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O D. Maria II está de volta a casa e quer promover boa vizinhança

Na Ginjinha Sem Rival ou na Ferragens Guedes, o Teatro Nacional D. Maria II conta novas histórias e cultiva a boa vizinhança. Durante o Verão, o Teatro saiu à rua para visitar lojas, cafés e casas em redor do Rossio, promovendo leituras e conversas. O objectivo: conhecer melhor o bairro e quem o habita, e antecipar a reabertura marcada para 18 de Setembro.
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Na Ginjinha Sem Rival ou na Ferragens Guedes, o Teatro Nacional D. Maria II conta novas histórias e cultiva a boa vizinhança. Durante o Verão, o Teatro saiu à rua para visitar lojas, cafés e casas em redor do Rossio, promovendo leituras e conversas. O objectivo: conhecer melhor o bairro e quem o habita, e antecipar a reabertura marcada para 18 de Setembro.

O D. Maria II reabre as portas do seu edifício a 18 de Setembro, após uma profunda intervenção de requalificação e restauro que abrangeu diferentes áreas do Teatro Nacional (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

É um dia quente de Verão e passa pouco das 10h30 quando entramos na Chapelaria Azevedo, no Rossio. Duas funcionárias da loja centenária recebem-nos e dizem-nos que o dono, Pedro Fonseca, vem já ter connosco.

Conversamos cerca de cinco, dez minutos, enquanto olhamos ao nosso redor e atentamos nos chapéus alinhados nas estantes de madeira e protegidos por portas envidraçadas. Um par de clientes entra e dirige-se ao balcão no momento em que o proprietário chega, cumprimenta-nos e se apresenta ao grupo. Então, feita uma curta explicação sobre o que se veio ali fazer, Diogo Seno, que trabalha no departamento de comunicação do Teatro Nacional D. Maria II, começa a ler um texto do livro Tiranossauro Rex: Procedimento Básico de Memorização e Esquecimento, de Alex Cassal. Durante alguns momentos, o silêncio abate-se sobre a loja e a única voz que ouvimos é a de Diogo. 

No final da leitura, o livro é oferecido a Pedro, que está há 20 anos à frente da casa fundada pelo trisavô. “É raro ir ao teatro”, diz-nos, confessando que nunca entrou no D. Maria II, a escassos metros da Chapelaria Azevedo. No entanto, o proprietário conhecia alguns funcionários do Teatro que, antes deste fechar para obras em 2023, iam habitualmente à loja encomendar chapéus e bengalas para adereços de peças. “Atores, como o Ivo Canelas, também já vieram cá”, conta, ao folhear um livro com assinaturas de várias personalidades nacionais, entre elas, Sara Tavares.

Histórias para ler e ouvir

Pedro Fonseca, dono da Chapelaria Azevedo (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

A conversa desenrola-se naturalmente, tal como aconteceu nas passadas sessões do programa Leituras – Conta-me Uma História, em que elementos do Teatro Nacional D. Maria II foram aos cafés, lojas e casas na vizinhança para ler textos do catálogo editorial do D. Maria II, e ouvir histórias e experiências da vida das pessoas. O projeto esteve inserido no programa Prólogo, que decorreu entre Junho e Julho com o objetivo de antecipar a reabertura do Teatro – marcada para 18 de Setembro –, procurando redescobrir o seu edifício e a sua envolvente.

“Com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e com a Unidade Local de Saúde (ULS) – que faz a referenciação de pessoas isoladas ou com questões relacionadas com a saúde mental –, e com a Universidade Sénior, fomos identificando as pessoas que íamos visitar”, começa por explicar Luís Sousa Ferreira, adjunto da direção artística do D. Maria II. “E fomos estabelecendo contacto com os lojistas, que têm histórias muito ricas para contar e memórias muito interessantes do território”

O processo de mapeamento começou em Janeiro deste ano e durou alguns meses, tendo o projeto visitado 19 vizinhos, ao longo de três sessões em julho. À semelhança da visita à Chapelaria Azevedo, em que Diogo Seno foi acompanhado por Léa López e Mariana Gomes, do departamento de mediação e projetos de continuidade, as sessões foram sempre conduzidas por um pequeno grupo que se havia voluntariado para participar no projeto.

