A Câmara de Lisboa inaugurou ontem, no Largo da Oliveirinha, junto à Calçada da Glória, um memorial permanente às 16 vítimas mortais do descarrilamento, um ano após o acidente. No local, são visíveis outras homenagens mais efémeras, como ramos de flores e um poema.

O Largo da Oliveirinha, um pequeno largo que passava despercebido a todos os que passavam na Calçada da Glória, foi requalificado pela Câmara de Lisboa, passando, neste dia 3 de Setembro de 2026, a erguer um memorial às vítimas da tragédia do Elevador da Glória. Em torno de uma pequena mas centenária oliveira, 16 blocos gravam os nomes das 16 vítimas mortais do triste descarrilamento que aconteceu há precisamente um ano. “Um local de homenagem, memória e reflexão colectiva”, refere a Câmara Municipal de Lisboa (CML) numa nota enviada às redacções.
“O memorial pretende afirmar-se como um espaço de recolhimento, passando a reforçar simultaneamente a dimensão simbólica daquele lugar”, acrescenta a autarquia. O memorial desenvolve-se a partir de uma composição circular organizada em torno de uma oliveira adulta com 150 anos, elemento central da intervenção, símbolo de paz, continuidade e permanência, directamente associado ao topónimo do lugar – Largo da Oliveirinha.


Dispostos radialmente em torno da oliveira, contam-se 16 blocos de pedras de calcário, com alturas diferenciadas e foram gravados os nomes das vítimas. Há ainda uma guarda metálica envolvente ao memorial, incorporando iluminação integrada – destinada à valorização cénica e leitura noturna do memorial – e suporte para deposição de flores; e, no local, foi instalado ainda um banco semicircular e contínuo, em pedra natural.
“A composição circular do memorial promove um percurso contemplativo e intimista, reforçado pela presença da oliveira e pela disposição radial dos elementos pétreos, permitindo uma leitura individual e colectiva da memória associada ao lugar”, indica a CML. “A utilização de materiais naturais e duráveis, associados a uma linguagem arquitectónica depurada e silenciosa, pretende assegurar a integração harmoniosa da intervenção no espaço público e a sua permanência simbólica ao longo do tempo.”




Um memorial num antigo largo requalificado
Situado na encosta que sobe da Praça dos Restauradores para São Pedro de Alcântara, o Largo da Oliveirinha insere-se num conjunto de pequenos arruamentos que resultam em parte da regularização pombalina. O largo integra o tecido histórico da antiga freguesia de São José, uma zona que começou a consolidar-se a partir do século XVI e que ganhou maior densidade urbana após o Terramoto de 1755. Durante o século XIX, a zona adquiriu maior dinamismo com a abertura de novos equipamentos e com a modernização dos acessos, destacando-se a inauguração do Elevador da Glória, em 1885, que reforçou a ligação entre a zona da Baixa e o Bairro Alto.
Ao longo do século XX, a área passou por fases de declínio e reabilitação, acompanhando as mudanças económicas e demográficas de Lisboa. Muitos edifícios foram adaptados a novas funções e o tecido social tornou-se mais diversificado.
O Largo da Oliveirinha é hoje um pequeno espaço de transição entre ruas históricas e zonas de maior movimento. O espaço articula-se com o eixo turístico-cultural da Calçada da Glória e do Jardim de São Pedro de Alcântara, um dos miradouros mais emblemáticos de Lisboa e o ponto alto da experiência urbana proporcionada pelo Elevador da Glória. Esta qualificação reforça a continuidade pedonal e a coerência do conjunto monumental.





