chegam à torneira sem uma gota de água, isto torna-se insuportável. É revelador da incompetência da governação da Câmara Municipal de Almada”, afirmava à Lusa João Paulo, morador em Santo António da Caparica, durante o protesto. Márcia Tavares, residente há cerca de 30 anos na Costa da Caparica, admitia que havia situações pontuais de falta de água que eram toleráveis, mas considerava inaceitável a situação que se estava a viver. “Tivemos dias seguidos sem água, com temperaturas de 30 e 40 graus, e ninguém dá uma explicação nem assume responsabilidades”, disse. “Só queremos uma solução. Não estamos a pedir nada de extraordinário, apenas água, que é um bem essencial”, afirmava à agência Lusa, durante aquela manifestação.
Já Maria Manuela, de 80 anos, residente desde sempre na Costa de Caparica, garantia à Lusa nunca ter vivido uma situação semelhante. “Nunca passei por isto. Antes, quando havia uma rotura, reparavam-na e ao fim de cinco ou seis horas já tínhamos água. Agora é demasiado”, afirmou. A idosa contou ainda que permanece acordada durante a noite “à espera de ouvir o autoclismo encher” e lamentou as dificuldades provocadas pela falta de abastecimento.
Paulo Muacho, deputado do Livre eleito por Setúbal, e Fabian Figueiredo, estiveram na manifestação em solidariedade com a população. A manifestação foi convocada por cidadãos e de carácter apartidário, e não foi uma única forma de luta dos populares de Almada. Dois dias antes, a 6 de Julho, tinha decorrido um outro protesto, mais pequeno, convocado por um movimento político de cidadãos. Circulou ainda uma petição online, que, à data de hoje, conta com mais de cinco mil assinaturas e na qual se exigia “uma solução urgente”.
Sem Inês de Medeiros
A crise da água em Almada ganhou protagonismo nacional, mas marcou também os organismos locais. A reunião da Câmara Municipal de Almada de 6 de Julho ficou marcada pelo tema e permitiu aos partidos na oposição tomarem as suas posições. Nuno Mendes, do Chega, deixou logo o reparo no início da reunião: “A primeira pergunta que se faz nesta sala é onde está a Presidente da Câmara”, observou. Paulo Sabino, vereador do PSD, também criticou a ausência de Medeiros, referindo ser “um total desrespeito pelos almadenses (…) numa altura de crise como esta”. O colega social-democrata Carlos Salomão completou: “Parece que está numa constante fuga. Falta constantemente ao diálogo directo com os munícipes”, lamentou.
Sem Inês de Medeiros, a reunião foi liderada pelo Vice-Presidente da Câmara, Filipe Pacheco (PS), que justificou a ausência da Presidente: “A Senhora Presidente não está aqui hoje porque não pôde estar…”, começou por dizer, levantando gargalhadas da audiência. E completou logo depois: “…por ter um compromisso de natureza pessoal”.

Mesmo sem o número um, os partidos não se contiveram nas críticas ao Executivo Municipal – principalmente à direita. “A crise no abastecimento de água que milhares de almadenses viveram e vivem nas últimas semanas não foi um acidente nem uma inevitabilidade. Foi o resultado de anos de falta de planeamento, de investimento e de uma gestão incapaz de antecipar problemas que eram perfeitamente previsíveis”, apontou Paulo Sabino (PSD), considerando que falar em aumento de consumo e população é “esconder atrás de desculpas”.

“A Câmara não teve acesso aos Censos? Não sabia que o concelho estava a crescer? Que o turismo na Costa da Caparica ia aumentar? É uma surpresa em Julho de 2026?”, questionou Sabino. O vereador social-democrata entende que o Executivo Municipal liderado por Inês de Medeiros “perdeu a capacidade de governar o concelho”. “Quando falta água nas torneiras de milhares de famílias, quando comerciantes são obrigados a interromper a sua actividade, quando a comunicação com os munícipes é insuficiente e quando as soluções só aparecem depois do problema instalado, estamos perante um caso de falhanço político.”
“A autarquia tem aprovado projectos imobiliários e novos fogos habitacionais de forma desproporcional”, criticou Carlos Salomão, também vereador do PSD. “Politicamente é incoerente autorizar a expansão urbanística sem exigir sem exigir ou promover o reforço prévio da capacidade de abastecimento de água e saneamento.”
O PSD decidiu apresentar uma moção de censura à liderança municipal socialista. O documento foi discutido durante a reunião extraordinária da Assembleia Municipal de 21 de Julho, acabando por ser rejeitado com os votos favoráveis apenas do Chega, da IL e do próprio PSD, a abstenção do BE e o voto contra do PS, CDU e Livre. Mesmo que fosse aprovada, não seria vinculativa e, por isso, não teria qualquer efeito prático na continuidade do Executivo – mas o que Paulo Sabino pretendia era que a moção servisse de “abre olhos” para a liderança de Inês de Medeiros.
Situação a estabilizar, e o futuro?