Algumas visitas duraram cerca de duas horas, prolongando-se para lá do tempo inicialmente previsto. “As pessoas falaram sobre a sua relação com as artes; ouvimos memórias de quem ia ao teatro – ou de quem nunca lá foi –, e muitas histórias pessoais, de casamentos e perdas. As pessoas desabafam muito sobre terem perdido o marido ou a esposa…”, conta Luís. “Há uma necessidade enorme de conversar e um desejo de manter as relações. Por exemplo, havia voluntários que faziam o contacto inicial telefónico e depois as visitas eram feitas por outros colegas, mas estabelecia-se uma relação ao telefone, então as pessoas diziam: ‘nós queríamos muito conhecer a menina com quem falámos’. Em vez de irem só dois colegas, como era suposto, acabavam por ir mais”, continua.

Uma “ligação quase umbilical” com o comércio local

Entre vizinhos e comerciantes, houve quem também destacasse de que forma a vivência na Baixa tem mudado nos últimos anos e quem confessasse o desejo de ver reabrir o Teatro. “Com a degradação social do centro de Lisboa, as pessoas sentem que a zona é menos casa e que é mais um lugar de passagem, com pouca dinâmica de bairro e de menor pertença. O teatro é uma âncora para isso, porque cria outros ritmos e vira a atenção para o território, que é aquilo de que as pessoas sentem muita falta”, acredita Luís.

Nuno Gonçalves, gerente da Ginjinha Sem Rival, foi um desses comerciantes. “Nota-se uma quebra drástica na afluência de portugueses no pouco comércio local que existe na Baixa – somos menos a cada semana que passa –, porque não há motivo nenhum para cá virem”, lamenta o responsável do estabelecimento centenário. “Os portugueses só vão à Baixa quando há peças, concertos no Coliseu ou para ver as luzes de Natal – nesses casos a afluência aumenta muito. Há ainda aqueles acérrimos defensores da Baixa e quem trabalha nos restaurantes e hotéis, que também são cada vez menos portugueses.”

Pode não parecer, mas a casa dedicada à ginjinha, na Rua das Portas de Santo Antão, tem uma “ligação quase umbilical” com o D. Maria II, descreve o gerente. Em tempos, o restaurante que ficava no primeiro andar do prédio da Ginjinha Sem Rival, e que fechou em 1974, era paragem obrigatória de atores, que lá iam depois das peças. Aliás, o edifício, onde hoje funciona um hotel, pertenceu ao ator Vasco Santana.

“Sempre que havia peças no Nacional, antes ou depois, os atores, cenógrafos, produtores, encenadores e a equipa técnica, muitas vezes, iam lá beber um Eduardino ou uma ginja – faz parte do quotidiano da vivência original que ainda há na Baixa”, lembra Nuno, acrescentando que a direção do D. Maria II tem por hábito comprar a Ginjinha Sem Rival para oferecer às companhias que se apresentam na sala de espetáculos. 

E esta não é a única loja que tem uma relação de várias décadas com o Teatro Nacional. Na mesma rua, no número 32, encontramos a Ferragens Guedes, especializada em ferragens para móveis e batentes de portas. “Há 50 ou 60 anos, sei que fizemos muitas coisas para o D. Maria II, mas já não é do meu tempo”, recorda Gonçalo Abreu Lima, que está, desde 2020, à frente desta Loja Com História, onde vão tanto locais como estrangeiros a viver na cidade.

O responsável já esteve encarregue da reprodução de peças para igrejas, ou espaços como o Teatro Nacional São Carlos, o Teatro São Luiz ou o D. Maria II: “Tive todo o gosto de fazer algumas peças para lá: fiz umas coroas de louros e uma réplica de um dos brasões grandes que estão nas portas. Acho que também fiz entradas de chave.”

Gonçalo Abreu Lima (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Lojas podem ser palcos não convencionais

Quando era miúdo, Gonçalo foi algumas vezes às festas de Natal que eram organizadas no teatro. Lembra-se bem da sala, “que era uma coisa deslumbrante”. Hoje em dia, como mora no Estoril, é mais complicado lá ir, mas garante que as portas da Ferragens Guedes estão sempre abertas para acolher iniciativas como a Leituras – Conta-me Uma História. “Achei muita graça e é algo impecável. Por acaso, 15 dias antes, tinha sido abordado por um grupo de teatro que me pediu para fazer aqui uma ação. A certa altura, tinha 60 pessoas aqui dentro”, conta. E assegura: “A loja, independentemente de ser pequenina, tem todas as condições para apoiar estes projetos”.