O memorial é o centro do novo Largo da Oliveirinha, que nos últimos anos se tinha tornado num estacionamento informal de viaturas. Com a instalação do monumento, o largo passou a ser uma zona pedonal com áreas de estadia e diversos canteiros. “A linguagem material da intervenção procura uma expressão sóbria e intemporal, assente na utilização de pedra natural calcária e elementos vegetais, promovendo uma integração equilibrada com a envolvente urbana e patrimonial da Calçada da Glória”, sublinha a Câmara de Lisboa.
“Hoje é um dia muito triste e será sempre um dia muito triste para Lisboa”
O memorial foi inaugurado neste dia 3 de Setembro de 2026 de manhã, com uma cerimónia de acesso reservado que teve início às nove horas. Participaram elementos das forças de segurança e de socorro (PSP, Polícia Municipal, INEM e bombeiros) que estiveram directamente envolvidas no auxílio durante a tragédia, assim como alguns familiares das vítimas e representantes das embaixadas dos respectivos países (uma vez que a maioria das vítimas era de nacionalidade estrangeira). O Presidente da Carris, Rui Lopo, esteve presente, prestando a devida homenagem ao guarda-freio André Marques, uma das vítimas mortais do acidente; presente esteve também Paulo Alexandre Duarte de Sousa, o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, instituição que lamentou a morte de quatro trabalhadores nesta tragédia.
A cerimónia foi presidida pelo bispo Rui Valério, Patriarca de Lisboa, que lembrou que memória é também cuidar melhor do presente, disse que temos de ser mais capazes de prevenir, e destacou que a oliveira que está no centro do memorial é um símbolo de resistência e de paz. Carlos Moedas, Presidente da CML, colocou uma coroa de flores em nome da autarquia – um gesto que familiares e representantes das embaixadas também realizaram. Presente no momento estiveram também alguns outros representantes do Executivo Municipal, como o Vice-Presidente da autarquia, Gonçalo Reis, e a Vereadora da Estrutura Verde, Joana Baptista.
A comunicação social teve acesso reservado ao momento, sempre distante do memorial e sem conseguir contactar com os convidados da cerimónia, uma vez que os acessos ao espaço foram segregados. Carlos Moedas não discursou durante a homenagem, mas falou aos jornalistas depois do momento solene. “Hoje é um dia muito triste e será sempre um dia muito triste para Lisboa. É um dia para homenagear, para mostrar a nossa solidariedade, e é também um dia de gratidão. Homenagear aqueles que partiram, que já não estão entre nós, é esse o nosso dever. O dever da memória, de nunca esquecer nenhum dos nomes, de nunca esquecer aquilo que eles eram, aquilo que eles fizeram, é o dever que os lisboetas têm perante esta tragédia”, referiu o Presidente da Câmara de Lisboa.
“É também um dia de solidariedade para com as famílias que vão ter aqui um espaço digno, único e simples, mas que ao mesmo tempo representa os seus entes queridos. É um espaço de reflexão, onde podem estar, onde podem vir. E finalmente, a gratidão. A gratidão que temos – e falo em nome dos lisboetas – a todos aqueles que naquele dia, desde a primeira hora, disseram presente desde a primeira hora e que aqui estiveram. Falo do Regimento de Sapadores Bombeiros, de todos os bombeiros de Lisboa, falo da Proteção Civil, da Polícia de Segurança Pública, da Polícia Municipal, falo dos hospitais, falo do IMEM, do Instituto de Medicina Legal, das freguesias, de todos”, continuou o autarca. “É sobretudo um dia de homenagem, mas um dia de grande tristeza para todos nós, para todos os lisboetas”, concluiu Carlos Moedas.
Lisboetas e turistas apropriaram-se do memorial

Durante a tarde de 3 de Setembro, muitos lisboetas e turistas passaram pelo memorial às vítimas da Glória. O monumento tinha ficado na manhã daquele dia restrito aos convidados da cerimónia e aos familiares, mas foi aberto ao público pelas 15 horas. Várias pessoas passaram de propósito pelo local; outras foram surpreendidas pelo espaço e pelo memorial.
A comunicação social foi estando presente durante a tarde no local, entrevistando várias pessoas e fazendo directos. Os jornalistas estiveram não só no Largo da Oliveirinha como ao longo da Calçada da Glória, onde foram colocadas outras homenagens “não oficiais”.
A tragédia do Elevador da Glória aconteceu às 18 horas de 3 de Setembro de 2025, com um descarrilamento que provocou 16 mortes e 24 feridos, dos quais nove graves. Morreram portugueses e estrangeiros de várias nacionalidades. O Ministério Público e o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) estão a investigar o acidente – o Ministério Público está a tratar da parte criminal e o GPIAAF da parte técnica/ferroviária, tendo já produzido dois relatórios que apontaram falhas na manutenção do equipamento. O relatório final do GPIAAF deverá ser publicado no primeiro trimestre de 2027, e as acusações do Ministério Público deverão chegar no final do ano. A Carris tem estado, por seu lado, a fazer alterações nos seus procedimentos internos, melhorando sobretudo as operações de manutenção, e a preparar a reabertura dos ascensores e elevadores da cidade. A empresa municipal está também a conduzir uma investigação interna.

