Ao longo de quatro décadas, as Escolas de Calceteiros e de Jardinagem da Câmara Municipal de Lisboa já formaram centenas de profissionais qualificados em ofícios exigentes, despercebidos ao olhar dos transeuntes e ainda pouco valorizados. Vítor Graça, Carminda Silva e Américo Simas Coelho fazem parte do rol de antigos alunos que partilham uma grande paixão pelas artes da calçada portuguesa e da jardinagem.

O objetivo era muito claro: entrar para a função pública por uma questão de estabilidade financeira. Américo Simas Coelho, Carminda Silva e Vítor Graça procuraram essa segurança profissional ao se inscreverem nas Escolas de Calceteiros e Jardinagem da Câmara Municipal de Lisboa (CML). O que não contavam era que, com o passar dos meses de formação prática e teórica, acabariam por obter muito mais do que uma profissão: um amor pela arte da calçada artística portuguesa, pela jardinagem, e um enorme sentido de propósito e de camaradagem.
Em 1986, as Escolas de Calceteiros e Jardinagem da CML abriram portas pela primeira vez, resultado da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (hoje União Europeia) e dos consequentes fundos comunitários. Américo Simas Coelho fez parte da primeira turma do curso de espaços verdes constituído por “12 dúzias”, ou seja, 144 formandos, distribuídos por 12 grupos. “Eu era do grupo 11”, recorda. Com pouco mais de 20 anos, Américo trabalhava desde os 17 e não se revia naquele emprego. A oportunidade surgiu quando o pai, também ele funcionário público, lhe falou da nova formação que ia abrir. Decidiu concorrer e entrou.
Sentado à beira do lago da Quinta Conde dos Arcos, na freguesia dos Olivais, protegido por uma escultura de uma mulher de estilo greco-romano a observar a água, Américo recorda esta época. Traz a boina, a sua imagem de marca, e no regaço, a inseparável câmara fotográfica. Relembra que a formação começou em setembro de 1986 e terminou em maio de 1987 com um exame final. “Ao longo de todo o curso havia uma relação de simpatia pela natureza e pelas plantas, e a cada dia que passava interessava-me mais e foi uma experiência de comunhão”, afirma com um sorriso. Relembra-se do grande sentido de camaradagem na turma e chegou “a ir buscar um colega a casa, eu e outro colega, para não faltar aos preliminares, portanto, o exame final”.

Para quem não compreende a profissão de jardineiro, pode considerar que se resume apenas a cortar ervas daninhas, plantar umas flores aqui e acolá e o trabalho está feito. Mas não. “Muitas vezes havia aquela ideia de que nos jardins não se fazia nada” e, na verdade, “é um trabalho duro”, reflete Américo. Apesar de sentir que começa a existir uma sensibilidade para a profissão de jardineiro, ainda “falta um reconhecimento” porque “as pessoas são extraordinárias [no trabalho que fazem]”. E a exigência começa dentro do próprio curso, com diferentes áreas e módulos, entre elas, a identificação do nome das plantas em latim, a conservação das espécies, a maquinaria ou o reconhecimento de pragas.
Carminda Silva, de 63 anos, ainda se lembra de no curso aprender matemática por causa da rega e dos fertilizantes. “Eu adorei, adorei, adorei [o curso]”, conta entusiasmada. Sentada junto ao famoso dragoeiro da Quinta Conde dos Arcos, que em latim se pronuncia dracaena draco, esta árvore assiste à passagem do tempo desde o século XVII. Carminda conta que entrou para a Escola de Jardinagem em 1993 com 31 anos e dois filhos pequenos. Ao olhar para a árvore secular classificada como Árvore de Interesse Público, recorda os bons momentos que passou com os colegas, uma turma de 16 alunos: “Nós vínhamos todos para aqui, quando era na hora do almoço, de maneira que isto era um sítio espetacular, mas [o dragoeiro] estava mais verdinho, isto há 33 anos.”