Com Almada mergulhada numa crise política – que não se sabe ainda como evoluirá –, o concelho está a conseguir recuperar as reservas de água. Se às 22 horas de dia 17 estavam a 40%, três dias depois já superavam os 55% – dados que resultam de um dashboard que os SMAS passaram a publicar diariamente, e que assenta numa escala de cinco níveis: abaixo dos 5%, a situação é grave e têm de ser aplicadas medidas máximas de contenção; acima dos 60%, já é possível aliviar algumas das restrições anteriormente aplicadas; mas só acima dos 80% há um “retorno progressivo à normalidade”. O dashboard, disponibilizado todos os dias desde dia 18 de Julho em formato PDF, pode ser consultado aqui.


“Temos sinais cada vez mais positivos, o nível das nossas reservas está a aumentar. Não devemos entrar em grandes euforias, o esforço tem que continuar ainda, mas de facto a percentagem das nossas reservas tem aumentado significativamente nesta primeira semana e isso é um bom factor”, disse Inês de Medeiros num vídeo divulgado no dia 17, no qual agradecia aos almadenses “o civismo e o extraordinário espírito de comunidade” mostrados.
A publicação dos níveis de reserva de água é um passo de transparência que chegou tarde nesta crise – e essencial para que a população passe a ter, daqui em diante, dados fiáveis sobre a situação hídrica. No entanto, o dashboard publicado pelos SMAS desde dia 18 é uma versão simplificada de um outro, que tinha sido divulgado dois dias antes e depois apagado sem justificação: desapareceram o link, os posts nas redes sociais e os próprios dados. No entanto, o jornal Almadense chegou a publicar o conteúdo desse dashboard com data de 15 de Julho, que dava conta dos níveis de reserva por zona (em vez de uma perspectiva geral e única do concelho), identificando Caparica, Trafaria, Feijó e Charneca da Caparica como as mais críticas – enquanto que as reservas de Almada e Cacilhas estavam nos 58,3% e as da Costa da Caparica nos 87,1%.

E o futuro? As medidas aplicadas pela Câmara e SMAS de Almada estão a ter impactos positivos, mas são um “penso rápido”, dizem especialistas contactados pelo Expresso. De acordo com o jornal, os dois novos furos acrescentam 120 metros cúbicos de água por hora à rede pública, e vêm substituir outros dois furos que colapsaram – no total, Almada continua a ter 32 furos de captação, 93% localizados no Seixal; mas a promessa é que esse número possa aumentar, uma vez que estão previstos seis furos até ao decorrer do primeiro trimestre de 2027.
A resposta definitiva pode passar por redundâncias na rede, nomeadamente por um plano antigo: ligar a albufeira de Castelo do Bode à Margem Sul, através de uma conduta a atravessar o Tejo. Segundo o Presidente da Águas de Portugal, Carmona Rodrigues, a ideia nunca avançou por falta de abertura dos municípios, já que são as câmaras que detêm a competência legal sobre o abastecimento, disse o antigo Presidente da Câmara de Lisboa ao Observador.

A conduta poderia passar pela Ponte 25 de Abril ou pela Ponte Vasco da Gama – esta inclusive já tem preparação para a instalação de tubagens. Colocar as condutas no leito do rio é outra hipótese, mas mais complexa, dada a largura do estuário do Tejo. De qualquer das formas, um investimento desta escala não se justifica para abastecer apenas um concelho; teria de haver um consenso entre os nove municípios da Margem Sul/Península de Setúbal.
No comunicado que a Câmara de Almada divulgou a 6 de Julho a enunciar várias respostas à crise, a autarquia disse que tinha iniciado contactos com as Águas de Portugal “para avaliar soluções que permitam reforçar a redundância do sistema de abastecimento, quer através da Margem Norte, quer através de interligações com sistemas dos municípios vizinhos que dispõem de maior disponibilidade de recursos hídricos subterrâneos”.
Certamente que Inês de Medeiros não quererá ver Almada novamente sem água, sob risco de isso custar a reeleição do PS em 2029. E pode ser que essa pressão leve a que o concelho construa um sistema de abastecimento de água mais robusto.
com Lusa
Actualização às 15h45 de 23 de Julho de 2026: feita correcção sobre a duração da presidência de Luís Palma nos SMAS. Apontava-se que tinha começado o mandato em Dezembro de 2024, quando foi em Dezembro de 2025.