O apoio às vítimas tem sido responsabilidade da seguradora Fidelidade, que até agora já assegurou custos no total de 2,3 milhões de euros relacionados com o acidente do Elevador da Glória, incluindo quatro indemnizações a quatro famílias de vítimas mortais. Os contactos com as famílias têm sido conduzidos pela Santa Casa da Misericórdia (SCML), no caso dos quatro trabalhadores falecidos, e pelas embaixadas, no caso das vítimas estrangeiras.
A Câmara Municipal de Lisboa diz que contactou todas as vítimas que quiseram ser contactadas e/ou que disponibilizaram os contactos através das embaixadas. “Desde o primeiro momento, e em todos os que se seguiram, através da Câmara Municipal, da Carris, da seguradora Fidelidade e de contactos próximos com as embaixadas dos países de cada uma das vítimas, foi demonstrada total disponibilidade para tudo o que fosse necessário. Disponibilidade essa reforçada através da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e das referidas embaixadas, às quais, no caso das vítimas estrangeiras, a CML foi sempre reiterando a sua abertura e o seu empenho para as apoiar e receber, assim como às respetivas famílias”, indica a autarquia.
Segundo a Câmara, “os contactos das vítimas não foram disponibilizados à CML, excepto nos casos em que as mesmas tiveram a iniciativa de o fazer ou em que tenham concordado com essa partilha por parte da SCML ou das embaixadas”. “Desde o acidente, o Presidente da CML acolheu, prontamente e com discrição, todas as famílias que sinalizaram essa vontade.”


Ao longo da Calçada da Glória, registam-se diferentes homenagens às vítimas. Sindicalistas e colegas do guarda-freio André Marques, uma das 16 pessoas que morreram no descarrilamento, depositaram uma coroa de flores e guardaram um minuto de silêncio na Calçada da Glória. Fizeram-no uma hora depois da cerimónia oficial, neste dia 3 de Setembro de 2026.
Sindicalistas e colegas de guarda-freio homenagearam vítima do descarrilamento do elevador da Glória
No pilarete à entrada da Calçada da Glória, que denomina o ascensor da Glória como Monumento Nacional, desde 1997, foi colocada a coroa de flores em nome da Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos de Portugal (STRUP), um sindicato que está filiado na Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fetrans) e que promoveu a homenagem ao guarda-freio da Carris. No local estiveram presentes alguns trabalhadores da Carris, além do secretário-geral da CGTP-IN, Tiago Oliveira, o presidente da Fectrans, José Manuel Oliveira, e o vereador do PCP na Câmara de Lisboa, João Ferreira.


