Um ano depois da tragédia, há uma visão de futuro apresentada para o Ascensor da Glória, mas os restantes ascensores e elevadores da cidade continuam parados, sem data de reabertura. A Carris publicou uma cronologia com tudo o que tem feito desde o acidente para preparar o regresso destes equipamentos históricos.

Resumo IA
- No dia 3 de Setembro de 2025, um descarrilamento do Elevador da Glória resultou em 16 mortes, levando à paralisação dos elevadores históricos da cidade.
- A Carris planeia um novo Elevador da Glória, que deverá ser modernizado e operar até 2029, mantendo a sua identidade histórica.
- Um concurso público internacional para a construção do novo elevador será lançado até 2027, mas ainda não há datas precisas para a reabertura dos outros elevadores.
- O futuro elevador terá tecnologia avançada e irá incorporar medidas de segurança, visando oferecer uma experiência acessível e confortável aos passageiros.
- Um memorial em homenagem às vítimas do acidente será instalado no Largo da Oliveirinha como parte da requalificação da Calçada da Glória.
3 de Setembro de 2025. 16 pessoas morreram na sequência de um descarrilamento trágico do Elevador da Glória, depois de um cabo que sustentava o histórico equipamento se ter soltado. As causas do acidente ainda não estão totalmente apuradas, mas enquanto esse trabalho é feito através das investigações em curso – e enquanto, também, decorrem todos os procedimentos com as vítimas do sinistro –, os elevadores da cidade têm estado parados. Santa Justa, Lavra, Bica e, claro, o Ascensor da Glória, que ficou parcialmente destruído, continuam encerrados.
Decorrido quase um ano da tragédia, a Carris ainda não tem datas fechadas para a reabertura destes equipamentos históricos, mas, numa conferência de imprensa nesta segunda-feira, 31 de Agosto, adiantou a sua visão de futuro para a Glória: como já se sabia, a cidade de Lisboa vai ter um novo Elevador da Glória que se espera que entre em operação em 2029.

Novo Elevador da Glória em 2029, espera a Carris
“O novo equipamento deverá preservar a identidade e ser reconhecível como da Glória, não tendo necessariamente de reproduzir artificialmente uma antiguidade que não possui”, adiantou Rui Lopo, Presidente da Carris, durante a conferência de imprensa, explicando que o novo elevador resultará de “um processo de ampla reflexão”. “O dia de hoje marca a passagem deste processo de reflexão para uma fase em que vamos pegar nisto e consolidar enquanto uma solução”, completou Luís Gonçalves, que está a coordenar dentro da Carris o projecto do futuro Elevador da Glória.

A Carris prevê lançar “até ao final do primeiro trimestre de 2027” um concurso público internacional de concepção-construção do novo equipamento. Isto significa que a empresa que ganhar esse concurso será responsável por desenvolver o projecto final do Elevador da Glória e por construir o equipamento. A expectativa da Carris é que esse ascensor seja uma realidade “até ao ano de 2029”, uma data que “está sempre sujeita a vicissitudes”, seja por impugnações ou recursos dentro do processo do concurso público que podem atrasar a adjudicação de obras, seja pela descoberta de achados arqueológicos – “estamos a trabalhar numa área de elevada sensibilidade arqueológica e, às vezes, há surpresas”, detalho Luís.
Para o lançamento do concurso público, a Carris vai definir nos próximos cinco meses os projectos de arquitectura e engenharia de forma a construir o caderno de encargo com todas as peças necessárias a esse procedimento. Por agora, nesta conferência de imprensa, foi apresentada apenas a visão geral, de futuro, para aquele equipamento. No entanto, a Carris recusou-se a partilhar, publicamente ou com jornalistas, o documento que suportou a apresentação realizada nesta segunda-feira.


A Carris quer que o novo Elevador da Glória seja um equipamento moderno que incorpore a identidade do antigo ascensor e da própria Carris, mas também que “incorpore os mais elevados padrões de segurança”, “recorrendo às melhores práticas internacionais e à melhor tecnologia disponível”, explicou Rui Lopo. “O novo Ascensor da Glória deverá proporcionar uma experiência segura, acessível, confortável, e adequada aos diferentes perfis de passageiros”, adicionou o Presidente da empresa.
Pela descrição apresentada, o novo Elevador da Glória deverá ser idêntico ao Funicular da Graça, inaugurado em 2024, no que à tecnologia e modernidade diz respeito: tecnologicamente avançado, uma cabine de linhas modernas mas que integra as cores da Carris e alguns elementos de design mais conservador, acessível a pessoas com mobilidade condicionada, bem integrado na envolvente e com espaços confortáveis de espera. “Ao longo dos últimos meses tornou-se evidente que nós estávamos perante uma situação simples de reparação ou de reposição de um equipamento existente. O acidente provocou alterações significativas nos activos que compõem o conjunto do Ascensor da Glória. A cabine 1 ficou praticamente destruída, a cabine 2 também amplamente danificada”, disse Rui Lopo.
Duas cabines ligadas por cabo