O seu percurso como funcionária pública da CML começou no Parque Florestal de Monsanto. Trabalhou em maquinaria naquele espaço durante sete anos e logo depois recebeu um convite para integrar a gerência do refeitório da Cruz das Oliveiras, também da CML: “E eu pensei, bem, isto é uma situação para quatro anos, cinco anos, que normalmente é isso que acontece… Estive lá 21 anos”, solta uma gargalhada ao terminar o suspense. Quase três décadas depois de finalizar o curso de jardinagem, Carminda finalmente está no lugar que sempre desejou: nos espaços verdes. A equipa é constituída por jovens, o que a funcionária considera uma mais-valia, e com muito entusiasmo fala sobre o projeto em que a equipa trabalha atualmente: “Andamos a fazer aí uma situação muito gira, que é replantar, a pôr os jardins da Câmara [de Lisboa] bonitos. A Avenida da Liberdade está lindíssima, o Cais do Sodré está lindíssimo, porque nós andamos lá a pôr plantas, e é o mais lindo que existe, está muito bonito.” Conta que é a jardinagem que a faz feliz profissionalmente: “Tenho gosto de fazer parte daquilo, adoro, porque acho que é das coisas mais lindas, lidar com a Natureza, lidar com as plantas”, diz.

Já Américo escolheu a vertente de conservação e ainda trabalhou na reconstrução de espaços verdes. Relembra a experiência dentro da Brigada de Operações Culturais da CML no início da sua carreira: “Eu lavrei meia Lisboa”, conta, “e o meu expoente máximo de superação e de querer ser útil foi uma história que esteve ligada ao campo do Clube Oriental de Lisboa”. À época, explica, a empresa privada que tratou do campo do Clube Oriental não tinha muita experiência e “a prata da casa [da CML] tinha de salvar aquele processo. E nós, eu e os meus colegas jardineiros, fizemos um trabalho extraordinário num local que estava muito maltratado pela empresa”. Inclusive, foi o próprio Américo a fazer a terraplanagem do local.
Porém, outra paixão falou mais alto: a fotografia. Américo é hoje fotógrafo oficial da CML, uma transição que teve os seus momentos difíceis, mas que há 26 anos o faz feliz: “__Fui para [o Departamento de] Comunicação da Câmara e foi, talvez, posso dizer, o dia mais feliz da minha vida, porque concretizei o ser fotógrafo, fazer aquilo que gostava, que realmente amava, dentro da minha casa, a casa que me deu o ser.” E reconhece que “__sempre fiz decisões muito tarde, mas no momento certo, na hora certa”.
De olhos postos nos pormenores e com a câmara fotográfica sempre consigo, não esquece os ensinamentos que recebeu durante a sua passagem pela Escola de Jardinagem. Aliás, a memória não apaga o apoio de uma jovem recém-licenciada, de nome Luísa Dornellas, a engenheira que se tornou diretora das Escolas de Calceteiros e de Jardinagem em 1986. Com uma palavra de incentivo sempre pronta, Américo reconhece-lhe a importância em manter os alunos motivados e empenhados, destacando a sua preocupação com todos, mesmo depois de terminada a formação: “É como se fôssemos uma espécie de filhos da formação dela.” “É uma pessoa que tem uma importância tremenda” porque “a Escola de Jardinagem trouxe-nos algo para toda a vida, que é a relação de união e máximas e regras de conduta que ainda hoje utilizo”, afirma com convicção.
“São todos bem-vindos”: quatro décadas de formação, de comunidade e inovação
Na Quinta Conde dos Arcos, um perímetro de aproximadamente nove hectares, o ambiente é bucólico e convida ao esquecimento do rebuliço da cidade. Requalificada em 2017, é lá que se encontram o viveiro municipal, um parque hortícola, um parque infantil, uma cafetaria e as duas escolas. Naquela manhã quente de maio, mais um curso de calçada e de jardinagem terminou com o exame final. Ana Margarida Baptista, técnica superior de comunicação desde 2011, aponta para o aglomerado de alunos: “Estão a juntar-se as duas turmas, a turma de educação e formação de adultos do 12º ano da área de jardinagem com a turma que esteve a fazer o curso de calçada.”