Alexandra Guerreiro, proprietária da loja de artesanato Guerreiro e Silveira, que fica umas portas à frente, mostra-se igualmente satisfeita com a dinamização deste tipo de atividades culturais. “O Teatro esteve fechado em obras e isto é um bairro, por muito que não pareça, por isso promover a proximidade com os poucos bons comerciantes da rua é uma forma de nos relacionarmos, para manter a boa vizinhança e promover o trabalho deles”, acredita a artesã. “Ao pôr o Teatro cá fora, as pessoas vêem o que se está a passar e ficam curiosas – acaba por haver intercâmbios.”

Nuno Gonçalves, por exemplo, reconhece até que ações do género podem levar mais público à sala de espetáculos no Rossio: “Tudo o que possam fazer para envolver a pouca população que existe aqui é muito bem-vindo, porque as pessoas acham que o Nacional não é para elas e é para uma elite cultural, o que não é verdadeiro”, afirma o gerente da Ginjinha Sem Rival. “A Câmara de Lisboa e o D. Maria II sabem que podem sempre contar connosco para ações culturais e sociais. São sempre bem-vindos, só tenho pena que não haja mais”, lamenta.

Para já, as sessões do Leituras – Conta-me Uma História chegaram ao fim, mas, segundo Luís Sousa Ferreira, o projeto tem potencial para continuar no futuro. “Daqui podem surgir outros [projetos], mas este em concreto tem potencial para continuar, até porque há muitas histórias para contar e muitas pessoas a quem ainda não chegámos. É um público mais isolado, por isso temos de ir, pouco a pouco, descobrindo quem mora naquele prédio, naquele quinto andar, ir obtendo essa informação…É realmente muito importante.”

As portas do Teatro Nacional D. Maria II reabrem, finalmente, após três anos e meio de obras estruturais, financiadas pelo PRR (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Entre 18 e 20 de Setembro, a reabertura do Teatro Nacional D. Maria II conta com três dias de programação de entrada livre, que vai incluir a estreia de “Macbeth”, encenada por Pedro Penim, uma exposição dedicada aos 180 anos do Teatro, com curadoria de Paula Gomes Magalhães, a apresentação do coro do D. Maria II, e visitas guiadas aos renovados espaços do edifício.

Uma grande empreitada depois

As portas do Teatro Nacional D. Maria II reabrem, finalmente, após três anos e meio de obras estruturais, financiadas pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Neste primeiro grande projeto de intervenção no edifício desde aquele que terminou em 1978, na sequência do incêndio de 1964, várias zonas do edifício foram restauradas e renovadas, com destaque para a antiga sala de cenografia, onde ficam agora os escritórios.

A melhoria das condições de trabalho dos funcionários do Teatro – relacionadas com a climatização, o condicionamento acústico e a iluminação – foi o principal motor do projeto dirigido pelo arquiteto Francisco Pólvora. Os serviços do teatro, anteriormente dispersos em salas e escritórios improvisados em antigos corredores e outras áreas, passam a ocupar a antiga sala de cenografia – que chegou a ser usada como espaço de ensaios. Revestida a madeira, a sala, composta por um mezanino e um jardim de inverno, está luminosa e ampla.

No mesmo piso, as divisões e os três lanternins da sala de costura foram abertos. A mesa de corte de madeira original foi recuperada. No andar imediatamente inferior, onde está situada a Sala Estúdio, há um novo espaço de ensaios e uma galeria expositiva, que vai ser inaugurada em setembro com a exposição sobre os 180 anos do D. Maria II. Nesta zona passa a existir um nível que dá acesso às janelas em meia-lua, que permitem ver a Praça D. Pedro IV.

Na Sala Garrett, foi instalada iluminação LED e foram substituídos o sistema de climatização, bem como os tecidos dos assentos e a alcatifa. As paredes e o tecto foram pintados com as mesmas cores, mas em tons mais escuros, de forma a realçar os ornamentos dourados que percorrem o espaço. O imponente lustre é agora motorizado, tornando a sua manutenção mais prática e segura. Já os sistemas mecânicos da plataforma que faz girar o palco foram renovados, assegurando a sua fiabilidade e durabilidade, e permitindo uma paragem extra no subpalco. 

