Cinco anos depois de o Parque Urbano Gonçalo Ribeiro Telles ter ficado pronto, a cafetaria central abriu finalmente portas. Chama-se ARQO e promete ser um novo ponto de encontro no meio do verde da Praça de Espanha.


Construído alguns no século 18 (XVIII), o Arco de São Bento esteve pousado na rua que lhe deu o nome, em Lisboa. Fazia parte de uma das redes de distribuição de água do Aqueduto das Águas Livres, conduzindo esse bem desde o reservatório da Mãe d’Água, nas Amoreiras, até ao Chafariz da Esperança, em Santos. Dessa rede, conhecida como Galeria da Esperança, restam apenas algumas arcadas e chafarizes – a maioria com função meramente decorativa. O Arco de São Bento, esse, também está vivo mas hoje também é um adorno que nos remete para a cidade de outros tempos.
As obras de remodelação do antigo Palácio das Cortes, hoje Palácio de São Bento, sede da Assembleia da República, levaram a que o Arco de São Bento tivesse de ser desmontado em 1938. As peças foram todas numeradas para uma reconstrução deste pequeno monumento noutro local. Em 1998, o Arco de São Bento foi reconstruido na Praça de Espanha.

Durante décadas, esteve rodeado do trânsito caótico, ruidoso e, por vezes, desgovernado que dominou aquele local, onde circular a pé ou de bicicleta sempre foi um desafio. Viu os milhares de autocarros que foram partindo todos os dias carregados de passageiros para a Margem Sul – até o terminal rodoviário ser fechado para a concentração dos serviços em Sete Rios. Acompanhou também o encerramento do “mercado azul”, um ponto de vendedores que nos anos 1980 o então Presidente da Câmara de Lisboa, Nuno Krus Abecassis, tinha decidido deslocalizar do Martim Moniz para a Praça de Espanha, com o objetivo de reabilitar a primeira zona. E seguiu, um pouco céptico ao início, a transformação daquele espaço num imenso parque urbano em 2020, pela mão do autarca Fernando Medina.
Foi nesse ano, à boleia da Capital Verde Europeia, selo que a cidade ostentava, que a Praça de Espanha foi transformada num grande parque verde. A complexa intersecção rodoviária foi simplificada e redesenhada para dar lugar a um espaço verde espaçoso que expandisse, de certa forma, o ambiente airoso que se vive, mesmo ao lado, nos Jardins da Gulbenkian.
O “mercado azul” foi extinto, os autocarros suburbanos movidos para outro local e o trânsito reorganizado. O Parque Urbano Gonçalo Ribeiro Telles nasceu. O Arco de São Bento manteve-se no mesmo lugar e ganhou um novo estatuto decorativo neste espaço: em vez de estar rodeado de carros, passou a estar de pessoas. Passámos a poder tocar no arco, mirá-lo debaixo para cima, estar próximo dele. E mesmo à frente do arco, junto à estação de metro e debaixo de uma pala irregular que dá sombra a uma praça, foi construída uma cafetaria-quiosque. No entanto, o espaço esteve vazio desde 2021, ano em que o parque começou a ficar pronto, até há muito pouco tempo.
Tudo porque a Câmara de Lisboa protelou o lançamento do concurso público necessário à concessão e consequente abertura ao público dessa mesma cafetaria. Na verdade, apesar de se tratar de um espaço público, inserido num parque municipal, a exploração do quiosque é entregue a uma empresa privada através de uma concessão de vários anos. É o modelo habitual em espaços verdes da cidade: o privado faz o seu negócio e, em troca, ajuda na manutenção de algumas infraestruturas públicas, nomeadamente os sanitários. Os concursos de concessão do quiosque da Praça de Espanha e de outros espaços semelhantes foram lançados apenas em 2025 e o resultado está agora à vista. Chama-se ARQO. Abriu no início deste Verão.

O ARQO está rodeado da Natureza que o Parque Urbano Gonçalo Ribeiro Telles lhe oferece e apresenta-se como um “um ponto de encontro entre gastronomia, lazer e cultura, convidando a desfrutar da cidade num ambiente descontraído, confortável e com personalidade”. Discreto e ainda com poucas visitas – porque nos habituámos a ver aquele quiosque sempre fechado (e ao abandono pela Câmara de Lisboa) –, o ARQO quer ter oferta para “diferentes momentos do dia”, do pequeno-almoço, para aquele café matinal à saída do metro e antes do trabalho, ao final do dia, com aperitivos, vinhos, sangrias e cocktails. Sem esquecer o almoço, com pratos quentes e saladas.



O parque da Praça de Espanha foi sempre pensado para ser uma extensão da Gulbenkian, e o ARQO não foge a esse desígnio. O interior é confortável com os seus sofás vermelhos – uma cor bem viva que marca todo o espaço e que contrasta na perfeição com as tonalidades mais neutras em redor. As paredes envidraçadas que rodeiam praticamente todo o quiosque deixam a luz entrar mas também permitem que estejamos sempre em contacto com o parque. Ali, vemos Natureza. E vemos a cidade a acontecer.
Quem queira estar no exterior, encontra uma esplanada ampla e igualmente confortável. As linhas entre o quiosque, a esplanada e o parque esbatem-se de tal forma que nem sempre as vemos. E ainda bem. Porque é isso que a ARQO procura: “um ambiente que une design e conforto em harmonia com a natureza envolvente”. Ao todo, entre exterior e o interior, somam-se cerca de 140 lugares sentados.



O ARQO ainda está nos primeiros meses de operação, mas uma componente que já sabe que quer explorar é a parte “cultural e de entretenimento”. Ali já se exibiram os jogos do Mundial de futebol, mas houve também espaço para sessões de cinema ao ar livre e DJ sets ao pôr-do-sol. E estão a ser preparados “novos eventos e experiências para este semestre, reforçando o ARQO como um espaço dinâmico e de encontro na cidade”.
O ARQO está aberto das nove horas à meia-noite, todos os dias. E assim deverá ser durante pelo menos oito anos. É este o prazo da concessão atribuída pela Câmara de Lisboa à empresa Correr de Água – Hotelaria e Turismo, Lda. e ao proprietário João Machado Dias. Uma nota final: talvez fosse uma boa ideia o ARQO abrir um pouco mais cedo – às sete ou oito da manhã – para poder ser o local do primeiro café do dia a caminho do trabalho ou ponto de encontro e de convívio antes de mais uma jornada laboral. É que a Praça de Espanha já é hoje ponto de passagem de muitas pessoas que trabalham na envolvente e sê-lo-á mais no futuro, com a deslocalização prevista para aquele local das sedes da Jerónimo Martins e do Montepio.