Numa página web com informação do projecto e um ponto de situação dos elevadores históricos, disponível em equipamentos-historicos.carris.pt, a Carris explica que o futuro Ascensor continuará a ter duas cabines ligadas por cabo porque “é essa a solução que (…) validou junto de especialistas como sendo aplicável ao caso da Calçada da Glória e aquela que considera continuar a ser a melhor para este sistema”; e vai ter um sistema de detecção de “pessoas, veículos, objectos ou outras situações de intrusão no espaço canal”, estando a ser avaliadas tecnologias como sensores LiDAR, de detecção por luz, videovigilância com análise inteligente de imagem ou sensores de proximidade.
O futuro Elevador continuará a ter um guarda-freio na condução, pelo que estes sistemas tecnológicos “deverão articular-se com a supervisão e o comando do Ascensor, permitindo alertar o guarda-freio e, sempre que a análise de risco e a arquitetura de segurança o determinem, impedir o arranque, reduzir a velocidade ou imobilizar o equipamento perante uma situação de perigo”.
Ainda há muitos aspectos que não estão definidos, como a lotação das cabines, sendo que a Carris divulgou, durante a cerimónia, uma imagem produzida com a ajuda de Inteligência Artificial para dar uma ideia ilustrada de como poderá ser o futuro equipamento. Certo é que a antes da entrada em funcionamento, o novo Elevador da Glória “será sujeito a rigorosas análises de risco e ensaios”, e a segurança da solução a ser implementada “será aplicada de forma integrada a todos os componentes (cabines, infraestrutura, tração) e garantida ao longo de todo o ciclo de vida do equipamento”.
“O novo Ascensor será dotado de uma arquitectura tecnológica avançada, com recurso a sistemas de monitorização em tempo real (como IoT e análise estrutural), para avaliar continuamente o estado dos seus componentes. Esta supervisão inteligente e centralizada permitirá detetar anomalias de forma precoce, optimizando a manutenção preventiva e a gestão de riscos”, diz a Carris, garantindo que a Glória “cumprirá integralmente a regulamentação nacional e europeia, bem como todas as certificações aplicáveis por entidades notificadas para cada um dos subsistemas do Ascensor”.

Rui Lopo deixou a garantia de que “não pode nem quer apagar a dimensão humana, nem diminuir o dever de memória ou respeito e responsabilidade institucional que a Carris assume e continuará a assumir em torno daquilo que aconteceu”. “Ao longo deste processo, fomos confrontados com uma questão absolutamente fundamental: como responder a uma ocorrência desta dimensão de forma absolutamente responsável. E a resposta, como é evidente, não pode ser ou não poderia ser ignorar o passado, mas também não poderia ser regressar exatamente ao ponto onde ficámos. A resposta tem que passar por aprender e incorporar todo esse conhecimento para construir uma solução mais segura, justa e preparada para o futuro”, disse o Presidente da Carris.
Lopo não quis avançar estimativas de qual o custo do futuro Ascensor da Glória. Na tal página web, a Carris adianta que “o modelo de financiamento ainda não está fechado e será definido em articulação com o Município de Lisboa”, e que se trata de “um equipamento com geração de receita de exploração que permite, numa perspetiva de longo prazo, amortizar o investimento a realizar”. Recorde-se que o Ascensor da Glória foi sempre uma atracção turística, além de servir a mobilidade da cidade.
“Aquilo que nós sabemos é que este ascensor tem muita procura e, portanto, não teremos dificuldade a encontrar as soluções que sejam financeiramente sustentáveis para o desenvolvimento da solução”, completou Gonçalo Reis, Vice-Presidente da Câmara de Lisboa, aos jornalistas. “O valor em concreto do custo depende da solução técnica definitiva que vier a ser desenvolvida.”
Requalificar o espaço público