Dali em diante, aqueles alunos vão ser oficialmente calceteiros, jardineiros e jardineiras. Para alguns, acumula-se a certificação de escolaridade, para outros, mais conhecimento.

As Escolas de Calceteiros e Jardinagem oferecem cursos de educação e formação de adultos com dupla certificação (profissional e escolar) e disponibilizam cursos de curta duração, em parceria com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). “O nosso objetivo é sempre formar, é sempre ensinar”, afirma Ana Margarida, ainda que “a nossa valência é sobretudo ao nível prático, o que vai dar uma mais-valia a esses cursos também”. Nestes cursos, também há espaço para quem escolhe Portugal como a sua nova casa: “O objetivo é integrar as pessoas que chegam ao nosso país, ajudá-las a ter uma profissão” como a de calceteiro ou jardineiro, e “nós temos sempre muito prazer e muito gosto em acolher todas as pessoas que nos procuram”. Por essa razão, “não discriminamos ninguém, acolhemos toda a gente. São todos bem-vindos”.
Qualquer uma destas profissões pode ser a oportunidade de um recomeço. Para Vítor Graça, de 58 anos, a arte da calçada portuguesa foi essa oportunidade. E este exercício de resiliência não lhe era estranho. A crise de 2008 levou o negócio familiar à falência e Vítor viu-se obrigado a emigrar. Passou por Cabo Verde e Holanda e trabalhou no que aparecia: em estufas de orquídeas, em cadeias de fast-food, em fábricas de carne, na restauração e a lista continuou. Mas no final, a vida continuava a ser igualmente difícil. Após sete anos como imigrante, resolveu regressar a Portugal. “Eu nunca pensei ser calceteiro, mas a vida dá tanta volta.” Quando regressou a Lisboa em 2013, Vítor viu um grande potencial na calçada portuguesa, que, na altura, apresentava claros sinais de desgaste e pouca manutenção. “A gente agarrar-se ao que há pouco facilita mais do que se a gente se agarrar àquilo que todos têm, todos fazem, não é?” E assim foi.
Vítor procurou o curso de calçada portuguesa, entusiasmou-se e aos 46 anos começou de novo. No entanto, a sua entrada para a formação foi peculiar: com o nono ano de escolaridade disseram-lhe que não se podia inscrever por ter “habilitações a mais”. “Minha senhora, olhe, é a primeira pessoa que me diz isto”, conta a rir-se, ao lembrar-se da conversa. Porém, “como eu queria aprender e eles não tinham malta suficiente para fazer uma turma, então chamaram-me” e Vítor foi autorizado a completar apenas a parte prática da formação. “Enquanto eles estavam nas aulas [teóricas], eu ia partindo a pedra. Ia treinando. E depois comecei logo pronto a querer fazer desenho.” Sentado no muro na Quinta Conde dos Arcos, junto a dois trabalhos seus (uma caravela com dois corvos e o logotipo da banda australiana AC/DC), conta que dos 21 colegas do curso, apenas cinco o concluíram. “Muitos não queriam, não é? Muita malta não queria ser calceteiro, muitos foram por obrigação”, refere.

É difícil visitar a Quinta Conde dos Arcos e os olhos não se fixarem no chão. A verdadeira arte está ali, debaixo dos nossos pés, um museu ao ar livre. “Nós temos trabalhos não só de alunos de antigas turmas, mas também de estagiários que vamos recebendo”, explica Ana Margarida, e aponta para a frente dos nossos pés. “Este, por exemplo, é um trabalho do Jesse, que é um norte-americano que foi para a Espanha. Ele trabalha com pedra ao nível dos jardins e quis integrar também, mais uma vez, a parte da calçada nos jardins que ele faz”, conta. O motivo – assim se chamam os desenhos na calçada artística portuguesa, que merece um dicionário próprio – é a chamada “onda do mar largo”. E olhando com atenção, consegue-se identificar a assinatura do autor, normalmente feito com pequenos desenhos ou, como no caso de Vítor Graça, com as iniciais do seu nome.
