A Junta de Freguesia de Arroios está a plantar árvores em ruas e zonas sem arborização, aproveitando essencialmente áreas mortas, num esforço para tornar a freguesia mais fresca e confortável para quem caminha – mas que tem gerado algumas críticas.

A Junta de Freguesia de Arroios está a substituir pavimento por árvores, numa iniciativa que a Câmara Municipal de Lisboa quer que aconteça “um pouco por toda a cidade”. As intervenções estão a decorrer em dois locais, na Calçada de Arroios e no Campo Mártires da Pátria, sobretudo em espaços mortos onde já não era possível estacionar, como saídas de garagem.
“Estamos a aproveitar espaços mortos, onde não existem infraestruturas de subsolo, para criar uma cidade mais verde, mais resiliente às ondas de calor”, indica Rita Castel’Branco, Chefe de Divisão de Espaço Público da Junta de Freguesia de Arroios, numa publicação feita nas suas redes sociais. “Árvores em vasos são uma não-solução. Podem ficar bem em imagens 3D, mas definham na prática, jamais ganham porte, não dão sombra nem ajudam a reter água no solo. É por isso que em Arroios temos posto uma equipa de calcetamento a… descalcetar.”
Na Calçada de Arroios, uma rua até aqui sem qualquer árvore, a plantação é mais ambiciosa – e, apesar de implicar a perda de apenas dois lugares de estacionamento, suscitou algumas críticas.
Calçada de Arroios passa a ter árvores

A Calçada de Arroios vai ganhar 11 árvores (fotografias LPP) 
A Calçada de Arroios vai ganhar 11 árvores (fotografias LPP) 
A Calçada de Arroios vai ganhar 11 árvores (fotografias LPP) 
A Calçada de Arroios vai ganhar 11 árvores (fotografias LPP) 
A Calçada de Arroios vai ganhar 11 árvores (fotografias LPP) 
A Calçada de Arroios vai ganhar 11 árvores (fotografias LPP)
Na Calçada de Arroios, estão a ser plantadas 11 árvores (inicialmente estavam previstas 12) ao longo dos 350 metros da rua. As árvores serão colocadas nos cruzamentos, onde o passeio foi alargado para impedir o estacionamento irregular e melhorar a segurança de quem caminha; bem como noutros pontos do arruamento, após a reorganização do estacionamento. Com a eliminação de apenas dois lugares, toda a Calçada de Arroios ficará arborizada.
A eliminação destes dois lugares gerou indignação imediata dos autarcas do PSD de Arroios, que espalharam um comunicado em para-brisas de carros estacionamentos naquela rua. Nesse documento, escreviam que “as árvores não podem ser usadas como instrumento político contra o estacionamento dos moradores”, defendendo que “devem ser plantadas nos passeios ou colocadas em grandes vasos, tal como é feito em todo o país”, e que “não podem levar à perda desnecessária de muitos lugares de estacionamento”. A representação social-democrata em Arroios acusa o Executivo da Junta (PS/Livre/BE/PAN) de impor as suas ideias contra a “vontade dos moradores” e da própria Câmara Municipal de Lisboa.
Uma acusação que a autarquia de Arroios rejeita totalmente, indicando, num comunicado próprio, que a intervenção em curso na Calçada de Arroios está a ser desenvolvida em articulação com a Câmara, “tendo merecido o parecer favorável da Vereadora Joana Baptista, da Directora Municipal de Ambiente, Estrutura Verde, Clima e Energia e do Director Municipal de Mobilidade”.


Segundo a Junta, está em causa a “redução de apenas dois lugares” e a “plantação de 11 árvores, potenciando zonas de sombra e reforçando a presença da Natureza” na Calçada de Arroios. Foram “considerados os condicionamentos das infraestruturas do subsolo, a distância aos edifícios e a reorganização do estacionamento, de forma a minimizar a perda de lugares legais”, acrescenta, referindo ainda que “todos os locais onde era possível plantar árvores sem eliminar estacionamento foram analisados, mas muitas localizações revelaram-se inviáveis devido às infraestruturas existentes no subsolo e aos requisitos técnicos de segurança”.
“Aquilo que está a acontecer em Arroios vai acontecer um pouco por toda a cidade”
Joana Baptista, Vereadora dos Espaços Verdes, eleita como independente pelo PSD, disse numa reunião descentralizada a 15 de Julho que “aquilo que está a acontecer em Arroios vai acontecer um pouco por toda a cidade, porque é uma premissa deste tipo de obras: ruas que não têm árvores devem passar a tê-las”. A autarca indicou que a intervenção “respeita o património arbóreo, melhora o conforto e a segurança urbana através de melhores passeios, mas não elimina estacionamento”, acrescentando que “poderá haver alguma perda [de estacionamento] devido à formalização dos lugares, mas é muito reduzida, muito residual, e há um ganho substancial: uma rua que não tinha árvores passa a ter árvores“.
Baptista acrescentou que a Câmara de Lisboa não trabalha “para a cidade ideal, para uma cidade sem carros”. “Trabalhamos para uma cidade para todos: para quem tem carro, para quem não tem carro e utiliza transportes públicos, para quem tem animais, para quem gosta muito de árvores… para todos”, disse. “É imperativo que ruas que não tenham árvores sejam reabilitadas e que introduzamos caldeiras com árvores. É exatamente isso que está a acontecer na Calçada de Arroios”, sublinhou a autarca em defesa do trabalho desenvolvido pela Junta de Arroios.
A 20 de Julho, o PSD de Arroios apresentou na Assembleia de Freguesia uma recomendação dirigida à Junta para que esta “altere a intervenção na Calçada de Arroios visando compatibilizar a manutenção do número de lugares de estacionamento com a introdução de arvoredo” e que, no que toca a arborização, “dê prioridade às ruas de grande e média dimensão”. O documento foi aprovado por maioria, com os votos favoráveis do PSD, CDS, IL e Chega, a abstenção da CDU e os votos contra do PS, Livre, BE e PAN, que governam a freguesia em coligação. “Existe uma enorme carência de lugares de estacionamento na Calçada de Arroios, rua onde vão surgir mais 30 fogos”, alertam os autarcas do PSD de Arroios nesta recomendação.