O novo Elevador vai ser acompanhado por uma intervenção no espaço público da Calçada da Glória, quer à superfície quer no subsolo, uma vez que a Calçada faz parte integrante da infraestrutura do equipamento. O projecto vai, por isso, considerar o sistema de transporte e o espaço público de forma integrada, procurando compatibilizar a operação do Ascensor com a identidade e a vivência urbana da Calçada da Glória. Neste aspecto, estão a ser consideradas soluções de protecção do canal do equipamento, mantendo a circulação pedonal.
“Para esta compatibilização, deverá recorrer-se à modelação e simulação dos fluxos pedonais e dos diferentes cenários de utilização da Calçada, de modo a avaliar atravessamentos, zonas de espera, acessos, situações de maior concentração e condições de evacuação”, indica a empresa municipal. O intuito da Carris é que não só o Elevador como a própria Calçada sejam acessíveis a todas as pessoas, incluindo pessoas com mobilidade condicionada, o que exigirá alterações também no espaço público, em particular no embarque e desembarque do equipamento.
Quanto ao antigo Elevador da Glória – em particular à cabine 2 que foi a única a não ficar destruída no acidente – a Carris diz que será transformado em peça de museu, de forma a valorizar esse património histórico. Leonor Medeiros, que está a prestar assessoria técnica em matéria de património histórico e cultural, disse, na conferência de imprensa desta segunda-feira, que “um sistema histórico que continua em funcionamento é um património vivo, que foi sendo reparado e ajustado ao longo de todo o seu tempo, e continuará necessariamente a sê-lo”.
No fundo, “preservar não significa nunca impedir a mudança” e o seu maior desafio enquanto especialista é “garantir que essa transformação é informada”. “Reconstruir aqui não vai significar esquecer, é reconhecer as perdas que tivemos, conservar o que sobreviveu e acrescentar, com toda a responsabilidade, esta nova camada de história”, referiu Leonor Medeiros. “Queremos que o Ascensor da Glória continue vivo na cidade, seguro, acessível, funcional, mas que continue reconhecível na sua identidade”, concluiu a professora de história da NOVA FCSH.
Leonor Medeiros integra a equipa contratada pela Carris para desenvolver o projecto preliminar do novo Elevador da Glória, que será apresentado no concurso público para que a empresa vencedora deste procedimento aprofunde o trabalho e conceba o equipamento. Essa equipa integra também o engenheiro Rui Furtado e é liderada pelo arquitecto Ricardo Bak Gordon, “um dos grandes arquitectos da nossa atualidade”, elogiou o Vice-Presidente da Câmara de Lisboa, Gonçalo Reis, na cerimónia.
“Nós temos, como cidade, que qualificar o nosso espaço público e a nossa mobilidade e isso faz-se trabalhando com o melhor talento, com a melhor criatividade e com a melhor imaginação nacional”, referiu o autarca, sublinhando que o novo Elevador vai servir para requalificar a Calçada. “As boas intervenções de mobilidade são aquelas que melhoram o espaço público, e as boas intervenções de espaço público são aquelas que têm uma componente de mobilidade e da acessibilidade funcional“, acrescentou Gonçalo Reis.

Para Ricardo Bak Gordon, “não há dúvida de que estes grandes acidentes são também oportunidades de olharmos para o futuro”. “Se não tivesse acontecido este acidente, triste e lamentável, não estaríamos hoje a olhar para a possibilidade de implementar um meio mais moderno e mais seguro, e também com um olhar crítico sobre o próprio lugar urbano”, referiu o arquitecto dando como o exemplo o plano de Siza Vieira que surgiu depois do também trágico Incêndio do Chiado, em que o conceituado arquitecto impulsionou “uma mudança muito substancial” naquela zona da cidade, criando pátios interiores no meio dos quarteirões pombalinos que permitiram “uma visão e experiência complemente nova do Chiado” ou abrindo o Metro para a Rua do Crucifixo, o que que “operou uma transformação urbana numa rua que nós sabemos que estava mais ou menos secundarizada e que passou a ser central”.
“Não tenho dúvida que esta tragédia do dia 3 de Setembro tem de ser uma oportunidade para uma revisão crítica deste lugar, com todas as condicionantes e todas as potencialidades que ele também encerra”, disse Gordon. Apresentando as linhas gerais da intervenção que já foram sendo referidas ao longo deste texto, o arquitecto sublinhou o espaço que a água pode ter no futuro projecto. “Nós temos no início da Calçada da Glória o Chafariz da Glória, aberto à cidade dois anos depois da inauguração do Aqueduto das Águas Livres, muito antes de se imaginar que ali haveria um dia um meio mecânico a ligar a cidade baixa com a cidade alta”, destacou.
“E esse chafariz está lá, esquecido, desactivado, pouco posto em evidência, e eu julgo que esse é um dos elementos mais interessantes da atmosfera urbana que nós temos garantidamente de reabilitar”, disse Ricardo Bak Gordon, explicando que o chafariz pode voltar a ter água com um sistema de água reciclada.
Gonçalo Reis considera que a visão de futuro para o Ascensor da Glória que a Carris apresentou é “uma resposta muito profissional, muito competente, muito abrangente, muito completa”, e que responde aos pedidos que a Câmara de Lisboa, enquanto accionista da transportadora. “Uma solução tecnicamente robusta, que compatibilize mobilidade com qualificação do espaço público, que seja moderna mas que valorize a identidade histórica do equipamento, e um processo de contratação e de concurso absolutamente exemplar”, referiu o Vice-Presidente da Câmara de Lisboa.
Novo largo e memorial


