O último cinema de bairro da Linha de Cascais encerrou em 2024, mas vai ser comprado pela Câmara de Cascais. A autarquia garante a continuidade do Atlântida Cine como sala de cinema, respondendo a alguns receios da população de que o espaço pudesse mudar de função.

Em Maio de 2024, o Altântida Cine, em Carcavelos, anunciava um encerramento temporário “para férias e obras de melhoramento”. No entanto, a mais antiga sala de cinema da Linha de Cascais não voltou a abrir. Os frequentadores mais assíduos do espaço bem estranharam o fecho naquela altura do ano, já que a pausa costumava ser em Agosto, aproveitando a “época baixa do cinema”, com menos afluência às salas e menos filmes. Em Dezembro desse mesmo ano, ficava a saber-se que o Atlântida Cine estava para venda. “Não posso divulgar mais informações de momento, a não ser que está à venda”, dizia Alexandre Semedo, actual proprietário do espaço, ao jornal Público. “O cinema, em princípio, vai abrir, mas com outros donos.”
Sabe-se agora que o novo dono do Altântida Cine será a Câmara Municipal de Cascais, que, no passado dia 16 de Junho, em reunião de Executivo aprovou a aquisição do imóvel por unanimidade. A escritura ainda está pendente, devido a uma questão relacionada com a documentação necessária por parte da família de Alexandre Semedo, mas o Município garante que o cinema vai continuar a ser um cinema: “O cinema continuará a ser uma função central do espaço. Isso não impede que, quando não esteja a ser utilizado para programação cinematográfica, possa acolher outros usos culturais, designadamente como auditório, respondendo também a uma necessidade existente na freguesia”, indicou a autarquia à agência Lusa.
“Fãs” preocupados com futuro do cinema
“É falso que exista uma decisão ou intenção de transformar o espaço num auditório onde ocasionalmente seja projectado um filme.” Esta tomada de posição da Câmara de Cascais surgiu depois de preocupações expressas pela distribuidora de cinema independente Cinetoscópio e pela Comunidade de Fãs do Atlântida Cine quanto ao futuro da sala carcavelense. Em concreto, houve uma “Carta Aberta pelo Futuro do Atlântida Cine” que foi dirigida ao Presidente da Câmara de Cascais, Nuno Piteira Lopes (PSD).



“Até onde pudemos apurar, a intenção da Câmara não será manter o espaço como sala de cinema, mas transformá-lo num auditório polivalente, destinado a acolher eventos de natureza diversa”, escreviam os signatários, argumentando que “um auditório onde ocasionalmente se projecta um filme não substitui uma sala de cinema com programação regular e uma relação contínua com o seu público” e que, se isso acontecesse, “significaria, na prática, o fim do Atlântida Cine enquanto sala de cinema”.
“Durante muitos anos, o Atlântida Cine foi um importante ponto de referência para os amantes de cinema desta zona, distinguindo-se por uma programação de qualidade e diferenciada e reunindo um público fiel e receptivo. Todo este trabalho corre o risco de se perder definitivamente caso o Atlântida Cine não retome a sua atividade original: uma programação regular de cinema de qualidade, dirigida ao público do concelho de Cascais e não só”, podia ler-se na carta, citada pelo Observador. “Com base na nossa experiência, estamos convictos de que, através de um trabalho atento de programação e comunicação, o cinema poderia voltar a afirmar-se como uma sala de referência para toda esta zona, actualmente privada de uma oferta deste tipo”, escrevem ainda os signatários do documento.
Cada vez menos salas independentes

Fora da cidade de Lisboa – e também na capital –, as grandes salas de cinema, associadas a grandes chancelas como a NOS ou a UCI, têm ocupado o espaço que, noutros tempos, era mais dividido com salas independentes. Com o encerramento de vários espaços desse circuito mais alternativo, o circuito comercial é em muitos locais a única forma de aceder a cinema – não obstante da proliferação de plataformas de streaming como o Filmin, nos últimos anos. O Altântida Cine mantinha uma programação de cinema que se costuma ver habitualmente em espaços como o Cinema Ideal ou o Cinema Nimas, em Lisboa. O Atlântida era o último cinema de bairro da Linha de Cascais – hoje, as únicas salas de cinema nesta zona são dos Cinemas NOS do Oeiras Parque.
A Câmara de Cascais promete requalificar o Altântida Cine e regularizar situações actualmente não legalizadas, para criar condições de funcionamento “com qualidade e segurança”, conforme adiantou à agência Lusa. “O modelo concreto de funcionamento, programação e gestão ainda não está fechado. A Câmara já recebeu várias propostas, ideias e manifestações de interesse de agentes ligados à cultura e ao cinema e pretende também encontrar parceiros, preferencialmente locais, que possam, em conjunto com o Município, contribuir para assegurar a programação, gestão e operação do cinema.” Ou seja, o espaço vai ser de propriedade municipal mas será, provavelmente, concessionado a um privado.
Que poderia ser a Cinetoscópio. A Cinetoscópio, que se dedica à exibição e distribuição de cinema independente, e que programa o Cinema Fernando Lopes, em Lisboa, diz ter uma “proposta super concreta” para explorar o Altântida Cine, segundo adiantou um dos responsáveis ao Observador. Na carta aberta, é reiterado isso mesmo: que a Cinetoscópio “apresentou uma proposta que permitiria manter a atividade cinematográfica sem qualquer intervenção ou investimento público”, tendo estabelecido contactos com a Câmara “para avaliar possíveis formas de colaboração”, não tendo sido “dada a possibilidade de realizar uma reunião”, alegam os signatários da carta.
A resistência do Atlântida Cine