Ana Margarida conta que é muito frequente receberem grupos de estagiários oriundos de França, Espanha, Letónia, Itália ou Finlândia. Mas são os estudantes alemães que mais procuram estes estágios e a razão é simples: “Na Alemanha, no curso de paisagismo, eles integram a parte da pavimentação. Então, a curiosidade é de ver como é que se faz a calçada portuguesa para poder integrar nos espaços privados”, explica a técnica de comunicação. Em cada estágio nacional ou internacional Erasmus+, cada um deixa a sua marca: “__Este pequeno jardim, que tem o formato de um L, foi feito por um grupo de franceses que esteve a fazer um estágio de dois meses, há alguns anos.” E a pouco e pouco, acumulam-se no solo e nos espaços verdes quatro décadas de história das escolas de calceteiros e de jardinagem.
Nestas, o lema “Saber, arte, inclusão” é seguido à regra: a Escola de Jardinagem promove visitas às 28 espécies de árvores abertas à população – em que se inclui o famoso dragoeiro – com o objetivo de consciencializar a comunidade para as questões ambientais e de preservação. A adicionar, realizam cursos de curta duração, como os de hortas urbanas, compostagem, cursos de orquídeas, sabonetes naturais, enxertia, poda de roseiras ou plantas aromáticas, gratuitos para toda a população. E como o conhecimento nunca é demais, as escolas ainda oferecem à comunidade oficinas de sensibilização para crianças, seniores e ainda para pessoas com necessidades especiais: “As nossas colegas conseguem trabalhar com esta população, que tem uma necessidade diferente, um ritmo diferente [de consumir a informação].” A inclusão é uma preocupação das escolas e o objetivo é tentar “com alguma frequência, inovar”.
Para assinalar o 40º aniversário, as Escolas de Calceteiros e Jardinagem prepararam uma oferta cultural e educativa variada para o público e para os profissionais. No último quadrimestre de 2026, vai ser lançado um concurso a nível nacional de “execução de Calçada Portuguesa”, dirigido a calceteiros com experiência mínima de seis meses de atividade profissional e/ou com formação profissional certificada. Já a 12 de outubro, será aberto o Concurso de Ideias para Calçada Portuguesa, com o objetivo de ser criado e apresentado um novo desenho para a calçada. Este concurso é destinado a estudantes de Lisboa com idade igual ou superior a 16 anos, inscritos em estabelecimentos de ensino ou centros de formação profissional sediados em Lisboa, públicos ou privados, reconhecidos oficialmente pelo Governo português.
E até ao final de 2026, as escolas acolhem ainda a exposição “Linha do Tempo – 40 Anos das Escolas de Calceteiros e de Jardinagem”, na Quinta Conde dos Arcos, e promovem uma série de atividades comemorativas até ao primeiro trimestre de 2027, coorganizadas pelo Arquivo Municipal de Lisboa.

Esta programação e campanhas de sensibilização são essenciais para a valorização de profissões como a de jardineiro ou de calceteiro, importantes para manter a tradição e a identidade portuguesa. Afinal, que futuro terá a cidade sem estas artes?