Não obstante da requalificação futura da Calçada da Glória, a Câmara de Lisboa tem estado a executar trabalhos de manutenção e melhoria deste lugar, em particular na requalificação do Largo da Oliveirinha – uma área que servia de estacionamento informal de automóveis e que passará a ser um largo pedonal, com árvores, bancos e outras zonas de estadia. Naquele espaço será depois construído um memorial às vítimas da tragédia.



“Para além da reorganização funcional e qualificação do espaço público, a presente intervenção articula-se com a implementação de dois elementos de elevado valor simbólico e cultural, que se irão constituir como intervenções autónomas à da presente empreitada“, indica a Câmara de Lisboa na memória descritiva associada à requalificação do Largo da Oliveirinha.
“A primeira corresponde à criação de um memorial em homenagem às vítimas do acidente do Elevador da Glória, concebido como espaço de recolhimento, memória e permanência, reforçando o carácter humano do lugar e a responsabilidade coletiva da cidade. Embora fisicamente integrado no largo, o memorial será desenvolvido e executado como operação independente, articulada com a solução espacial proposta. A segunda intervenção autónoma refere-se à instalação de um mural de arte urbana comemorativo dos 140 anos da Carris“, que “reforçará a identidade cultural da Calçada da Glória” – pode ler-se no documento.
Sem data para os outros elevadores

O Elevador da Glória é o único que tem, para já, uma solução conhecida. Apesar de o elevador do Lavra ser em tudo parecido com o equipamento acidentado, a Carris não se compromete com datas nem soluções. Nem para o Lavra, nem para a Bica, nem para Santa Justa. “De momento, não existe uma data fechada para a reabertura da totalidade dos equipamentos”, explica a Carris na página web extensa e informativa que lançou, no final de Agosto, com o ponto de situação dos elevadores e ascensores sob sua tutela e que está em permanente actualização.
“Na sequência do acidente de 3 de setembro de 2025, todos os equipamentos foram suspensos preventivamente e permanecem inoperacionais até que estejam reunidas e validadas as condições necessárias à sua reabertura em segurança e em conformidade. A única exceção é o Funicular da Graça, que foi reaberto ao público a 30 de Abril de 2026, após a validação de todas as condições aplicáveis.”
Na verdade, o Funicular da Graça beneficia de um estatuto diferente pelo facto de ter sido inaugurado apenas em 2024 – uma obra da EMEL que passou, entretanto, para a Carris. Ao contrário de todos os outros elevadores, trata-se, por isso, de um equipamento moderno, pelo que foi possível antecipar a sua reabertura com confiança. “Relativamente aos restantes equipamentos, a sua devolução à cidade ocorrerá com a brevidade possível, mas prosseguem os trabalhos de avaliação e adaptação, que estão dependentes das validações da Comissão Técnica Independente (CTI)”, indica a Carris. “A evolução deste processo de reabertura poderá ser ajustada em função da redefinição do âmbito de intervenção da CTI, de eventuais novos requisitos técnicos ou regulatórios, e das avaliações em curso, sem que isso signifique necessariamente a existência de novos problemas.”