Entre 1963 e 2024, o Altântida Cine funcionou na cave do Centro Comercial de Carcavelos, uma galeria comercial antiga e de pequena dimensão, como muitas outras espalhadas pelo país e que ainda resistem com pequenos comércios. Fica numa zona central de Carcavelos, junto à estação de comboios. Foi o último cinema a resistir na Linha de Cascais. Como recorda o jornal Público, Carcavelos teve até 2017 uma outra sala, o Vitória Cine, que acabou por ser transformado num ginásio antes de ser demolido para no seu lugar ser construído o Criarte, uma sala cultural polivalente da Câmara de Cascais.
A resistência do Altântida Cine deveu-se à perseverança do seu fundador, Fausto Semedo, como detalha o Público, escrevendo que Semedo deixou Moçambique para vir abrir o Atlântida em Carcavelos, expandindo-no, no início dos anos 1990, com mais uma sala, passando a ter duas. O jornal escreve que a programação juntava apostas seguras de bilheteiras com uma selecção de filmes cuidada e que não se encontravam noutras salas; e que as sessões eram precedidas por Nat King Cole, Ella Fitzgerald e outras vozes do jazz, o que surpreendia e entusiasmava principalmente todos os que descobriam aquele cinema pela primeira vez: novas gerações, estrangeiros recém-aportados e carcavelenses que nunca lá tinham posto os pés.
Num pequeno vídeo publicado em 2022 pela União das Freguesias de Carcavelos e Parede, Fausto Semedo dava conta do sucesso do Altântida. “A maioria das salas fecharam e este cinema tem-se mantido graças à fórmula de funcionar das nossas salas: a qualidade, em termos de som e projeção, e o atendimento das pessoas. É uma forma de estar completamente diferente das outras salas de cinema”, dizia, sublinhando que “toda a gente em Carcavelos conhece a nossa sala” mas que, ainda assim, gostava de ter mais público.
A Natureza do Amor, de Monia Chokri, e Ainda Temos o Amanhã, de Paola Cortellesi, foram os últimos filmes a passar pelo Atlântida Cine. Depois de 41 anos, a família Semedo decidiu não prosseguir a atividade.

Em resposta ao encerramento do espaço, nasceu a Comunidade de Fãs do Atlântida Cine, que tem não só mobilizado pessoas interessadas no futuro da sala e preservação da sua actividade – e, claro, também das memórias –, mas promovido a exibição informal de filmes todos os meses. O projecto chama-se “Cinema No Bairro” e tem sido promovido em parceria com a Associação de Moradores do Bairro das Caixas. A ideia é manter vivo o cinema em Carcavelos e, em particular, manter acesa a chama do Atlântida Cine.
“As sessões têm tido uma adesão muito significativa, tendo a última sido realizada no salão da SMUP e reunido cerca de 100 pessoas. Esta mobilização é uma demonstração concreta de que o Atlântida Cine faz falta e de que existe uma comunidade local interessada em voltar a ter um cinema com uma programação regular e diferenciada”, descrevem na carta aberta.