Faça chuva, faça sol, o trabalho tem de continuar: a valorização de profissões quase invisíveis
“No chão feito de preto e branco/ Da calçada à portuguesa/ Demoro o olhar, escrevo o teu nome/ De dona do mar e princesa”. Os versos cantados por Carlos do Carmo caracterizam parte das cores do basalto ou do calcário que se utilizam para a calçada portuguesa. Mas existem muitas mais. É importante distinguir dois termos que normalmente surgem como sinónimos: calçada portuguesa e calçada artística portuguesa. A primeira, a que Carlos do Carmo canta, é conhecida como calçada portuguesa por utilizar o preto e branco; mas quando a calçada forma padrões ou desenhos, conjugada com outras cores, como amarelo ou rosa-avermelhado, já se define como calçada artística portuguesa. Esta distinção é esclarecida no site da Associação Calçada Portuguesa, uma associação sem fins lucrativos fundada pela CML em 2018, em conjunto com outras entidades, para proteger, promover e valorizar a calçada portuguesa enquanto património cultural e identitário do país.
O primeiro trabalho de calçada artística portuguesa remonta a 1842, realizado por presidiários na parada do Batalhão de Caçadores nº5 no interior do Castelo de São Jorge. Os grilhetas, como eram conhecidos estes homens, foram incumbidos pelo tenente-general Eusébio Cândido Cordeiro Furtado para “ocupar o tempo dos prisioneiros de uma forma útil”, explica Ana Margarida. “Então ele pediu aos calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa para ensinarem a estes prisioneiros a pavimentar” e quando chegou a altura, foi um pequeno pormenor que ditou o que atualmente identifica parte da cultura portuguesa: “O tenente-coronel decidiu acrescentar uma forma geométrica”, um ziguezague. “Foi a primeira vez em que, de forma deliberada, num espaço público, nasceu uma obra em calçada que tinha desenho. A partir daí, ganhou sucesso entre a população”. A grande obra que projetou internacionalmente a calçada artística portuguesa foi a pavimentação da Praça Central do Rossio, aquando da inauguração do Teatro D. Maria II. Este trabalho demorou mais de um ano a ser concluído, entre 1848 e 1849, o que revela que “não é fácil fazer um trabalho de calçada artística e, sobretudo, trabalho de calçada artística bem feito”.
Levar a cabo todo o trabalho que a profissão exige é desafiante a nível físico. Faça chuva ou sol, calor ou vento, o trabalho tem de continuar. Várias horas separam a preparação dos materiais e o encaixe das pedras de forma harmoniosa para obter um motivo. As mazelas físicas não tardam a aparecer: “Eu só consigo trabalhar sentado [no banquinho do calceteiro], porque eu de joelhos… Não é fácil”, conta Vítor. “Vou fazendo pouco mas bem feito. Porque é preferível fazer poucos metros, mas que fiquem em condições ali com a pedrinha toda certinha, do que fazer muitos metros e depois a calçada não fica em condições”, explica. Quando terminou a formação em 2014, Vítor integrou a função pública a recibos verdes e foi destacado para a Junta de Freguesia de Santo António. Por lá ficou até receber uma proposta da Junta de Freguesia de Alverca, onde vive, porque “era mais dinheiro, as condições eram outras”, refere. Atualmente, trabalha por conta própria.
Vítor reconhece que a profissão de calceteiro não é devidamente remunerada nem valorizada. Os calceteiros recebem o ordenado mínimo e, por falta de mão-de-obra, alguns pavimentos são construídos de forma mais célere. “Ainda hoje é um problema para arranjar calceiros e malta que saiba o que está a fazer, portanto, isto não é chegar e pôr pedra, não é?” Se antes um trabalho de pavimentação era constituído “por três, quatro pessoas para fazer a calçada”, “hoje em dia uma pessoa é um polivalente”, afirma Vítor. E esta profissão torna-se ainda mais relevante para a questão da sustentabilidade porque, segundo o site da Associação Calçada Portuguesa, a aplicação da calçada portuguesa não é poluente e permeável, possibilita o solo respirar e é maleável, ou seja, adapta-se às alterações da flora.
Porém, a valorização da calçada artística portuguesa e da profissão de calceteiro tem vindo a ser feita de forma semelhante ao seu trabalho: lenta, mas bem feita. Ao entrar na agenda política e institucional, a Assembleia da República decretou o Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa a 22 de julho e foram aprovadas as recomendações para a valorização da calçada portuguesa como património cultural imaterial. Nestas, inclui-se o apoio à candidatura a Património da Humanidade da UNESCO, cuja primeira revisão do documento foi concluída e entregue à Comissão Nacional da UNESCO em 2025 pela Associação Calçada Portuguesa.