Manuel Leal, do STRUP lembrou todas as vítimas do acidente de há um ano e, em particular, “do colega André Marques, o guarda-freio, que também perdeu a vida neste trágico acidente”. “Muito haverá ainda por dizer em relação ao apuramento das causas e à procura de soluções que impeçam ou que minimizem ao mínimo as circunstâncias para que uma nova tragédia possa acontecer”, afirmou, lembrando, no entanto, não ser esse o momento. Seguiu-se depois um minuto de silêncio e a deposição de uma coroa de flores brancas e de um ramo de flores amarelas.
Aos jornalistas, João Ferreira disse que não poderia deixar de estar presente na cerimónia “feita pelos trabalhadores, pelas organizações representativas dos trabalhadores”, lembrando ser “justo reconhecer que, ao longo deste ano, se tem envolvido também e tem juntado a sua voz a uma exigência mais ampla, que é, no fundo, que se cumpra um dever para com estas vítimas”.
“O primeiro e fundamental dever que nós temos para com elas é termos um apuramento rigoroso, completo, cabal, daquilo que aconteceu, as causas do acidente, as responsabilidades pelo acidente. E é forçoso constatar que passou um ano e esse processo não está terminado”, disse o vereador municipal. João Ferreira lembrou que repete as declarações que fez há um ano, aquando do acidente, frisando tratar-se de um acidente “que nunca deveria ter acontecido”.
“Infelizmente, um ano depois, nós constatamos que quem não tomou todas as medidas para que o acidente não acontecesse e que estava obrigado a ser irrepreensível na resposta ao acidente, também no apoio às vítimas e aos seus familiares, infelizmente não terá assegurado todo o apoio que se esperaria que tivesse sido prestado”, afirmou, aludindo a Carlos Moedas. “[Foram] decididas medidas que, um ano depois, estão por concretizar”, apontou, considerando que algumas medidas “foram iniciadas muito tarde”, exemplificando com auditorias anunciadas “que só se iniciaram mais de seis meses depois e que hoje não estão concluídas ainda”, além de medidas que, “pura e simplesmente, não saíram do papel”.


Questionado sobre a ausência na cerimónia de inauguração do memorial às vitimas do descarrilamento do elevador da Glória, ao início do dia, no Largo do Oliveirinha, João Ferreira disse que os vereadores municipais foram informados de que a iniciativa envolvia várias entidades, “mas que não era suposto os membros do Executivo Municipal da oposição estarem presentes”. Segundo o Vereador do PCP, a Câmara de Lisboa não terá convidado formalmente, por via de protocolo, os vereadores que integram o Executivo Municipal liderado por Carlos Moedas mas que não integram directamente a sua equipa, estando na oposição.
Homenagens informais
Sem protocolos, multiplicam-se pela Calçada da Glória memoriais que não tiveram de pedir licença para existe. Ao longo do inclinado arruamento, há registo, por exemplo, de duas homenagens junto à parede onde o Elevador abateu no trágico acidente. Foram colocados alguns ramos de flores nesse local e também um poema. São homenagem mais efémeras e que complementam o memorial permanente instalado pela Câmara Municipal.


O poema está assinado por Idalina Veríssimo, funcionária da Biblioteca da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que perdeu quatro colegas nesta tragédia:
Elevador da Glória
3 de setembro de 2025
Faz um ano, desde a tua partida, tão sofrida
enchem-se os olhos de lágrimas
de tanta vida perdida.
Hoje, subo a Calçada,
sigo os carris a cada passada
sussurram as pedras com tristeza
sentem a falta da tua beleza.
Há! Como te recordo!
De manhã cedinho,
lá íamos nós, começar o dia.
Quem chegava dizia: Bom dia!
Era uma alegria.
Três de setembro 2025,
Elevador da Glória tiveste o teu fim
Ainda hoje Lisboa chora
a dor, o sofrimento, a perda, a tristeza.
Sabes, a Calçada da Glória,
nunca mais foi a mesma sem ti,
sem a tua graça, a tua vida, a tua Glória.
Tenho saudades.
– Idalina Veríssimo
O sobe e desce da Calçada não parou nesta tarde de 3 de Setembro de 2026, um ano depois da tragédia. Todo aquele lugar será requalificado até 2029, com a colocação de um novo ascensor, conforme apresentado esta semana pela Carris.
O futuro do Elevador da Glória passará por um equipamento novo, que será moderno, acessível a pessoas com mobilidade condicionada e seguro para todos – dos passageiros aos guarda-freios, passando pelos restantes utilizadores da Calçada da Carris. Até ao final do primeiro semestre de 2027, está prometido o lançamento de um concurso público internacional de concepção e construção, devendo a inauguração do novo equipamento ser realizada até 2029. Quanto os restantes ascensores e elevadores da cidade, continuam parados e sem data de reabertura.
Com Lusa