Câmara está a comprar a sala
A Câmara Municipal de Cascais está a adquirir o cinema, incluindo todo o seu mobiliário e equipamento de projecção, por 600 mil euros. Uma proposta muito acima dos 200 mil euros que a distribuidora Cinetoscópio tinha oferecido ainda em 2024, com o objetivo de assumir a exploração da actividade, a modernizar e melhorar o espaço, e a reabrir-lo ainda em Setembro desse ano, como detalhou recentemente o Observador. O mesmo jornal tinha, em Janeiro deste ano, falado com Alexandre Semedo, 56 anos, um dos filhos do proprietário e fundador do Atlântida, que explicou que a decisão de encerrar o espaço prendeu-se com o falecimento do pai no início de 2025: “Quando o meu pai faleceu, a minha família decidiu vender o cinema.”
Lamentou o cinema continuar fechado e disse acreditar na viabilidade do mesmo. “É muito triste que o cinema esteja fechado e seria muito positivo para Carcavelos que o cinema estivesse a funcionar”, disse ao Observador em Janeiro, falando já da intenção da autarquia de comprar o espaço. “A viabilidade económica do cinema está em perigo se demorarem muito tempo, porque as pessoas estavam habituadas a ir àquele cinema.”
Carta Aberta pelo Futuro do Atlântida Cine
Aproveitamos este contacto para manifestar publicamente a nossa preocupação relativamente ao futuro de um importante polo cultural situado no concelho de Cascais, o Atlântida Cine, em Carcavelos.
Este cinema foi, durante muitos anos, um importante ponto de referência para os amantes de cinema desta zona, defendendo ao longo do tempo uma programação de qualidade e reunindo um público fiel e muito recetivo.
Todo este trabalho corre o risco de se perder definitivamente se o Atlântida Cine não retomar rapidamente a sua atividade original, ou seja, a programação regular de cinema de qualidade para o público do concelho de Cascais e não só.
Em maio de 2024, por ocasião do encerramento da sala, a Cinetoscópio entrou em contacto com a família Semedo, proprietária do espaço, com o objetivo de assumir a exploração da atividade.
Chegou-se rapidamente a um acordo e chegou mesmo a ser elaborado um contrato para reabrir o cinema em setembro de 2024.
A família Semedo acolheu positivamente a nossa proposta, uma vez que seria mantida a ideia inicial de programação e garantido um investimento no imóvel de cerca de 200.000 €, destinado a melhorar e modernizar o serviço.
Este processo foi entretanto repentinamente interrompido quando a Câmara Municipal de Cascais demonstrou interesse na possível aquisição do imóvel. A família Semedo decidiu, assim, colocar a nossa proposta em espera, aguardando a concretização da proposta da Câmara.
Estamos agora em agosto de 2026, a situação continua por esclarecer e a sala permanece inutilmente encerrada há dois anos, com uma gravíssima perda na oferta cultural disponibilizada aos cidadãos e com o risco de que o público conquistado ao longo de anos de atividade seja definitivamente perdido.
Até onde pudemos apurar, a intenção da Câmara não será manter este espaço como sala de cinema, mas transformá-lo num auditório polivalente, destinado a acolher eventos de natureza diversa.
Estamos convencidos que esta alteração de atividade significaria, na prática, o fim desta histórica sala de cinema, que passaria, no máximo, a funcionar como um espaço para um cineclube, perdendo definitivamente a sua identidade.
Precisamente numa altura em que o Ministério da Cultura, por iniciativa da Ministra Margarida Balseiro Lopes, debate publicamente formas de travar o crescente número de salas de cinema que estão a encerrar em todo o território nacional, parece-nos absurdo perder a oportunidade de manter viva uma das últimas salas dedicadas ao cinema de autor em Portugal.
Importa recordar que o Atlântida Cine não encerrou por falta de público, mas na sequência de uma decisão da família Semedo de não prosseguir a atividade.
Com base na nossa experiência, estamos convictos de que este cinema, através de um trabalho atento de programação e comunicação, poderia voltar a tornar-se uma sala de grande atração para toda esta zona, atualmente completamente privada de uma oferta cinematográfica deste tipo.
Sucessos de público como o Cinema Nimas em Lisboa e o Cinema Trinidade no Porto, demonstram como propostas deste cariz podem ter viabilidade financeira e impacto local.
A Cinetoscópio apresentou uma proposta que, sem qualquer intervenção ou investimento público, teria permitido à sala prosseguir a sua atividade.
Tentámos também estabelecer contacto com os serviços da Câmara Municipal para avaliar possíveis formas de colaboração, mas nunca nos foi dada a possibilidade de realizar uma reunião.
Em consonância com as orientações do Ministério da Cultura e do Instituto do Cinema e do Audiovisual, defendemos, juntamente com muitos cidadãos do concelho, que o Atlântida Cine deve manter integralmente a sua atividade cinematográfica e não ser transformado num auditório onde, ocasionalmente, seja projetado um filme.
Solicitamos, por isso, que a Câmara Municipal de Cascais possa clarificar a sua posição e as suas intenções relativamente ao futuro do Atlântida Cine.
Na expectativa de obter essa clarificação, subscrevemo-nos com os melhores cumprimentos.