Ao percorrer os espaços verdes da Quinta Conde dos Arcos, Ana Margarida conta que a procura pela formação de jardinagem mantém-se, mas para a de calceteiro, a realidade é diferente. Os cursos nem sempre abrem e, quando há alunos suficientes, são maioritariamente calceteiros de juntas de freguesia que os frequentam, com o objetivo de aprimorar e conhecer outras técnicas. “Aqui o problema é que a profissão de calceteiro é muito mais desgastante do que a profissão de jardineiro”, refere Ana Margarida enquanto contemplamos os desenhos de antigos alunos no pavimento. “É muito desgastante fisicamente e o ordenado mensal não corresponde. As pessoas valorizam a calçada, mas no final têm vidas e precisam de ganhar o seu sustento.”
Por outro lado, a técnica de comunicação reconhece que tem existido uma maior procura por parte de artistas para aprender e implementar a arte da calçada portuguesa nos seus trabalhos artísticos. São os casos de Catalina Saubaber, artista plástica do Uruguai, e Diogo Muñoz, artista plástico português, que fizeram parte da turma que naquela manhã quente de maio terminou o curso. “Os artistas e os curiosos têm vindo a aumentar, definitivamente. Lá está, esta preservação também da identidade portuguesa que está na calçada”, diz. “Sinto mesmo que os portugueses estão a valorizar cada vez mais a calçada. Já não podemos dizer que são só os que vêm de fora. Eu sinto, acho, que já há um orgulho que é transversal a toda a população”, afirma, convicta.
Há quatro décadas, as Escolas de Calceteiros e de Jardinagem abriram portas para revitalizar as equipas da CML e dar continuidade ao conhecimento das profissões. “Nós viemos fazer um refresh à Câmara”, recorda Américo. “Havia uma ideia de que a Câmara estava degradada, que as pessoas eram alcoólicas, tinham vícios. Aquilo [com] que nos deparámos não foi isso, deparámo-nos com pessoas extraordinariamente humildes, não ficaram chateadas pelo facto de nós entrarmos, pelo contrário, criámos amizades com as pessoas mais velhas.” A missão continua a ser a mesma: preservar os espaços verdes e a calçada portuguesa através da formação de profissionais qualificados. E em cada um, há sempre um pouco da História das escolas que se perpetua no tempo.
“Avó, tu também plantaste aquela?”. A pergunta sai disparada sempre que Carminda passeia com o neto no jardim da Quinta Conde dos Arcos. “Não, aquela já não”, responde. “Faço questão de lhe dizer, de lhe contar a minha história, de lhe dizer que foi aqui o início daquilo que eu sei, da minha função”, conta Carminda. “Para mim é um dos espaços mais bonitos [de Lisboa]”, afirma com convicção. Daqui a uns anos, trará a neta pela mão e contar-lhe-á a sua história. Para já, as memórias da criança de sete meses formam-se na creche da Quinta Conde dos Arcos, com lugar para a família dos funcionários públicos da CML.
“Eu só tiro coisas boas, porque está aqui uma equipa excelente”, defende Vítor, porque “estávamos todos a lutar para que a coisa corresse bem”. Com nostalgia, Américo termina: “Quando gostamos do que fazemos, aprendemos a ter um respeito enorme por aquilo que os outros fazem. E isso é das coisas mais extraordinárias para interagirmos com cada um. E a escola de jardinagem, nesse sentido, foi uma das melhores escolas de vida que eu tive.”
Reportagem com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa no contexto da rubrica “Bastidores da Cidade”; apesar de pago, o conteúdo foi desenvolvido com espaço e liberdade criativas.