A plantação de árvores na Calçada de Arroios está a ser realizada no contexto da obra de melhoria dos passeios deste arruamento; um projecto lançado pelo anterior Executivo da freguesia de Arroios, presidido por Madalena Natividade (CDS, eleita na coligação “Novos Tempos” com o PSD), que não previa nem esse esforço de arborização, nem sequer o encabeçamento dos cruzamentos dessa rua – isto é, o alargamento dos passeios nas intersecções com vista a tornar o peão mais visível nas passadeiras e melhorar, dessa forma, a segurança de todos, eliminando ao mesmo tempo o estacionamento abusivo nesses locais.
Foi o actual Executivo da Junta, liderado por João Jaime Pires (independente, eleito na lista do PS/Livre/BE/PAN), que decidiu acrescentar a arborização ao projecto e também melhorar os cruzamentos, alargando os passeios nesses locais – à semelhança do que já tinha sido feito, há alguns anos anos, no cruzamento entre a Calçada de Arroios e a Rua de Ponta Delgada, em conformidade com as boas práticas estipuladas no Manual de Espaço Público de Lisboa.

Descalcetar no Campo Mártires da Pátria
Não é só na Calçada de Arroios que a Junta de Freguesia de Arroios está a intervir ao nível da plantação de árvores. Está a fazê-lo também no Campo dos Mártires da Pátria, por reconhecer a importância das árvores para ruas mais frescas e confortáveis.
Neste local, foram abertas duas caldeiras em espaço de estacionamento que, na prática, já não podia ser usado por se tratar de duas saídas de garagem. “No Campo dos Mártires da Pátria estão a ser criadas duas caldeiras, com cerca de 6 m² cada, em espaços mortos entre garagens. Aguardamos validação da Câmara para plantar duas tílias – uma solução articulada com os moradores do prédio, que permite substituir os balizadores de borracha, constantemente derrubados, por uma intervenção permanente, sem retirar estacionamento”, explica a Junta de Arroios ao LPP.

No Campo Mártires da Pátria vão ser plantadas duas árvores em locais onde não se podia estacionar (fotografias LPP) 
No Campo Mártires da Pátria vão ser plantadas duas árvores em locais onde não se podia estacionar (fotografias LPP) 
No Campo Mártires da Pátria vão ser plantadas duas árvores em locais onde não se podia estacionar (fotografias LPP) 
No Campo Mártires da Pátria vão ser plantadas duas árvores em locais onde não se podia estacionar (fotografias LPP)
Com esta pequena intervenção, não só é arborizado o passeio adjacente onde não existe qualquer sombra a algumas horas do dia, como é impedido o estacionamento abusivo, que impediria a visibilidade dos condutores a entrar ou a sair das garagens. A autarquia assegura ao LPP que estas obras fazem “parte de uma estratégia mais ampla da Junta de Freguesia para aumentar a presença de árvores e de áreas permeáveis no espaço público, sempre que encontramos oportunidade”, e que são feitos sempre com parecer favorável dos serviços municipais.
A Junta de Arroios promete continuar a “identificar novas oportunidades para introduzir árvores e áreas permeáveis, estando neste momento algumas possibilidades ainda em estudo”. O objectivo é “aumentar progressivamente a presença de árvores na freguesia sempre que o espaço público e as infraestruturas existentes o permitam”, uma vez que o território da freguesia “conta com cerca de 2 m² de espaço verde por habitante, quando a recomendação da Organização Mundial da Saúde é de 10 m² por habitante”. A Junta diz que não está a fazer este trabalho sozinha, contando com a “colaboração com a Câmara de Lisboa, tanto na identificação de novos locais como na validação técnica das intervenções e das espécies a plantar”.
Além do Campo dos Mártires da Pátria e da Calçada de Arroios, a Junta de Arroios interviu também na envolvente do Mercado de Arroios, onde ampliou alguns dos encabeçamentos que estavam no projecto de requalificação do anterior Executivo da freguesia para criar “mais espaço permeável para árvores, arbustos e outras plantas”.











