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Reflexão

3-30-300 e o mundo ao contrário

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Já ouviste falar do 3-30-300? Esta “regra” pode ser encarada como uma solução a curto e médio prazo para a reabilitação urbana. Isso mesmo, reabilitação. O afastamento da natureza das cidades é uma deficiência.

Uma rua arborizada em Benfica (fotografia de Timur Seyfelmlyukov via Unsplash)

Já podemos dizer que longe vão os tempos em que os decisores locais e nacionais podiam atropelar a ciência e a evidência em prol de mais uma camada de betão, de mais um capricho eleitoral que facilmente era transformado num novo bobo da corte do concelho. Agora, finalmente, o verde deixou de ser apenas das marcas que querem parecer sustentáveis e foi adoptado como medida preventiva. Mas será mesmo assim?

Durante décadas, as cidades foram desenhadas para a mobilidade sob quatro rodas. Deu-se prioridade às estradas e reduziram-se os passeios. Cortaram-se árvores centenárias por serem uma chatice para os solos. A nova arquitetura, para além de ter perdido detalhe e, consequentemente, alma, perdeu-se também nos tons industriais e na desintegração com a paisagem natural. E, paulatinamente, as árvores começaram a ser encaradas apenas como um adorno e a “agenda natural” cumpria-se ao fazer-se canteiros para meia dúzia de sardinheiras e amores-perfeitos. Estas foram as cidades tão modernaças que nos venderam.

Quem tomava decisões saía de sua casa, climatizada, e entrava no carro, também ele com o ar-condicionado no máximo. O percurso era fácil até ao gabinete que, ao chegar, também já estava bem fresco. Viver o dia a dia das cidades era coisa de classe média-baixa, tal como usar transportes públicos ou a bicicleta. Ou viver na aldeia, mesmo que fosse a 5 minutos do centro da cidade. Eu cresci a acreditar nisto porque, à minha volta, era no que toda a gente acreditava. Não consigo atribuir propriamente uma culpa. Acho que foi criada uma narrativa à volta disto e que se foi alimentando coletivamente. Até agora.

Chegámos a 2026 e as sucessivas ondas de calor criaram uma nova emergência climática: precisamos de mais árvores nas cidades. Já não basta termos gente com meio horto na sala de estar, é preciso trazer de volta as sombras naturais para as praças e para as ruas. E, nesta lógica, há quem esteja já a planear implementar o sistema 3-30-300.

O sistema é relativamente simples. Cada casa deve: ter três árvores à vista, ter 30% de cobertura de copas de árvores na zona de residência e estar a menos de 300 metros de um grande espaço verde.

Imagem ilustrativa do sistema 3-30-300, da esquerda para a direita (Andreia Carvalho da Silva)

E agora pensamos: por que é que isto não foi logo pensado assim? A natureza foi, durante décadas, o verdadeiro parente pobre da ação governativa.

As sirenes tocaram, outra vez. Mais um verão, mais ondas de calor nunca antes registadas. Novos recordes batidos, tanto em Portugal como pela Europa fora. As sirenes continuam a tocar, porque o pior ainda está para vir. E tocam, tocam. Agora é urgente voltarmos à base, voltarmos a olhar para as cidades para serem pensadas para o bem-estar das pessoas. A ciência nem precisava desta evidência: a qualidade do ar melhora substancialmente, as temperaturas podem descer 2 a 3 graus, a saúde mental sai a ganhar, a paisagem fica menos depressiva e voltamos a ter biodiversidade, da qual nunca nos deveríamos ter divorciado.

Agora vêm os planos urgentes, a meio de um verão que deveria ter a atenção concentrada em não deixar arder o que já temos plantado. No entanto, é o início do plano de Cecil Konijnendijk e da sua visão 3-30-300. Esperemos que seja o início de um novo ciclo na humanidade.

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