No átrio, onde fica a bilheteira, a livraria foi também renovada e está inteiramente revestida de estantes com quadrados em madeira escura, inspiradas no quadriculado com florões na zona do pórtico do teatro, que está virada para a Praça do Rossio. O Café Garrett ainda não estará aberto ao público, mas a sua renovação já está prevista.

As fachadas do edifício foram alvo de limpeza, e houve intervenções ao nível da acessibilidade, como a criação de corrimões e implementação de plataformas.

José Raposo entra em “MacBeth” (fotografia cortesia Humberto Mouco/D. Maria II)

D. Maria II reabre com três dias de entrada livre

O D. Maria II reabre as portas do seu edifício a 18 de Setembro, após uma profunda intervenção de requalificação e restauro que abrangeu diferentes áreas do Teatro Nacional. A Temporada 2026/2027 assinala este regresso com “Macbeth”, numa encenação de Pedro Penim, e com uma programação de três dias de entrada livre que inclui um espetáculo de videomapping, atuações de DJs, visitas ao edifício e diversas outras iniciativas. Ao longo da temporada, o D. Maria II apresenta espetáculos nacionais e internacionais, iniciativas para escolas e famílias, formações, exposições e actividades de mediação, no Rossio e em diferentes pontos do país.

Entre 18 e 20 de Setembro, o público é convidado a habitar novamente o edifício através de uma programação de entrada livre, aberta a toda a cidade, que inclui o espetáculo inaugural “Macbeth” (18 Set – 31 Out), de William Shakespeare, com encenação de Pedro Penim. No dia 18 de setembro, a praça do Rossio celebra a reabertura do D. Maria II com um programa que inclui um espetáculo de videomapping da United VJS, que percorre momentos marcantes da história da instituição, e atuações dos DJs ZenGxrl, Beatbombers e DJ Marfox. Nos dias 19 e 20 de Setembro, realizam-se visitas ao edifício, cujo percurso integra a exposição 180 anos do Teatro Nacional D. Maria II, com curadoria de Paula Gomes Magalhães. A programação inclui ainda, no dia 20 de Setembro, a apresentação do Coro do Recomeço, conduzido pela estrutura artística Ondamarela. 

Ainda em Setembro, Keli Freitas reinaugura a Sala Estúdio com um projecto participativo construído a partir das experiências de vida de pessoas imigrantes que vivem em Lisboa (23 – 27 Set). Em outubro, a Sala Estúdio recebe “Sumário: Auto da Barca do Inferno” (8 – 31 Out), espectáculo com direção artística de Raquel Castro, integrado no projeto Próxima Cena, iniciativa de circulação teatral em território nacional. Segue-se “Desver” (23 – 25 Out), de Joana Craveiro, que parte de uma investigação sobre a ocupação da Palestina.

Em novembro, Gonçalo Amorim e Marcio Abreu apresentam “Festa” (6 – 14 Nov), uma criação sobre liberdade, criação coletiva e resistência. O Alkantara Festival regressa ao D. Maria II com “Menos de Cão Solteiro & André Godinho” (13 – 15 Nov) e “Quando Vi o Mar” (27 – 28 Nov), de Ali Chahrour, espetáculo dedicado às trabalhadoras domésticas migrantes no Líbano. Ainda nesse mês estreia “A Cantora Careca” (26 Nov – 13 Dez), de Eugène Ionesco, com encenação de Beatriz Batarda. Em Dezembro, o Khashabi Theatre Palestine sobe ao palco com “Al-Sirah Al-Hilaliyyah” (3 – 4 Dez), inspirado numa das grandes epopeias da tradição oral árabe. O mesmo mês acolhe ainda “Suplicantes” (11 – 13 Dez), de Sara Barros Leitão, uma revisitação contemporânea do texto de Ésquilo.

“Reabrimos uma casa que celebra 180 anos. Uma casa que atravessou monarquias, repúblicas, ditaduras, revoluções, incêndios, reconstruções e transformações profundas do país. Poucas instituições culturais portuguesas conseguem olhar para trás e encontrar uma história tão longa”, disse Pedro Penim, director artístico do D. Maria II, no evento de apresentação da Temporada 2026/2027. “Mas uma instituição não vive da sua história. Vive da sua capacidade de transformar essa história em futuro. É isso que procuramos fazer nesta temporada.”

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