Esta Comissão Técnica Independente (CTI) é composta por representantes da Ordem dos Engenheiros, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), do Instituto Superior Técnico, da Câmara Municipal de Lisboa (CML), da EMEL e da Carris, tendo como foco a reabertura dos quatro elevadores históricos da cidade. Segundo a Carris, a CTI “reúne com uma regularidade determinada e tem vindo a pronunciar-se, de forma sequencial, sobre as condições de reabertura de cada um dos equipamentos”, sendo responsável pela “auditoria, monitorização e validação técnica e científica das inspeções que estão a ser desenvolvidas” nos elevadores, bem como por “desenvolver ou promover o desenvolvimento dos estudos técnicos e científicos necessários à concepção de um novo modelo e de um sistema inovador, tecnica e tecnologicamente actualizado, para a substituição do Ascensor da Glória”.
Questionado pelos jornalistas após a conferência de imprensa desta segunda-feira, Rui Lopo disse apenas que os restantes elevadores “estão a ser avaliados” e respondeu vagamente à perguntas, escudando-se em expressões como “circunstâncias técnicas” e dizendo que há “avaliação técnica rigorosa, de grande detalhe, de grande cuidado” que ainda precisa de ser feita. A comunicação social chegou a avançar, recentemente, que o Elevador de Santa Justa poderia reabrir já no início do próximo ano, mas o Lopo não confirmou essa informação, tendo dito apenas que a avaliação da segurança desse equipamento “está mais avançada do que no Lavra, mas vai demorar”. “Não há fornecedores destas coisas, assim como nós compramos peças para os nossos automóveis. Portanto, até do lado do fornecimento de equipamentos e de sistemas de segurança, o tempo é demoradíssimo.”

O jornal Nascer do Sol e a estação televisiva CNN Portugal escreviam, a 28 de Agosto, que o Elevador de Santa Justa seria o único com continuidade garantida nos moldes actuais, estando prevista a reabertura em Janeiro com cabo novo e a devida avaliação de segurança e certificação realizadas. A reabertura do Elevador do Lavra seguir-se-ia, sendo que, tal como na Glória, seria um equipamento totalmente novo. As antigas composições do Lavra também seriam transformadas em peças de museu. Já o Elevador da Bica, diferente dos restantes, deveria manter-se com o sistema actual mas com alguns reforços de segurança.
Mas nem Rui Lopo, nem a comunicação da Carris confirmaram, nesta segunda-feira, qualquer plano para estes elevadores. O mais estranho é mesmo haver solução para a Glória e não para o Lavra, já que os dois equipamentos são idênticos e cumprem uma função complementar: um ajuda a vencer a colina de um lado dos Restauradores (acesso ao Miradouro de São Pedro de Alcântara), e o outro do outro lado dos Restauradores (acesso ao Campo Mártires da Pátria).
Qual o ponto de situação?

“Nenhum dos equipamentos será reaberto sem o cumprimento integral das recomendações condicionantes à reabertura, pelo que assim se salvaguarda o integral cumprimento do normativo em vigor”, assegura a Carris, cujo papel na CTI consiste em prestar toda a documentação necessária, acompanhar as visitas no terreno com técnicos credenciados, fazer a ponte com as empresas de manutenção e prestar suporte financeiro de que esta comissão precisa. Além de preparar e coordenar a reabertura dos elevadores e ascensores históricos de Lisboa, a Comissão Técnica Independente está a trabalhar na “melhoria contínua dos processos operacionais, das condições de trabalho e das práticas de segurança” de toda a Carris, bem como na modernização e digitalização dos processos de manutenção da empresa municipal.
Este trabalho de revisão transversal dos processos internos está a ser realizado não só no seio da CTI, mas também com “entidades externas especializadas e independentes”, explica a Carris, detalhando que encomendou uma auditoria externa “aos processos de manutenção do modo eléctrico, com particular enfoque na fiabilidade e segurança da operação”, e que está a trabalhar paralelamente em “reforçar os processos de aquisição e gestão de materiais, incluindo a sua classificação, rastreabilidade e validação técnica”.
Todo este trabalho está documentado na extensa página web que a Carris lançou no final de Agosto. Nesse site, é possível consultar que o investimento realizado pela empresa tutelada pela CML foi superior a 1,3 milhões de euros desde a tragédia de 3 de Setembro de 2025, sendo a maior parcela para serviços relacionados com a manutenção e reabertura dos equipamentos, e tendo o restante montante sido despendido em auditorias e melhorias de processos internos, bem como em serviços relacionados com a investigação em curso. Ao todo estão 32 entidades envolvidas neste complexo trabalho.




A página apresenta uma linha temporal para cada equipamento, permitindo consultar o que tem sido feito em relação a cada elevador, e há uma secção de perguntas frequentes com uma série de esclarecimentos da Carris, não só sobre o futuro dos elevadores, mas também sobre as vítimas e a sua memória, as indemnizações, o acidente e a investigação que está a ser realizada.
A tragédia com o Elevador da Glória aconteceu pelas 18 horas de 3 de Setembro de 2025, quando a cabine 1 deste equipamento descarrilou e colidiu com um poste e com a parede de de um edifício na Calçada da Glória. 16 dos 27 passageiros que viajavam nessa cabine morreram. Já a cabine 2 desceu cerca de sete metros até embater no passeio, não tendo havido vítimas mortais resultantes deste pequeno embate. O guarda-freio activou o comando de tração, o freio pneumático e o freio manual às rodas, mas estas acções não foram suficientes evitar a tragédia; e André Marques, o profissional que faleceu aos comandos do Elevador da Glória, acabou por falecer no acidente – o seu nome foi atribuído ao eléctrico nº 601 que circula diariamente na linha 15E.
O acidente está a ser investigado pelo Ministério Público e pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), tendo esta última entidade publicado já dois relatórios preliminares. Cabe ao Ministério Público o apuramento de culpas ou responsabilidades, enquanto que o GPIAAF está a conduzir a investigação técnica de segurança, orientada para prevenir futuros acidentes.
O primeiro relatório preliminar do GPIAAF, divulgado a 20 de Outubro de 2025, apontou que o cabo que se rompeu não estava certificado para transporte de passageiros, identificando falhas na aquisição, manutenção e supervisão do sistema. O segundo relatório detalhou o cabo e a sua amarração, revelando uma força de ruptura muito superior à exigida e questionando a margem de segurança do sistema. O relatório final, que deveria ter sido publicado um ano após o acidente – ou seja, por esta altura – foi entretanto adiado para o final do primeiro trimestre de 2027, devido à complexidade das perícias técnicas.
A Carris tem em curso uma investigação interna, através da sua Comissão de Inquérito de Acidente Grave (CIAG), que “procura apurar circunstâncias, informar o Conselho de Administração e propor medidas preventivas”, segundo a empresa. A Carris admite que a sua CIAG “tem uma margem de actuação limitada” uma vez que “não pode aceder aos elementos que estão à guarda do Ministério Público”, mas diz que “o facto de a CIAG não possuir conclusões fechadas não impede a CARRIS de actuar perante alguns elementos já conhecidos nos relatórios intercalares do GPIAAF”, estando a “responder com medidas de reforço e correção às quatro recomendações formuladas por aquela entidade”. “A título de exemplo, foi neste enquadramento e após diversas outras iniciativas, que o Funicular da Graça foi reaberto”, nota.

Quanto à parte criminal, a previsão do Ministério Público é avançar com a acusação até ao final deste ano, imputando a várias pessoas o crime de violação das regras de segurança, agravado pelo resultado morte, como avançou o jornal Público a 28 de Agosto. Segundo o jornal, o ex-director de Manutenção do Modo Eléctrico da Carris, Filipe Fraga, e Gustavo Pita Soares, sócio-gerente da empresa externa que, desde 2019, assegurava a manutenção dos elevadores históricos de Lisboa, a MNTC, foram constituídos arguidos no processo que apura responsabilidades criminais no acidente da Glória.
Relativamente aos processos de indemnização em curso, estes estão a ser geridos pela Fidelidade, seguradora a quem a Carris participou o acidente. Num balanço feito no final de Agosto, a Fidelidade disse que foram alcançados acordos indemnizatórios com as famílias de quatro das 16 vítimas mortais. Há sete processos em negociação, um que segue os trâmites judiciais após não ter sido possível alcançar acordo quanto à proposta apresentada, e um processo em sede de acidentes de trabalho (relativo ao guarda-freio da Carris). E há três casos em que ainda não foi possível apresentar uma proposta indemnizatória definitiva, devido à necessidade de obtenção de documentação indispensável e das especificidades legais dos países envolvidos, diz a seguradora.
“A Carris e a Câmara Municipal de Lisboa têm feito tudo, tudo, tudo para ir de encontro às vítimas, às familiares das vítimas, disponibilizando apoio médico, apoio psicológico, apoio social, contactando as embaixadas nos casos em que são estrangeiros, contactando os familiares e, portanto, esse trabalho que tem vindo a ser feito vai continuar a ser feito”, garantiu Gonçalo Reis aos jornalistas, quando questionado sobre uma aparente demora nas indemnizações.
A Carris promete continuar a manter a população informada na página web disponível em equipamentos-historicos.carris.pt.











